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Revendo Star Wars: George Lucas e a perfeição pop da trilogia original

Roberto Sadovski

11/12/2019 04h09

No começo era Guerra nas Estrelas. E só. Não havia universo expandido, não havia uma coleção de episódios, não havia nem indústria bilionária e nem devoção fervorosa. Era George Lucas e um bando de sonhadores revolucionários em busca de criar a aventura espacial perfeita que o mundo sequer sabia que precisava. Mas ô se precisava! Nos anos 70 o cinema ianque experimentou uma revolução criativa que sepultou o sistema dos estúdios, já cansado e repetitivo, e apostou em uma nova geração: visceral, de influência européia, autoral. Em meio a eles, George Lucas era o patinho feio, menos interessado em tramas urbanas reformadoras e focado em entretenimento puro. Misturou a paixão por Flash Gordon, o cinema de Kurosawa e o tom épico de O Senhor dos Anéis para tecer uma aventura em uma galáxia distante. E o mundo curvou-se ante Guerra nas Estrelas.

Agora aqui estamos, mais de quatro décadas depois, prestes a testemunhar o encerramento da saga – e também seu recomeço. George Lucas não está mais brincando no parquinho, tomando posição de espectador desde que vendeu sem, império para a Disney em 2012. Mas a essência da história que ele criou – e do fenômeno que ele iniciou – não se perderam. A Ascensão Skywalker surge como um epílogo e também uma celebração, com o diretor J.J. Abrams, ao lado do roteiros Chris Terrio e da produtora Kathleen Kennedy, injetando o mesmo espírito pop a uma saga com tantos protagonistas, espalhada por dúzias de mundos e adorada por milhões de fãs. A tarefa não é fácil, a despedida será ainda mais difícil e o futuro da marca Star Wars aos poucos vai sendo desenhado. Tudo caminhando nos ombros de três filmes que redefiniram o que é um evento cinematográfico e criaram a fórmula do blockbuster moderno.

Chewbacca, Luke Skywalker, Ben Kenobi e Han Solo: heróis em sua jornada

Difícil imaginar, portanto, como tudo era diferente em 1977. O mundo havia experimentado um fenômeno cinematográfico dois anos antes com Tubarão, de Steven Spielberg, que basicamente inaugurou o "filme-evento do verão". Mas Guerra nas Estrelas estreou em um cenário em que filmes eram somente filmes, e a experiência se reduzia à sala do cinema. Só que o público, a partir de sua estreia, queria mais. Queria levar a experiência para casa, queria revisitá-la, queria externar a paixão, queria doses repetidas continuamente. Depois de sua estreia (em 32 salas em todo o país), a demanda explodiu. O estúdio imediatamente expandiu o lançamento, com o circuito exibidor construindo novas salas para suprir o oceano de fãs que exigiam sua dose de Luke, Han e Leia. Era um mundo diferente, sem o mercado de home entertainment, então o cinema se tornou o templo para os devotos de uma nova "religião", os Jedi. Alguns cinemas exibiram Guerra nas Estrelas continuamente por mais de um ano. As regras mudaram. O público que consumia cinema, idem. E a cultura pop ganhou sua estrela maior.

O Império Contra-Ataca, lançado em 1980, conseguiu a façanha de anabolizar todos os aspectos de seu antecessor. Com Lucas, agora milionário, construindo seu império cinematográfico, a direção ficou nas mãos de Irvin Kershner, que teve um roteiro melhor, atores mais maduros e mais dinheiro para a produção. A série não perdeu sua narrativa supersônica e, embora a receita tenha sido menor que a primeira parte da saga, ainda saiu no topo das bilheterias daquele ano com larga vantagem diante da concorrência. Ah, e agora Guerra nas Estrelas era de fato uma "saga", com Império denominado Episódio V, dando a entender que a história começara muito antes dos acontecimentos narrados no filme de Lucas, e que os filmes seriam um recorte dentro desse universo vasto. O Retorno de Jedi encerrou a história em 1983 em uma aventura menos ambiciosa e mais pop, com o diretor Richard Marquand construindo um imenso comercial de brinquedos e outras traquitanas com a moldura da trama da família Skywalker.

O Império Contra-Ataca consolidou o status de saga de Star Wars

Essa foi a grande sacada de George Lucas. Não os produtos licenciados (a gente volta já a eles), e sim a história construída com elementos universais. Noções de lealdade e tragédia, embaladas em um drama familiar, fizeram com que qualquer um pudesse tecer uma conexão emocional com Guerra nas Estrelas, mesmo que não soubesse a diferença de Jabba, Alderaan e AT-AT. As influências de Lucas, do cinema clássico à literatura popular, alavancaram uma trama simples, mas nunca simplória, com elementos da jornada do herói descrita por Joseph Campbell em seu livro de 1949, O Herói das Mil Faces. Havia, portanto, substância na história do fazendeiro Luke Skywalker e sua aventura ao enfrentar o poderoso Império Galáctico, descobrindo suas origens ao longo do caminho. É por isso que Guerra nas Estrelas nunca foi rotulado como ficção científica (o gênero, por exemplo, de Jornada nas Estrelas): é uma "ópera espacial", uma aventura medieval que trocou castelos por estações espaciais, mas manteve o anti-herói falível, a princesa cativa, o cavaleiro negro, o velho sábio e o herói improvável. Embalado em uma ambientação fantástica e empolgante, o filme tornou-se irresistível para gerações sem fim.

Não é ao acaso que a obra de Lucas seja, também, uma das criações pop mais influentes da história. Não apenas do ponto de vista comercial, em que teve sua fórmula reproduzida em dúzias e dúzias de outros filmes, mas também como construção de marca, embalçando a paixão em uma lancheira de plástico. Quando a saga original foi mais uma vez relançada nos cinemas em 1997, quando completou duas décadas, Guerra nas Estrelas virou uma lembrança e Star Wars tornou-se a marca em torno da qual orbitava um império que já incluía brinquedos, colecionáveis, quadrinhos, literatura e um sem fim de traquitanas. Dois anos depois, Lucas retomou a série em seu lugar de origem, o cinema, traçando sua própria jornada com um prólogo contado em uma nova trilogia. O mundo, já entrando no novo século, era um animal diferente, treinado de acordo com os versículos ditados por Star Wars: séries cinematográficas já eram realidade consolidada, e filmes continuavam sua história fora dos cinemas com produtos que aproveitavam propriedades intelectuais.

A Ascensão Skywalker prepara-se para encerrar a saga espacial

George Lucas criou, portanto, o evangelho que foi seguido por toda saga de sucesso, de Harry Potter a O Senhor dos Anéis, de Jurassic Park a Indiana Jones, de Jornada nas Estrelas (que migrou da TV para o cinema por conta do sucesso de Star Wars) ao Universo Cinematográfico Marvel. Personagens que antecediam a obra de Lucas, como James Bond, ajustaram sua jornada no cinema para transformar cada filme em um evento midiático que tinha sobrevida fora dos cinemas. São centenas de personagens e sagas e universos, espalhados hoje não só no cinema, mas também na TV e em streaming, uma dieta regular de cultura pop que atende literalmente todos os gostos em todas as esferas. Mas nenhuma atingiu a perfeição pop da trilogia Guerra nas Estrelas original, que ensinou o mundo como consumir cultura pop, como compartilhar, como se emocionar, como sonhar. São filmes perfeitos em suas imperfeições, experiências que continuam a ser passadas por gerações que, mais do que nunca, não deixarão de conhecer o poder transformador da Força. Curiosamente, o próprio George Lucas não acreditava no sucesso de sua criação, e apostou com o colega Steven Spielberg que seu Contatos Imediatos do Terceiro Grau, lançado no mesmo 1977, seria um sucesso ainda maior. Spielberg aceitou a aposta, e cada cineasta se comprometeu a 2,5% dos lucros de seu filme para o colega. Adivinhem quem se deu muitíssimo bem com o combinado…

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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