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Blog do Sadovski

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Apple, Disney e HBO peitam Netflix para mudar (de novo) como consumimos TV

Roberto Sadovski

01/11/2019 03h02

A Netflix virou cotonete. Ou bombril. Tornou-se no Brasil sinônimo de streaming. Virou verbo, denominação para a gente se esparramar no sofá e passar horas (dias?) consumindo a série da vez. O popular binge watch, nome chique para maratonar temporadas inteiras de um único programa, passou a ser rotina de quem aos poucos trocou o conforto dos canais por assinatura para a aventura de criar sua própria programação (pergunto-me a essa altura quem ainda consome cultura pop na TV aberta). A partir de hoje, porém, outros pesos pesados entram com tudo no cenário do streaming, prometendo não só acirrar ainda mais a disputa pela atenção do consumidor (eu, você e todos nós) como mudar, mais uma vez, alguns hábitos. O velho vira novo de novo e a roda não para de girar.

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A grande novidade é a Apple TV+, que chega com o peso da marca criada por Steve Jobs, trazendo uma batelada de filmes em seu catálogo e séries originais como See e The Morning Show. Ao contrário do que acontece na Netflix, as séries não serão disponibilizadas em temporadas inteiras: três episódios serão liberados na estreia, com o restante despejado semanalmente. A Disney+, que entra no mercado americano cerca de duas semanas depois (por aqui o lançamento deve ocorrer no segundo semestre de 2020), trará tudo com as marcas Disney, Marvel, Pixar, LucasFilm e Nat Geo, além de séries originais como The Mandalorian, que Jon Favreau criou dentro do universo de Star Wars, e High School Musical, que arrisca revelar um novo Zac Efron. O esquema também será à moda antiga, com um novo episódio disponível por semana. A HBO Max, streaming do gigante WarnerMedia, também deu de ombros para o binge watching, apostando na boa e velha ansiedade semanal para suas séries – mesmo modelo usado em Game of Thrones, Chernobyl e na recente Watchmen.

The Mandalorian marca a chegada de Star Wars no streaming Disney+

Na prática, essa movimentação toda significa unicamente que é bobagem pensar em um único formato. Um olhar mais agudo sugere também que a briga será boa. Desde que a Netflix se popularizou, o objetivo era produzir conteúdo próprio – talvez seus executivos já anteviam que a concorrência ia enxergar cifrões mais redondos não em licenciar seu conteúdo, e sim em investir numa plataforma própria. Desde 2013, com o lançamento de House of Cards e Orange is the New Black, a empresa apostou em lançar as séries de uma só vez até para marcar território: era a novidade que se fazia possível unicamente em streaming, dando ao consumidor a possibilidade de fazer seus próprios horários e assistir aos programas quando bem quisesse. De forma alguma o formato quebrou as pernas da concorrência, que continuou tocando a vida em seu quintal de séries semanais – mas influenciou outro serviço de streaming, a Amazon Prime, igualmente afeita a despejar temporadas inteiras para condenar o público a jamais abandonar seu sofá (estou para começar a segunda de Jack Ryan, adeus vida social).

A briga é, por fim, de conteúdo. Assim como a assinatura de canais de TV paga, definida por pacotes, o público vai definir com seu bolso quem tem a melhor oferta. Honestamente, não há favoritos no páreo. A Netflix está estabelecida como potência global e continua apostando em inúmeras propostas, de séries de ficção a reality shows a programas de variedade a filmes originais, encurtando até a distância entre nações. No Brasil, por exemplo, 350 milhões de reais serão investidos em programas com nosso DNA. A Amazon Prime mantém sua variedade de filmes e séries, abrindo a carteira para trazer para o streaming, por exemplo, o universo de Neil Gaiman (American Gods e Good Omens), adaptações de quadrinhos (The Boys) e séries de ação (Jack Ryan, me aguarde). YouTube Premium, casa da genial Cobra Kai, já aposta em séries originais inclusive no Brasil. O Looke é a melhor opção para buscar filmes clássicos e cinema nacional. A Darkflix, como o nome sugere, mergulha fundo no cinema de terror, fantasia e ficção científica.

Jennifer Aniston e Steve Carell em The Morning Show, da Apple TV+

Ainda assim, o peso dos novos jogadores intimida. A Disney+ promete disponibilizar tudo já produzido pelo estúdio do Mickey. Tudo! Todos os desenhos animados (longas e curtas), todos os filmes (o que inclui produções da Touchstone e da Hollywood Pictures, e eu mal posso esperar para rever 20.000 Léguas Submarinas, de 1954), todos os documentários da Nat Geo. A produção original é um absurdo, partindo de The Mandalorian às séries ambientadas no Universo Cinematográfico Marvel, como Loki, WandaVision e Falcão e o Soldado Invernal, além de filmes originais como a versão live action de A Dama e o Vagabundo, a fantasia Noelle (como Anna Kendrick como filha do Papai Noel) e refilmagens/continuações de Três Solteirões e um Bebê, Abracadabra, O Pai da Noiva, Esqueceram de Mim e Mudança de Hábito. Do outro lado do ringue, a HBO Max vem com duas pedras na mão, prometendo 10 mil horas de conteúdo em seu lançamento, incluindo conteúdo do catálogo da Warner, New Line, DC, Adult Swim, Turner Classics e Cartoon Network. Ou seja: de South Park a The West Wing a Friends a Doctor Who, passando por novas séries baseadas nos filmes Da Magia à Sedução e Grease, a antologia de histórias da DC Strange Adventures, uma série do Lanterna Verde e, coroando o bolo com uma cereja suculenta, todo o catálogo do Studio Ghibli.

É literalmente um recomeço para a forma de consumir conteúdo – é estranho usar essa palavra, que parece tão distante e nada artística, mas é a melhor forma de condensar material tão diverso. O preciosismo pode incomodar muita gente que enxerga a perda gradual do espaço para produtores independentes que encontram-se fora do movimento. Eu prefiro o caminho do otimismo. Quando a poeira assentar, e cada consumidor tiver selecionado como e quando vai devorar seus filmes e séries de preferência (seja maratonando, seja semanalmente, seja com alimentação intravenosa sem nunca abandonar o sofá), não acho inviável que produtoras fora do abraço das majors possam criar suas próprias plataformas, entregando conteúdo ainda mais diferenciado a seu público – como o Criterion Channel, que disponibiliza clássicos e novidades de todo o mundo, ou o Petra Belas Artes a la Carte, serviço de VOD do cinema paulista do mesmo nome, que aposta em pérolas obrigatórias (Fellini, Bertolucci, Bergman…), filmes independentes mais recentes e uma seleção de cults hoje indisponíveis para o público brasileiro. O mundo da produção audiovisual está se reinventando. E as plataformas de streaming vão fazer de tudo para não deixar ninguém fora do jogo.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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