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Bilheteria recorde de Vingadores Ultimato acentua o fenômeno que foi Avatar

Roberto Sadovski

23/07/2019 04h27

Vingadores: Ultimato conseguiu o que parecia impossível. Levou uma década, mas um filme tirou Avatar do pódio das maiores bilheterias mundiais. A eco-aventura de James Cameron, lançada em dezembro de 2009, terminou sua carreira com exatos 2.789.579.794 dólares (acredite, as frações são importantes). Já a segunda batalha dos heróis mais poderosos da Terra contra o genocida cósmico Thanos, que estreou no final de abril, bateu no fim de semana passado a marca de (respira) 2.790.591.417 dólares. Com seu último fôlego, Ultimato ainda deve garantir mais uns trocados no banco, mas conseguiu tomar o lugar dos guerreiros Na'vi com uma diferença apertada. É um feito e tanto, que coroa mais de uma década da construção do Universo Cinematográfico Marvel e mostra o quanto seus personagens ressoam com o público. Mas é importante lembrar que a conquista da aventura comandada pelos irmãos Joe e Anthony Russo acentua, acima de tudo, o feito extraordinário de James Cameron com sua ficção científica ambientalista.

Primeiro, vamos tirar da frente a competição boba que transforma a performance de um filme nas bilheterias em certificado de qualidade: tanto Avatar quanto Ultimato são filmes espetaculares, experiências cinematográficas completas capazes de criar uma conexão profunda com a plateia, sem ignorar sua força narrativa e nem seus predicados como espetáculo. São filmes que empolgam e emocionam, que fazem vibrar e também refletir. São o ápice da tecnologia em criar cinema, em que as ferramentas nunca são mais importantes que o elemento humano. São jornadas completas de personagens com quem nos identificamos – bom, pelo menos até o ponto em que isso é possível com super-heróis extraordinários ou alienígenas defendendo sua terra. São filmes, por fim, que a plateia abraçou de forma incondicional, extrapolando as previsões mais otimistas de seus produtores para cravar seu título na história do cinema. Avatar, porém, conseguiu tudo isso uma década atrás, sem o poder de mídias sociais criando hype instantâneo, sem a larga vantagem de Vingadores, que entrou em campo com o planeta sabendo exatamente quem era cada jogador. James Cameron deu um tiro no escuro. E seu triunfo é testamento de sua habilidade incontestável como contador de histórias.

Vingadores: Ultimato toma seu lugar como maior bilheteria da história

Ao contrário dos filmes com o selo Marvel, que traduzem para o cinema um universo que existe em forma de história em quadrinhos há mais de cinco décadas, Avatar foi uma história original. Claro, Cameron colocou em seu texto uma vida inteira de paixão e de referências. Um pouco do espírito desbravador do western. Uma pitada da luta de Davi e Golias. Influências de história contemporânea, ativismo sócio-ambiental, conceitos do "estranho em uma terra estranha". Pitadas do tema "soldado tornando-se nativo" que evocam de Um Homem Chamado Cavalo a Dança com Lobos. Edgar Rice Burroughs e seu A Princesa de Marte. Trabalhos dos escritores Poul Anderson e Ben Bova. Apocalypse Now. Se todo filme é sobre outro filme, Cameron esmerou-se na lição de casa e adicionou sua personalidade, sua consciência ambiental em choque com uma invasão militar. Avatar pode lembrar muitas coisas, mas é uma ficção científica original, que conta uma história alinhada com o novo milênio ancorada pela tecnologia mais avançada que o cinema podia conceber.

Meses antes de sua estréia, porém, uma pá de analistas decretava a ruína de Cameron e sua obra. Afinal, era uma aposta muito alta para um "produto" que ninguém sabia se o público estaria sequer interessado. Assim como em Titanic mais de uma década antes, o diretor estourou prazos e orçamento (que bateu em inconcebíveis, para a época, 240 milhões de dólares), deixando o estúdio temeroso com uma conta que precisava sair do vermelho. Claro que o currículo de Cameron era seu maior trunfo, já que o próprio Titanic passou de desastre em potencial para um dos filmes mais aclamados pelo público em todos os tempos, o primeiro a cruzar 2 bilhões de dólares nas bilheterias mundiais. Era o que bastava para executivos respirarem aliviados. Eles perceberam que tinham um fenômeno em mãos quando Cameron exibiu pela primeira vez cenas de Avatar em público, no maior palco da Comic-Con de San Diego em julho de 2009. Até ali, tudo girava em torno da tecnologia 3D imersiva e do fato de o diretor ter criado um mundo totalmente digital para ambientar a aventura. Mas ninguém esperava o impacto das imagens, acompanhadas por mais de 6 mil fãs que experimentavam pela primeira vez como seria a viagem para o mundo de Pandora. Na mesma noite, eu conversei com Cameron sobre o que acabara de ver, e o diretor foi categórico: "Você ainda não viu nada".

James Cameron dirige Sam Worthington em Avatar

Avatar finalmente chegou aos cinemas em 8 de dezembro de 2009, e cravou números sólidos, mas não excepcionais. Foram 77 milhões de dólares em sua estreia, o suficiente para garantir o primeiro lugar, mas pouco para quebrar a "barreira mágica" de uma arrancada de 100 milhões. Na semana seguinte, porém, o primeiro lugar se repetiu com 75 milhões, uma queda ridícula de menos de dois por cento nas bilheterias – como comparação, é razoável um filme desse porte experimentar uma queda de 50 por cento, como o próprio Ultimato. Nas seis semanas seguintes, Avatar manteve-se em primeiro lugar, deixando o Top 10 apenas dezesseis semanas depois de sua estreia. O público em todo o mundo entendeu que o filme de Cameron era, na verdade, uma passagem para um planeta distante, habitado por criaturas exóticas, e que parecia absolutamente real. A aventura finalmente deixou os cinemas americanos em agosto, quando a registradora já marcava seu recorde aparentemente intransponível.

É curioso que, uma década depois, Avatar tenha deixado marcas tão discretas no tecido da cultura pop. Ao contrário dos poderosos heróis da Marvel, não existe uma gama infinita de produtos licenciados – a verdade é que é difícil encontrar alguém que lembre os nomes dos protagonistas. Longe de ser um demérito para o filme, é só evidencia de que James Cameron nunca se preocupou com Avatar como produto, e sim como obra cinematográfica, como resultado da reflexão de um artista e sua necessidade em contar uma história. O cinema, por outro lado, deve muito a ele, em especial seu legado tecnológico, que provou ser possível a construção de mundos inteiros com computadores, ampliando o controle e a visão artística de um diretor. O 3D hoje perdeu muito de sua força, principalmente porque pouquíssimos diretores tiveram habilidade, assim como Cameron, de entender e empregar o verdadeiro potencial da tecnologia imersiva. O caminho árduo de Vingadores: Ultimato para finalmente destronar Avatar como maior bilheteria mundial sublinha a genialidade da visão de James Cameron e sua capacidade em construir espetáculos capazes de mobilizar todo o planeta à frente de uma tela iluminada em uma sala escura. Não é uma competição: Cameron parabenizou a Marvel por seu feito, e os irmãos Russo foram elegantes em sua resposta, dizendo o quanto os filmes do diretor inspiraram sua própria carreira. Tudo com muita classe. Ah, e se Zoë Saldaña um dia te chamar para fazer um trabalho – qualquer trabalho! -, vai. Na hora! De Neytiri a Gamora, ela sabe o que faz.

*Errata: Diferentemente do informado no primeiro parágrafo, na primeira versão do texto, a cifra é de 2.790.591.417 dólares, e não 2.790.591.417 bilhões. O conteúdo foi corrigido

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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