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Como The Batman pode reescrever as regras para o Homem-Morcego no cinema

Roberto Sadovski

18/10/2019 03h26

Ao longo do video game Arkham Knight, o Batman precisa resolver os jogos mentais intrincados espalhados em Gotham City pelo Charada para salvar Selina Kyle, a Mulher-Gato – que, por sua vez, não ficou nada contente em servir de peão nas artimanhas do gênio do crime egocêntrico contra o Homem-Morcego. Foi impossível não pensar em Arkham Knight, ou em todo o universo criado pela produtora Rocksteady para os jogos do Cavaleiro das Trevas, quando o diretor Matt Reeves anunciou Paul Dano justamente no papel do Charada em The Batman, que vai reiniciar a série do herói no cinema. Dano junta-se a um elenco que já tem Jeffrey Wright como o comissário de polícia James Gordon, Zoe Kravitz no papel de Selina Kyle, e Robert Pattinson assumindo o manto do protagonista. Não que Reeves tenha qualquer intenção em adaptar a narrativa dos jogos. Mas é bem possível que ele use uma estrutura semelhante para espalhar uma galeria de vilões considerável em seu filme, sem perder o foco na jornada do herói. The Batman, assim, parece sugerir uma ruptura em tudo que já foi mostrado com o herói no cinema, assumindo sem pudor uma fantasia gótica emoldurada por uma aventura de super-heróis.

A essa altura, é o único caminho capaz de marcar com força uma nova aventura do Homem-Morcego, porque é também o único que jamais foi trilhado. Fora das histórias em quadrinhos, o Batman já foi diversas coisas. No cinema ele experimentou um sem número de mutações, sem nunca perder sua popularidade. Nos anos 60, quando a TV ianque tinha a única função de anestesiar o público enquanto a Guerra do Vietnã destruía o "sonho americano", Adam West protagonizou uma série cômica que tornou-se parte da cultura pop da época, com um filme espremido nos cinemas no intervalo entre a primeira e a segunda temporada do programa na TV. Tim Burton caprichou no estilo (e derrapou na substância) com dois filmes, em 1989 e 1991, e Joel Schumacher transformou tudo em um grande cenário carnavalesco em 1995 e 1997. Com sua trilogia O Cavaleiro das Trevas, Christopher Nolan injetou na melhor hora uma dose cavalar de realismo ao universo do herói, e Zack Snyder aproveitou para descaracterizá-lo ao fazer de seu Batman, interpretado por Ben Affleck em 2016 e 2017, um assassino. O próprio Affleck foi apontado pelo estúdio para escrever e dirigir um novo filme-solo do Homem-Morcego, mas aos poucos o projeto foi esfarelando, abrindo espaço para Matt Reeves. Em sua visão, percebe-se, não havia espaço para um Batman que mata, envelhecido e endurecido por anos de combate ao crime. Affleck foi ejetado, Pattinson assumiu o papel e um animal muito diferente passou a ser lapidado.

O Charada provoca o Batman no game Arkham Knight

O que me traz de volta a Arkham Knight e seu universo com uma cidade mega estilizada e extremamente violenta, tomada por bandidos comuns e maníacos coloridos. Como boa parte dos games modernos, a trama principal é pincelada por "missões" paralelas, e abre-se espaço para um elenco de vilões mais robusto entre em cena sem atropelar a narrativa. O roteiro de The Batman ainda é segredo absoluto, mas Matt Reeves já sugeriu desde que assumiu o projeto seu desejo em colocar no filme a notória galeria de vilões do herói – além do Charada e da Mulher-Gato, é a coleção de criminosos mais rica e conhecida dos quadrinhos, trazendo ameaças como o Senhor Frio, o assassino Bane, o Pinguim, o Duas-Caras, a Hera Venenosa e, claro, o Coringa. Como as filmagens devem começar ainda em janeiro do ano que vem (para um lançamento em junho de 2021), é possível que novos nomes revelados no elenco entreguem quem mais estaria no filme. Curiosamente, os nomes confirmados até agora mostram vilões sem poderes, com um estrategista egocêntrico e uma ladra sem limites. Essa construção de mundo, por sinal, não é estranha para Reeves, que foi descoberto na TV como co-criador da série Felicity, passou para o cinema no comando do inesperado Cloverfield e mostrou sua habilidade em costurar uma realidade fantástica com conflitos demasiadamente humanos em dois capítulos excepcionais da retomada da série Planeta dos Macacos – O Confronto, de 2014, e A Guerra, de 2017.

Os games modernos podem não ser a inspiração direta, mas são hoje a imagem do Homem-Morcego no zeitgeist – muito mais do que Ben Affleck, que interpretou o combo Bruce Wayne/Batman com dignidade em dois filmes muito aquém de seu talento, os sofríveis Batman vs. Superman e Liga da Justiça. Ao escolher um protagonista bem mais jovem (Robert Pattinson tem 32 anos, Affleck tem 47), cercado de um elenco novo em folha, o diretor livra-se das amarras do "universo estendido" que a DC tentou iniciar com sucesso zero. Paul Dano, ator versátil visto em filmes tão diferentes como Looper e Sangue Negro, empresta prestígio ao projeto. O mesmo pode ser dito de Zoe Kravitz (Mad Max: Estrada da Fúria), que parece perfeita para uma versão mais letal da Mulher-Gato. São elementos que ajudam Reeves a  criar sua Gotham City do zero, emprestando o artificialismo gótico dos filmes de Tim Burton, em que a cidade pulsava quase como um personagem, e a energia cinética impressa por Christopher Nolan, empacotando um espetáculo visual que, se ressoar para o público com a força de sua versão em pixels, pode resultar no primeiro "filme de super-heróis" para o Batman, sem nenhum receio da bagagem colorida dos quadrinhos. Um primeiro passo bacana já foi dado ao recuperar a identidade estabelecida ao Charada por Bill Finger e Dick Sprang na edição 140 de Detective Comics, em 1948: o nada sutil Edward Nygma (ou E.Nigma), usado sem pudor por Jim Carrey em Batman Eternamente, foi substituído pelo original Edward Nashton.

Ben Affleck foi um bom Batman em filmes pavorosos

The Batman chega em um momento interessante para os filmes com o selo DC. O plano do estúdio era cavar um sucesso similar ao da concorrente Marvel ao apresentar um universo compartilhado. Mas a baixa qualidade dos filmes freou o entusiasmo. Depois de um começo auspicioso com o interessante O Homem de Aço (que, acredite, como vinho melhora com o tempo), a trinca BvS, Esquadrão Suicida e Liga da Justiça emperrou este universo, que teve Mulher-Maravilha como ponto fora da curva (sua continuação, Mulher-Maravilha 1984, parece ignorar boa parte do que fora estabelecido nos filmes anteriores) e Aquaman como único a faturar mais de 1 bilhão de dólares em todo o mundo. Shazam!, vendido como uma comédia de aventura infanto-juvenil, indicou que a DC passara a se preocupar com filmes, e não com peças de um quebra-cabeças gigante. Curiosamente, Aves de Rapina e The Suicide Squad (reboot que ganhou um artigo e direção de James Gunn) sugerem um fiapo de continuidade entre alguns filmes. Mas pode contar com The Batman fora desse balaio, já que Matt Reeves, Robert Pattinson e cia. não parecem interessados em dividir seus brinquedos com ninguém. E por mais tentador que fosse imaginar Joaquim Phoenix plantando o caos em uma Gotham patrulhada por Pattinson, Coringa definitivamente não faz parte desse universo. O filme de Todd Phillips, que reescreve as regras das "adaptações de quadrinhos", reside confortavelmente em outra dimensão.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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