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Blog do Sadovski

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Marvel integra universos de cinema e TV e muda (de novo!) a cultura pop

Roberto Sadovski

22/07/2019 06h36

Alguns anos atrás, houve a tentativa de adaptar A Torre Negra, obra suprema de fantasia de Stephen King, para além dos livros. O plano era ambicioso: criar uma trilogia de filmes para o cinema, entrecortada por duas temporadas de séries para a TV. Com sete livros e construção de mundo intrincada, talvez fosse a forma mais bacana de traduzir a imaginação de King com som e imagem. A empreitada murchou, restando em seu lugar um filmeco mequetrefe com Idris Elba e Matthew McConaughey que ninguém viu. Corta para o palco principal da Comic-Con em San Diego, com o produtor Kevin Feige explicando como será a quarta fase do Universo Cinematográfico Marvel depois de Homem-Aranha: Longe de Casa. "Ah, temos esses filmes, e temos também essas séries em streaming, e as ações serão conectadas", resumiu. Bum! Na surdina, sem alarde, a Marvel rearranjou mais uma vez o cenário do entretenimento pop.

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A nova configuração do MCU ficou clara quando Feige, ao apresentar o universo pós-Vingadores: Ultimato, não fez nenhuma distinção entre filmes para o cinema e séries planejadas para o novo serviço de streaming do estúdio, o Disney+. E nem podia: criadores em todos os lados estão misturados, assim como atores que reprisam seus papéis já icônicos. Em especial WandaVision, série que acompanha a escalada do poder da Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e a volta do Visão (Paul Bettany), visto pela última vez praticamente destruído pelas mãos de Thanos em Vingadores: Guerra Infinita. A jornada da heroína do streaming terá repercussões em Doctor Strange and the Multiverse of Madness (que delícia de título!), nova aventura em diversas realidades do personagem defendido por Benedict Cumberbatch, que terá Wanda Maximoff a seu lado, provavelmente uma consequência de suas ações em sua própria série. É bem diferente do que aconteceu em Agentes da S.H.I.E.L.D., que praticamente refletiu sem nunca interferir a narrativa dos filmes no cinema, e obviamente do que foi mostrado nas séries Marvel/Netflix, que dividiam o mesmo mundo mas nunca os mesmos holofotes.

Mahershala Ali e seu boné nada sutil…

 

O ponto fora da curva é que os programas da Disney+ são produzidos pelo Marvel Studios, carregando o mesmo DNA empregado há uma década no cinema. É uma aposta jamais arriscada na cultura pop, uma comunhão que altera mais uma vez o modo de construir entretenimento por ampliar de maneira radical os limites de histórias e narrativas. O próprio Feige revelou meses atrás seu interesse em experimentar com outros formatos para levar os super-heróis da editora além das páginas dos gibis. Usar a força do streaming, em tramas que podem se estender por 8, 10 horas de material, é a oportunidade perfeita para desenvolver personagens que, ou não teriam espaço no palco do cinema por talvez não ter a mesma estatura de alguns medalhões, ou se tornaram favoritos entre os fãs mas que se beneficiariam com histórias de orçamento mais modesto, que não teriam de competir com outros candidatos a blockbuster em tela grande.

Com jeito de show de rock, a apresentação da Marvel mais uma vez "ganhou" a Comic-Con de San Diego com uma receita testada e aprovada: a grandiosidade do elenco de cada "produto" no palco, somada ao fator surpresa de revelar sutilmente o que o estúdio tem na manga, encerrando a brincadeira com uma carta na manga capaz de deixar fãs salivando. E não foram novidades sobre Pantera Negra 2, Guardiões da Galáxia Vol. 3 ou Capitã Marvel 2 (todos já em desenvolvimento, provavelmente para 2022 e além). Não foi também explicar como os brinquedos que eram exclusivos da Fox vão se encaixar com o resto da turma – mesmo que Feige tenha deixado claro que Quarteto Fantástico e "os mutantes" estão no forno, provavelmente com mais informações guardadas para o painel do estúdio na D23, convenção da própria Disney que acontece entre 23 e 25 de agosto. A Marvel soltou o microfone quando Feige chamou o grande Mahershala Ali ao palco, revelando que o ator, que tem dois Oscar no currículo, será o novo caçador de vampiros no reboot de Blade.

Bravos sem motivo: Vingadores: Ultimato é a maior bilheteria da história

O futuro da Marvel, no cinema e em streaming, fica portanto assim desenhado pelos próximos dois anos, com dez novos produtos com data de lançamento cravada (Blade ainda nos deixa no suspense) e prováveis títulos em português. Nada mal para coroar o fim de semana em que Vingadores: Ultimato dá um passo além de Avatar e é consagrado como a maior bilheteria da história do cinema.

VIÚVA NEGRA
(1 de maio de 2020)

Scarlett Johansson retoma o papel da espiã russa que encontrou sua família com os Vingadores neste thriller de ação que repousa entre John Wick e Missão: Impossível. Ambientado no MCU depois dos eventos de Capitão América: Guerra Civil, o filme de Cate Shortland coloca Natasha Romanoff encarando seu passado, na pele de outra espiã treinada no mesmo Quarto Vermelho, Yelena Belova (Florence Pugh), e de Alexei Shostakov (David Harbour), que veste o traje do Guardião Vermelho, resposta soviética ao Capitão América. Completam o elenco Ray Winstone e Rachel Weisz, que pode (ou não) ser o assassino de reflexos fotográficos chamado Treinador.

FALCÃO E O SOLDADO INVERNAL
(Agosto de 2020)

Anthonie Mackie precisa descobrir como lidar com o peso do legado lhe passado por Steve Rogers ao fim de Vingadores: Ultimato, que é abraçar a identidade do Capitão América. A seu lado, Sebastian Stan retorna como o Soldado Invernal, e os dois heróis têm de enfrentar o retorno de Zemo (Daniel Brühl) – que quase destruiu a superequipe em Guerra Civil e que, desta vez, não abre mão da máscara roxa usada pelo personagem nos gibis.

ETERNOS
(6 de novembro de 2020)

O MCU volta a ficar cósmico com o anúncio oficial de Eternos, com a diretora Chloé Zhao garantindo um mergulho fidedigno à mitologia dos semideuses criados por Jack Kirby. Angelina Jolie assume o papel de Thena, telepata e telecinética, capaz de alterar a matéria e gerar ilusões. Ela tem como companheiros Ikaris (Richard Madden), Kingo (Kumail Nanjiani), Makkari (Lauren Ridloff), Phastos (Brian Tyree Henry), Sprite (Lia McGugh) e Gilgamesh (Don Lee), todos unidos sob a liderança de Ajak (Salma Hayek). Isolados do resto da humanidade há milênios, eles precisam retomar seu lugar como defensores do planeta com a ameaça iminente dos Deviantes, a "escória genética" cansada de viver nas sombras. Eternos também deu à Marvel a oportunidade de criar um elenco etnicamente diverso, continuando uma missão silenciosa em deixar o panorama dos blockbusters mais representativo a todas as faixas de público. Digno.

SHANG-CHI E A LENDA DOS DEZ ANÉIS
(12 de fevereiro de 2021)

Dar uma espiada em tuítes de Simu Liu ano passado é um exercício divertido, já que o ator sino-canadense de 30 anos tenta emplacar um papel em adaptações de HQs desde sempre. Ele estreia no cinema com os dois pés na porta no papel de Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu da Marvel, com o diretor Destin Daniel Cretton prometendo o mesmo respeito e fidelidade à comunidade asiática que Pantera Negra mostrou com suas raízes africanas. Como o título sugere, A Lenda dos Dez Anéis remete à uma das primeiras ameaças no MCU, o grupo terrorista que sequestrou Tony Stark em Homem de Ferro, liderado pelo Mandarim. Embora agisse nas sombras, seus agentes podem ser vistos em outras produções do estúdio (como em Homem-Formiga). O vilão termina se revelando depois de ter seu nome usado pelo maníaco Andrich Killian (Guy Pearce) em Homem de Ferro 3, quando ele o deu ao ator Trevor Slaterry (Ben Kingsley), que fingiu ser o Mandarim coordenando ataques aos EUA – algo que não deve ter agradado ao verdadeiro Mandarim, finalmente interpretado por Tony Leung.

WANDAVISION
(Primeiro semestre de 2021, Disney+)

Elizabeth Olsen e Paul Bettany são sinceros quando dizem não fazer ideia do rumo que WandaVision vai tomar. O próprio Kevin Feige sugere que será a série mais estranha do MCU, com Wanda Maximoff finalmente descobrindo seu potencial como a Feiticeira Escarlate – como e porque ela adota este codinome específico faz parte da jornada na nova série. Será um caminho para reviver o sintozóide Visão, destruído por Thanos em Vingadores: Guerra Infinita? E o que Monica Rambeau, que era uma criança em Capitã Marvel, agora interpretada adulta por Teyonah Parris, tem a ver com tudo isso? Perguntas, perguntas…

DOUTOR ESTRANHO NO MULTIVERSO DA LOUCURA
(7 de maio de 2021)

Com este título espetacular, o diretor Scott Derrickson retorna ao Mago Supremo para conduzir a segunda aventura solo de Benedict Cumberbatch como o Doutor Estranho. Multiverso da Loucura sugere uma jornada ainda mais psicodélica do que no filme de 2016 que apresentou o herói místico. Derrickson vai além, revelando que a aventura, que lida com o universo fraturado depois de Guerra Infinita e Ultimato, será o primeiro filme de terror da Marvel. A adição de Elizabeth Olsen como Wanda Maximoff, seguindo os eventos da série WandaVision, marca a primeira vez em que cinema e streaming são conectados na cultura pop. E eu já mencionei que o título é espetacular?

LOKI
(Primeiro semestre de 2021, Disney+)

Tom Hiddleston está de volta como o Deus da Trapaça, mas não como o Loki bacana que ajudou seu irmão Thor em O Mundo Sombrio e em Ragnarok, encontrando redenção e morte em Vingadores: Guerra Infinita. A versão que encabeça a série com seu nome é o Loki que, em uma linha alternativa temporal, rouba o Tesseract, que guarda a Jóia do Espaço e foge em Vingadores: Ultimato. Ou seja, é um deus que acabara de ser derrotado depois da invasão de Nova York mostrada no primeiro Vingadores, e que acabou de ser usado para "redecorar" o chão pelo Hulk. Loki em Loki não deve estar nada feliz…

O QUE ACONTECERIA SE…?
(Julho de 2021, Disney+)

Uma das séries mais bacanas nos gibis da Marvel era justamente O Que Aconteceria Se…?, que explorava realidades alternativas para personagens consagrados – como um universo em que o Homem-Aranha tivesse se juntado ao Quarteto Fantástico, ou Elektra não tivesse sido morta pelo Mercenário, ou ainda se o Capitão América não tivesse sido congelado ao final da Segunda Guerra. O conceito será traduzido em uma série animada que vai contar com as vozes de uma dúzia de atores repetindo seus papéis do cinema, como Michael B. Jordan como Eric Killmonger (de Pantera Negra), Stanley Tucci como o Dr. Abraham Erskine (de Capitão América: O Primeiro Vingador) e Samuel L. Jackson como Nick Fury (em… bom, em tudo). Assim como nos gibis, o narrador da série será Uatu, o Vigia, que ganha a voz de Jeffrey Wright.

GAVIÃO ARQUEIRO
(Segundo semestre de 2021, Disney+)

Quando a Netflix lançou suas séries com a Marvel, de Demolidor a O Justiceiro, o ator Jeremy Renner foi o primeiro a dizer publicamente que, se houvesse interesse em levar o Gavião Arqueiro para a telinha, ele estaria pra lá de disponível. Ruim para a Netflix, bom para a Disney+: Clint Barton, depois de crescer como personagem de uma ponta em Thor a um dos salvadores do mundo em Vingadores: Ultimato, finalmente ganha uma série só para ele. Ou quase, já que Gavião Arqueiro deve introduzir no MCU a personagem Kate Bishop, que também revela habilidade com arco e flecha para se tornar uma "Gaviã Arqueira" melhor do que Barton. Além disso, Kevin Feige revelou que a série também vai jogar uma luz nos anos entre Guerra Infinita e Ultimato, em que o herói, corroído pela perda de sua família, descobriu seu lado sombrio como o vigilante Ronin.

THOR: AMOR E TROVÃO
(5 de novembro de 2021)

Com Tony Stark morto e Steve Rogers aposentado, é bom saber que Thor, o Deus do Trovão, continua firme e saltitante pelo MCU. Melhor ainda saber que Taika Waititi, responsável pelo espetacular Thor Ragnarok, estará no comando da quarta aventura solo do herói, segundo os eventos de Ultimato – e dando um passo além. O que significa que a Valquíria (Tessa Thompson) é a nova regente de Asgard (e em busca de uma rainha), e que Thor (Chris Hemsworth, claro!) de alguma forma dá uma pausa em sua jornada com os Guardiões da Galáxia, o que com total certeza será explicado aqui. Mas o título heavy metal (depois da pegada pop de Ragnarok) ganha vulto com a volta de Natalie Portman à Marvel – e em grande estilo. A atriz, que havia colocado um ponto final na relação com o estúdio depois de O Mundo Sombrio (quem pode culpá-la?), retornou em uma das linhas temporais de Ultimato – mesmo que o material fosse sobra das filmagens do segundo Thor. E agora a coisa dá um passo além, já que o roteiro de Amor e Trovão é inspirado no arco criados nos quadrinhos por Jason Aaron, que mostra o Filho de Odin indigno de empunhar o martelo Mjolnir e a arma parando nas mãos de Jane Foster, que ganha seus poderes e assume o manto de Thor. Nem precisava de tanto: eu já me convenci de guardar lugar na fila quando li Taika Waititi e Amor e Trovão.

BLADE
(sem data)

Em algum lugar, Wesley Snipes chora…

*Diferentemente do informado na versão inicial do texto, o novo filme Thor e a série de Gavião Arqueiro serão lançados em 2021, e não 2012. O conteúdo foi corrigido.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.