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Adam Sandler, Netflix: Oscar 2020 promete ser o mais surpreendente em anos!

Roberto Sadovski

05/12/2019 03h19

O mês de dezembro traz consigo o início da temporada de premiações que esquenta a indústria para o Oscar do ano que vem. A corrida pelas estatuetas de 2020, entretanto, deixa de lado favoritos óbvios e se posiciona como uma das disputas mais surpreendentes dos últimos anos. As primeiras listas escolhendo os melhores filmes, atores e cineastas do ano que se encerra começam a desenhar uma festa do Oscar inusitada que deve inflamar uma tonelada de discussões entre os cinéfilos mais fervorosos. Afinal, é a cerimônia que pode consagrar a Netflix como a produtora mais poderosa e ousada do cinema atual. É a festa que pode entregar o Oscar de melhor ator para Adam Sandler. É a festa que um filme coreano pode levar o ouro para casa. E é assim que a gente gosta!

As apostas começaram com o Gotham Awards, concedido por um júri formado por entusiastas de cinema em cinco comitês baseado em Nova York, abriu a temporada de premiações coroando o drama História de Um Casamento, de Noah Baumbach. O longa foi escolhido como melhor filme, além de melhor roteiro, melhor ator (para Adam Driver) e ainda garfou o cobiçado prêmio do público. Sua vitória é também uma vitória da Netflix, que bancou a produção, mostrando que em círculos selecionados de cinéfilos a barreira que divide filmes "para cinema" e "em streaming" está cada vez mais tênue. Aplaudido onde foi exibido, História de Um Casamento ganhou ainda mais prestígio quando a plataforma digital o colocou em tela grande ao arrendar o lendário Cine Paris, um cinema inaugurado no fim dos anos 40 que desde 2016, com o fechamento do lendário Ziegfeld, era a única sala de tela única na cidade. Seu fechamento foi anunciado em agosto deste ano, mas a Netflix garantiu seu funcionamento como palco para exibir suas produções originais.

História de Um Casamento traz a força de Scarlett Johansson e Adam Driver

A Netflix subiu mais um degrau na escada para os prêmios da Academia quando O Irlandês foi escolhido filme do ano pelo National Board of Review, também em Nova York, que ano passado surpreendeu ao apontar Green Book como melhor filme, escolha espelhada pelo Oscar. A opção pelo filme de Martin Scorsese veio de uma lista que não fugiu da polêmica, já que trazia escolhas óbvias (o próprio História de Um Casamento, Era Uma Vez em Hollywood, Ford v Ferrari), outras nem tanto (Meu Nome É Dolemite, Entre Facas e Segredos), ignorando favoritos da crítica como Adoráveis Mulheres, O Escândalo e Um Belo Dia na Vizinhança. Se Quentin Tarantino não causou furor com sua premiação como melhor diretor, e Renée Zellweger surge como a favorita a melhor atriz com a biografia Judy, a coisa pegou com uma escolha inusitada, ainda que não inesperada, como melhor ator do ano: Adam Sandler.

Ok, eu sou o primeiro a dizer que Sandler faz algumas das piores escolhas entre todos os atores vivos – coisas como Gente Grande e Cada Um Tem a Gêmea que Merece são imperdoáveis, mas ele já mostrou que é muito melhor do que um careteiro histérico como em Embriagado de Amor e Os Meyerowitz. Some-se ao fato de que, como um amigo me apontou no twitter, premiações de prestígio em geral, e a Academia em particular, torcem o nariz na hora de reconhecer o talento dramático de atores consagrados em comédia. Robin Williams ganhou seu Oscar, depois de uma vida de sucessos cômicos, como coadjuvante no drama Gênio Indomável. Jim Carrey sequer foi indicado em seus melhores papéis: O Show de Truman, O Mundo de Andy e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. É injusto, porque fazer rir é extremamente difícil e exige talento absurdo. Adam Sandler, que nunca demonstrou grandes ambições dramáticas, chegou com os dois pés na porta e vê agora seu talento reconhecido pelo drama Uncut Gems.

Seria O Irlandês o favorito para o Oscar do ano que vem?

Os irmãos Benny e Josh Safdie já haviam extraído uma performance espetacular de Robert Pattinson em Bom Comportamento, de 2017. Uncut Gems, ainda sem data para estrear no Brasil, traz Sandler como o dono de uma joalheria que precisa levantar uma grana pesada para saldar dívidas de jogo. O ator foi convidado pelos irmãos quando eles bolaram a história uma década atrás e não aceitou. O projeto continuou em desenvolvimento e encontrou um novo protagonista em Jonah Hill, mas quando o ator se desligou do filme, a escolha original dos diretores finalmente disse sim. E todos foram felizes – ou ao menos parecem radiantes. O próprio astro, geralmente reticente em fazer campanhas extensas para seus filmes, abriu uma honrosa exceção e tem dado mais entrevistas que o normal – pelo respeito pelo trabalho dos irmãos Safdie e, claro, pela perspectiva de ensacar um careca dourado. É uma possibilidade real, mas é também prudente aguardar as outras premiações que estão a caminho, em especial a do Sindicato de Atores, maior termômetro para ver para que lado pende a balança entre seus pares.

Até porque nada está gravado em pedra. A terceira grande premiação do ano, do New York Film Critics Circle, voltou seu olhar para a Espanha e escolheu Antonio Banderas como melhor ator, por seu papel espetacular no drama Dor e Glória, de Pedro Almodóvar. A partir daí sobrou premiações para todo mundo, com os irmãos Safdie apontados como melhores diretores (por Uncut Gems), Lupita Nyong'o lembrada como melhor atriz por Nós, Tarantino laureado pelo roteiro de Era Uma Vez em Hollywood, e O Irlandês escolhido como melhor filme. Mais lenha na fogueira? Tanto O Irlandês quanto História de Um Casamento entraram no listão do American Film Institute (ao lado de produções ecléticas como 1917, Coringa e Era Uma Vez em Hollywood). É um movimento que fecha o círculo novamente em torno da Netflix, sugerindo que a barreira de cinema e streaming esfarela ante o poder de uma boa história. A única certeza em praticamente todas as listas de melhor filme do ano? Parasita, que já pode achar espaço em seu cartaz para colocar o inevitável "Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro" – causando zero surpresa se for além! A briga promete.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.