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Com elenco poderoso, O Escândalo reflete uma verdade inconveniente

Roberto Sadovski

21/01/2020 03h05

Em Herói Por Acidente, uma pérola do humor ácido dirigida por Stephen Frears em 1992, Geena Davis faz a produtora de um programa sensacionalista que se torna parte da notícia ao ser salva por um desconhecido, ao lado de uma centena de outros passageiros, depois de um desastre aéreo bizarro. Ao receber um prêmio, horas antes do acidente, ela compara uma boa reportagem a uma cebola, em que novas camadas são reveladas quando cortamos mais fundo – o choro seria consequência. O Escândalo é essa cebola. O filme do diretor Jay Roach mostra o que aconteceu quando mulheres, vítimas de assédio sexual, colocaram reputação, carreira e dinheiro em risco para apontar o dedo a um assediador – que calhava de ser também um dos homens mais poderosos do jornalismo televisivo americano. À medida que a trama avança, e mais mulheres peitam esse sistema, revela-se também novas camadas da podridão que muitas vezes é regra em ambientes controlados por homens que abusam de sua posição de poder. É uma história tão envolvente quanto repugnante, que recebe aqui um tratamento sensacionalista que mal arranha a superfície da questão. Talvez Roach não achou que precisasse ir tão fundo. Afinal, ele tinha em seu canto do ringue uma força da natureza chamada Charlize Theron.

Antes de mais nada, vamos dar nome aos bois. O Escândalo é um recorte dos acontecimentos que terminaram com a demissão de Roger Ailes (John Lithgow), CEO e criador da Fox News, a voz do conservadorismo e da direita chucra ianque. O sucesso do canal blindou Ailes por anos, fazendo com que as mulheres a quem ele pedia favores sexuais em troca de posições de poder mantivessem seu silêncio. Isso terminou em 2016, quando uma ex-âncora do canal, Gretchen Carlson (Nicole Kidman), processou o executivo, alegando que ela fora demitida por não ceder a seus constantes avanços. Aos poucos outras mulheres a seguiram, inclusive uma das estrelas da Fox, Megyn Kelly (Charlize Theron), que se recusou a defender o chefe e depois revelou que também fora vítima de assédio. Margot Robbie surge como Kayla, personagem fictícia que representa as vítimas do modus operandi de Ailes, geralmente novatas nas trincheiras do jornalismo. Foi um escândalo pesado, o primeiro a derrubar uma figura de mídia poderosa nos Estados Unidos, marco zero para uma mudança radical de postura da mídia e também para sua vigilância.

Charlize Theron desaparece no papel de Megyn Kelly

O Escândalo busca o tom satírico de A Grande Aposta, em que Adam McKay revelou a história por trás de uma das maiores crises financeiras da história moderna. Mas o assunto abordado aqui não abre espaço para risadas, e o filme se sai bem melhor quando Jay Roach deixa o trabalho pesado para seu elenco. Em uma cena particularmente incômoda, Kayla consegue uma reunião com Roger Ailes para se apresentar como "a face da juventude cristã e conservadora", certa de que pode ganhar mais espaço na TV. O clima ameno, entretanto, é estraçalhado quando o executivo pede para a jovem "levantar, dar uma voltinha e levantar a saia", alegando se tratar de uma mídia visual e que ele precisa "ver pernas". Margot Robbie e John Lithgow poucas vezes entregaram performances tão sutis e tão ricas, com entusiasmo transformado e humilhação, com interesse transmutado em assédio. São momentos assim que fazem a diferença em O Escândalo, em que os pecados que o filme traz (em alguns momentos Roach parece esquecer da trama para se preocupar com a estrutura hierárquica da Fox, como se fosse outro filme) são compensados por um elenco que entende a importância da obra – como entretenimento e também como registro de um momento decisivo para a mídia americana. Esse trabalho eleva um drama banal a uma obra envolvente e, por que não, necessária.

Acima de tudo, O Escândalo é palco para mais um show de Charlize Theron. Seus eventuais mergulhos no mundo dos filmes-pipoca (Branca de Neve e o Caçador, Velozes & Furiosos 8) nunca ameaçam eclipsar seu enorme talento dramático, que explode com energia redobrada ao encontrar o material certo. Aqui esse trabalho foi ainda mais complexo, porque Megyn Kelly é uma das personalidades mais intensas da TV americana, uma advogada que trocou o direito pela mídia e que ganhou destaque em um mundo predominantemente masculino, chegando a figurar entre na lista das 100 pessoas mais influentes publicada pela revista TIME. Assim como fez quando interpretou Aileen Wuornos em Monster – Desejo Assassino – papel que lhe rendeu o Oscar -, Charlize inseriu sua própria personalidade ao compor Megyn como personagem, alterando sua entonação vocal e linguagem corporal, completando sua transformação com próteses que sutilmente transformaram seu rosto. O resultado é que a atriz desaparece em cena – ao mesmo tempo em que é Charlize Theron por completo, um performance que redefine o que é atuar.

Jay Roach dirige Margot Robbie e John Lithgow em cena tensa

O impacto de O Escândalo é mais profundo – e mais próximo – do que pode ser traduzido com palavras. No fim de semana de estreia do filme, conversei com vários amigos e amigas que trabalharam (e trabalham) em emissoras de TV no Brasil. Jornalista geralmente não gosta de ser protagonista em obras de ficção, mas desta vez foi diferente. Como cinema é meu trabalho, muitos saíram da sessão ávidos para compartilhar a mistura de raiva, impotência e familiaridade que o filme trouxe. Foram pessoas que enxergaram no filme de Jay Roach um espelho absurdamente incômodo de atitudes que permeiam os bastidores da televisão em nosso quintal. "Se uma mulher abrisse a boca as TVs no Brasil fechariam as portas", disse-me uma amiga. "Vai demorar para alguém falar, mesmo que as coisas estejam mudando", disparou outra. Enquanto o silêncio impera, os esqueletos no armário se empilham e as práticas ainda continuam. A lição que fica com O Escândalo é que, após um caminho doloroso, a justiça pode finalmente ser feita.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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