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Daniel Rezende: "Ninguém Tá Olhando é sobre crenças, e não sobre religião"

Roberto Sadovski

29/11/2019 06h18

Ninguém Tá Olhando chegou à Netflix há uma semana, mostrou que a humanidade é protegida por burocratas ruivos, de asas minúsculas e gravatas vermelhas, e que nosso destino é controlado por uma imensa repartição pública. Faz uma semana, portanto, que seu criador, o diretor Daniel Rezende, descobriu a velocidade de resposta do público para uma série distribuída pelo maior gigante de streaming do planeta. Nada mal para um projeto ambicioso, com camadas super filosóficas, que ao mesmo tempo tocou no pulso pop de uma audiência disposta a consumir produtos com sua própria cara, mas que andava dormente e ávida para se enxergar na tela. Essa foi, afinal, a proposta de Ninguém Tá Olhando: conversar com uma geração absorta no streaming, usando uma linguagem universal e abordando questões complexas emolduradas pela comédia. Foi nesse espírito (sem trocadilho) que eu bati um longo papo com Rezende sobre as origens da série, o mercado audiovisual brasileiro, a indicação ao Oscar por Cidade de Deus, Caverna do Dragão e… farofa de banana. E é isso!

Uli é um angelus gente como a gente

Por que angelus e não anjos?
A criação dos angelus se deu porque eu não queria falar sobre anjos da guarda. Porque anjos da guarda trazem milênios de uma história que foi criada por humanos, reinventada por humanos e passada a cada geração. Então tem muita carga aí. O que mostramos é outra criatura, que habita este novo mundo com estas regras. Mesmo fazendo isso, muita gente olha e diz que eles estão no Céu – não tem nenhuma referência a Céu na série, zero referência a religião. Ninguém Tá Olhando não é sobre religião, mas é sobre crenças. O que inclui economia, moral, cultura, todas as narrativas que a gente inventa – assim como religião é uma dessas narrativas. A série faz questão de não criticar, mas questionar essas narrativas e também questionar o próprio questionamento a elas. O ser humano precisa delas! Por isso criamos esses personagens burocráticos que são seres medíocres, comuns, que vão passar a eternidade protegendo os humanos e tudo bem. Até que Uli (Victor Lamoglia), o protagonista, questiona e percebe que o próprio sistema também é uma narrativa, o que o faz agir fora desse sistema. Queria que fosse uma série cheia de questões filosóficas coberta por uma comédia pop, divertida e que conversasse com muita gente.

Me parece uma base densa para uma série tão leve. Como foi achar esse equilíbrio?
Eu amo (a animação) BoJack Horseman. É genial fazer de um cavalo o protagonista, porque você pode virar a condição humana ao avesso e continua sendo a história de um cavalo! É um recurso que se usa para poder criticar dentro da comédia. A gente assiste aquilo, ri daquilo e pensa, "peraí, mas eu faço igual". E o que eu mais queria fazer em Ninguém Tá Olhando era justamente poder falar sobre a humanidade. Começou um pouco sobre questionar as decisões que tomamos, porque a humanidade segue crenças e raramente as questiona, segue padrões como se fosse um monte de hamsters girando rodinhas. Somos todos hamsters, mas alguns saem da rodinha. Queria dizer que a vida não é aleatória por acaso, que foi uma frase dita no meio do processo e terminou na boca do Uli.

Como foi a apresentação do projeto para a Netflix?
Eu tive essa ideia em um curta sobre anjos lá atrás e comecei a trabalhar nessa ideia com o (roteirista) Teo Poppovick. Apresentei para a Netflix, eles acharam legal, gostaram do conceito de uma comédia com anjos, "você não tem uma série ainda, obrigado e tchau". (risos) Daí começamos de novo, já trabalhando com a (roteirista) Carol Markowicz, refizemos toda a bíblia com os conceitos originais, reapresentamos e eles compraram a série. Então foram seis meses antes de mostrar pela primeira vez e um ano antes de mostrar pela segunda vez. Era uma série mais episódica, cada capítulo tratava de um assunto com um humano novo. A Netflix queria binge watching, pra maratonar. Eu ouvi uma frase que gosto muito, "escrever é a arte de reescrever". E também "o bom é inimigo do ótimo". Em minha carreira como montador eu já tinha percebido algo que se acentuou ao trabalhar com roteiro e direção: quando existe dúvida, não é o caminho certo. Quando é o certo, não tem mais dúvida. Ainda que certeza não exista, não existe verdade absoluta. Nada mais incerto do que a certeza.

Estamos mega filosóficos hoje!
(risos) Mas a brincadeira é essa! Esses dias comentei com um amigo que o cinema está aí há mais de cem anos, e a quantidade de filmes feita no mundo só aumenta. Talvez não não cinema, mas produtos audiovisuais. Tudo praticamente já foi feito. Então se você investir em alguma coisa, pode ser a comédia mais escrachada, mais comercial, ou o filme mais cabeça. Se não vai servir para que a gente tente mudar um ser humano sequer, que ele saia dali com uma experiência melhor, eu não vejo razão pra entrar nessa.

Kéfera Buchmann e Victor Lamoglia discutem o sexo dos… angelus!

É uma filosofia bem diferente do que vimos nessas décadas de cinema e audiovisual no Brasil, não?
Olha só, sim e não. O cinema voltou há pouco mais de vinte anos. Nesse período tivemos de reaprender a fazer cinema. Ficamos muito tempo parados depois de um período dedicado à pornochanchada. Então, os publicitários que continuaram filmando entraram no mercado, o Walter Salles, o Fernando Meirelles, o próprio Cao Hamburger, um pessoal que tinha experiência de set. E uma linguagem nova foi sendo criada, criando também muitas pérolas do cinema nacional. E também muita coisa ruim, como em qualquer lugar do mundo. Sem falar que ainda existe um preconceito muito grande com o que é feito aqui. Nos tempos de hoje existe cada vez mais uma luta contra a arte e contra o pensamento questionador. A nossa missão, a missão do audiovisual hoje em dia, é ser resistência, lutar pela cultura e pela arte, porque é importantíssimo! Mas acima de tudo a gente precisa conquistar as pessoas pelas pessoas. É o que eu quis fazer com o Ninguém Tá Olhando. Lançamos há uma semana e vejo reações de pessoas que assistiram e querem contar pro amigo, que recomendaram pro avô, já tem muita gente querendo ver uma segunda temporada, e isso me deixa surpreso e feliz!

A Netflix já bateu na sua porta pedindo essa segunda temporada?
Ainda tá muito cedo, todo mundo que pediu está esperando esse momento – inclusive eu e toda uma equipe gigante que suou muito na produção. Os produtores, criadores, roteiristas, os atores! Todo mundo enxergou o que a gente entregou: uma série leve, divertida, engraçada e questionadora.

Como foi trazer estes conceitos para o elenco?
A reação dos atores foi muito parecida com a reação da equipe. Sentir que ali tinha algo novo. Releitura sobre anjos não é novidade. Tem o Dogma do Kevin Smith, comparam muito a gente com (a série) Miracle Workers, que eu não vi de propósito! A série começou duas semanas antes de começarmos a filmar. Não vi Good Omens também, não vi nenhuma série de anjo de propósito! Só queria ver depois que a minha estreasse. Não queria ser influenciado.

Mas você deve ter visto muito Todo Mundo Quase Morto
É maravilhoso! Adoro de verdade. Edgar Wright é um gênio. Na verdade é assim. A gente reviu seus filmes, foi uma referência com certeza. Outra referência foi alguém que não tem nada a ver com cinema que é o (escritor israelense Yuval) Harari, autor de Sapiens, Homo Deus e 21 Lições Para o Século 21. Eu fiz a sala de roteiro inteira ler Harari, o que ele diz é o que eu gostaria que a série significasse. Ele fala muito sobre narrativas que a humanidade inventa. Como a série está em 190 países, a chance de eles assistirem é pequena mas existe!

Todo Mundo Quase Morto, de Edgar Wright, uma das inspirações da série

Existe espaço para pensar no cinema como produto, no sentido de a experiência do filme gerar itens que as pessoas possam guardar como fragmento do que acabaram de ver?
Eu tento. Bingo foi feito pra isso, mas não rolou. Turma da Mônica teve força pra isso e ainda assim tiveram dificuldade. Mas existe muita camiseta do filme, caneco, caderno. Ninguém Tá Olhando foi pensado também pra isso. Porque eles são todos ruivos de gravata vermelha e camisa branca de manga dobrada? Eu queria todos padronizados, não importa se fosse branco, negro, asiático. É uma fantasia de carnaval pronta! A gente vai na 25 de março, compra a asinha, uma gravata vermelha, uma camisa branca e pronto.

A Casa de Papel conseguiu isso, com os macacões vermelhos e a máscara do Dali.
Porque é icônico! Se hoje eu uso uma gravata vermelha e seguro o Sansão com um nariz de palhaço, eu estou contando quem eu sou. Três símbolos. Mas o mercado ainda hesita em abraçar isso. O mercado vai onde está o dinheiro. Se o brasileiro que tem dinheiro prefere comprar o produto gringo, fica difícil investir. É cultural, e mudar essa cultura leva tempo. Ninguém Tá Olhando tenta buscar esse diálogo, porque a gente investiu em qualidade, mas sozinho não dá pra fazer muita coisa. Precisamos de mais séries, e a Netflix está investindo, A Amazon começou a investir, a GloboPlay está fazendo. Cabe a nós, da indústria, fortalecer esse momento. Porque é um produto, é uma indústria. Não importa o filme, ele custa muito dinheiro e ele precisa lucrar. Pagamos o ingresso igual. E isso não quer dizer que não seja arte. Se não existir esse equilíbrio, a vontade de fazer com qualidade com a vontade de fazer algo para o público, morre.

Curioso que você menciona essa vontade de Ninguém Tá Olhando ajudar a ressignificar o nosso audiovisual. Esse momento do audiovisual, com tanta série em produção, seria essa oportunidade?
Olha, o mundo inteiro está experimentando essa transição nas últimas décadas, tanto aqui quanto o cinema americano, o cinema europeu. Existe uma busca para descobrir que tipo de filme que comunica, que tipo de filme consegue alguma sobrevida nos cinemas. A nossa dificuldade é que aqui se demora muito pra fazer um filme, então temos de saber o que vai comunicar com as pessoas em sete anos. Bingo demorou sete anos entre a ideia original e o filme ser lançado. A televisão tem um outro ritmo o qual eu não conheço, mas agora que eu estou conhecendo um pouco o streaming, vejo que é possível criar produtos com qualidade e mais velocidade. O poder que a Netflix tem no Brasil e no mundo é muito grande. A gente reaprendeu a fazer cinema, e isso demora! Nos Estados Unidos foi quase meio século da invenção do cinema até eles conquistarem o mundo no pós-Guerra. Acho que o streaming tem esse potencial de ligar quem faz com quem assiste com uma resposta muito imediata. Em dois, três dias a gente entendeu que Ninguém Tá Olhando alcançou o coração das pessoas. Se existe uma crítica ao público e ao mercado é que o brasileiro aceita o que vem de fora e não dá valor ao que vem de dentro – pode parecer bobagem, mas é assim desde sempre. É só ir em uma festa à fantasia e ver quantas pessoas estão fantasiadas como personagens brasileiros e quantos estão fantasiados de personagens americanos. A gente faz isso porque fomos condicionados.

Não dá pra reverter isso?
Dá, mas é difícil. Eu lancei Turma da Mônica quando estavam em cartaz Toy Story 4, Homem-Aranha, O Rei Leão e Pets 2. Ainda assim fizemos 2 milhões de público. A ideia sempre foi pegar uma grande criação da cultura pop, fazer um filme de qualidade com dramaturgia e conectar com o público. Ainda assim eu vi muita gente do mercado que foi ver Toy Story, foi ver O Rei Leão e não foi ver Turma da Mônica. As pessoas que trabalham nos filmes, afinal, são brasileiros, e todos nós somos condicionados. O mercado tem uma dificuldade imensa em conversar, em trocar experiências. Por que os três mexicanos estão lá todo ano ganhando Oscar? Porque eles são amigos, tomam vinho juntos, trocam ideias. Nossa cultura é "se eu mostrar meu filme você vai copiar", mas isso felizmente está mudando. A comédia escrachada já não é tão bem aceita como antes, o filme ultra cabeçudo também está mais esmagado. A disputa é com a indústria americana de um lado, os melhores filmes europeus do outro. Se a gente não conversar não vamos fazer essa conexão. Já existe uma troca maior, e a qualidade tem aumentado. Esse ano tivemos ótimos filmes. Bacurau, A Vida Invisível, são ótimos filmes que mostram que a mentalidade está mudando. Eu brigo muito por isso.

Cidade de Deus deu a Daniel Rezende uma indicação ao Oscar

O quanto é importante sair uma indicação ao Oscar para A Vida Invisível?
A indicação ao Oscar é uma coisa muito difícil. Mas neste ano, em que no Brasil o governo está lutando tanto contra a cultura, filmes que conseguem sobreviver aos blockbusters e que se destacam nos maiores festivais do mundo são importantes. Ter uma indicação ao Oscar é a consagração que a cultura é importante, que vivemos de história, de imaginação. O povo que não tem cultura é um povo fadado a rodar a rodinha do hamster. Os angelus são exatamente isso. Foram ensinados a fazer uma única coisa e estão há milênios cumprindo aquilo. É confortável. Desconfortável é mudar o mundo, e isso não acontece quando obedecemos todas as regras. A série não é uma apologia a quebrar regras, pelo contrário: mostra dos benefícios mas também os problemas quando pensamos fora da caixa. Não existe certo e errado, é isso que a série fala. Mas uma coisa é fato: ninguém que mudou o mundo o fez seguindo regras. Encarar o desconhecido é difícil. Fácil é fazer aquilo que nos mandam fazer, daí não é preciso pensar.

Você tem algum projeto dos sonhos, que você tem vontade de colocar sua assinatura?
Tenho… e é o pior momento pra falar tudo isso agora. Eu sei que ele está sendo desenvolvido agora nos Estados Unidos e é algo gigantesco – só que esse que está sendo produzido não é o que eu quero fazer. Mas quando ele sair eu não terei a menor chance de fazer nos próximos dez anos.

O que é, O Senhor dos Anéis na Amazon?
(risos) Quase. O sonho da minha vida desde que eu sou criança é fazer o live action de Caverna do Dragão. E eu sei que eles não estão fazendo a adaptação do desenho que foi sucesso aqui nos anos 80, porque essa versão pouca gente conhece fora do Brasil. Então eu sei que esse eles não vão fazer, mas é meu projeto do sonho. Existe uma adaptação do jogo pro cinema (Dungeons & Dragons – A Aventura Começa Agora, lançado em 2000) que é um horror!

Então existe uma vontade de fazer essa carreira fora do Brasil.
Eu penso nessa carreira em alguns anos, e acho que ela vai acontecer na hora certa. Mas olha só, apesar de ter esse plano, meu pensamento sempre foi aqui. Tudo que eu fiz foi para o Brasil. Bingo foi para o Brasil, Turma da Mônica foi para o Brasil. Eu tenho muita vontade de fazer o brasileiro ficar orgulhoso de nossa cultura e saber que a gente sabe contar boas histórias. Cinema dá um trabalho brutal. Fazer com menos afinco me daria uma vida mais tranquila. Mas eu sempre tive uma filosofia, tanto como montador e agora como diretor, que diz que, se eu sei como fazer, não tenho o menor interesse. Meu próximo projeto tem de ser algo que não tenho a menor ideia de como fazer. Mesmo Turma da Mônica eu não fazia ideia como tirar do papel. Eu me perguntava em como seria a turminha se ela existisse de verdade, e me guiei por aí. Eu não queria fazer Dick Tracy, Dr. Seuss, eu queria manter o lúdico, o colorido, um cachorro verde, mas em situações que pudessem existir.

Quando você foi indicado ao Oscar por Cidade de Deus não seria o melhor momento para dar esse salto?
Eu vim da publicidade e Cidade de Deus foi meu primeiro longa, eu nunca tinha feito nem um curta. E eu fui arremessado nesse mundo, que era o que eu sempre quis fazer, já que quando eu fiz faculdade, no começo dos anos 90, não havia cinema. No momento da indicação ao Oscar eu já estava fazendo meu segundo filme internacional. O primeiro foi Diários de Motocicleta, do Walter Salles, que eu estava montando em Los Angeles. Emendei com Água Negra, também do Walter, em 2004. Eu já tinha um agente e pensei em construir uma carreira direto fora do Brasil. Mas duas coisas me fizeram mudar de ideia. Uma que minha mulher engravidou, e outra que nos Estados Unidos não tem farofa de banana, mano. (risos) Aí, fica complicado.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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