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Blog do Sadovski

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Tarantino: "Meu Star Trek mistura a série dos anos 60 com Pulp Fiction"

Roberto Sadovski

28/08/2019 14h27

Quentin Tarantino ia se encontrar comigo na Cidade do México, acompanhando Brad Pitt na turnê de lançamento de Era Uma Vez em Hollywood. Mas o destino tinha outros planos. Enquanto divulgava o filme na Rússia, o diretor machucou as costas e, mesmo sem ser nada grave, a dor o colocou de molho por alguns dias, abortando a ponte vodca/tequila da viagem. Mas a gente sabe quando um diretor é profissional quando ele faz questão absoluta de cumprir seus compromissos, e nosso papo terminou acontecendo por telefone, com ele já 100 por cento recuperado de suas aventuras na terra de Putin. Foi meu segundo papo com Tarantino, com quem conversei por algumas horas quando ele esteve em São Paulo para o lançamento de Os Oito Odiados. O raciocínio continua afiado, assim como a paixão absoluta por cinema. O que mudou de uma entrevista para a outra? A contagem regressiva: faltavam, então, dois filmes para a sua aposentadoria; agora ele garante que tem mais um na cartola antes de pendurar o chapéu. Conversamos sobre isso – e também sobre Sharon Tate, o cinema pós-guerra, Star Trek e a cena mais complicada para tirar do papel em Era Uma Vez em Hollywood.

Era Uma Vez em Hollywood fez com que o público voltasse seu olhar para aquela época. Por que você acredita que foi um momento tão importante para o cinema?
Bom, eu acho que foi incrivelmente importante. Foi quando foi apagada a chama dos últimos remanescentes do que chamamos de "cinema de Eisenhower". Que basicamente foi quando Hollywood prosperou nos anos após a Segunda Guerra Mundial. Depois que a guerra terminou e o país foi aos poucos voltando a fazer filmes, uma das coisas que se percebeu foi que, neste pós-guerra, os filmes eram feitos para um público muito mais adulto. Basicamente foram produções estrangeiras que passaram a quebrar as regras sobre o que era possível fazer com os filmes. Ultrapassar os limites. Hollywood, por sua vez, foi teimosa e se manteve imatura. Seu compromisso parecia ser com épicos bíblicos e com musicais grandiosos da Broadway, mantendo seu aspecto de "diversão para toda a família". O resto do mundo estava muito à frente de Hollywood. Mas quando chegamos aos anos 60 o mundo real meio que começou a se intrometer na indústria, e em 1969 essa era de Eisenhower estava chegando ao fim, derrubada pela Nova Hollywood, que nos anos 70 se materializou no que eu considero a melhor época da história de Hollywood. E nunca voltamos ao status que existia antes desse renascimento, o que foi ótimo!

Muita gente desconhecia a história de Sharon Tate antes de seu filme. Você acredita que isso seria um bônus colateral, fazer com que uma parcela do público procure saber mais sobre ela e seus filmes?
Eu não tenho nenhum problema com as pessoas não saber quem foi Sharon Tate. É triste, mas eu percebo que muita gente tem dito isso. A verdade é que, mesmo nos Estados Unidos, a maioria das pessoas só a enxerga como vítima de assassinato. Foi isso que a deixou famosa. Por isso que eu percebo que, fora dos Estados Unidos, se as pessoas não conhecem a história do crime então não sabem mesmo quem ela foi! Talvez um aspecto tocante do filme seja contar quem foi Sharon Tate, lembrar que ela foi uma pessoa real, que ela teve uma vida. Então, se existe um bônus com a minha história, é fazer com que ela não seja mais definida unicamente por seu fim trágico.

Cliff Booth e Bruce Lee: uma briga que acabou em polêmica

Brad Pitt falou bastante sobre a cena em que Cliff Booth luta com Bruce Lee, que vocês haviam pensado de uma forma, alteraram um pouco na hora de filmar. Em algum momento você pensou que, de todo o filme, justamente essa cena fosse levantar tanta polêmica?
Eu não esperava que tanta gente imaginasse que estávamos nos divertindo às custas de Bruce Lee. Eu entendo que a família e os amigos não entendessem como uma piada, mas pra mim a intenção nunca foi zombar de um ídolo. Obviamente.

Qual cena foi mais complicada para fazer?
Pra mim, as coisas mais complicadas são aquelas que tem potencial de ser as melhores do filme. É quando eu consigo capturar exatamente o que está no papel, quando os atores ficam mais empolgados porque sabem que pode ser uma grande cena. A pressão então é maior na hora de filmar aquela parte do roteiro, já que se ficar ruim a culpa é toda minha. Nesse filme a sequencia que eu estava mais ansioso para filmar era no Rancho Spahn. Como não havia mais nada naquela locação tivemos de reconstruir absolutamente tudo à perfeição – e minha diretora de arte, Barbara Ling, acertou em cheio. E era uma cena tão importante que que não quis pensar em como filmá-la até quando a gente já estava bem adiantado no cronograma. Eu não queria planejar nada: a gente foi para o Rancho Spahn e vamos criar a cena do começo ao fim. Os atores que faziam os seguidores de Charles Manson estavam sempre lá, prontos se eu fosse usá-los ou não. Então tudo foi questão de tirar Brad do carro em que ele chega lá e fazê-lo atravessar o rancho até a casa de George Spahn. Resolvemos as cenas na casa? Então vamos dar um jeito de ele voltar para seu carro. E a gente foi pensando a cada dia, passo a passo, com cada tomada informando a tomada seguinte. É um modo muito divertido e empolgante de fazer um filme, mas também é de deixar os nervos em frangalhos até o ponto que a câmera começou a rodar, porque não fizemos nosso dever de casa. Pode funcionar, e funcionou! Mas não significa que é menos complicado.

Brad Pitt e Leonardo DiCaprio trabalham sob o olhar do chefe

O cinema hoje é feito de filmes gigantes. Franquias, continuações, refilmagens… e acho que tudo bem. Mas em algum momento você percebe que é um dos últimos diretores a insistir com filmes originais?
Poxa vida… Ah, ainda existem alguns que resistem na luta. Eu, David Fincher, Paul Thomas Anderson, Chris Nolan… A verdade é que eu não havia percebido que isso tinha alguma relevância até notar o modo como muita gente estava falando sobre meu filme: "Meu Deus, Era Uma Vez em Hollywood é um dos únicos lançamentos estreando durante a temporada do verão que não é uma continuação ou um reboot ou isso ou aquilo ou um personagem de histórias em quadrinhos…" Eu nunca pensei sobre isso! Mas foi só quando vi os comentários que percebi o quanto estamos sozinhos no mercado.

Quando você passou por São Paulo durante o lançamento de Os Oito Odiados, deixou claro que faria mais dois filmes antes de pendurar o chapéu. Era Uma Vez em Hollywood risca um da lista, com a ideia agora sendo se aposentar ou até investir em outras formas de entretenimento. Sei que você deve ter ouvido essa pergunta um milhão de vezes, mas vamos lá: o número dez será de fato seu último filme?
Bom, essa definitivamente é a ideia. A ideia é…. bom, você formulou de maneira tão bacana que eu me sinto na obrigação de responder! (risos) Eu estou fazendo filmes há 27 anos, e dediquei toda minha vida à minha filmografia. Eu senti que esse era o momento de fazer meus filmes, e eu vejo cada um deles como uma montanha, como se eu fosse um alpinista. Eu penso então que era a hora de escalar o monte Fuji. Depois era a hora de escalar o Everest. Eu vivi minha vida assim até agora, e nada era mais importante que isso. Não casei, não tinha filhos, nada disso. Mantive o foco. Quando eu chegar no décimo filme serão três décadas dedicado a isso, e eu sempre me dediquei ao máximo, porque não consigo encarar o nível de comprometimento com o ofício de filmar de outra forma. Então quero terminar esse recorte de minha vida em meus próprios termos, fechar essa porta artística à minha maneira. Depois disso? Não sei. Posso trabalhar com televisão. Posso escrever peças, escrever livros. Eu acho que serei um escritor. E eu estou ansioso para dar esse passo.

William Shatner no Star Trek clássico: paixão que pode virar filme

Há alguns meses, antes do lançamento de Era Uma Vez em Hollywood, você falou sobre sua reverência por atores que trabalhavam na TV, como William Shatner e outros protagonistas de séries dos anos 60 e 70. Foi algo que você imprimiu no texto de seu filme, e de certa forma deu mais sentido à sua admiração por Star Trek e sua vontade de deixar sua marca da série. Como seria, portanto, o seu Star Trek?
Assim… bom, eu não posso entrar em detalhes porque todo o projeto ainda está em desenvolvimento. Mas seria diferente! Seria diferente de todos os episódios de Star Trek que você já viu… bom, que você viu até hoje. (risos) Pra mim, o melhor Star Trek de todos os tempos, na TV ou no cinema, é A Ira de Khan. É um filme absolutamente incrível, e eu sou fã declarado. O roteiro que eu estou trabalhando é… (hesitante), bom, é de certa forma Star Trek clássico no estilo dos anos 60. A diferença, acredito, é que seria executado de forma mais realista do que era possível na situação que eles tinham, que era manter uma agenda televisiva semanal. Acho que a gente pode fazer melhor… Não assim, "melhor", mas a gente pode fazer mais… eu não sei, você entendeu o que eu quero dizer! (risos) A gente terá um orçamento maior do que o que eles tinham nos anos 60 e também um prazo maior do que uma semana. Mas o tom da narrativa será mais alinhado com o tom dos meus filmes, terá mais o meu senso de humor, será mais radical do que o modo como Gene Roddenberry nos acostumou. É Star Trek com o filtro de Pulp Fiction!

Eu acho que daria o braço direito pra ver isso…
(gargalhadas) Obrigado pelo incentivo, Roberto! Valeu mesmo!

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.