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Entre Facas e Segredos traz um mistério que só Daniel Craig pode desvendar!

Roberto Sadovski

12/12/2019 05h14

Benoit Blanc não é um detetive qualquer. Ele soma a fama adquirida ao desvendar diversos casos de alta notoriedade, o que lhe rende perfis em revistas de prestígio, com um estilo elegante, quase anacrônico. Seus ternos bem cortados e fala suave, porém, mal escondem a mente analítica capaz de mapear uma cena de crime em segundos. Blanc é também um dos personagens mais fascinantes da ficção contemporânea, engrossando sem dificuldades as fileiras dos grandes detetives da cultura pop ao lado de Hercule Poirot ou Jessica Fletcher. Não deixa de ser irônico que seus olhos azuis pertençam a Daniel Craig, que não poderia estar mais distante de seu personagem mais famoso, o espião James Bond. Craig é a grande surpresa de Entre Facas e Segredos , thriller que traz a assinatura de Rian Johnson. Grande surpresa, mas nem de longe a única – o que deixa a experiência ainda mais saborosa!

O que Rian Johnson construiu com Entre Facas e Segredos foi um whodunit, uma trama de mistério e assassinato no estilo popularizado na literatura por Agatha Christie: a busca, em um elenco de suspeitos, por quem teria cometido um assassinato. Preparar o tabuleiro pode não parecer difícil – basta uma vítima, um motivo e uma coleção de possíveis culpados. A habilidade do diretor e roteirista, porém, é amarrar sua trama com reviravoltas, surpresas e revelações, deixando o público atordoado até o clímax, quando finalmente a cortina é erguida. E Johnson não faz feio, subvertendo as expectativas, acelerando a ordem dos acontecimentos e transformando a plateia ora em cúmplice empolgado, ora em observador estupefato. Ao longo da narrativa de Entre Facas e Segredos, não é a revelação do culpado que mais importa (mas, claro, ela importa!), e sim os fios amarrados entre os diversos jogadores.

Grande família: uma vítima, dez suspeitos!

Não atrapalha, claro, que o diretor tenha conseguido um elenco notável, em que cada ator parece determinado a superar o colega ao lado. O cenário é meticulosamente devorado por uma coleção de talentos que claramente está se divertindo tanto quando a gente do lado de cá. Na verdade, eu não via um elenco tão entrosado e tão à vontade desde que George Clooney e Brad Pitt juntaram uma turma para aquele assalto milionário em Las Vegas em Onze Homens e Um Segredo – algo me diz que Entre Facas e Segredos vai alcançar o mesmo prazer de sessões repetidas que o filme de Steven Soderbergh. A grande vantagem de Johnson, além do elenco incrível, é manter a escala de seu filme razoavelmente discreta, concentrando a ação em uma mansão imponente que termina como palco não só de um assassinato, mas também como catalizador para trazer à tona o pior de cada um dos suspeitos.

A mansão pertence ao milionário Harlan Thrombey (Christopher Plummer), escritor de sucesso (de livros de mistério, claro), encontrado com a garganta rasgada na manhã de seu 85° aniversário. Todos na casa são imediatamente suspeitos – alguns, obviamente, mais do que outros. Temos sua filha dedicada, Linda (Jamie Lee Curtis), casada com o fanfarrão Richard (Don Johnson). Sua nora, Jodi (Toni Collete), e neta, Meg (Katherine Langford), também aproveitam a festa – assim como seu filho mais novo, Walt (Michael Shannon). Já o arrogante Ranson (Chris Evans), filho de Linda e Richard, se manda após uma discussão com o avô, que tem na enfermeira Marta Cabrera (Ana de Armas) sua única amiga neste antro de serpentes. A morte de Harlan parece um caso claro de suicídio, ou assim conclui o detetive da polícia Elliott (LaKeith Stanfield). E seria esse o fim do inquérito, não tivesse alguém contratado anonimamente um investigador independente para observar todos os acontecimentos. Entre em cena Benoit Blanc.

Rian Johnson dirige Chris Evans e Ana de Armas

E é isso! Quanto menos você souber sobre a sequência de acontecimentos de Entre Facas e Segredos, melhor. Rian Johnson amarra cada fiapo da trama de maneira tão brilhante que seu entusiasmo é contagiante. Aos 46 anos, o diretor vem buscando mais e mais espaço no firmamento hollywoodiano, com cada novo filme mais ambicioso e brilhante que o anterior. Foi assim em A Ponta de Um Crime, de 2005, em que ele já mostrava olhar afiado para histórias de crime, o que ganhou mais camadas com o excêntrico e elegante Vigaristas três anos depois. A surpreendente ficção científica Looper (2012) lhe rendeu as chaves do universo Star Wars, e ele criou a aventura mais divisiva e inovadora da série em 2017 com Os Últimos Jedi, em que ele ousou ser criativo e desafiar a expectativa dos fãs com um filme emocionante e sofisticado, atrevendo-se a levar os personagens da saga para caminhos nunca trilhados.

Entre Facas e Segredos surge, portanto, como um respiro e também como o fim de um ciclo, retomando o gênero que o fez abraçar o cinema em primeiro lugar. O que Johnson criou não é uma simples modernização do mistério de assassinato, e sim uma celebração. O resultado é um filme sem nenhum pudor para não só abraçar seu gênero, mas também virá-lo pelo avesso, usando nossa própria expectativa como elemento narrativo, ao mesmo tempo em que salpica a trama com detalhes tão bobos quanto sensacionais – como a personagem que, ao contar uma mentira, provoca uma reação fisiológica que a faz vomitar! São detalhes quase imperceptíveis, mas claros como o dia em uma segunda sessão, fazendo de Entre Facas e Segredos um daqueles filmes que nos recebe de volta repetidas vezes de braços abertos. É também o melhor filme de Rian Johnson, extremamente pessoal e absolutamente universal – mesmo que não traga nenhum mordomo para chamar de culpado. E Daniel Craig pode ir se preparando, já que o mundo não vai se satisfazer, mas nem de longe, com uma única dose de Benoit Blanc!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.