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Vitória de 1917 no Globo de Ouro deixa disputa pelo Oscar... imprevisível!

Roberto Sadovski

06/01/2020 14h23

Por essa ninguém esperava. Nem o diretor Sam Mendes, que subiu ao palco do Globo de Ouro para receber o troféu como melhor diretor, e depois como melhor filme para seu 1917. O filme, que estreou em poucas salas nos EUA no dia do Natal, mas terá seu circuito ampliado essa semana (por aqui a data é 23 de janeiro), não estava em nenhum radar como favorito ao prêmio e, de repente, saltou para o banco da frente como um dos favoritos para abocanhar um Oscar na cerimônia que acontece em 9 de fevereiro.

Não que o Globo de Ouro sirva como termômetro para os prêmios da Academia: a premiação concedida pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (ou HFPA) conta com pouco mais de 90 votantes e é inexpressiva como parâmetro. Mas a festa tem força na mídia, e no mínimo serve para jogar luz em filmes que talvez membros da Academia não estivessem prestando tanta atenção. Com os prêmios dos sindicatos sendo entregues nas próximas semanas será possível dimensionar o tamanho do impacto que a vitória de 1917 no Globo de Ouro pode ter causado.

Trailer de 1917

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A verdade é que a consagração deste filme ambientado nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial bagunça ainda mais o coreto de um Oscar que já se aproximava sem um favorito isolado. Até então, Era Uma Vez… em Hollywood, de Quentin Tarantino, seria o único filme com indicações, vá lá, garantidas – suas três vitórias no Globo de Ouro (melhor filme musical/comédia, roteiro e ator coadjuvamnet para Brad Pitt) mostram o carinho generalizado pela declaração de amor ao cinema do diretor de Kill Bill e Bastardos Inglórios.

Nas últimas semanas, o coreano Parasita, disparado o melhor filme de 2019, pareceu crescer em importância, com o diretor Bong Joon-Ho e seu elenco cortejados pela realeza hollywoodiana em eventos disputados em Los Angeles. A essa altura eu não duvido que o filme consiga ir além de uma indicação como melhor filme estrangeiro, surgindo em outras categorias (direção, fotografia, direção de arte, roteiro e até como melhor filme) e ressaltando o compromisso velado do cinemão com a diversidade – mesmo que consagrar um filme rodado longe das asas de Hollywood ainda seja uma ousadia inédita da Academia.

O diretor Sam Mendes trabalhando duro no set de 1917

1917, por sinal, traz todos os predicados de um filme que merece ser coberto de prêmios. É um drama de guerra não menos que espetacular, que alia uma produção tecnicamente perfeita com uma narrativa de emoção genuína, em que o drama humano jamais fica em segundo plano para a pirotecnia. A câmera de Mendes acompanha, no que parece ser uma única tomada de quase duas horas, dois soldados (interpretados por George MacKay e Dean-Charles Chapman) em uma missão em território ocupado. Eles precisam fazer chegar em um batalhão ordens para suspender um ataque programado para a manhã seguinte – a inteligência militar descobriu se tratar de uma armadilha, e a ação pode custar a vida de 1600 homens, inclusive a do irmão de um dos soldados.

A premissa simples foi executada com precisão cirúrgica que definitivamente precisa ser vista na maior tela com o melhor som. O trabalho do fotógrafo Roger Deakins é primoroso, com suas lentes acompanhando seus protagonistas sem cortes – a ilusão do plano sequência impressiona, mas o malabarismo técnico não surge como firula visual, e sim como parte integrante de uma narrativa sufocante que pretende simular a urgência e a tensão de estar no campo de batalha. O resultado é emocionalmente exaustivo e absolutamente espetacular.

As próximas semanas serão decisivas para determinar o peso de 1917 na cerimônia do Oscar. Indicações técnicas são uma certeza, mas o reconhecimento de George MacKay entre os atores, maior corpo votante da Academia, apontaria um caminho mais preciso rumo à consagração como melhor filme. O que seria curioso, já que este drama de Sam Mendes (que, vale lembrar, foi premiado em sua estreia na direção com Beleza Americana) é cinemão tradicional, que defende unicamente a bandeira do bom cinema – o que pode melindrar uma fatia considerável entre os votantes que enxerga, não sem razão, o Oscar como plataforma global para a inclusão.

É uma faca que corta para os dois lados, já que esse pensamento gerou ano passado uma vitória estranha para o opaco Green Book, um filme "seguro" e tradicional, ainda que disfarçado com um discurso (pobre) sobre tolerância racial. Nem em um ilhão de anos o filme de Peter Farrelly seria superior aos preteridos Infiltrado na Klan, A Favorita ou Roma.

O Irlandês é a Netflix que ainda não decolou nas premiações mais consagradas

Por falar em Roma, a Netflix ainda não conseguiu sentar à mesa dos adultos nas premiações de cinema. Na cerimônia do Globo de Ouro, a plataforma de streaming chegou com os dois pés na porta, representada por filmes de peso como O Irlandês, História de Um Casamento, Dois Papas e Meu Nome É Dolemite. Com 34 indicações, foi para casa com dois troféus – Laura Dern como atriz coadjuvante por História de Um Casamento e Olivia Colman como atriz em série dramática por The Crown.

Embora ainda seja cedo para declarar uma derrota, o fato é que o entusiasmo pelos filmes do estúdio (já dá para chamar de estúdio, certo?) ainda não atingiu a consagração artística que a Netflix parece tanto almejar depois de seu evidente sucesso comercial. Até algumas semanas atrás eu daria como certo o favoritismo de O Irlandês, especialmente em uma temporada que não gerou nenhum outro filme que aliou com tamanho burburinho com talento inequívoco.

Vale lembrar também que o drama com Adam Sandler, Joias Brutas, totalmente ignorado pelo Globo de Ouro, tem feito boa carreira no circuito independente americano e chega por aqui (e, acredito, também para o resto do mundo) via Netflix ao fim de janeiro. A votação para definir os indicados ao Oscar termina amanhã, com seu anúncio marcado para o dia 13. Com a vitória no Globo de Ouro de 1917 (e, vá lá, de Era Uma Vez em Hollywood), alguém arrisca um palpite?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.