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Por que, mesmo com 11 indicações, Coringa não chega ao Oscar como favorito

Roberto Sadovski

14/01/2020 02h52

Afinal, adaptações de história em quadrinhos de super-heróis são cinema ou não? Com onze indicações ao Oscar, Coringa insiste que sim. É um paradoxo, aos poucos compreendido pela indústria e estranhamente alimentado pelos fãs. Filmes baseados em gibis de figuras coloridas sempre foram percebidos como algodão doce, como prazer passageiro que não trazia o estofo necessário para que fosse considerado "artisticamente relevante" por seus pares. A primeira adaptação de um herói dos quadrinhos a ser reconhecida pela Academia foi Superman, que ainda nos anos 70 foi lembrado por sua trilha, montagem e som, ganhando uma prêmio especial por seus efeitos visuais. Uma década depois foi a vez de Batman ganhar um Oscar em sua única indicação, a direção de arte neo gótica de Anton Furst. Desde então, um ou outro filme baseado em uma HQ foi lembrado, geralmente em categorias técnicas, uma forma de a Academia mostrar que, sim, eles faziam parte do clube, mas ainda não podiam sentar na mesa dos adultos.

Batman – O Cavaleiro das Trevas ensaiou a mudança mais radical do Oscar contemporâneo quando foi ignorado como melhor filme, mesmo garfando oito indicações e duas estatuetas: uma para melhor edição de som (que honestamente só interessa mesmo a categoria); outra, essa sim notável, para Heath Ledger, escolhido postumamente como melhor ator coadjuvante. Ser preterido na categoria principal foi o fator que fez a Academia ampliar o número de indicados. Até porque quando o filme de Christopher Nolan foi lançado, num já distante 2008, aventuras cinematográficas baseadas em heróis dos quadrinhos já se firmavam como força-motriz do cinema pop, exigindo seu lugar de direito. Foi o mesmo ano que Homem de Ferro iniciou o Universo Cinemagráfico Marvel, que ano passado com Pantera Negra finalmente cravou a primeira indicação de um super-herói dos gibis para melhor filme – entre sete possibilidades, terminou com três Oscar: trilha sonora, figurino e direção de arte. Mas Pantera Negra teve de se erguer para além de seu nicho, firmando-se como fenômeno cultural global para que pudesse ter uma chance.

Pantera Negra foi indicado como melhor filme ano passado

Coringa seguiu a mesma trajetória. Desde seu lançamento, o diretor Todd Phillips foi incansável em seu esforço para disassociar seu trabalho de uma mera adaptação de um personagem de gibis de super-heróis. Em uma das várias entrevistas desde que o filme consagrou-se no Festival de Veneza, o responsável por Se Beber, Não Case chegou a afirmar que a bilheteria de mais de 1 bilhão de dólares em todo o mundo devia-se não a associação do protagonista com um universo mais vasto, ancorado pela figura mítica do Batman, ou mesmo pelo reconhecimento da propriedade intelectual: o público, segundo ele, fora atraído pelo tema percebido no subtexto, pela relação nada sutil da doença mental que aflige o Palhaço do Crime com o deterioramento do tecido da sociedade, pela opressão dos desassistidos com a força de pressão econômica, pelo desiquilíbrio cada vez mais acentuado na balança entre ricos e pobres. Para Phillips, Coringa promoveu uma catarse necessária em um mundo pendendo para o autoritarismo e para a truculência, o que seria o verniz para que o filme se livrasse das limitações do nicho nerd. Uma bobagem. Como eu comentei quando Coringa chegou aos cinemas, filmes baseados em personagens dos quadrinhos parecem estar eternamente em busca de confirmação, de ser reconhecidos como "arte" por seus pares.

Claro que um cineasta vai vender seu peixe da forma que achar melhor. Mas Coringa é mesmo fruto da força da DC Comics, que ao longo de oito décadas nutriu sua propriedade intelectual ao ponto em que a trama pudesse ser contada sem as amarras do realismo, mantendo uma estrutura lúdica que pode escancarar a sujeira da civilização sem precisar apontar os dedos a pessoas ou cidades. Sem Gotham, sem a poderosa família Wayne, sem a iconografia, Todd Phillips contaria uma história igualmente poderosa, mas não teria a metade da atenção que despertou. As (exageradas) onze indicações ao Oscar são o modo de a indústria ganhar duplamente: reconhece o formato e joga um osso para um sub gênero que vem mantendo com consistência o público nos cinemas, ao mesmo tempo em que afaga seus operários e crava um carimbo de "arte" em um filme de gibi. Que é cinema, não importa o que alguns mestres do ofício insistam em propagar. Os fãs, por sua vez, sentem-se vingados, como se o Oscar fosse um selo de garantia a ser exibido ao mundo sempre que alguém torcer o nariz para uma adaptação de uma história em quadrinhos.

Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas, o filme de gibis que mudou o jogo

Um olhar mais amplo, porém, mostra que tudo é um truque. Coringa teve onze indicações ao Oscar, mas não é o favorito. Sua única chance concreta de ser premiado está em Joaquin Phoenix – sua performance é o alicerce de todo o filme e o ator é ídolo entre seus pares. Além disso, a Academia apontou três outros filmes com dez indicações cada, um empate técnico que coloca O Irlandês, 1917 e Era Uma Vez em Hollywood no mesmo patamar do filme da DC. Neste cenário, ainda vejo uma leve vantagem para Tarantino, mesmo que o drama de guerra de Sam Mendes tenha se posicionado como uma força a ser batida, principalmente depois dos excelentes números em sua estreia nos cinemas. As premiações das associações de produtores, diretores e atores, que acontecem nas próximas semanas, pintarão um panorama mais concreto do que esperar da cerimônia do Oscar. Mas a Academia, mesmo com a chance de quebrar os moldes, optou pelo caminho seguro, ignorando o cinema mais ousado dos irmãos Safdie (Jóias Brutas não teve nenhum amor); as diretoras que trouxeram alguns dos melhores filmes de 2019 (Greta Gerwig por Adoráveis Mulheres; Lulu Wang por A Despedida; Lorene Scafaria por As Golpistas; Mati Diop por Atlantics); o poderoso segundo ato de Jordan Peele, que depois de Corra! criou mais uma obra perturbadora e urgente com Nós. Pois é. Em um mundo em que Coringa termina sendo uma aposta confortável, ao menos podemos torcer para que as seis indicações de Parasita não sejam apenas uma forma de simular modernidade. Em um mundo perfeito, o discurso da vitória do melhor filme seria em coreano.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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