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Ignore os indicados ao Globo de Ouro: O que importa mesmo é a festa!

Roberto Sadovski

10/12/2019 03h57

A temporada de premiações do cinema continua firme e forte, o que significa que chegou a hora de ver quem a Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood – ou HFPA para os íntimos – apontou para concorrer ao Globo de Ouro no começo do ano que vem. Não que faça tanta diferença. Ao contrário de outros prêmios sendo entregues ao longo das próximas semanas, o prêmio dado por esse grupo de pouco mais de oitenta jornalistas não é termômetro de muita coisa. Muitos nomes, claro, batem com os melhores do ano, e podem até ser espelhados quando os concorrentes ao Oscar forem anunciados. Mas não passará de uma feliz coincidência, já que os Globos não carregam peso qualitativo. Mas é uma festa concorridíssima, uma das poucas vezes no ano em que astros e cineastas se reúnem para festejar a eles mesmos, com direito a um fluxo constante de bebida e a certeza de uma coleção de memes bacanas.

Já os indicados, bom, estes oscilam entre o óbvio e o absurdo. Um exemplo de óbvio: Adam Driver, Joaquin Phoenix e Antonio Banderas no páreo para melhor ator. Um exemplo de absurdo: Todd Philips apontado como melhor diretor por Coringa, em detrimento de artistas mais sólidos como Greta Gerwig ou James Mangold. Mais obviedades? Parasita na disputa por filme estrangeiro (deveria estar na categoria de melhor drama), com Bong Jong Hoo entre os indicados a direção. Mais absurdos? O Farol e Uncut Gems, dois dos filmes mais celebrados do ano, foram ignorados completamente. Entre os prêmios para TV, Game of Thrones terminou sua jornada, que indiscutivelmente mudou o panorama da TV, com uma mirrada lembrança para Kit Harrington como melhor ator. As séries espetaculares Olhos Que Condenam e Watchmen? Nem sinal. Mas houve espaço para apontar a canção "Beautiful Ghosts", escrita por Andrew Lloyb Webber e Taylor Swift para o musical Cats, que sequer está finalizado, que ninguém viu e que corre sério risco de ser adiado.

Scarlett Johansson e Adam Driver em História de Um Casamento

Mas os organizadores do Globo de Ouro não se preocupam com os escorregões – na verdade, contam com eles! Afinal, a festa foi alçada, ao menos como programa televisivo, a principal concorrente do Oscar, em uma batalha pela audiência que, aqui, ao menos justifica-se pelos momentos impagáveis – e impossíveis de acontecer no rega bofe do primo rico. Quem não lembra, por exemplo, do esbarrão nada sutil de Lady Gaga em Leonardo DiCaprio em 2016? Ela ganhara o Globo por sua performance em American Horror Story e o astro de Era Uma Vez em Hollywood não escondeu a careta da zoeira, levando um encontrão como retaliação. A Academia rala ano após ano para dar um gás em sua cerimônia (como o absurdo Oscar para "melhor filme popular", ideia equivocada que foi descartada depois de protestos); A HFPA, por sua vez, sabe como poucos ser bons anfitriões em sua festa, sempre com a preocupação de escalar filmes de sucesso e com astros empolgados. Coringa, depois de disparar além de 1 bilhão de dólares nas bilheterias, era aposta certeira e terminou com quatro indicações.

Por fim, a função principal do Globo de Ouro – e de qualquer outra premiação do cinema (e da TV) – é chamar atenção para os filmes, é lembrar do quanto existem opções bacanas tanto para sair de casa e encarar uma sala escura por algumas horas, ou aconchegar-se no sofá conferindo séries em diversos formatos para a TV. Como a palavra de ordem no novo século é streaming, às vezes ambos são a mesma coisa, como provam as indicações para filmes produzidos pela Netflix. O Irlandês surge com cinco (mesmo que só possa ganhar quatro, já que Al Pacino e Joe Pesci dividem a mesma categoria de ator coadjuvante), Dois Papas com quatro (o que não deixa de ser uma surpresa bacana, mesmo com a ausência de Fernando Meirelles entre os diretores) e História de Um Casamento dispara na frente com seis (inclusive melhor ator em drama para Adam Driver, que já pode começar a lustrar o espaço na estante para o Globo, o Oscar e o que mais surgir pelo caminho).

Ninguém ainda viu o filme, mas Taylor Swift concorre por Cats

O lance aqui é torcer pelo time mais popular, e não se preparar para o evento principal que é o Oscar. Para sentir o termômetro da Academia, vale ficar de olho nas premiações das associações de cada categoria em Hollywood. É quando os profissionais que fazem os filmes, e não um grupo pouco representativo de jornalistas, votam em seus pares, escolhas que não raro espelham o que acontece na festa do Oscar. O que importa, afinal, é celebrar o cinema e seus operários. Ao menos não pintou dessa vez um total descalabro como foi a indicação dos pavorosos O Turista e Burlesque como melhor filme comédia ou musical (o primeiro não é nem um e nem outro, e sim um thriller de espionagem) alguns anos atrás. Trazer Cher, Angelina Jolie e Johnny Depp para a festa, afinal, não justifica a pisada de bola histórica. Em tempo: quem levou o Globo de Ouro de 2011 nessa categoria foi o drama Minhas Mães e Meu Pai.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.