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Os 20 melhores filmes da década!

Roberto Sadovski

02/01/2020 08h21

Que década, meus amigos, que década! Os últimos de anos viram surgir novos talentos, testemunharam a evolução da tecnologia e também a forma de ver, fazer e vender cinema. Grandes mestres criaram novas obras-primas, o conceito de astro tornou-se fluido (quem ainda vai ao cinema para ver o trabalho específico de um ator ou atriz?) e os filmes evoluíram, para o bem ou para o mal, em grandes espetáculos midiáticos, em universos compartilhados, em eventos que fizeram parte do zeitgeist. Foi curioso, vale ressaltar, observar como a morte do "filme médio", entre o filme independente e o cinema blockbuster, foi anunciada precocemente. Fechar nos vinte títulos abaixo não foi tarefa fácil, uma mistura de impacto emocional pessoal com obras que realmente deixaram sua marca na história, influenciando a indústria de maneira irrefreável. Ah, e foram dez anos sem um novo filme de James Cameron! Mas isso está prestes a mudar…

20. SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO
(Scott Pilgrim vs. The World, Edgar Wright, 2010)

"Somos o Sex Bob-Omb e a gente tá aqui pra fazer vocês pensarem sobre a morte e ficarem tristes e tal!"

Depois de dois filmaços feitos em casa, o britânico Edgar Wright foi entender como funcionava o jogo em Hollywood e assumiu a adaptaçao da série de quadrinhos independente de Bryan Lee O'Malley. O resultado é um filme que transborda estilo e substância, uma aventura pop emoldurada com rock and roll, videogames e superpoderes. Scott Pilgrim (Michael Cera) apaixona-se por Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead) e precisa derrotar seus sete ex-namorados malignos para conquistar seu coração. É um filme agridoce e um desfile dos talentos que dominariam os anos seguintes (Chris Evans, Anna Kendrick, Aubrey Plaza, Brie Larson), empacotado numa aventura acelerada e deliciosamente irreal. Tão à frente de seu tempo que o público não entendeu nada e o filme naufragou nas bilheterias. Mas foi o bastante para Edgar decidir não entrar no jogo dos blockbusters e fazer suas próprias regras no cinemão. Cinema autoral legítimo, pop ao cubo e que merece ser redescoberto.

19. DRIVE
(Nicolas Winding Refn, 2011)

"Existem centenas de milhares de ruas nesta cidade. Você não precisa conhecer a rota. É só me dizer quando e onde, e eu te dou uma janela de cinco minutos."

Nicolas Winding Refn criou um híbrido curioso. Drive é um filme de ação ultraviolento, lapidado cuidadosamente para ser exibido em "cinemas de arte", longe do circuito comercial. Assim como qualquer Velozes & Furiosos, a aventura com Ryan Gosling habita um universo hiperrealista, habitado por gângsters violentos, mulheres deslumbrantes e um anti-herói que é a materialização do cool. A grande jogada de Refn não é fugir dos clichês, e sim abraçá-los e subvertê-los, resultando em um filme estranhamente familiar, ainda que absolutamente original. Gosling é o protagonista sem nome, um dublê e mecânico primoroso que ganha uns trocados pilotando carros de fuga para assaltantes nervosos. Mas sua rotina precisa é quebrada quando ele decide ajudar sua vizinha, mãe solteira cujo marido está na prisão. A trilha sonora e a violência extrema resultam em um filme estilizado e envolvente, uma aventura de ação nada convencional que promoveu o encontro de dois mundos cinematográficos de maneira brilhante.

18. MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO
(Bridesmaids, Paul Feig, 2011)

"Me ajuda, eu sou pobre."

Por anos, Kristen Wigg esteve no banco de trás em uma pá de filmes bacanas, sempre como coadjuvante para ajudar os colegas a brilhar. Apesar do talento cômico superlativo, testemunhado por anos na labuta do Saturday Night Live, a chance de saltar para o time principal simplesmente não vinha. Missão Madrinha de Casamento foi a forma que ela encontrou de quebrar a barreira: ao lado da colega Annie Mumolo, Wigg escreveu o roteiro e reservou para si mesma o papel da protagonista. Quando sua melhor amiga (Maya Rudolph) anuncia seu casamento, Annie (a própria Kristen) é escolhida como uma das madrinhas e entra em guerra velada com Helen, rica e perfeitinha, que parece eclipsar tudo que ela faz. É quase uma metáfora da carreira da atriz, dando aqui um salto estratosférico ao entregar a direção ao amigo Paul Feig. O filme foi um estouro, e praticamente todas as comédias que se seguiram tentaram emular a "fórmula" de Bridesmaids. Sem falar que, além de Wigg e Rudolph, o filme revelou Melissa McCarthy, Rebel Wilson e Ellie Kemper. Ah, e aqueles diálogos…

17. OPERAÇÃO INVASÃO
(The Raid: Redemption, Gareth Evans, 2011)

"Nosso alvo é Tama Riyadi. Este homem se tornou uma lenda no submundo. Nossa missão é simples. Entramos e o eliminamos!"

Tudo em Operação Invasão é orquestrado para o diretor Gareth Evans e sua equipe de dublês bolares as coreografias de artes marciais mais insanas e espetaculares do cinema moderno. Assim como Matrix em 1999, este The Raid (e sua continuação, lançada em 2014) marcou uma nova forma de encarar cenas de luta como parte integrante da narrativa, e não só como perfumaria. Para isso, a trama é de uma simplicidade brilhante: em Jacarta, uma equipe da S.W.A.T. Fica presa em um edifício comandado por um gângster e seu exército de capangas. Cada andar é como uma fase de um videogame, com a sequência seguinte superando os riscos, as ideias e a ameaça, culminando em um combate até a morte no quase literal topo do mundo. Do lado de cá das câmeras, outro exército, o de dublês, trabalhou incessantemente para criar um visual único, absurdamente violento, e totalmente original. E ninguém sofreu mais do que o astro Iko Uwais, que no mundo real sairia de lá direto para o hospital ou o necrotério. Tudo pela arte!

16. GRAVIDADE
(Gravity, Alfonso Cuarón, 2013)

"Você está perdendo altitude rápido, Tiangong. Se continuar assim vai beijar a atmosfera. Mas não sem mim, porque você é minha última carona."

Alfonso Cuarón tem o dom de transformar arte em espetáculo, de fazer um filme sobre isolamente e solidão embalado como uma ficção científica milionária. Gravidade não só é de tirar o fôlego, como também se mostrou o parque de diversões perfeito para o diretor mexicano descobrir quais os limites da tecnologia cinematográfica e, com ousadia e coragem, ir além. A trama aqui é tão simples quanto genial: após um acidente em órbita, uma astronauta literalmente perdida no espaço precisa dar um jeito de voltar para a Terra. E é isso. Gravidade é um one-woman show de Sandra Bullock, que vai só desespero à esperança e de volta ao pânico em segundos, marcando a jornada de sua Ryan Stone na vastidão da órbita terrestre, buscando o caminho de casa. Em uma hora e meia, Bullock é submetida a mais provações em que qualquer humano normal perderia o chão, em uma aventura de tensão sufocante e beleza estonteante. Porque Cuarón não se contenta em criar soluções visuais tão realistas quanto espetaculares, misturando um caldeirão de tecnologias digitais para criar sua odisséia espacial. Mas isso é a perfumaria: a conexão humana com Ryan Stone, e seu renascimento épico, é o que realmente faz valer a viagem.

15. WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO
(Whiplash, Damien Chazelle, 2014)

"Não existe duas palavras mais prejudiciais na língua inglesa do que 'bom trabalho'."

Onde estava Damien Chazelle antes de Whiplash? Ah, não importa. Sua carreira disparou quando o roteirista e diretor criou essa pequena obra prima sobre obsessão e intensidade, um filme que coloca dois pólos tão distintos funcionando na mesma frequência sob a influência da mesma musa: a música. É ela que une Andrew (Miles Teller), que começa a estudar em um conservatório de prestígio em Nova York, e seu professor, Fletcher (J.K. Simmons), tão severo quanto intimidante, buscando (como já implica o subtítulo nacional) a perfeição em seus pupilos. Música é algo complexo, jazz é o Santo Graal dos músicos, e mesmo que Fletcher enxergue em Andrew a fagulha da genialidade, o filme mostra que pressão demais pode quebrar um talento nato – mas se esse talento for real, não há pressão que o quebre! Chazelle (que se firmou posteriormente com La La Land e com O Primeiro Homem)se enxerga em seus dois protagonistas: o jovem em busca de seu espaço na arte e o instrutor que não vai hesitar ante nenhum obstáculo para que esse potencial seja atingido. O resultado é exasperante, intenso e profundo, inclusive com as performances brilhantes de Teller e Simmons. E aquele final? Com "Caravan"? Sublime!

14. OS VINGADORES
(The Avengers, Joss Whedon, 2012)

"Você não entendeu! Não há trono, não nenhuma versão disso em que você saia vitorioso. Talvez seu exército venha e talvez não possamos detê-lo, Se não pudermos proteger a Terra, pode ter certeza que vamos vingá-la"

Até o lançamento de Os Vingadores, o Universo Cinematográfico Marvel (ou MCU) era uma ideia, um tiro no escuro cozinhado lentamente pelo produtor Kevin Feige. Claro, Homem de Ferro ressuscitou a carreira de Robert Downey Jr. em 2008. Thor e Capitão América: O Primeiro Vingador, ambos de 2011, foram sucessos modestos que indicavam um caminho, não uma certeza. Os Vingadores mudou todo o jogo. Não só para a Marvel, mas também para a indústria. Juntar personagens de filmes diferentes em uma única aventura em larga escala não era uma estratégia popular, mas Feige, ao lado do diretor Joss Whedon, peitou o desafio – e nada foi o mesmo. O filme que coloca os heróis mais poderosos da Terra (o trio já citado, além da Viúva Negra, Gavião Arqueiro e Hulk) contra o deus Loki e um exército alienígena invadindo Nova York parecia um gibizão materializado em filme, uma aventura com a mistura perfeita de ação e humor, de drama e ficção científica. Por fim, foi a interação dos personagens, que surgiam como pessoas de verdade, com falhas e dúvidas, que trouxe a conexão com a plateia – e deu origem a outros grandes filmes do estúdio, de Guardiões da Galáxia a Capitão América: O Soldado Invernal, de Doutor Estranho a Thor: Ragnarok, culminando na dobradinha Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato. Filmes baseados em HQs há muito deixaram de ser anomalias para se tornar o próprio tecido do cinemão hollywoodiano. Para o bem e para o mal, tudo começou aqui.

13. ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD
(Once Upon a Time in Hollywood, Quentin Tarantino, 2019)

"Qualquer um que matar alguém por acidente em uma briga vai preso. O nome disso é homicídio."

Quentin Tarantino alardeou nos últimos anos que logo encerraria sua carreira. Se Era Uma Vez em Hollywood fosse seu trabalho derradeiro, seria uma despedida perfeita. Ao mesmo tempo uma carta de amor e uma celebração à Los Angeles e ao cinemão americano, o filme que coloca Leonardo DiCaprio e Brad Pitt como dois avatares de uma Hollywood prestes a experimentar uma mudança profunda – um à frente das câmeras, outro contente em existir nos bastidores – é uma fábula justamente sobre o poder transformador do cinema, sua capacidade em reescrever a realidade, seu poder para nos transportar a um lugar idílico, às vezes imperfeito, sempre irresistível. Usar Sharon Tate como a cola que conecta o real e o lúdico é a cereja neste bolo de referências pinceladas da própria criação de Tarantino em LA, a realidade (re)vista pelos olhos de quem construiu não só uma carreira, mas também uma vida, dedicada à paixão pela arte. E Margot Robbie como Sharon Tate, no cinema assistindo a um filme com Sharon Tate, é um daqueles momentos que só o cinema pode criar.

12. DE VOLTA AO JOGO
(John Wick, Chad Stahelski, 2014)

"John não era exatamente o bicho-papão. Ele era quem a gente mandava pra matar a porra do bicho-papão."

A sinopse de De Volta ao Jogo é perfeita em sua simplicidade. Maior assassino do mundo se aposenta ao se apaixonar. Ela morre, ele fica com um cachorro, mas gângsters invadem sua casa, arrebentam sua cara, roubam seu carro e matam seu cachorro. Tudo que lhe resta é fazer o que faz melhor. Ponto. Fórmula para filme de ação genérico, certo? Mas algo nessa produção com Keanu Reeves à frente se recusou a entrar na vala comum dos Busca Implacável e O Protetor da vida. Talvez seja a direção de Chad Stahelski (dividindo o trabalho com um não creditado David Leitch), que usou seu background como um dos grandes coordenadores de dublês do cinema para criar cenas que, se por vezes desafiam a física e a biologia, reescrevem as regras da ação. Talvez seja a atitude iconoclasta com o gênero, repaginado com sensibilidade do novo século. Talvez seja o próprio Keanu Reeves, que ainda resiste em ser colocado em uma caixa e continua se reinventando. E talvez, ora, porque John Wick é um personagem incrível que a gente nem sabia que precisava!

11. A CHEGADA
(Arrival, Denis Villeneuve, 2016)

"Se você pudesse ver sua vida inteira do começo ao fim, você mudaria alguma coisa?"

Desde que foi revelado ao mundo com o drama Incêndios, o diretor franco-canadense Denis Villeneuve mostrou-se um artista de grandes ideia com um canvas cada vez mais amplo. Seus três filmes seguintes – Os Suspeitos, O Homem Duplicado e Sicario – exploraram a transformação do homem comum quando exposto à obsessão e violência. Mas nada antecipava a poesia elegante de sua primeira ficção científica. A Chegada amplifica os temas recorrentes em sua carreira, mas também oferece um alento, materializado na figura da cientista Louise Banks (Amy Adams), convocada pelos militares para tentar se comunicar com uma espécie alienígena que chega à Terra em doze espaçonaves colossais que aparecem em diferentes pontos do mundo. A metáfora não é sutil – o filme é sobre a dificuldade do homem se comunicar, e como essa Babel moderna pode levar à guerra e ao caos. Villeneuve, porém, conduz o texto com delicadeza, ancorando a performance de Amy Adams com emoção genuína e mostrando que, mesmo com conceitos fantásticos e com um gênero tão complexo e permissivo como a ficção científica, seu olhar sempre estará fixo na condição humana.

10. HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO
(Spider-Man Into the Spiderverse, Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, 2018)

"Miles, o mais dificil nesse trabalho é que você nem sempre consegue salvar todo mundo."

Disney, Pixar, Illumination, DreamWorks. O mundo da animação digital no cinema é plural, mas enquanto filmes como Frozen, Meu Malvado Favorito e Os Incríveis parecem avançar em seu hiperrealismo, seu formato parece confinado a este mesmo simulacro. Os realizadores de Homem-Aranha no Aranhaverso, em especial os produtores Phil Lord e Chris Miller, enxergaram na tecnologia uma caixa de brinquedos mais ampla, em que narrativa, formato e experimentalismo convivem em harmonia. Deu liga. Não existe nada visualmente tão impactante como essa aventura do herói da Marvel: colorida, salpicada de detalhes gráficos deslumbrantes, pervertendo regras do que "não pode" ser usado em animação. Ao que parece a palavra "não" foi riscada do dicionário da turma. A trama também é um deleite, acompanhando Miles Morales, adolescente que, ao ser picado por uma aranha geneticamente modificada, ganha poderes fantásticos – e descobre realidade paralelas espelhadas em dezenas de mundos, cada um com seu próprio Homem-Aranha. Quando estes mundos entram em rota de colisão, ele precisa descobrir que (você já sabe) grandes poderes trazem grandes responsabilidades!

9. INSIDE LLEWYN DAVIS – BALADA DE UM HOMEM COMUM
(Inside Llewyn Davis, Joel e Ethan Coen, 2013)

"Se nunca foi nova, e não parece envelhecer, então é uma canção folk."

Os irmãos Joel e Ethan Coen gostam de pessoas quebradas. Em sua brilhante filmografia encontramos, em tragédias e em comédias, homens e mulheres em constante conflito com as barreiras erguidas pela vida. Inside Llewyn Davis não foge do tema, mas o faz com uma combinação brilhante de música e melancolia. Oscar Isaac é um cantor folk tentando se estabelecer como músico na cena de Greenwich Village em 1961. Se ele fosse um amigo, seria prudente chamar no canto e dizer para ele parar de se sabotar: as agruras que impedem seu crescimento profissional e pessoal invariavelmente partem dele mesmo. O filme acompanha uma semana em sua vida, violão em punho, frustração crescente, ambição fracassada, futuro incerto – e um gato amarelo marcando cada momento! Inside Llewyn Davis é estranho e envolvente…. Parece incomodar, mas, quando termina, sentimos uma vontade imensa de retornar a seu mundo que, como os bares esfumaçados, é gelado no inverno do lado de fora e aconchegante por dentro.

8. O LOBO DE WALL STREET
(The Wolf of Wall Street, Martin Scorsese, 2013)

"Deixa eu te falar uma coisa. Não existe nenhuma nobreza na pobreza. Eu já fui pobre, e eu já fui rico. E eu sempre escolho ser rico."

Os anos 2010 trouxeram Martin Scorsese, um dos últimos grandes gênios do cinema, disposto a ampliar ainda mais seu já vasto repertório. As Aventuras de Hugo Cabret foi o modo com que ele se divertiu com a tecnologia 3D, ao mesmo tempo em que criou sua primeira história assumidamente infanto-juvenil. O Lobo de Wall Street chegou dois anos depois injetando um insuspeito bom humor na história de Jordan Belfort, que nos anos 90 tornou-se estupidamente rico com a bolsa de valores, em esquemas envolvendo crime e corrupção (e toneladas de drogas recreativas), o que finalmente lhe rendeu 22 meses em uma prisão federal. Sua quinta colaboração com Leonardo DiCaprio também se mostrou a mais madura, com o astro entregando uma de suas melhores performances, assumindo os excessos de uma época marcada pela opulência e encontrando, ao lado de seu mentor e diretor, um modo leve para contar uma história tão densa e contemporânea. Como bônus, Scorsese revelou aqui o talento de Margot Robbie e ainda criou a cena mais engraçada da história envolvendo DiCaprio, um carro esporte e ácido vencido…

7. TRAMA FANTASMA
(Phantom Thread, Paul Thomas Anderson, 2017)

"Uma casa que não muda é uma casa morta."

A parceria de Daniel Day Lewis com o diretor Paul Thomas Anderson já rendeu o melhor filme da década – da primeira década do século 21 – com o espetacular Sangue Negro. Trama Fantasma não alcança os mesmos picos, mas não traz essa ambição. Longe de desenhar um retrato da América por meio da obsessão de um homem por poder e por petróleo, aqui a ideia fixa é outra: atingir a perfeição. É assim que o estilista Reynolds Woodcock leva a vida na alta roda da Londres dos anos 50, vestindo as damas da sociedade em uma rotina que se tornara enfadonha. Uma jovem de personalidade forte, Alma (a incrível Vicky Krieps), interrompe esse marasmo ao se tornar sua musa e amante. Com narrativa surpreendentemente bem humorada, mas sem abrir mão de uma tensão romântica sufocante, Trama Fantasma mostra a precisão do trabalho de Anderson, amplificada quando ele divide o holofote com um ator tão imerso em sua performance como Day Lewis. É envolvente, é experimental, é luxuoso e é absolutamente imprevisível. É também a despedida de Daniel Day Lewis de seu ofício, servindo como testamento a um dos atores mais espetaculares que o cinema já viu.

6. O GRANDE HOTEL BUDAPESTE
(The Grand Budapest Hotel, Wes Anderson, 2014)

"Você não pode prendê-lo só porque ele é um maldito imigrante, ele não fez nada de errado!"

Wes Anderson é como os Ramones: em cada novo trabalho sabemos exatamente o que vamos encontrar, e é sempre sensacional! Com O Grande Hotel Budapeste, entretanto, ele pode ter atingido a perfeição em sua fórmula de perfeita simetria, artificialismo e personagens peculiares. Como um autor de grandes contos de fada, Anderson narra a amizade de Gustave H (Ralph Fiennes), concierge do hotel mais famoso na República da Zubrowka, e Zero Mustafa (Tony Revolori), o paquete que se apaixona por uma doceira, nos anos entre a primeira e a segunda guerras. A trama gira em torno do roubo de uma pintura renascentista de valor imensurável, mas é mera desculpa para o diretor desfilar uma história envolvente sobre romance, traição, amizade, lealdade e guerra – emoldurada por cenários de apuro visual profundo, que identificam e desvendam a conexão emocional entre dezenas de personagens…. e dezenas de atores que, faça chuva ou faça sol, estão prontos para atender ao chamado de Wes Anderson.

5. A ORIGEM
(Inception, Christopher Nolan, 2010)

"Qual o parasita mais resistente? Bactéria? Um vírus? Uma ideia. Resiliente… altamente contagiosa. Uma vez que uma ideia se apossou da mente, é quase impossível erradicá-la."

Alguns cineastas transformam grandes conceitos em filmes independentes, longe da interferência dos grandes estúdios em sua efervescência criativa. Christopher Nolan, por outro lado, aprendeu a fazer de suas grandes ideias sucessos comerciais indiscutíveis, uma bem vinda anomalia na arquitetura do "mais dinheiro, menos controle" vigente em Hollywood. A Origem é o que acontece quando um autor ganha sinal verde depois de entregar não só um sucesso de 1 bilhão de dólares (no caso, Batman – O Cavaleiro das Trevas), mas também um filme que se tornou fenômeno cultural (impossível apagar da memória o retrato lunático de Heath Ledger como o Coringa). A liberdade, no caso, foi traduzida em uma ficção científica de conceitos fantásticos e realização impecável. Leonardo DiCaprio lidera uma equipe que rouba segredos corporativos ao invadir os sonhos de altos executivos. Seu talento, entretanto, é colocado à prova quando o trabalho seguinte consiste em plantar uma ideia na mente de um CEO, uma série de gatilhos em que sonhos se confundem com novos sonhos, ao mesmo tempo em que fogem de uma outra equipe que parece prever seus movimentos. Visualmente, A Origem é um arraso, traduzindo em imagens conceitos abstratos que, com a direção firme de Nolan, passam longe da verborragia cabeçuda para se materializar em cenas de ação tão empolgantes quanto imprevisíveis. Talvez seja essa a melhor definição do diretor, que definiu sua década com blockbusters cerebrais e populares – Interestelar e Dunkirk entrariam facilmente nessa lista. O cinema, assim, sobrevive!

4. PARASITA
(Parasite, Bong Joon-Ho, 2019)

"Jessica. Filha única. Illinois, Chicago."

Parasita é um filme político – talvez a obra mais em sintonia com os dias de hoje. Porque fala sobre pessoas de verdade em um país de verdade experimentando na pele as consequências de uma política predatória real. O diretor Bong Joon-Ho, então, lança a pergunta: o que você faria se surgisse a oportunidade de triunfar na selva capitalista, se ninguém se machucasse com isso? A resposta está na família de golpistas – mais por necessidade do que por opção – que se entrelaça na casa e na vida de uma família rica. Como empregados, eles são simplesmente parte da mobília, e o "acordo" segue tranquilo até que surge uma terceira casta, ainda mais rasteira, que ameaça ruir essa estrutura. Parasita é um espelho incômodo, e é curioso observar a reação de cada pessoa exposta ao filme e seus comentários totalmente embasados em sua posição social. Afinal, quem são os "parasitas"? Os ricos que sugam a classe trabalhadora para manter sua vida perfeita? Os pobres, que enxergam uma oportunidade de sobreviver? Eu? Você? O melhor filme de 2019 planta essa perguntas. Mas não faz questão de entregar nenhuma resposta. Isso só depende de você.

3. CORRA!
(Get Out, Jordan Peele, 2017)

"Eu quero seus olhos, cara. Eu quero ver o que você enxerga."

Jordan Peele construi sua carreira como ator, roteirista e produtor, fazendo comédia na TV. Talvez tenha sido esse um dos motivos para ninguém perceber o tsunami que era Corra! chegando. Melhor assim. Sem cerimônia, sem gordura, Peele ajudou a escrever o novo terror americano ao criar um filme que não tenha a menor ambição em se prender ao gênero. Usando a moldura do terror e da ficção científica, com doses maciças de humor e comentário social afiado, Corra! consegue falar sobre raça e racismo, sobre privilégios e provocações, tudo isso sem perder a mão no entretenimento, criando um híbrido que empolga na mesma proporção que provoca reflexão. É a ideia de diversidade e representatividade apresentada numa alegoria que vai ao extremo, ancorada em seu protagonista. Chris (Daniel Kaluuya) é um fotógrafo, negro, que parte com a namorada, Rose (Allison Williams), que é branca, para um fim de semana com a família da moça. A tensão racial é rapidamente mitigada pela conversa progressista do pai de Rose, Dean (Bradley Whitford), mas o desconforto inevitável logo escala para a estranheza – e finalmente para uma resolução que parece saída dos filmes de ficção científica B dos anos 50. Original, equibrado e absolutamente assustador, Corra! é um filme ciente de sua importância social e cultural, mas nunca esquece também de ser entretenimento. A combinação perfeita.

2. A REDE SOCIAL
(The Social Network, David Fincher, 2010)

"Você vai passar a vida achando que as garotas não gostam de você porque você é um nerd. E eu quero que você saiba, do fundo do meu coração, que isso não é verdade. Será porque você é um babaca."

Talvez a história da criação do Facebook não tenha acontecido exatamente como David Fincher mostra em A Rede Social. Talvez Mark Zuckerberg não seja o idiota arrogante e ambicioso interpretado por Jesse Eisenberg. Talvez suas palavras não tenham existido da forma brilhante como são escritas por Aaron Sorkin. Talvez…. Mas é curioso observar, uma década depois de seu lançamento, como o filme de Fincher traçou o paralelo entre a revolução promovida pelo Facebook e o artificialismo das relações construídas por meio de uma rede social global. Tudo isso teve um peso, claro, em seu criador. Se hoje o Zuckerberg real precisa depôr no congresso sobre o escândalo do compartilhamento de dados, no cinema ele é retratado como um gênio que, humilhado depois de um fora, cria o Facebook em seu dormitório em Harvard – seis anos depois, ele é o mais jovem bilionário da história e está encarando um processo dos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss (Armie Hammer), que "inspiraram" o aplicativo, e de seu ex-melhor amigo, Eduardo Saverin (Andrew Garfield), co-criador do Facebook. Os relacionamentos reais se deterioram à medida em que a popularidade do Facebook dispara, e nessa dicotomia está o coração de A Rede Social – e, talvez, de todo o mundo moderno: quem somos como seres humanos quando existimos basicamente na frente de um computador? Não existe retrato mais preciso ou mais melancólico da sociedade, hoje, do que essa história contada com a precisão habitual de um dos melhores diretores em atividade. A verdade, afinal, é superestimada.

1. MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA
(Mad Max: Fury Road, George Miller, 2015)

"Meu nome é Max. Meu mundo é fogo e sangue."

George Miller não tinha um roteiro quando filmou Estrada da Fúria. Quer dizer, ele não tinha um roteiro formal, com marcações, ambientações, diálogos: o filme brotou em sua mente com imagens, e foi com imagens, com storyboards, que ele desenvolveu o retorno do anti heroi Mad Max, guerreiro solitário do deserto pós-apocalíptico. Se ele perdeu seu astro original (Mel Gibson deu lugar a Tom Hardy, e o mundo ficou ok com isso), ganhou em compensação uma heroina que já nasceu icônica. Furiosa, papel de Charlize Theron, divide o protagonismo com Max em uma jornada através do deserto, fugindo de seu opressor (Immortan Joe, papel de Hugh Keays-Byrne) em busca do mítico "lugar verde", um oásis para a violência e a aridez do mundo. As mulheres, por sinal, são a chave para o futuro segundo o evangelho de Miller: são as mães que seguram a chave para o futuro, as mulheres que podem reverter o dano causado ao planeta. Afinal, "Quem quebrou o mundo?" se torna pergunta recorrente na narrativa. A história assumidamente feminista pode dar a impressão que Max é relegado a um papel coadjuvante, mas nada poderia estar mais distante da verdade: ele é o gatilho da mudança, o elemento surpresa, o homem quebrado pelo futuro, que precisa fazer as pazes com o passado e recuperar um fragmento de sua alma. Todo esse papo esotérico-filosófico é embalado, claro, pelo filme mais espetacular que o cinema teve a ousadia de lançar nos últimos anos (décadas?), uma aventura de execução tão impecável quanto inacreditável, um filme com energia cinética pulsante, sem nunca esquecer as relações humanas que criam a conexão emocional com quem está do lado de cá. Nenhum segundo é desperdiçado, nenhum diálogo é excessivo, nenhuma ação é sem propósito. Se existe um filme perfeito no mundo, se existe a prova que o cinema ainda é capaz de criar a mais pura beleza, gerada a partir do absoluto caos, ele se chama Mad Max: Estrada da Fúria. Nenhum filme desde então alcançou sua excelência. Mas espero que ninguém pare de tentar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.