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Yesterday é uma história de amor em um mundo onde os Beatles não existem

Roberto Sadovski

14/08/2019 03h33

Yesterday é um filme de terror. É… quase sério! Afinal, de que outra forma descrever um mundo sem os Beatles? Nesta fábula agridoce dirigida por Danny Boyle, o quarteto de Liverpool nunca existiu. Seu legado é um vácuo, e a humanidade jamais foi agraciada com canções como "Hey Jude", "I Wanna Hold Your Hand" ou "Strawberry Fields Forever". Esse realinhamento da realidade ocorre depois de um fenômeno global bizarro, como se o planeta soluçasse, apagando qualquer evidência do grupo ao se recuperar. O único que lembra dos Beatles e de sua obra é um músico frustrado, Jack Malik (o incrível Himesh Patel), que já se preparava para pendurar a guitarra depois de acumular frustrações como artista quando percebe que o único lugar em que as músicas do grupo existem é em sua memória. É um presente lhe dado pelo destino, que se desdobra com uma bagagem de culpa, sucesso, fama e amor verdadeiro – não exatamente nessa ordem.

É com um misto de empolgação e horror que Jack começa a executar as músicas de John, Paul, George e Ringo, assumindo para si sua autoria primeiro com os amigos e a família, depois gravando uma demo em uma garagem, por fim sendo "descoberto" por Ed Sheeran e pelo mundo. Do lado de cá, podemos até apontar dedos para o sujeito, aumentar o peso de sua culpa por se vender como o gênio capaz de escrever obras-primas em série. Mas, honestamente, de que outra forma ele poderia prosseguir? A alternativa, a única alternativa, seria desistir, privando o mundo de suas canções mais belas. É uma premissa complexa, amenizada pela moldura escolhida por Boyle e pelo roteirista Richard Curtis para conduzir o filme: assim como o tema que norteia a obra dos Beatles, Yesterday é uma comédia romântica, uma história de amor, um filme sobre corações partidos, sobre descobertas, sobre sentimentos sufocados e revelações grandiosas.

Himesh Patel, Lily James e uma história de amor muito fofa

Afinal, desde seu primeiro segundo em cena, fica óbvio que Ellie Appleton (Lily James), melhor amiga, confidente e empresária de Jack, é totalmente apaixonada por ele.  Mais óbvio ainda é a cegueira do moço com a felicidade que está ali, tão perto. A frustração com o fracasso massacra sua auto estima, que continua arrastando-se pelo chão mesmo quando a lembrança do catálogo dos Beatles torna-se a chave para seu sucesso. As entrelinhas não são diferentes de outros filmes escritos por Curtis – de Quatro Casamentos e Um Funeral a Um Lugar Chamado Notting Hill a Simplesmente Amor: não é o destino, e sim a jornada que torna o sentimento tão saboroso. A química fofa dos protagonistas ajuda a rechear uma narrativa que inevitavelmente acerta algumas barreiras. Afinal, até que ponto Jack pode fingir ser o autor de tantas músicas geniais? Será que o truque do destino pode ser revertido? Se ele contar a verdade, como alguém vai acreditar? Tudo, por fim, serve para embalar o romance de Jack e Ellie. E nenhum casal podia ganhar trilha sonora melhor.

O casamento de rock clássico e cinema rendeu recentemente um sucesso absoluto (Bohemian Rhapsody, que rendeu inacreditáveis 900 milhões de dólares) e um filme bacana e mais modesto (Rocketman, que estacionou com 190 milhões em caixa). Yesterday, embora ancorado nas canções dos Beatles, não é uma biografia, e sim uma celebração. A grande sacada de Boyle e Curtis, é perceber a grandeza das criações do quarteto e como eles mudaram a trajetória da cultura pop – enfatizando sua importância ao dramatizar sua ausência. Mesmo com suas músicas gravadas no inconsciente coletivo, cada nova versão apresentada por Jack traz uma nova emoção – da comédia involuntária quando ele é repetidamente impedido de mostrar "Let It Be" a seus pais à doçura com a qual ele revela "The Long and Winding Road" a um Ed Sheeran estupefato, passando pela fúria com a qual ele dispara "Help!" – e ajuda a contar a história. O casamento da trama com a trilha podia espatifar-se numa bobagem sem rumo, mas de alguma forma tudo funciona de forma respeitosa e divertida.

Fama não é nada, imagem é tudo!

Até porque o tom de Yesterday não é o drama, e sim a comédia. Assim como as músicas dos Beatles, o filme acerta principalmente por colocar a diversão em primeiro lugar, mesmo que ela abrace uma reflexão sobre a fragilidade da fama e os caminhos agridoces do amor. São predicados que conhecemos há quase sete décadas, especialmente porque os Beatles, mais do que qualquer artista, desenharam a trilha sonora do mundo no século passado, um legado que não dá o menor sinal que vai frear. Danny Boyle, cineasta eclético que trafega de forma genial ao lado de jovens em busca de um novo pico (Trainspotting), em uma Inglaterra tomada por zumbis (Extermínio), numa missão espacial para salvar o Sol (Sunshine) e ao contar a vida de uma das grandes personalidades da história moderna (Steve Jobs), entendeu esse legado e construiu uma celebração ancorada em dois jovens que, em meio frenesi disparado por um mundo acelerado, podem descobrir que o amor é uma coisa simples – e maravilhosa. "Oh I believe in yesterday…"

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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