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Blog do Sadovski

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Brad Pitt faz ficção científica grandiosa e intimista no ambicioso Ad Astra

Roberto Sadovski

26/09/2019 09h34

Em Ad Astra – Rumo às Estrelas, o diretor James Gray não vê o espaço como cenário para grandes aventuras. É uma ficção científica de escopo grandioso, sim, com o visual mais arrebatador que um orçamento milionário pode comprar. Mas é também uma moldura elegante para o diretor explorar temas recorrentes em sua filmografia, em especial a maneira em que o ambiente molda a evolução de seus personagens, não muito diferente do que ele abordou em Os Donos da Noite, A Emigrante e no recente Z – A Cidade Perdida. Aqui, o espaço é sinônimo de solidão e isolamento, justamente a matéria prima para a jornada intimista de seu protagonista, o astronauta Roy McBride, traduzida em uma performance absolutamente espetacular de Brad Pitt.

Este ano, por sinal, tornou-se perfeito para observar a grandiosidade de Pitt como ator. Seu trabalho em Ad Astra chega imediatamente depois de ele criar um dos personagens mais complexos e cativantes de sua carreira, o dublê Cliff Booth em Era Uma Vez em Hollywood, e surge como sua antítese. Se Booth era expansivo e carismático, Roy McBride abraça o silêncio. Seu conflito não vem de terceiros, e sim de seus demônios internos. É um trabalho difícil, uma interpretação contida e minimalista em que Pitt precisa dizer muito com muito pouco. E é preciso talento dramático superlativo para ancorar uma narrativa baseada no silêncio, em palavras não ditas e em ações pragmáticas. Essa precisão dita o ritmo de Ad Astra, que pende mais para a contemplação do que para o movimento.

Em Ad Astra, a exploração espacial é sinônimo de solidão

Curiosamente, "movimento" ainda é a palavra-chave, já que o filme vai da Terra à Lua, depois Marte e finalmente para a fronteira do Sistema Solar. Astronauta que trabalha em uma estação orbital ancorada ao nosso planeta, Roy vive em um vácuo emocional há décadas. Foi quando seu pai, Clifford McBride (Tommy Lee Jones), explorador espacial que buscava evidências de vida em outros mundos, desapareceu ao lado de toda sua tripulação na órbita de Netuno. Considerado um herói, sombra incômoda que assombra o personagem de Pitt, Clifford pode ser a causa de explosões solares cada vez mais constantes que ameaçam a vida na Terra. A suspeita de que ele possa estar vivo três décadas depois faz com que Roy seja convocado para a missão: o governo acredita que o filho possa restabelecer comunicação com o pai e, assim, solucionar o mistério e salvar o planeta. Mas ninguém contava que havia uma fissura na barreira emocional erguida por Roy, e a evolução de sua missão amplia essa rachadura, fazendo-o encarar sentimentos há muito enterrados.

O mundo construído por James Gray para emoldurar essa jornada nunca é menos que fascinante. Com uma visão muito clara de como seria esse futuro próximo retratado em Ad Astra, o diretor o despiu de qualquer glamour, banalizando as viagens interestelares como um incômodo necessário para cobrir grandes distâncias, uma evolução natural de nosso sistema de transporte atual. Chegar à Lua, por exemplo, é um passeio comum nesse mundo, traduzido em estações espaciais de concreto (dá para matar a fome numa lanchonete Subway, por exemplo), erguidas em um ambiente inóspito. Como em qualquer exploração de novos territórios, as novas fronteiras espaciais também são observadas por "piratas" lutando e matando por seu pedaço de terra – uma perseguição em solo lunar termina em uma demostração de violência em gravidade zero tão impactante quanto estranhamente familiar. Este fiapo de ação, porém, existe para estabelecer a construção do mundo, e não para conduzir a narrativa.

Tommy Lee Jones é um pai literalmente distante…

É nessa mistura de aventura espacial e missão burocrática (Marte, único lugar de onde Roy consegue transmitir mensagem para seu pai, é praticamente uma repartição pública) que o diretor encontra os elementos para explorar a condição humana. Seu objetivo, em seu filme financeiramente mais ambicioso, é traçar um paralelo entre a jornada física aos confins do espaço com o mergulho na própria alma, por vezes um vazio tão sufocante quanto o berço das estrelas. É um abismo assustador para ser encarado, mas é também a única forma de descobrirmos quem realmente somos. Essa jornada reflexiva pode frustrar quem busca na ficção científica o tipo de história que justamente rompe as barreiras do que é humanamente alcançável. Mas este é justamente o gênero cinematográfico mais maleável, o único que comporta todo tipo de história e de jornada – de 2001 a Blade Runner a Matrix, seus melhores exemplares sempre são sobre o conflito de seus personagens, nunca sobre o mundo que eles habitam.

Se Ad Astra nem sempre acerta em todos os alvos, o filme certamente está a altura de sua ambição. James Gray mostra que não abriu mão de seu cinema muito particular, mesmo seguindo as regras do cinemão milionário. Em um mercado dominado por marcas e produtos corporativos, é revigorante perceber que ainda há espaço para a tradução de ideias em forma de arte sem a preocupação em transformar cada elemento em artigo colecionável. Podemos até buscar o espetáculo, mas o que amarra a experiência são personagens complexos posicionados em um cenário fantástico. Ao colocar Brad Pitt no centro gravitacional do projeto, portanto, Ad Astra reafirma que esse mesmo mercado ainda precisa de astros para não se reduzir a um desfile de propriedades intelectuais. É a força de protagonistas como ele no jogo de poder de Hollywood que garantem a longevidade do cinema, acima de tudo, como expressão artística.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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