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Blog do Sadovski

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Como Exterminador do Futuro se tornou a série mais confusa do cinema

Roberto Sadovski

29/10/2019 03h42

James Cameron enfrentou o inferno com seu primeiro filme como diretor. Ao fazer Piranha 2 – Assassinas Voadoras, o cineasta chegou a níveis de stress extremos, ao ponto de arrebentar uma fechadura e invadir a ilha de edição para preservar o que restou de sua visão (e dignidade), após ser varrido do projeto por seus produtores. Certa noite, acordando de um pesadelo febril, ele desenhou a imagem de um esqueleto robótico arrastando-se para longe de destroços em chamas. Essa foi a semente do que se tornaria O Exterminador do Futuro, ficção científica hardcore que ele dirigiu em 1984, catapultando a carreira de Arnold Schwarzenegger e elevando a si mesmo como um dos autores mais procurados em Hollywood. A história é boa, claro, mas deve ter uma dose cavalar de exagero para dourar a origem de uma das séries mais duradouras da história, um pesadelo feito de aço e sangue em que um assassino implacável viaja no tempo para impedir o nascimento da esperança de um futuro distópico. Foi também o começo de uma das séries mais confusas e improváveis que o cinema pop já teve a ousadia de conceber.

Até porque O Exterminador do Futuro, ficção científica com cara de filme b e leve verniz classudo, traz uma história redondinha, um arco dramático coeso centrado na figura de Sarah Connor, que aos 20-e-poucos anos na Los Angeles da primeira metade dos anos 80, torna-se alvo de uma máquina de matar enviada ao passado para matá-la. O motivo era simples: Sarah, interpretada com uma mistura eficiente de ingenuidade e fúria por Linda Hamilton, seria a mãe do futuro líder da resistência humana contra o domínio total das máquinas. Nesse amanhã distorcido, uma forma de inteligência artificial batizada Skynet torna-se consciente pouco após ser ativada, controlando o arsenal nuclear americano, e forçando um ataque à União Soviética. A retaliação resultaria em uma guerra da qual só as máquinas se ergueriam . Não fosse por John Connor, filho de Sarah, a raça humana não conseguiria organizar-se e contra-atacar. As máquinas então enviam um exterminador, um T-800 (Arnold Schwarzenegger), para matar Sarah – e contrapartida, a resistência manda um guerreiro solitário, Kyle Reese (Michael Biehn), para protegê-la. E é isso, uma trama resolvida em pouco menos de duas horas, arcos dramáticos concluídos, o futuro uma incógnita, cortinas, luzes.

Arnie todo pimpão em T2

A história terminaria aí, até porque Cameron terminou enfrentando um processo por plágio e não queria papo com os produtores – o escritor Harlan Ellison havia escrito um conto chamado Demônio da Mão de Vidro que trazia uma parcela considerável de coincidências. Por fim, ele ganhou agradecimentos nos créditos, Cameron deu de ombros e O Exterminador do Futuro encerraria sua vida útil por aí. O diretor foi conquistar Hollywood testando os limites da tecnologia como ferramenta narrativa em Aliens – O Resgate (1986) e O Segredo do Abismo (1989). Schwarzenegger foi tratar de se tornar um dos maiores astros da história em filme como Comando Para Matar (1985), Predador (1987) e O Vingador do Futuro (1990). Os anos, porém, fizeram crescer a aura cult em torno de O Exterminador do Futuro, e seu impacto na cultura pop não passou despercebido. Quando a tecnologia alcançou as ideias de Cameron, ele achou que era a hora de voltar ao mundo distópico que ajudara a criar.

Tudo em O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final, foi anabolizado. Lançado em 1991, fez barulho pelo orçamento gigantesco de 100 milhões de dólares, primeiro filme a custar mais de nove dígitos (empalidecendo os 6.4 milhões do filme original), e pelos efeitos especiais revolucionários, um salto na tecnologia digital que mudou a cara do cinema. O desafio foi também fazer com que Schwarzenegger, vilão supremo em 1984, fosse retrabalhado como herói, o que foi possível com a trama esperta. John Connor (Edward Furlong) é um pré adolescente vivendo em lares adotivos depois que Sarah foi presa em uma instituição mental – saber a data exata do começo da guerra que vai eliminar milhões ajudou a deixá-la absurdamente paranoica. O T-800 dessa vez é enviado ao passado como um protetor para John, agora alvo de outro tipo de exterminador, o T-1000 (Robert Patrick), uma máquina feita de metal líquido, capaz de alterar sua aparência, e ainda mais implacável que seu antecessor. Reunidos, John, Sarah e o T-800 buscam destruir o computador que dará origem à Skynet – com a missão cumprida, o futuro tão certo agora seria por fim uma página em branco. Fim da jornada de Sarah, fim da missão do exterminador, fim da história. Certo?

Taron Egerton arrasa em Rocketman!

Talvez. Mas T2 faturou inacreditáveis 521 milhões de dólares, maior bilheteria (de longe) de 1991, e os produtores acreditavam ainda ser possível espremer um pouco mais dessa história. Mas não para Cameron, que abriu mão dos direitos da série (por contrato ele só os recuperaria 28 anos depois), fazendo com que Terminator se tornasse uma propriedade intelectual sem pai. Sem pai e sem casa, já que nenhum grande estúdio havia adquirido sua licença, que ficou sambando por meia dúzia de produtoras diferentes. Mas a verdade é que a história já havia se exaurido, e os dois filmes cobriram todas as possibilidades dramáticas com o tema "robôs do futuro/salvador da humanidade". Hollywood, que não conhecida exatamente por sua sutileza, armou em 2003 O Exterminador do Futuro 3 – A Rebelião das Máquinas, dessa vez com Jonathan Mostow no comando e Arnold mais uma vez interpretando o papel do ciborgue futurista, agora enviado ao passado para proteger John Connor já adulto (Nick Stahl), que por sua vez é caçado por um modelo novíssimo, o T/X (Kristanna Loken). Cenas de ação decentes não esconderam a pobreza da trama derivativa, e o filme teve como único ponto alto mostrar que o Dia do Julgamento nunca fora impedido, só atrasado, e o mundo não ia deixar de se destruir. Uma beleza.

Foi com zero surpresa que, quando os direitos da série mudaram de mãos de novo, uma nova trama foi encomendada – não para o cinema, mas para a TV. O Exterminador do Futuro: As Crônicas de Sarah Connor recuperou a personagem dos filmes originais, trocando Linda Hamilton por Lena Headey (de Game of Thrones), que por duas temporadas, entre 2008 e 2009, protegeu seu filho, John Connor (Thomas Dekker) de uma coleção de ameaças futuristas, tendo um soldado do futuro e uma exterminadora enviados como protetores. Não deu em muita coisa, tinha lá seu charme, mas a série voltou ao cinema em 2009 com O Exterminador do Futuro: A Salvação, que admite-se tinha a premissa menos repetitiva desde os filmes originais. Dessa vez a trama ambientava-se no futuro, depois do Dia do Julgamento, com exércitos de exterminadores caçando humanos sobreviventes. John Connor (Christian Bale) é o líder da resistência, e encontra em um novíssimo modelo de ciborgue em Marcus Wright (Sam Worthington), humano que, no corredor da morte em uma prisão do século 20, acorda décadas depois sem saber de suas origens – mas logo revela-se um exterminador dotado de consciência humana e pouco disposto a colaborar com seus mestres. Apesar da premissa, o filme morreu com a direção insípida de McG, que não consegue em nenhum segundo qualquer conexão emocional com o público – o que pior com Bale entregando uma de suas piores interpretações. É o filme que pouca gente lembra… o que termina sendo uma dádiva!

Christian Bale reencontra um velho amigo em A Salvação

Afinal, nada preparou o mundo para a total confusão de O Exterminador do Futuro: Gênesis, que Alan Taylor cometeu em 2015. É uma bagunça de ponta a ponta, com uma trama que revisita o filme original de 1984, recupera Schwarza como um exterminador envelhecido (o tecido orgânico envelhece, o esqueleto de metal não, tá certo então) e faz do próprio John Connor (Jason Clarke) um exterminador, agora respondendo à Skynet, que por algum motivo planeja ganhar um corpo fora da rede de inteligência artificial. Ou algo parecido, já que a trama para de fazer sentido em meia hora e gente segue a coisa pela inércia, como um desastre em descida de serra em que os carros diminuem para ver o tamanho do estrago mas inevitavelmente seguem em frente. Assim como a própria série, que jogou sua cronologia pela janela há tempos e segue em frente há 35 anos, um monstro que já faturou, só nas bilheterias mundiais, mais de 3 bilhões de dólares. Porque, assim como o próprio exterminador, James Cameron criou um monstro implacável que não pode ser detido nem pelo poder de filmes ruins. É um colosso que movimenta uma indústria gigantesca, uma propriedade intelectual presente em video games, histórias em quadrinhos (RoboCop vs. O Exterminador do Futuro, de Frank Miller, é minha favorita), brinquedos, colecionáveis e um oceano de traquitanas que mantém a criatura viva.

Eis que, 28 anos depois, James Cameron volta a assumir a paternidade da cria. O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio, apostou em um reboot quase que completo para tentar arrumar a casa. O filme, que estreia essa semana (minha crítica entra no ar na próxima quinta), apaga toda a bagunça feita depois que o cineasta deixou a casinha e retoma a história usando T2, de 1991, como ponto de partida. Tudo que consumimos desde então segue o caminho do dodô e para de ser considerado canônico. Além da necessidade narrativa, é o gatilho para limpar a casa e voltar a explorar a série como propriedade intelectual sem uma bagunça amarrada no tornozelo como uma bola de ferro. Até, claro, a próxima geração achar que repetição é sinônimo de boas histórias e estragar tudo mais uma vez. Alguém ainda tem estômago para um exterminador do futuro octogenário?

Linda Hamilton volta para salvar o futuro com estilo

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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