Roberto Sadovski http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Wed, 13 Nov 2019 09:32:26 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Perturbador e perigoso, Parasita é o melhor filme que você vai ver em 2019 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/11/13/perturbador-e-perigoso-parasita-e-o-melhor-filme-que-voce-vai-ver-em-2019/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/11/13/perturbador-e-perigoso-parasita-e-o-melhor-filme-que-voce-vai-ver-em-2019/#respond Wed, 13 Nov 2019 09:32:26 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10739

Parasita é um filme perigoso. O sul coreano Bong Joon-Ho criou uma sátira social que não se contenta em ser colocada em uma caixa. É um caleidoscópio de tom e de intenção, com o diretor conduzindo a narrativa com precisão operística. É ousado ao passear por diversos gêneros sem nunca se ater a nenhum. É engraçado de maneira nervosa, romântico em sua constante tensão, aterrorizante em seu realismo brutal. É um filme de ideias, e com o mundo completamente fora do eixo, como o noticiário teima em nos lembrar a todo momento, consolida a noção que ideias podem ser o estopim do caos. É um filme de alcance universal, reverberando abismos profundos comuns a cada pátria, a cada povo, a cada camada social. Parasita é tudo isso. E é também o melhor filme que você vai assistir em 2019.

O ponto de partida relativamente simples desdobra-se sem gordura e com velocidade: como a família Kim, aninhada no extrato mais baixo da sociedade coreana, consegue inserir-se, como um vírus, no coração da família Park, que, no outro extremo, representa a elite endinheirada do país. Os Kim vivem resolutos em sua pobreza. O pai, Ki-Taek (Kang-Ho Song, uma constante nos filmes de Bong), está desempregado e não parece disposto a mover um músculo para sair dessa condição. Ele conseguiu, aos trancos e barrancos, uma casa para a família – um cubículo abaixo do nível do asfalto, em que a única janela mal alcança a rua e os bêbados que insistem em ali se aliviar, aumentando a sensação de sujeira e degradação. Existe uma sugestão de glória nos Kim, com a medalha olímpica um dia conquistada pela matriarca Chung-Sook (Hyae Jin Chang), exposta quase que como uma provocação. As coisas parecem mudar quando um colega deixando o país indica o caçula, Ki-Woo (Choi Woo-shik) como tutor da filha do milionário Donk-Ik Park – sua irmã, Ki-Jung (Park So-Dam), forja os documentos que comprovam uma faculdade. Woo enxerga uma abertura e aponta Jung, com um nome falso, como professora de arte do filho mais novo dos Park. Não demora para eles ejetarem o motorista e a governanta dos ricaços e colocarem pai e mãe, igualmente assumindo outras identidades, nessas funções.

O celular como único meio de democratização social… se tiver wi-fi

A primeira metade de Parasita sugere uma comédia nervosa em que os pobres, uma vez insinuados na vida dos ricos, percebem que talvez eles pertençam àquele lugar. A sensação é ampliada quando os Park viajam para o campo em um fim de semana, deixando os impostores experimentando a boa vida, em uma casa bem acima do nível da rua, cercada de árvores, idilicamente deslocada da realidade das ruas de Seul. Alternando humor refinado e momentos de tensão, com a identidade dos Kim às vezes a um fio de ser revelada, Bong Joon-Ho já teria um campeão em mãos. Ele costura sua crítica às diferenças de classe com habilidade, sem esfregar suas convicções político-sociais em cada cena. Os Kim tentam elevar-se, metaforicamente e literalmente, além do nível permitido por uma estrutura social desenhada para mantê-los no andar de baixo: seja criando uma fábula que os coloque como engrenagens essenciais dos ricaços Park, seja encostando o celular no teto de sua casa quase subterrânea para garfar algum sinal de wi-fi. Mas quando Parasita apresenta pessoas num nível, também metafórico e literal, ainda mais baixo que os Kim, o filme dá uma guinada nervosa para mostrar até onde um indivíduo é capaz de ir para manter o sentimento de pertencer, de ser visto, de ser alguém – mesmo que seja em uma estrutura baseada em mentiras.

Bong em nenhum momento busca a sutileza. A chuva torrencial que transborda o esgoto no cubículo subterrâneo que os Kim chamam de lar não é nada metafórica: é a perda real do senso de humanidade, é perceber que não há malandragem ou esquema quando o mundo mostra sua faceta mais crua. O cineasta também é direto ao mostrar que nada disso sequer registra para quem eleva-se bem acima do nível da água, montados em uma torre de dinheiro, de futilidade e de ignorância. Ainda assim, em nenhum momento Parasita coloca os ricos como os vilões – não não se furta a apontar que eles definitivamente são parte do problema. Se os “parasitas” parecem ser a princípio a família de golpistas que se entranham no cerne de um núcleo familiar da alta classe, o conceito parece ser fluido, mudando de perspectiva ao longo da narrativa. Bong vai além do simplismo de “ricos ignorantes, pobres malandros”: seu filme é sobre perspectivas, sobre auto imagem, sobre camadas sociais quase imperceptíveis que se mostram abissais. É um aspecto evidenciado quando um personagem, vendo outro em condições deploráveis, pergunta como ele consegue sobreviver daquela forma – e sequer percebe o espelho à sua frente, com sua leve ascensão social modificando seu próprio reflexo.

A felicidade ignorante da elite do andar de cima

A filmografia de Bong Joon-Ho não esconde sua forte veia anticapitalista. A diferença, talvez, é que ele apresentava suas ideias nas fronteiras de gêneros fantásticos. A criatura incontrolável do terror O Hospedeiro não fazia distinção ao devorar ricos ou pobres, mas foi em uma família de classe média rasteira que o cineasta encontrou a voz para guiar sua narrativa. Na brilhante ficção científica O Expresso do Amanhã, o conflito de classes é explícito, com a força de trabalho em um trem que percorre ininterruptamente um planeta Terra congelado por uma nova era glacial revoltando-se com a elite que governa com força bélica. A fábula Okja mira seu arsenal contra o poder de multinacionais sem face, representadas aqui por um conglomerado disposto a arrancar um animal gigantesco de seu habitat, colocando em jogo sua amizade com uma jovem. Parasita é a extensão natural dos temas mais caros ao diretor, que ganham contornos ainda mais assustadores porque são apresentados sem o disfarce de um gênero cinematográfico fantástico.

E o realismo em Parasita é sufocante, especialmente em países em que as diferenças social são igualmente explícitas. Como o Brasil, que tem uma estrutura social em que meritocracia é uma piada, o abismo entre classes aumenta em progressão geométrica e o lado de cima mantém-se, por ignorância ou por falta de empatia, totalmente alheio aos conflitos e à realidade do lado de baixo. Em uma sociedade em que os mais ricos dependem da mão de obra dos mais pobres, com suas babás e faxineiras e empregadas e motoristas, como eles reagiriam a um evento que colocasse todos em risco na mesma proporção? Quem correria aos botes do Titanic para salvar a própria pele? Parasita tenta responder, de maneira abrupta, o que acontece quando estes mundos colidem. A história nos ensina, não importa a escala, que lutas de classe sempre terminam em sangue. Para Bong Joon-Ho, é óbvio que manter o espaço entre abastados e desassistidos é insustentável, mas a sociedade vai dar de ombros até o limite. A indiferença com o que enxergamos todos os dias ao colocar a cabeça pela da janela é brutal e desconcertante. O que o diretor pergunta, com a obra de arte que é Parasita, é quem teria coragem de voltar seu olhar para o lado de fora.

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Criador de Jogos Mortais reinventa o terror O Homem Invisível; veja trailer http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/11/07/criador-de-jogos-mortais-reinventa-o-terror-o-homem-invisivel-veja-trailer/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/11/07/criador-de-jogos-mortais-reinventa-o-terror-o-homem-invisivel-veja-trailer/#respond Thu, 07 Nov 2019 16:19:07 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10729

“Quando a Universal me falou sobre O Homem Invisível, a ideia era que ele fosse o mocinho da história”, lembra Leigh Whannell sobre sua primeira conversa com o estúdio para recriar um de seus personagens clássicos. “Mas eu tinha, claro, de buscar uma forma de fazê-lo assustador.” O diretor conta que olhou para os executivos na sala de reunião e imediatamente deu a real: “Bom, está bem claro que ele não é o mocinho da história, e sim o vilão!”. Whannell está na Austrália, finalizando a pós-produção de seu O Homem Invisível, e solta uma gargalhada do outro lado do telefone. “Eu tinha acabado de dirigir (a ficção científica) Upgrade para a BlumHouse e o projeto surgiu na conversa”, continua. “A Universal tem estes monstros clássicos em seu acervo, como Drácula e Frankenstein, e estavam tentando descobrir exatamente o que fazer com eles.” E foi aí que ele entrou na história.

Neste ponto vale voltar ligeiramente no tempo. Com o sucesso da Marvel e seu universo compartilhado, todo estúdio foi atrás de uma maneira de conectar seus personagens. A Universal já tinha o mapa da mina em mãos, com seus monstros clássicos que se tornaram a cara do estúdio. Foi assim que surgiu o Dark Universe, projeto que pretendia reinventar personagens conhecidos do público há décadas, reconfigurados como heróis em um mesmo universo. O ensaio foi Drácula: A História Nunca Contada, de 2014, que mostrava o Príncipe das Trevas como um anti-herói trágico. Mas o pontapé da coisa toda seria A Múmia, com Tom Cruise à frente de uma série de filmes já no gatilho, como A Noiva de Frankenstein (em que Bill Condon dirigiria Angelina Jolie) e O Homem Invisível, com Johnny Depp. Daí a realidade bateu forte. A Múmia, lançado em 2017, foi um fracasso tão devastador que o Dark Universe inteiro voltou para o estaleiro. E de lá não saiu.

Elisabeth Moss enfrenta um perseguidor que ela não consegue ver

“O Dark Universe colocaria Drácula e Frankenstein como heróis, como o Capitão América ou Thor”, continua Whannell. “Eu lembrei que Drácula é historicamente um vilão. Não tem como Drácula ser um herói! Acho que essa abordagem tirava o que fazia destes personagens tão especiais.” O Homem Invisível, lembra, sempre foi um personagem secundário, sempre ficava em segundo plano enquanto outros visualmente mais icônicos ganhavam destaque. “O desafio de tornar um personagem assim genuinamente assustador me deixou intrigado”, diz o diretor. “Então, se o Homem invisível é um vilão, eu imaginei que a história tinha de ser contada do ponto de vista da vítima.” Tanto o livro de H.G. Wells quanto o filme que James Whale dirigiu em 1933 abordam a jornada do personagem-título, mas Whannell não queria contar a história de um sujeito enlouquecendo: “Para fazer com que a história fosse realmente assustadora, minha ideia era mostrar alguém ameaçado e torturado pelo Homem Invisivel”.

Se é nos ombros desse personagem que repousa todo o peso narrativo de O Homem Invisível, Leigh Whannell encontrou em Elisabeth Moss a protagonista perfeita para conduzir a trama. “Eu já era fã de seu trabalho desde Mad Men, e o que ela fez em The Handmaid´s Tale é um absurdo”, derrete-se o diretor. A atriz, que este ano já encarou um terror moderno em Nós, de Jason Peele, é Cecilia Kass, uma mulher presa a um relacionamento abusivo. Assim como em Dormindo Com o Inimigo, que Julia Roberts rodou em 1991, Cecilia foge de seu algoz (papel de Oliver Jackson-Cohen, de A Maldição da Residência Hill), só para ser surpreendida com a notícia de seu suicídio. Ela se vê herdeira de milhões de dólares, mas aos poucos percebe que não está sozinha, e que seu perseguidor é alguém invisível. A paranóia aos poucos dá lugar ao mais completo terror, com um predador que não pode ser visto libertando sua fúria assassina.

O diretor Leigh Whannell, felizão no último dia de filmagens

Esse recomeço, claro, joga uma pá de cal no Dark Universe, que deixa como lembrança um filme ruim com Tom Cruise e uma foto reunindo o elenco de filmes que jamais sairão da gaveta. “Meu O Homem Invisível é algo totalmente diferente”, ressalta Whannell. “O estúdio, até onde eu sei, abandonou a ideia do universo compartilhado e decidiu dar a cineastas diferentes a oportunidade de reinterpretar seus monstros.” Ou seja, melhor nem esperar a sugestão de outras criaturas aparecendo em filmes alheios. “O que os produtores buscam agora são criadores que tenham paixão pelos personagens, por Drácula, pelo Lobisomem, e tragam uma visão única para eles”, empolga-se. “Eles me deram total liberdade para tocar minhas ideias e confesso que estou empolgado em ser o primeiro a ser considerado nessa nova fase dos Monstros da Universal.”

Vale lembrar que Leigh Whannell não é um estranho quando o assunto é reinventar o terror. Em 2003 ele escreveu e protagonizou o curta metragem Saw, que no ano seguinte foi expandido como o clássico moderno Jogos Mortais. Na primeira década do novo milênio, o estilo de terror de Whannell, materializado com a direção do parceiro James Wan, deu o norte para o gênero, combinando tortura física e psicológica com um roteiro inteligente, culminando em uma das reviravoltas mais fantásticas do gênero no cinema moderno. Como “bônus”, a série Jogos Mortais deu aos fãs do gênero um novo ícone, o serial killer perturbado e engenhoso Jigsaw. Com O Homem Invisível, Leigh Whannell tem a chance de deixar sua marca em uma das criaturas mais icônicas da história – e a Universal espera, finalmente, honrar seu legado.

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Sequência de O Iluminado, Doutor Sono equilibra mundos de King e Kubrick http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/11/07/sequencia-de-o-iluminado-doutor-sono-equilibra-mundos-de-king-e-kubrick/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/11/07/sequencia-de-o-iluminado-doutor-sono-equilibra-mundos-de-king-e-kubrick/#respond Thu, 07 Nov 2019 04:58:55 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10721

Doutor Sono é um filme sobre trauma, sobre como eventos experimentados na infância podem refletir de forma devastadora na vida adulta. É também matéria prima perfeita para uma trama de terror psicológico complexa, em que fantasmas podem servir de metáfora para a manifestação do inconsciente ao lidar com acontecimentos intensos e indesejados. A coisa complica por que Doutor Sono é também a continuação de O Iluminado, ao mesmo tempo um dos livros mais impactantes da carreira de Stephen King e um dos filmes mais marcantes da trajetória de Stanley Kubrick. Coube ao diretor Mike Flanagan equilibrar a obra de dois mestres, já que uma adaptação de Doutor Sono para o cinema não poderia de forma alguma ignorar a iconografia criada por Kubrick em 1980 – trabalho para o qual até hoje King torce o nariz. Tinha tudo, literalmente, para dar muito errado.

É prova do imenso talento de Flanagan, portanto, que ele tenha feito desse limão uma limonada. Doutor Sono é um filme de terror ancorado mais na construção de uma atmosfera densa e do desenvolvimento sem pressa de seus personagens do que uma obra limitada a sustos ligeiros. Mesmo com a presença onipresente de King, a verdade é que o filme é muito mais uma continuação de O Iluminado – o filme, não o livro. Assim como Kubrick, Flanagan fez alterações profundas no texto de King para acompanhar mais de perto a obra de Kubrick. Talvez, mesmo sendo heresia, tenha sido para melhor. Nos dois casos, as versões para cinema do texto do mestre do terror ignoram longos nacos da história que desviam da narrativa em arroubos contemplativos para se concentrar no básico: na jornada do protagonista, seus conflitos e conclusões.

Rose (Rebecca Ferguson) e seus seguidores em meio a um banquete

E não teria como Doutor Sono não ser um filme sobre trauma com um protagonista como Dan Torrance. Depois dos eventos trágicos que ele testemunhou quando criança, quando seu pai Jack Torrance enlouqueceu ao se isolar com mulher e filho no imponente Overlook Hotel, Dan tornou-se um adulto marcado pela sombra de um psicopata. Pior: os fantasmas do Overlook o seguiram, e ele teve de aprender a criar caixas em sua mente para aprisionar os espíritos que o atormentavam e tentavam, desde a infância, roubar seu “brilho”, seu poder paranormal que por fim o manteve vivo tantos anos atrás. Aos poucos Dan encontra paz e, após décadas de álcool e violência, uma forma de tentar entender o que atormentava seu pai, ele se estabelece em uma cidadezinha como enfermeiro, usando parte de seu poder para dar conforto a pacientes em um asilo que se encontram às portas da morte. Ao mesmo tempo, ele passa a se comunicar telepaticamente com uma adolescente, Abra, que demonstra possuir o brilho com uma força que ele jamais teve.

Seria um final feliz se não fosse a revelação de um culto de vampiros dessa mesma energia, liderado por Rose (Rebecca Ferguson, linda e letal), que busca há décadas (séculos?) crianças com o este dom para dele se alimentar. Ao matar um menino em um ritual de tortura (“A dor purifica o brilho”, justificam os assassinos), Rose sente a presença de Abra e passa a persegui-la. A jovem, por sua vez, busca a ajuda de Dan. É uma mudança fundamental na caracterização dos personagens: se em O Iluminado Danny Torrance era um garoto assustado, assombrado por espíritos e por um poder que não consegue compreender, em Doutor Sono Abra se apresenta como uma jovem corajosa, que pensa em confrontar, e não fugir, de um predador capaz de matá-la. Relutante, Dan por fim traça um plano para enfrentar os vampiros, e sua história completa um círculo quando todos os caminhos levam novamente ao Overlook.

O retorno ao Overlook Hotel traz fantasmas do passado

Mike Flanagan sabia que tinha de equilibrar a sensibilidade de King com a força visceral de Kubrick, e seu Doutor Sono consegue encontrar a essência de ambos os autores no meio do caminho. O diretor, alçado ao primeiro time do gênero depois da brilhante série A Maldição da Residência Hill para a Netflix, acerta ao deixar o terror causticante do filme de 1980 de lado, buscando em vez disso um tom perturbador, uma tensão crescente que encontra amparo na interpretação contida de Ewan McGregor, que faz aqui um anti-Jack Nicholson, trocando loucura maníaca por uma certa estranheza em sua expressão, e no otimismo por vezes imprudente de Abra, personificado pela ótima Kyliegh Curran. E vale procurar por Henry Thomas, desaparecendo em uma ponta surpreendente ao mostrar que, muitas vezes, uma solução hollywoodiana à moda antiga pode ser melhor do que uma tecnologia rejuvenescedora que, quando passa do tom, mais distrai do que ajuda a contar a história.

Equilíbrio é, por fim, a palavra de ordem em Doutor Sono, com respeito e reverência ajudando na balança. Mesmo que o terceiro ato se renda ao fan service desavergonhado, transformando em anticlímax uma investida final desenhada desde a primeira cena, Mike Flanagan conduz a trama sem pressa e sem se render a sustos fáceis. No meio do caminho, consegue apresentar sequencias do mais puro terror, mostrando que o texto de King, por vezes diluído nas mãos de artistas menores, ainda é poderoso, inquietante e assustador. O que Flanagan fez, por fim, foi um híbrido, um artefato que consegue extrair o melhor de King e também de Kubrick sem perder voz própria. Não vai jamais tomar o lugar de O Iluminado. entre os clássicos absolutos do gênero – e nunca teve essa intenção. É, isso sim, uma celebração da imaginação de artistas capazes de transformar seus próprios traumas e tormentos em entretenimento.

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Star Wars desacelera e aponta um futuro parecido com seu… passado! http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/11/06/star-wars-desacelera-e-aponta-um-futuro-parecido-com-seu-passado/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/11/06/star-wars-desacelera-e-aponta-um-futuro-parecido-com-seu-passado/#respond Wed, 06 Nov 2019 06:27:08 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10708

Star Wars: A Ascensão Skywalker chega aos cinemas em pouco mais de um mês com a missão de encerrar uma era. Espera, risca isso: o filme de J.J. Abrams, que fecha a saga criada por George Lucas em 1977, marca também o reposicionamento da marca, a mudança de planos da LucasFilm e uma nova visão para o cinema pop do novo século. Porque o cinema precisa, porque Star Wars precisa, porque arte não pode ser eternamente um produto embalado e servido em bandejas de plástico. Empolgados com os novos brinquedos em mãos, os executivos da Disney capricharam no planejamento e transformaram a Marvel num gigante ao consumar a ideia de um universo cinematográfico compartilhado. Diria que o plano foi um sucesso absoluto – Vingadores: Ultimato é, afinal, a maior bilheteria da história. O erro dessa turma, entretanto, foi achar que propriedades intelectuais são todas iguais, e que basta abrir a torneira para o volume ser transmutado em ouro. Descobriram, a duras penas, que a banda não toca a mesma música em todo quintal. O martelo foi finalmente batido pelo dono da bola, Bob Iger, CEO da Disney: no caso de Star Wars, menos é mais.

“Já disse antes que provavelmente fizemos e lançamos muitos filmes (com a marca) Star Wars em pouco tempo”, disse Iger em uma entrevista à BBC Radio. “Não acho que eles foram de forma alguma decepcionantes, só acho que existe algo especial em Star Wars, e que menos é mais.” O chefe da Disney pode até puxar o barbante para sua turma artisticamente, mas os números são impiedosos. Depois de quebrar a barreira de 1 bilhão de dólares com três novas aventuras (O Despertar da Força, Rogue One e Os Últimos Jedi), a dose mais recente deste universo, Han Solo, estacionou em pouco mais de 390 milhões em todo o mundo, menor bilheteria de todos os filmes da série. Como efeito imediato, outras Histórias Star Wars em desenvolvimento foram canceladas. Boba Fett, que acompanharia o caçador de recompensas apresentado no cinema em O Império Contra-Ataca, seguiu o caminho do dodô. Obi-Wan Kenobi foi engavetado, apenas para ressurgir como série em streaming para a plataforma Disney+, trazendo Ewan McGregor de volta como o cavaleiro Jedi, com filmagens marcadas para ano que vem. Em tela grande, porém, não existe de imediato nada além de A Ascensão Skywalker.

A Ascensão Skywalker: o fim de Star Wars como conhecemos… ou um novo começo?

Menos é mais. Quando eu vi Guerra nas Estrelas no cinema, não existia essa cultura atordoante que acompanha um filme como produto. A aventura que apresentou Luke, Leia, Han e cia. era isso: uma aventura, um filmaço com começo, meio e fim. O Império Contra-Ataca veio três anos depois (provavelmente uma eternidade para o fã moderno), e terminou em um gancho que só foi resolvido outros três anos à frente, em O Retorno de Jedi. Star Wars era, de fato, especial. Um evento cinematográfico único, mantido fora dos cinemas com toda uma cultura nerd alimentada por brinquedos, histórias em quadrinhos, livros e dúzias de produtos estampando os heróis da saga. Depois de Jedi, o cinema só foi receber seus personagens exóticos e mundos distantes depois de uma ausência de dezesseis anos com A Ameaça Fantasma em 1999. Essa nova trilogia, que reacendeu a marca para toda uma geração, também só deu as caras no cinema de três em três anos, com Ataque dos Clones em 2002 e A Vingança dos Sith fechando o ciclo em 2005.

O novo milênio, porém, trouxe uma nova forma de apreciar cultura pop em grande escala. O Senhor dos Anéis ofereceu um épico em três partes entre 2001 e 2003. Harry Potter celebrou a cultura nerd também a partir de 2001, com oito filmes chegando ao cinema mais ou menos a cada dezoito meses. Em pouquíssimo tempo, outras propriedades intelectuais tomavam o lugar de Star Wars. A Marvel, que colocou suas manguinhas de fora em 2000 com X-Men (Blade, de 1998, não vale por ser assumidamente um filme de terror), disparou alguns filmes de sucesso (como os três Homem-Aranha de Sam Raimi) antes de inventar o universo cinematográfico moderno a partir de Homem de Ferro em 2008. A partir daí, o público pop se acostumou a doses regulares de seus personagens favoritos. A LucasFilm enxergou cifrões e colocou em prática um plano para seguir a mesma fórmula, com um novo filme da história principal a cada dois anos, intercalados com produções em uma antologia ambientada no mesmo universo. Mas super-heróis foram consumidos em doses mensais como histórias em quadrinhos desde sempre, e as dezenas de personagens podem ser desenvolvidas em seu quintal antes de reunirem-se em outro épico. Seus fãs estão acostumados a uma overdose de Homem-Aranha ou Capitão América (ou Superman ou Batman). Super-heróis funcionam assim. Star Wars, não.

The Mandalorian aponta o novo caminho de Star Wars em streaming

Até porque a criação de George Lucas, apesar de ser referida como universo, parece mais a vila do Chaves, com todas as histórias no cinema girando em torno do legado da família Skywalker. Rogue One ciscou fora do terreiro, mas usou iconografia familiar – como Darth Vader – para atrair o fã casual. Os planos pós-Episódio IX cobriam duas novas trilogias, mas já murchou. David Benioff e D.B. Weiss, criadores de Game of Thrones, estavam trabalhando em novos filmes que supostamente abordariam as origens dos cavaleiros Jedi, mas optaram por assinar um contrato de 300 milhões de dólares para desenvolver conteúdo para a Netflix. Rian Johnson, que dirigiu o ótimo e também divisivo Os Últimos Jedi, também está na fila para explorar outros rincões do universo Star Wars, mas aparentemente seu projeto encontra-se em ponto morto. Kevin Feige, chefão da Marvel, também deve produzir o seu Star Wars, mas não há nada até agora além do anúncio. O movimento com a marca encontra-se, unicamente, em streaming.

E é no Disney+ que a coisa fica curiosa. The Mandalorian entra no ar já com o lançamento da plataforma, agendado para a próxima semana nos Estados Unidos. Em seguida a LucasFilm dispara a sétima temporada da animação Star Wars: The Clone Wars, que verá seu desfecho depois de deixar o Cartoon Network em 2013 – a Netflix manteve a série em seu catálogo até recentemente. Para o futuro, séries com o personagem Cassian Andor (com o mesmo Diego Luna que o interpretou em Rogue One) e com o mestre Jedi Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor manteve segredo por quatro anos!) estão em desenvolvimento. Os Skywalker, o Império e os rebeldes estão longe dos holofotes, com os esforços concentrados neste universo expandido de Star Wars. Não por coincidência, foi o Universo Expandido, que foi além das histórias contadas nos filmes em livros, games e quadrinhos, que mantiveram a chama da série acesa por décadas. Com a filosofia do “menos é mais”, faz sentido mais uma vez explorar outros cantos na galáxia criada por George Lucas (e aumentada por tantos outros autores) com o escopo menor que o streaming permite – sem, entretanto, perder em qualidade. Acho difícil personagens apresentados nos novos filmes simplesmente desaparecerem – o piloto da Resistência Poe Dameron (Oscar Isaac) já ganhou uma série em quadrinhos muito bacana. As possibilidades narrativas no streaming, com personagens e mundos desenvolvidos com o ritmo certo que uma minissérie permite, são imensas. É o modo certo de não trazer novos fãs sem alienar os tradicionais com uma eventual overdose. Dessa forma, quando Star Wars eventualmente voltar ao cinema, será mais uma vez o evento grandioso que a saga merece. A história se repete – mesmo em uma galáxia muito muito distante.

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Apple, Disney e HBO peitam Netflix para mudar (de novo) como consumimos TV http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/11/01/apple-disney-e-hbo-peitam-netflix-para-mudar-de-novo-como-consumimos-tv/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/11/01/apple-disney-e-hbo-peitam-netflix-para-mudar-de-novo-como-consumimos-tv/#respond Fri, 01 Nov 2019 06:02:12 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10699

A Netflix virou cotonete. Ou bombril. Tornou-se no Brasil sinônimo de streaming. Virou verbo, denominação para a gente se esparramar no sofá e passar horas (dias?) consumindo a série da vez. O popular binge watch, nome chique para maratonar temporadas inteiras de um único programa, passou a ser rotina de quem aos poucos trocou o conforto dos canais por assinatura para a aventura de criar sua própria programação (pergunto-me a essa altura quem ainda consome cultura pop na TV aberta). A partir de hoje, porém, outros pesos pesados entram com tudo no cenário do streaming, prometendo não só acirrar ainda mais a disputa pela atenção do consumidor (eu, você e todos nós) como mudar, mais uma vez, alguns hábitos. O velho vira novo de novo e a roda não para de girar.

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A grande novidade é a Apple TV+, que chega com o peso da marca criada por Steve Jobs, trazendo uma batelada de filmes em seu catálogo e séries originais como See e The Morning Show. Ao contrário do que acontece na Netflix, as séries não serão disponibilizadas em temporadas inteiras: três episódios serão liberados na estreia, com o restante despejado semanalmente. A Disney+, que entra no mercado americano cerca de duas semanas depois (por aqui o lançamento deve ocorrer no segundo semestre de 2020), trará tudo com as marcas Disney, Marvel, Pixar, LucasFilm e Nat Geo, além de séries originais como The Mandalorian, que Jon Favreau criou dentro do universo de Star Wars, e High School Musical, que arrisca revelar um novo Zac Efron. O esquema também será à moda antiga, com um novo episódio disponível por semana. A HBO Max, streaming do gigante WarnerMedia, também deu de ombros para o binge watching, apostando na boa e velha ansiedade semanal para suas séries – mesmo modelo usado em Game of Thrones, Chernobyl e na recente Watchmen.

The Mandalorian marca a chegada de Star Wars no streaming Disney+

Na prática, essa movimentação toda significa unicamente que é bobagem pensar em um único formato. Um olhar mais agudo sugere também que a briga será boa. Desde que a Netflix se popularizou, o objetivo era produzir conteúdo próprio – talvez seus executivos já anteviam que a concorrência ia enxergar cifrões mais redondos não em licenciar seu conteúdo, e sim em investir numa plataforma própria. Desde 2013, com o lançamento de House of Cards e Orange is the New Black, a empresa apostou em lançar as séries de uma só vez até para marcar território: era a novidade que se fazia possível unicamente em streaming, dando ao consumidor a possibilidade de fazer seus próprios horários e assistir aos programas quando bem quisesse. De forma alguma o formato quebrou as pernas da concorrência, que continuou tocando a vida em seu quintal de séries semanais – mas influenciou outro serviço de streaming, a Amazon Prime, igualmente afeita a despejar temporadas inteiras para condenar o público a jamais abandonar seu sofá (estou para começar a segunda de Jack Ryan, adeus vida social).

A briga é, por fim, de conteúdo. Assim como a assinatura de canais de TV paga, definida por pacotes, o público vai definir com seu bolso quem tem a melhor oferta. Honestamente, não há favoritos no páreo. A Netflix está estabelecida como potência global e continua apostando em inúmeras propostas, de séries de ficção a reality shows a programas de variedade a filmes originais, encurtando até a distância entre nações. No Brasil, por exemplo, 350 milhões de reais serão investidos em programas com nosso DNA. A Amazon Prime mantém sua variedade de filmes e séries, abrindo a carteira para trazer para o streaming, por exemplo, o universo de Neil Gaiman (American Gods e Good Omens), adaptações de quadrinhos (The Boys) e séries de ação (Jack Ryan, me aguarde). YouTube Premium, casa da genial Cobra Kai, já aposta em séries originais inclusive no Brasil. O Looke é a melhor opção para buscar filmes clássicos e cinema nacional. A Darkflix, como o nome sugere, mergulha fundo no cinema de terror, fantasia e ficção científica.

Jennifer Aniston e Steve Carell em The Morning Show, da Apple TV+

Ainda assim, o peso dos novos jogadores intimida. A Disney+ promete disponibilizar tudo já produzido pelo estúdio do Mickey. Tudo! Todos os desenhos animados (longas e curtas), todos os filmes (o que inclui produções da Touchstone e da Hollywood Pictures, e eu mal posso esperar para rever 20.000 Léguas Submarinas, de 1954), todos os documentários da Nat Geo. A produção original é um absurdo, partindo de The Mandalorian às séries ambientadas no Universo Cinematográfico Marvel, como Loki, WandaVision e Falcão e o Soldado Invernal, além de filmes originais como a versão live action de A Dama e o Vagabundo, a fantasia Noelle (como Anna Kendrick como filha do Papai Noel) e refilmagens/continuações de Três Solteirões e um Bebê, Abracadabra, O Pai da Noiva, Esqueceram de Mim e Mudança de Hábito. Do outro lado do ringue, a HBO Max vem com duas pedras na mão, prometendo 10 mil horas de conteúdo em seu lançamento, incluindo conteúdo do catálogo da Warner, New Line, DC, Adult Swim, Turner Classics e Cartoon Network. Ou seja: de South Park a The West Wing a Friends a Doctor Who, passando por novas séries baseadas nos filmes Da Magia à Sedução e Grease, a antologia de histórias da DC Strange Adventures, uma série do Lanterna Verde e, coroando o bolo com uma cereja suculenta, todo o catálogo do Studio Ghibli.

É literalmente um recomeço para a forma de consumir conteúdo – é estranho usar essa palavra, que parece tão distante e nada artística, mas é a melhor forma de condensar material tão diverso. O preciosismo pode incomodar muita gente que enxerga a perda gradual do espaço para produtores independentes que encontram-se fora do movimento. Eu prefiro o caminho do otimismo. Quando a poeira assentar, e cada consumidor tiver selecionado como e quando vai devorar seus filmes e séries de preferência (seja maratonando, seja semanalmente, seja com alimentação intravenosa sem nunca abandonar o sofá), não acho inviável que produtoras fora do abraço das majors possam criar suas próprias plataformas, entregando conteúdo ainda mais diferenciado a seu público – como o Criterion Channel, que disponibiliza clássicos e novidades de todo o mundo, ou o Petra Belas Artes a la Carte, serviço de VOD do cinema paulista do mesmo nome, que aposta em pérolas obrigatórias (Fellini, Bertolucci, Bergman…), filmes independentes mais recentes e uma seleção de cults hoje indisponíveis para o público brasileiro. O mundo da produção audiovisual está se reinventando. E as plataformas de streaming vão fazer de tudo para não deixar ninguém fora do jogo.

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Destino Sombrio devolve O Exterminador do Futuro à sua verdadeira heroína http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/10/31/destino-sombrio-devolve-o-exterminador-do-futuro-a-sua-verdadeira-heroina/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/10/31/destino-sombrio-devolve-o-exterminador-do-futuro-a-sua-verdadeira-heroina/#respond Thu, 31 Oct 2019 07:58:02 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10684

O Exterminador do Futuro nunca foi uma série sobre ciborgues assassinos que viajam no tempo. Apesar dos músculos de Arnold Schwarzenegger ocuparem a tela com urgência desde o primeiro filme, que James Cameron dirigiu lá atrás em 1984, a saga sempre foi sobre a jornada de uma mulher, Sarah Connor, de jovem indefesa e incerta sobre seu futuro a guerreira destinada a traçar o caminho de seu filho, futuro líder da resistência humana contra a opressão das máquinas inteligentes que tomaram o planeta. Ausente de todos os filmes desde o icônico T2, sequência anabolizada lançada em 1991, ela retorna em Destino Sombrio. E a gente nunca percebeu o quanto Sarah fez falta até agora – e é por causa dela que o novo filme é o único digno de figurar na série desde seus dois primeiros capítulos.

Seu retorno, em que ela é defendida mais uma vez por Linda Hamilton, é a fagulha de humanidade responsável pela conexão emocional com a história tecida por Cameron. Deixá-la de lado foi o erro de todos os cineastas que assumiram o comando dos filmes após a partida de seu criador: eles se concentraram no espetáculo, na ação e na figura imponente de Schwarzenegger. O resultado foi uma trinca com resultados variados, com A Rebelião das Máquinas surgindo em 2003 como única aventura decente, prejudicada pelo roteiro derivativo que reservou o único momento de impacto para seu clímax (quanto menos falarmos sobre os equivocados A Salvação ou Gênese, melhor). Fica claro aqui que Terminator sempre foi a história de Sarah, uma guerreira resiliente em quem amarramos nossa esperança desde que ela abraçou seu destino e, depois, arriscou tudo para alterá-lo. Sem ela, todo o resto parecia à deriva, uma moldura elegante para uma tela vazia.

Mackenzie Davis e Natalia Reyes só observar o pau quebrar!

Portanto, tão importante quanto o retorno de James Cameron para a série que criou, após uma ausência de quase três décadas, é a volta de Linda Hamilton como Sarah Connor, transformada após T2 – O Julgamento Final em uma das personagens mais celebradas da história do cinema pop. Fez todo sentido, então, que O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio passe uma borracha em toda cronologia traçada depois do filme de 1991 e surja como sua sequência direta, uma ideia que Cameron segurou até recuperar os direitos da série como produtor. A volta da protagonista é feita ainda mais emblemática por causa da própria carreira da atriz, discreta quando não encarava ciborgues assassinos, fazendo que seu retorno aos holofotes ganhasse ainda mais relevância. Em Destino Sombrio, Sarah é uma mulher quebrada pela tragédia, que encontra como único propósito eliminar a ameaça recorrente de máquinas do futuro que vez por outra rompem a barreira do tempo. Aos 63 anos, Linda Hamilton traz a dor e o peso dos anos impressos em cada expressão, em cada ruga, em cada momento em que ela levanta armamento pesado como um soldado consciente de que sua guerra particular está longe do fim.

Sarah, dessa vez, não é o alvo, papel reservado para a jovem Dani Ramos (Natalia Reyes), que vive e trabalha em seu México natal em uma fábrica cuja a força de trabalho aos poucos é substituída por máquinas. Ela é caçada por um modelo ainda mais letal de exterminador, o Rev-9, um ciborgue que combina a força do esqueleto metálico (sai o visual cromado tradicional, entra o ferro negro como que forjado em chamas) com o metal líquido capaz de tomar várias formas. Para protegê-la, a resistência humana no futuro envia Grace (Mackenzie Davis, ótima), guerreira que sacrificou a própria humanidade para garantir a sobrevivência de Dani. Quando essas forças entram em choque, Sarah Connor surge como elemento surpresa, dando nova chance à suposta salvadora do futuro da raça humana. A premissa pode até seguir os pontos narrativos dos dois primeiros filmes, mas a trama bolada por Cameron altera totalmente qualquer conhecimento sobre o futuro obtido por Sarah (e por nós do lado de cá da tela) e adiciona um elemento importante ao tema central dos filmes originais: se o futuro não está traçado e pode ser alterado, a estupidez humana vai teimar em seguir o caminho da autodestruição.

Rev-9 (Gabriel Luna) e T-800 (Schwarza): duelo de titãs metálicos

Em meio ao conflito, Arnold Schwarzenegger também retorna como o icônico T-800, mostrando também sua própria evolução. Quanto menos se falar sobre seu personagem, melhor para as surpresas de Destino Sombrio, mas basta saber que a curva dramática exibida em T2, com o ciborgue por fim aprendendo o valor da vida humana, ganha aqui um choque de realidade radical. O humor da situação apresentada no novo filme pode fazer com que fãs mais ranhetas torçam o nariz, mas talvez fosse a única forma de recuperar a relevância do astro austríaco na série e lhe garantir alguma dignidade. Mas é bom deixar claro que este O Exterminador do Futuro é um filme 100 por cento feminino, com as três protagonistas dividindo os conflitos e dilemas que movem a história. É emblemático, por sinal, ressaltar que os homens aqui ou servem como gatilho emocional para a trama das mulheres, ou são pura e simplesmente máquinas – além de Schwarzenegger, o filme traz o novíssimo modelo defendido por Gabriel Luna.

Claro que um filme com “Exterminador” no título não pode se resumir a personagens conversando sobre passado, presente e futuro, e a produção não economiza em escala para grandes sequências de ação. É aí que Destino Sombrio traz seu outro trunfo – e expõe também sua maior fraqueza. O diretor Tim Miller (Deadpool) mostra ser capaz de orquestrar não só as cenas mais empolgantes e aceleradas, como também costura a ação como parte da narrativa, e não um elemento desconectado da história para embelezar a cena. Como manda a cartilha do gênero traçada inclusive pelo próprio James Cameron, a ação é enfileirada em um crescendo, com uma perseguição numa rodovia disparando momentos mais e mais grandiosos até o clímax absurdo e surpreendente. Mas Miller definitivamente não é Cameron (que nunca foi ao set mas lapidou o filme na mesa de edição), e a liga que une espetáculo e emoção é tênue, faltando a fagulha criativa que fez dos dois primeiros filmes da série tão icônicos. Mesmo sem trazer a energia cyberpunk da ficção científica que começou tudo em 1984, ou o charme cínico da aventura de 1991, O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio é herdeiro digno de uma tradição feita de metal, óleo e sangue. Nada mau para uma série que parecia um beco sem saída criativo há quase trinta anos.

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Como Exterminador do Futuro se tornou a série mais confusa do cinema http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/10/29/como-exterminador-do-futuro-se-tornou-a-serie-mais-confusa-do-cinema/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/10/29/como-exterminador-do-futuro-se-tornou-a-serie-mais-confusa-do-cinema/#respond Tue, 29 Oct 2019 06:42:30 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10670

James Cameron enfrentou o inferno com seu primeiro filme como diretor. Ao fazer Piranha 2 – Assassinas Voadoras, o cineasta chegou a níveis de stress extremos, ao ponto de arrebentar uma fechadura e invadir a ilha de edição para preservar o que restou de sua visão (e dignidade), após ser varrido do projeto por seus produtores. Certa noite, acordando de um pesadelo febril, ele desenhou a imagem de um esqueleto robótico arrastando-se para longe de destroços em chamas. Essa foi a semente do que se tornaria O Exterminador do Futuro, ficção científica hardcore que ele dirigiu em 1984, catapultando a carreira de Arnold Schwarzenegger e elevando a si mesmo como um dos autores mais procurados em Hollywood. A história é boa, claro, mas deve ter uma dose cavalar de exagero para dourar a origem de uma das séries mais duradouras da história, um pesadelo feito de aço e sangue em que um assassino implacável viaja no tempo para impedir o nascimento da esperança de um futuro distópico. Foi também o começo de uma das séries mais confusas e improváveis que o cinema pop já teve a ousadia de conceber.

Até porque O Exterminador do Futuro, ficção científica com cara de filme b e leve verniz classudo, traz uma história redondinha, um arco dramático coeso centrado na figura de Sarah Connor, que aos 20-e-poucos anos na Los Angeles da primeira metade dos anos 80, torna-se alvo de uma máquina de matar enviada ao passado para matá-la. O motivo era simples: Sarah, interpretada com uma mistura eficiente de ingenuidade e fúria por Linda Hamilton, seria a mãe do futuro líder da resistência humana contra o domínio total das máquinas. Nesse amanhã distorcido, uma forma de inteligência artificial batizada Skynet torna-se consciente pouco após ser ativada, controlando o arsenal nuclear americano, e forçando um ataque à União Soviética. A retaliação resultaria em uma guerra da qual só as máquinas se ergueriam . Não fosse por John Connor, filho de Sarah, a raça humana não conseguiria organizar-se e contra-atacar. As máquinas então enviam um exterminador, um T-800 (Arnold Schwarzenegger), para matar Sarah – e contrapartida, a resistência manda um guerreiro solitário, Kyle Reese (Michael Biehn), para protegê-la. E é isso, uma trama resolvida em pouco menos de duas horas, arcos dramáticos concluídos, o futuro uma incógnita, cortinas, luzes.

Arnie todo pimpão em T2

A história terminaria aí, até porque Cameron terminou enfrentando um processo por plágio e não queria papo com os produtores – o escritor Harlan Ellison havia escrito um conto chamado Demônio da Mão de Vidro que trazia uma parcela considerável de coincidências. Por fim, ele ganhou agradecimentos nos créditos, Cameron deu de ombros e O Exterminador do Futuro encerraria sua vida útil por aí. O diretor foi conquistar Hollywood testando os limites da tecnologia como ferramenta narrativa em Aliens – O Resgate (1986) e O Segredo do Abismo (1989). Schwarzenegger foi tratar de se tornar um dos maiores astros da história em filme como Comando Para Matar (1985), Predador (1987) e O Vingador do Futuro (1990). Os anos, porém, fizeram crescer a aura cult em torno de O Exterminador do Futuro, e seu impacto na cultura pop não passou despercebido. Quando a tecnologia alcançou as ideias de Cameron, ele achou que era a hora de voltar ao mundo distópico que ajudara a criar.

Tudo em O Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final, foi anabolizado. Lançado em 1991, fez barulho pelo orçamento gigantesco de 100 milhões de dólares, primeiro filme a custar mais de nove dígitos (empalidecendo os 6.4 milhões do filme original), e pelos efeitos especiais revolucionários, um salto na tecnologia digital que mudou a cara do cinema. O desafio foi também fazer com que Schwarzenegger, vilão supremo em 1984, fosse retrabalhado como herói, o que foi possível com a trama esperta. John Connor (Edward Furlong) é um pré adolescente vivendo em lares adotivos depois que Sarah foi presa em uma instituição mental – saber a data exata do começo da guerra que vai eliminar milhões ajudou a deixá-la absurdamente paranoica. O T-800 dessa vez é enviado ao passado como um protetor para John, agora alvo de outro tipo de exterminador, o T-1000 (Robert Patrick), uma máquina feita de metal líquido, capaz de alterar sua aparência, e ainda mais implacável que seu antecessor. Reunidos, John, Sarah e o T-800 buscam destruir o computador que dará origem à Skynet – com a missão cumprida, o futuro tão certo agora seria por fim uma página em branco. Fim da jornada de Sarah, fim da missão do exterminador, fim da história. Certo?

Taron Egerton arrasa em Rocketman!

Talvez. Mas T2 faturou inacreditáveis 521 milhões de dólares, maior bilheteria (de longe) de 1991, e os produtores acreditavam ainda ser possível espremer um pouco mais dessa história. Mas não para Cameron, que abriu mão dos direitos da série (por contrato ele só os recuperaria 28 anos depois), fazendo com que Terminator se tornasse uma propriedade intelectual sem pai. Sem pai e sem casa, já que nenhum grande estúdio havia adquirido sua licença, que ficou sambando por meia dúzia de produtoras diferentes. Mas a verdade é que a história já havia se exaurido, e os dois filmes cobriram todas as possibilidades dramáticas com o tema “robôs do futuro/salvador da humanidade”. Hollywood, que não conhecida exatamente por sua sutileza, armou em 2003 O Exterminador do Futuro 3 – A Rebelião das Máquinas, dessa vez com Jonathan Mostow no comando e Arnold mais uma vez interpretando o papel do ciborgue futurista, agora enviado ao passado para proteger John Connor já adulto (Nick Stahl), que por sua vez é caçado por um modelo novíssimo, o T/X (Kristanna Loken). Cenas de ação decentes não esconderam a pobreza da trama derivativa, e o filme teve como único ponto alto mostrar que o Dia do Julgamento nunca fora impedido, só atrasado, e o mundo não ia deixar de se destruir. Uma beleza.

Foi com zero surpresa que, quando os direitos da série mudaram de mãos de novo, uma nova trama foi encomendada – não para o cinema, mas para a TV. O Exterminador do Futuro: As Crônicas de Sarah Connor recuperou a personagem dos filmes originais, trocando Linda Hamilton por Lena Headey (de Game of Thrones), que por duas temporadas, entre 2008 e 2009, protegeu seu filho, John Connor (Thomas Dekker) de uma coleção de ameaças futuristas, tendo um soldado do futuro e uma exterminadora enviados como protetores. Não deu em muita coisa, tinha lá seu charme, mas a série voltou ao cinema em 2009 com O Exterminador do Futuro: A Salvação, que admite-se tinha a premissa menos repetitiva desde os filmes originais. Dessa vez a trama ambientava-se no futuro, depois do Dia do Julgamento, com exércitos de exterminadores caçando humanos sobreviventes. John Connor (Christian Bale) é o líder da resistência, e encontra em um novíssimo modelo de ciborgue em Marcus Wright (Sam Worthington), humano que, no corredor da morte em uma prisão do século 20, acorda décadas depois sem saber de suas origens – mas logo revela-se um exterminador dotado de consciência humana e pouco disposto a colaborar com seus mestres. Apesar da premissa, o filme morreu com a direção insípida de McG, que não consegue em nenhum segundo qualquer conexão emocional com o público – o que pior com Bale entregando uma de suas piores interpretações. É o filme que pouca gente lembra… o que termina sendo uma dádiva!

Christian Bale reencontra um velho amigo em A Salvação

Afinal, nada preparou o mundo para a total confusão de O Exterminador do Futuro: Gênesis, que Alan Taylor cometeu em 2015. É uma bagunça de ponta a ponta, com uma trama que revisita o filme original de 1984, recupera Schwarza como um exterminador envelhecido (o tecido orgânico envelhece, o esqueleto de metal não, tá certo então) e faz do próprio John Connor (Jason Clarke) um exterminador, agora respondendo à Skynet, que por algum motivo planeja ganhar um corpo fora da rede de inteligência artificial. Ou algo parecido, já que a trama para de fazer sentido em meia hora e gente segue a coisa pela inércia, como um desastre em descida de serra em que os carros diminuem para ver o tamanho do estrago mas inevitavelmente seguem em frente. Assim como a própria série, que jogou sua cronologia pela janela há tempos e segue em frente há 35 anos, um monstro que já faturou, só nas bilheterias mundiais, mais de 3 bilhões de dólares. Porque, assim como o próprio exterminador, James Cameron criou um monstro implacável que não pode ser detido nem pelo poder de filmes ruins. É um colosso que movimenta uma indústria gigantesca, uma propriedade intelectual presente em video games, histórias em quadrinhos (RoboCop vs. O Exterminador do Futuro, de Frank Miller, é minha favorita), brinquedos, colecionáveis e um oceano de traquitanas que mantém a criatura viva.

Eis que, 28 anos depois, James Cameron volta a assumir a paternidade da cria. O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio, apostou em um reboot quase que completo para tentar arrumar a casa. O filme, que estreia essa semana (minha crítica entra no ar na próxima quinta), apaga toda a bagunça feita depois que o cineasta deixou a casinha e retoma a história usando T2, de 1991, como ponto de partida. Tudo que consumimos desde então segue o caminho do dodô e para de ser considerado canônico. Além da necessidade narrativa, é o gatilho para limpar a casa e voltar a explorar a série como propriedade intelectual sem uma bagunça amarrada no tornozelo como uma bola de ferro. Até, claro, a próxima geração achar que repetição é sinônimo de boas histórias e estragar tudo mais uma vez. Alguém ainda tem estômago para um exterminador do futuro octogenário?

Linda Hamilton volta para salvar o futuro com estilo

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“Não existe condição digna de vida em uma prisão”, diz diretor de Irmandade http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/10/28/nao-existe-condicao-digna-de-vida-em-uma-prisao-diz-diretor-de-irmandade/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/10/28/nao-existe-condicao-digna-de-vida-em-uma-prisao-diz-diretor-de-irmandade/#respond Mon, 28 Oct 2019 04:47:28 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10661

Na superfície, Irmandade parece beber da mesma fonte que tantos filmes (e agora séries) parecem dividir no Brasil. O crime. A ineficiência do sistema. A escalada da violência. Um olhar mais atento, porém, mostra que o diretor Pedro Morelli enxergou além da superfície, lapidando seu recorte em torno de um dos fenômenos sociais responsáveis pela erosão das políticas de segurança no país: a criação de facções criminosas em presídios, que estendem sua influência até controlar o crime, protegidos pelos mesmos muros que o cidadão comum acredita lhe blindar do alcance de criminosos. Ok, parece a mesma teoria que rege parte da produção audiovisual nativa que volta seu olhar para causas e consequências da violência. A diferença em Irmandade é a execução. Morelli buscou na ficção elementos para desenhar um problema bem real sob a lente do thriller policial, do suspense, da pluralidade de pontos de vista. A âncora é a personagem de Naruna Costa, advogada que se reconecta com seu irmão (papel de Seu Jorge), há anos encarcerado e agora líder de uma facção em ascensão. Essa conexão humana é o que conduz a trama, que se mostra ainda mais urgente quando levantada como espelho do Brasil atual – dias antes de meu papo com Pedro Morelli, denúncias severas de tortura em presídios no Norte do Brasil tomaram os noticiários. A realidade sempre provocando a ficção, um dos assuntos que abordamos no bate papo que você acompanha a seguir.

De onde veio Irmandade e por que contar essa história?
A Netflix trouxe para a (produtora) O2 a vontade de fazer projetos, e entre os temas propostos estava o de facções criminosas. Eu tinha interesse pelo tema, havia lido sobre o assunto, a Andrea (Barata Ribeiro, produtora da série) levantou essa possibilidade e eu segui em frente. Isso foi há dois anos, e agora estamos aqui, produto pronto! É um assunto de apelo popular imenso. E ainda assim nunca vi uma história sobre facções em primeiríssimo plano. Eu queria também mostrar o mundo por dentro de uma prisão, como e porque as facções são formadas. Existe um paradoxo muito interessante. As facções surgiram porque existe uma opressão muito grande no sistema carcerário por parte do estado, uma repressão muito violenta, não existe nenhuma condição digna de vida ali dentro. Sem falar nas diversas violações aos direitos humanos. Estamos vendo isso agora no Brasil, mas nos anos 90, quando a série é ambientada, era muito pior. As facções são resultado de prender as pessoas e tratá-las dessa forma. Assim, elas se unem para enfrentar essa repressão, traduzido em uma luta contra o sistema carcerário e finalmente contra o estado. Isso começou com pequenos grupos, a coisa foi crescendo e olha como estamos no Brasil hoje: uma guerra de facções que tomam conta do país inteiro. Me pergunto: faz algum sentido tratar as pessoas dessa forma dentro das prisões? Eu me sensibilizo com o tratamento de um ser humano dessa forma e ponto final. Agora, mesmo para quem não se sensibiliza com isso, me parece uma estratégia limitada e ineficaz.

O cara sai mais revoltado do que quando entrou…
E dentro de um grupo em que ele precisa continuar cometendo crimes em troca de proteção. É uma bola de neve em que violência gera mais violência. Infelizmente a maioria dos governantes atuais acredita nesse caminho da repressão e a gente vai continuar nesse ciclo vicioso.

Você começou a desenvolver Irmandade há dois anos, e lança justamente quando o Brasil deu uma guinada em direção a um radicalismo que deixa a série ainda mais urgente. Existe os dois lados para um artista, o primeiro ao perceber que o assunto está em evidência, mas ao mesmo tempo lamentar que esse assunto esteja em evidência?
A notícia dos abusos na prisão no Pará era a última coisa que eu queria ter lido, é muito triste ver que isso ainda existe. Pior é ver gente que apoia, o presidente da república falou que é uma besteira, difícil acreditar que isso acontece no Brasil. Não existe nenhum lado positivo em ver que isso ainda acontece. Mas, uma vez que ainda é um tema contemporâneo, fico feliz em trazê-lo para discussão nesse momento oportuno.

Naruna Costa encara Seu Jorge em seu habitat no mundo de Irmandade

A ideia sempre foi fazer uma série? Ou você chegou a pensar em outro formato?
Sempre foi como série. Até porque sempre foi com a Netflix e é o que eles queria. E temos planos, se tivermos mais temporadas, é contar a história dessa facção crescendo cada vez mais. Temos muito assunto para explorar. A primeira temporada mostra a facção pequena, dentro de um presídio só, e podemos mostrar uma expansão.

Os mecanismos para fazer cinema hoje estão complicados. Scorsese foi até a Netflix para viabilizar seu O Irlandês. O futuro do audiovisual no Brasil passa por essa parceria com o streaming, com as Tvs. Como você vê esse caldeirão de novos dispositivos para alavancar o audiovisual?
A gente está num momento muito triste do cinema brasileiro. O que está acontecendo com a Ancine é uma tragédia, muita coisa paralisada. Pior ainda, existe influências extremamente arbitrárias tentando determinar o tipo de filme que pode ser feito, principalmente filmes que defendem minorias, que são praticamente censurados. É lamentável, estamos em um péssimo momento. O contraponto é a entrada dos players no Brasil. A Netflix está forte, outros entram em breve, e isso está movimentando nossa indústria. É muito positivo, porque existe muita demanda e temos de formar novas pessoas. A indústria audiovisual está aquecida, ganhando musculatura e as coisas estão em movimento por causa dessas séries. Esperamos que a Ancine se normalize o quanto antes para que possamos manter a força nas séries e voltar com o cinema de verdade. Afinal, o que conseguimos fazer com cinema autoral brasileiro é através da Ancine. Eu tive uma relação incrível com a Netflix, tive muita liberdade artística, porém é um canal americano escolhendo quais séries são produzidas. Não é a mesma coisa de fazer um filme sem interferência. O conceito é diferente, uma coisa não substitui a outra. O cinema autoral brasileiro precisa existir com sua independência.

O que você enxerga como influências para criar Irmandade? Do ponto de vista estético, narrativo…
Cara, eu acho que bebi muito de Hitchcock. Eu queria focar muito mais no suspense do que na ação. Entregar a ação depois de cozinhar o suspense. Apostei muito nisso. Claro que Hitchcock é de outra época mas ele traz elementos que eu não vejo nenhum diretor fazer até hoje. É a maestria que ele tinha em nos deixar na ponta da cadeira com ansiedade, a criação da expectativa, só suspense, da tensão, é o tom principal da série.

Viu algo recentemente que te deixou com essa sensação?
Coringa. Fiquei chapado! Filmaço. Eu tinha altíssimas expectativas, porque no trailer eu já achei tudo lindo, a fotografia, o figurino. E eu sou muito fã do Joaquin Phoenix. Ainda assim, o filme superou as expectativas, eu não conseguia respirar. Saí do cinema muito mexido. Muito mexido.

A Netflix conseguir recuperar uma variedade de gêneros que o cinema vinha deixando de lado, em especial aqueles filmes com orçamento médio. Você acha que é o momento de começar a investir em mais diversidade de gêneros no Brasil?
Acho. Assim, aqueles que querem fugir de gêneros e trabalhar com algo mais autoral eu acho incrível. O importante é estudar muito gêneros, beber as fontes dos grandes mestres do cinema de todo o mundo, porém trazer muita verdade, autenticidade e brasileirismo na hora de criar o nosso gênero. Seria muito triste essa série por exemplo ter sido feita de forma pasteurizada, colocando o gênero acima de tudo, mostrando a realidade brasileira como se fosse em qualquer lugar, no México, na Ásia. Minha opção, mesmo trabalhando em um gênero, que é o thriller, foi alcançar esse equilíbrio entre um gênero que as pessoas reconheçam com uma autenticidade 100 por cento nossa. Mostrar uma história que só podia se passar no Brasil. Essa combinação é o que temos de mais rico. Afinal de contas, somos brasileiros, e temos de fazer algo que só um brasileiro poderia fazer!

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Sem surpresas, novo Zumbilândia repete com graça vibe anárquica do original http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/10/24/sem-surpresas-novo-zumbilandia-repete-com-graca-vibe-anarquica-do-original/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/10/24/sem-surpresas-novo-zumbilandia-repete-com-graca-vibe-anarquica-do-original/#respond Thu, 24 Oct 2019 04:55:57 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10653

Zumbilândia: Atire Duas Vezes traz zero surpresas em relação à primeira parte, lançada há uma década. O caso, porém, é de não mexer em time que está ganhando. O diretor Ruben Fleischer optou por não anabolizar as ideias, reprisando aqui a mesma vibe anárquica que injetou graça em uma América distópica povoada por mortos-vivos. Não espere, portando, grandes revelações e reviravoltas complexas. A ordem do dia aqui é acompanhar alguns dias ao lado do quarteto reunido no filme de 2009, perceber que em uma década absolutamente nada foi alterado em sua rotina e aproveitar uma horinha e meia de diálogos espertos, participações especiais festejadas (ficar na sala durante os créditos finais é mandatório!) e escapismo desavergonhado.

Existe, claro, um fiapo de história pra amarrar a coisa. Tallahase (Woody Harrelson), Columbus (Jesse Eisenberg), Whichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin) firmaram residência no que um dia foi a Casa Branca, tocando a vida como uma família disfuncional e feliz. Mas existem fissuras na felicidade aparente da turma. Columbus e Whichita nunca oficializaram seu relacionamento como um casamento, e Little Rock sente a pressão em ser adolescente, principalmente pela figura paterna onipresente que é Tallahase. O idílio é rompido quando as duas irmãs partem para Graceland, deixando a outra metade traçando um plano de ação e resgate. Para temperar a mistura, dois elementos são jogados na trama. O primeiro é Berkeley (Avan Jogia), hippie de ocasião que assume canções de Bob Dylan como se fossem suas e convence Little Rock a traçar o rumo para Babilônia, supostamente um refúgio pacifista em meio ao caos zumbi. A segunda é Madison (Zoey Deutch), uma barbie de carne e osso que viveu por anos no freezer de um shopping abandonado – seu estilão patricinha de Beverly Hills é a melhor surpresa do filme.

Sim, essa foto é quase igual à lá do alto! E tem mais…

Basicamente, é isso. Atire Duas Vezes é um road movie com pausas ocasionais para colocar nossos heróis pipocando os miolos de zumbis desavisados – a melhor “evolução” entre mortos-vivos são os Homers, tão tapados que não valem o desperdício uma bala. Não espere, portanto, nenhuma profundidade nas entrelinhas do “lar é estar com as pessoas amadas” ou qualquer discussão sobre a conexão que faz de estranhos uma família. Fleischer e sua equipe sabem exatamente em que chão estão pisando e não desviam um milímetro de sua rota sangrenta e desmiolada. E deve ser uma jornada divertida, já que seus protagonistas retornaram sem hesitar, mesmo que alguns tenham visto sua carreira disparar no meio tempo. Se Woody Harrelson já era astro calejado quando decidiu caçar zumbis, Jesse Eisenberg passou de rosto semi-anônimo a indicado ao Oscar por A Rede Social, trabalhou com Woody Allen duas vezes (Para Roma com Amor e Cafe Society), ganhou uma série para chamar de sua (Truque de Mestre) e ainda flertou com o mundo dos super-heróis (foi Lex Luthor em Batman vs. Superman). Já Emma Stone foi ainda mais longe, ganhando de fato um Oscar (por La La Land), além de trabalhar com Woody Allen duas vezes (Magia ao Luar e O Homem Irracional), pincelar sua filmografia com pequenas pérolas (de Amor a Toda Prova a Birdman a A Favorita) e ainda flertou com o mundo dos super-heróis (foi Gwen Stacy em dois O Espetacular Homem-Aranha).

O retorno de tanta gente notável ao mundo de Zumbilândia prova que o conceito de cinema é elástico, e abraça desde filmes nobres e pequenas obras de arte até comédias desmioladas que miram em nada além de diversão. Ruben Fleischer não é exatamente o mais talentoso dos cineastas. Seu Caça ao Gângster foi uma tentativa pífia de se mostrar um autor mais sério ao romantizar o mundo do crime na Los Angeles do final dos anos 40. Venom só escapou do desastre completo graças à dedicação absurda de Tom Hardy no papel do jornalista que hospeda uma forma de vida alienígena. Mas o diretor tem experiência aos montes, graças a seu trabalho na televisão. Zumbilândia é exatamente o material em que ele se sente à vontade para ser anárquico, para criar pequenos sketches amarrados com fragmentos de roteiro e para fazer comédia ligeira. Funciona, é engraçado, de fácil digestão e sempre saboroso. E nunca duvide de alguém que tem Bill Murray na agenda.

Não disse? Se eu colocasse uma foto do primeiro filme seria igual!

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A Ascensão Skywalker: Não estamos preparados para o fim de Star Wars http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/10/22/a-ascensao-skywalker-nao-estamos-preparados-para-o-fim-de-star-wars/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/10/22/a-ascensao-skywalker-nao-estamos-preparados-para-o-fim-de-star-wars/#respond Tue, 22 Oct 2019 18:26:08 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10644

J.J. Abrams adora um mistério. Não seria diferente com Star Wars: A Ascensão Skywalker, que em pouco menos de dois meses encerra a saga criada por George Lucas num já distante 1977. O novo trailer do filme, último antes de seu lançamento em dezembro, aposta na emoção, na trilha grandiosa, e mantém a trama sob um véu de… mistério! É melhor assim. Sabemos que Rey e Kylo Ren vão resolver sua relação complicadíssima – seja como aliados, seja quebrando o pau em um duelo de sabres de luz. Sabemos que o imperador Palpatine, que todos acreditavam morto desde O Retorno de Jedi, pode ser o arquiteto da Primeira Ordem para sua volta ao poder na galáxia. Sabemos que os heróis vão se reunir em uma batalha derradeira pela liberdade. Sabemos de algumas coisas. Mas não sabemos de nada.

Desde que a Disney comprou a LucasFilm, Star Wars se tornou um animal diferente. O mais curioso é que essa última trilogia espelha a estrutura justamente da primeira, com uma história dividida em três atos distintos e complementares. Assim como em Guerra nas Estrelas (eu sou velho, julguem-me), O Despertar da Força trouxe um herói (ou heroina) improvável que se revela a grande esperança para derrubar um império totalitário do mal. Assim como em O Império Contra-Ataca, Os Últimos Jedi desafiou as expectativas e impôs uma derrota fulgurante a nossos heróis, questionou para qual lado pende a lealdade de seu maior vilão e terminou com um sentimento agridoce de vitória. Não é de se espantar, portanto, que A Ascensão Skywalker, assim como em O Retorno de Jedi, pareça apresentar escolhas quase impossíveis à sua protagonista – no teaser divulgado durante a D23, Rey surge com um ameaçador sabre de luz vermelho, insinuando que ela pode ao menos flertar com o Lado Negro da Força. Ter Lando Calrissian aparentemente liderando um grande ataque final aos vilões da aventura, ao mesmo tempo em que uma batalha mais intimista é travada na presença de Palpatine, só aumenta essa possibilidade.

Rey já está se debulhando em lágrimas por conta do fim de Star Wars

E é isso: possibilidades. É bobagem a essa altura rever o trailer com uma lupa em busca de “pistas” – um exercício de futilidade. Melhor mesmo é prestar atenção nas certezas. Uma delas é definitiva: Star Wars como conhecemos desde 1977 termina em dezembro. Não existe, em toda a história do cinema, empreitada mais bem sucedida em transformar a paixão por filmes em indústria. Nada arranha a importância da saga de George Lucas como inspiração para gerações que seguiram seus sonhos em criar magia com luz, som e imagens e movimento. Star Wars é muita coisa: filmes, acontecimento cultural, indústria bilionária, alvo de críticas. Por anos foi saco de pancadas de uma geração de “puristas” que enxergaram em filmes de estrutura simples, que espelham a jornada do herói, uma espécie de “anti-cinema”, como se entretenimento fosse algo menor comparado a “arte” (seja lá o que essa turma defina como arte). Ainda assim, a paixão pela aventura e a empolgação em rever personagens icônicos colocou o público ao lado de Han, Luke, Leia, Obi-Wan, Rey, Kylo Ren e Darth Vader. É essa matemática que importa!

E é por isso também que Star Wars, como universo, continua sua expansão. A Ascensão Skywalker marca o fim de uma história ambientada nesse universo – que envolve os jogadores principais em um xadrez cósmico que mistura resistência a um regime ditatorial com misticismo à moda antiga. O espaço aberto por filmes como Rogue One e, agora, com The Mandalorian como série em streaming, mostra outras possibilidade a ser exploradas. A saga da família Skywalker, em torno da qual concentram-se os nove “episódios” no cinema, nunca foram ficção científica, assemelhando-se muito mais a histórias medievais, com seus castelos inexpugnáveis, heróis improváveis, duelos de espadas e cavaleiros defendendo diferentes lealdades. Rogue One, por sua vez, foi um filme de guerra explícito, uma aventura estilo “homens em uma missão” como Os Doze Condenados ou mesmo O Resgate do Soldado Ryan. The Mandalorian, ao que tudo indica, é mais western spaghetti com seu “herói sem nome” do que Star Trek. Planos para criar novas histórias neste universo, jogando luz em cantos até hoje inexplorados, continua nos planos da LucasFilm, seja no cinema (David Benioff e D.B Weiss, de Game of Thrones, estão desenvolvendo uma nova trilogia; Kevin Feige, da Marvel, vai produzir seu Star Wars; Rian Johnson, de Os Últimos Jedi, também está tocando novos filmes), seja no streaming (Ewan McGregor finalmente volta a esse universo como Obi-Wan Kenobi; Diego Luna retorna como Cassian Andor em uma aventura pré-Rogue One). O fim de Star Wars é, afinal, um recomeço para Star Wars.

A sala do trono de Palpatine precisa de uma mão de tinta

Precisamos de heróis. Star Wars, para gerações de apaixonados por aventura, fantasia e por cinema, foi o ponto de partida para um universo único, um lugar de sonhos e de inspiração. J.J. Abrams foi uma dessas pessoas, e transformou sua paixão em profissão ao se espelhar nas conquistas de Lucas e nas aventuras e personagens que ele criou. Para Abrams, A Ascensão Skywalker é uma oportunidade única em que um fã ganha as chaves do reino e a responsabilidade de encerrar a maior saga que o cinema já viu. “Quando você assistir aos nove filmes em sequência, vai perceber uma história coesa, uma saga única com começo, meio e fim”, disse o diretor. O trailer dá a pista que a palavra de ordem foi mesmo emoção, foi criar uma celebração para os dos acontecimentos mais marcantes da cultura pop mundial. Lágrimas são opcionais, mas serão protagonistas dessa despedida, mais uma vez, agridoce. É o fôlego final para o começo do fim, e também a promessa de um recomeço. Afinal, o mundo seria um lugar terrível sem Star Wars. E ninguém quer viver em um lugar assim.

Adeus, amigos. E obrigado pelos peixes…

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