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Como Adam Sandler apostou na Netflix para salvar sua carreira

Roberto Sadovski

20/06/2019 06h57

Mistério no Mediterrâneo é um filme horrível. Até aí, nenhuma surpresa. Desde os anos 90, é exatamente esse o tipo de comédia romântica tosca em que Adam Sandler se especializou. Às vezes o ator até acerta na mistura, como no divertido Afinado no Amor. Mas seu padrão é seguir uma fórmula surrada à exaustão, assumindo o papel do adulto que se recusa a amadurecer, o sujeito folgado que constantemente mete os pés pelas mãos até que, invariavelmente, (re)conquista sua amada. É produção em linha de montagem, que conseguia um certo sucesso quando ancorada por astros como Sandler. Isso acabou. O público hoje demanda menos astros e mais produtos corporativos. Filmes assim, no limbo entre os grandes eventos e as produções independentes, perderam tração no cinema. Ao mesmo tempo em que, curiosamente, encontraram uma nova casa na Netflix. E Sandler, esperto, estava de olho.

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Antes de a plataforma de streaming tornar-se esse produtor gigante de conteúdo, astros de uma certa estatura ainda torciam o nariz em mirar seus novos trabalhos fora da tela do cinema. Adam Sandler, por sua vez, enxergou o futuro. Em 2014 ele assinou um contrato para produzir e protagonizar quatro longas originais com a Netflix, ignorando totalmente a distribuição nos cinemas. Com os milhões da empresa tocada por Ted Sarandos em mãos, o astro tratou de fazer o que faz melhor: comédias toscas, em série, uma pior que a outra. Tudo isso sem a pressão dos números de um fim de semana de estreia, entregando exatamente o que a Netflix esperava: conteúdo de fácil digestão, direcionado a uma base de fãs sólida, que por sua vez estampou um sorriso honesto ao economizar no ingresso, estacionamento, pipoca e refrigerante. A "experiência" cinematográfica proporcionada pelos filmes de Sandler é nula, então tanto faz apreciar sua obra no cinema ou no sofazão – que termina sendo até melhor!

O Rei da Água foi o primeiro grande sucesso de Adam Sandler

Dessa vez, ele arrastou Jennifer Aniston para a empreitada. Mistério no Mediterrâneo é de uma preguiça exemplar. Sandler é um policial em Nova York, folgado e falastrão, um tio do pavê que há quinze anos enrola sua mulher (a própria Aniston), adiando uma viagem à Europa prometida no casamento. Encurralado em um jantar romântico, ele não tem escolha a não ser torrar as economias e abraçar um pacotão turístico. Mas a coisa toma outro rumo quando eles conhecem, ainda no voo, o sobrinho charmosão de um bilionário (Luke Evans) que os convida para o aniversário de seu tio (Terence Stamp) em um iate nababesco. Outros convidados chegam para a festa, o tal tio podre de rico é assassinado, e o casal Sandler/Aniston é acusado do crime, precisando, já em terra firme, provar sua inocência e desvendar o homicídio. Não faz o menor sentido, não é engraçado, não tem personalidade e Sandler nem esconde que está nessa pelo contracheque.

Se fosse lançado no cinema, Mistério no Mediterrâneo ia inevitavelmente naufragar. Na Netflix, porém, ganhou campanha de lançamento caprichada, mimo dedicado ao maior astro da plataforma. No cinema, a carreira de Sandler andava sapateando. Gente Grande 2 teve uma bilheteria decente em 2013, mas o ambicioso Pixels, de 2015, naufragou sem deixar saudades. Nas duas décadas anteriores, porém, o astro emplacou atrocidades ancoradas puramente em seu charme coxinha. O Rei da Água, de 1998, foi o blockbuster que abriu espaço para O Paizão, A Herança de Mr. Deeds, Tratamento de Choque e Como Se Fosse a Primeira Vez. Filmes terríveis como Eu os Declaro Marido e… Larry, Zohan – Um Agente Bom de Corte e Um Faz de Conta Que Acontece cravavam bilheterias de seis dígitos. Este É o Meu Garoto, Trocando os Pés e Juntos e Misturados, por outro lado, mostraram que o público começava a dar de ombros. A aposta na Netflix mostrou um profissional antenado com a adequação de cada filme como produto oferecido na mídia certa – e o ressurgimento da comédia romântica na plataforma, criando novos astros e um novo público, mostrou que o faro de Sandler estava certíssimo.

Ao lado de Emily Watson no inesperado Embriagado de Amor

O que é lamentável nessa história toda é que Adam Sandler é um ator de imenso talento, tanto cômico quanto dramático, e já demonstrou em diversas ocasiões habilidades bem além da fórmula repetida em Mistério no Mediterrâneo. A liberdade promovida pela Netflix permitiria que ele expandisse sua filmografia, apostando em produções que o desafiassem. Como em Embriagado de Amor, comédia romântica assinada por Paul Thomas Anderson, em que seu talento como humorista revela uma sensibilidade insuspeita como o sujeito solitário que se apaixona. Ou o dramático Reine Sobre Mim, ao lado de Don Cheadle, que explorou sua faceta fragmentada em uma história sobre perda e amizade. Ou ainda Tá Rindo do Que?, que usou a percepção que o público tem de Sandler ao colocá-lo como um comediante de sucesso que encara a própria mortalidade. Em comum, estes três filmes foram totais fracassos nas bilheterias. Fazendo mais do mesmo, Adam Sandler pode até se limitar como artista, mas garante uma sobrevida confortável à própria carreira. Em time que está ganhando…

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Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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