Roberto Sadovski http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Tue, 23 Jul 2019 14:12:05 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Bilheteria recorde de Vingadores Ultimato acentua o fenômeno que foi Avatar http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/23/bilheteria-recorde-de-vingadores-ultimato-acentua-o-fenomeno-que-foi-avatar/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/23/bilheteria-recorde-de-vingadores-ultimato-acentua-o-fenomeno-que-foi-avatar/#respond Tue, 23 Jul 2019 07:27:45 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10214

Vingadores: Ultimato conseguiu o que parecia impossível. Levou uma década, mas um filme tirou Avatar do pódio das maiores bilheterias mundiais. A eco-aventura de James Cameron, lançada em dezembro de 2009, terminou sua carreira com exatos 2.789.579.794 dólares (acredite, as frações são importantes). Já a segunda batalha dos heróis mais poderosos da Terra contra o genocida cósmico Thanos, que estreou no final de abril, bateu no fim de semana passado a marca de (respira) 2.790.591.417 dólares. Com seu último fôlego, Ultimato ainda deve garantir mais uns trocados no banco, mas conseguiu tomar o lugar dos guerreiros Na’vi com uma diferença apertada. É um feito e tanto, que coroa mais de uma década da construção do Universo Cinematográfico Marvel e mostra o quanto seus personagens ressoam com o público. Mas é importante lembrar que a conquista da aventura comandada pelos irmãos Joe e Anthony Russo acentua, acima de tudo, o feito extraordinário de James Cameron com sua ficção científica ambientalista.

Primeiro, vamos tirar da frente a competição boba que transforma a performance de um filme nas bilheterias em certificado de qualidade: tanto Avatar quanto Ultimato são filmes espetaculares, experiências cinematográficas completas capazes de criar uma conexão profunda com a plateia, sem ignorar sua força narrativa e nem seus predicados como espetáculo. São filmes que empolgam e emocionam, que fazem vibrar e também refletir. São o ápice da tecnologia em criar cinema, em que as ferramentas nunca são mais importantes que o elemento humano. São jornadas completas de personagens com quem nos identificamos – bom, pelo menos até o ponto em que isso é possível com super-heróis extraordinários ou alienígenas defendendo sua terra. São filmes, por fim, que a plateia abraçou de forma incondicional, extrapolando as previsões mais otimistas de seus produtores para cravar seu título na história do cinema. Avatar, porém, conseguiu tudo isso uma década atrás, sem o poder de mídias sociais criando hype instantâneo, sem a larga vantagem de Vingadores, que entrou em campo com o planeta sabendo exatamente quem era cada jogador. James Cameron deu um tiro no escuro. E seu triunfo é testamento de sua habilidade incontestável como contador de histórias.

Vingadores: Ultimato toma seu lugar como maior bilheteria da história

Ao contrário dos filmes com o selo Marvel, que traduzem para o cinema um universo que existe em forma de história em quadrinhos há mais de cinco décadas, Avatar foi uma história original. Claro, Cameron colocou em seu texto uma vida inteira de paixão e de referências. Um pouco do espírito desbravador do western. Uma pitada da luta de Davi e Golias. Influências de história contemporânea, ativismo sócio-ambiental, conceitos do “estranho em uma terra estranha”. Pitadas do tema “soldado tornando-se nativo” que evocam de Um Homem Chamado Cavalo a Dança com Lobos. Edgar Rice Burroughs e seu A Princesa de Marte. Trabalhos dos escritores Poul Anderson e Ben Bova. Apocalypse Now. Se todo filme é sobre outro filme, Cameron esmerou-se na lição de casa e adicionou sua personalidade, sua consciência ambiental em choque com uma invasão militar. Avatar pode lembrar muitas coisas, mas é uma ficção científica original, que conta uma história alinhada com o novo milênio ancorada pela tecnologia mais avançada que o cinema podia conceber.

Meses antes de sua estréia, porém, uma pá de analistas decretava a ruína de Cameron e sua obra. Afinal, era uma aposta muito alta para um “produto” que ninguém sabia se o público estaria sequer interessado. Assim como em Titanic mais de uma década antes, o diretor estourou prazos e orçamento (que bateu em inconcebíveis, para a época, 240 milhões de dólares), deixando o estúdio temeroso com uma conta que precisava sair do vermelho. Claro que o currículo de Cameron era seu maior trunfo, já que o próprio Titanic passou de desastre em potencial para um dos filmes mais aclamados pelo público em todos os tempos, o primeiro a cruzar 2 bilhões de dólares nas bilheterias mundiais. Era o que bastava para executivos respirarem aliviados. Eles perceberam que tinham um fenômeno em mãos quando Cameron exibiu pela primeira vez cenas de Avatar em público, no maior palco da Comic-Con de San Diego em julho de 2009. Até ali, tudo girava em torno da tecnologia 3D imersiva e do fato de o diretor ter criado um mundo totalmente digital para ambientar a aventura. Mas ninguém esperava o impacto das imagens, acompanhadas por mais de 6 mil fãs que experimentavam pela primeira vez como seria a viagem para o mundo de Pandora. Na mesma noite, eu conversei com Cameron sobre o que acabara de ver, e o diretor foi categórico: “Você ainda não viu nada”.

James Cameron dirige Sam Worthington em Avatar

Avatar finalmente chegou aos cinemas em 8 de dezembro de 2009, e cravou números sólidos, mas não excepcionais. Foram 77 milhões de dólares em sua estreia, o suficiente para garantir o primeiro lugar, mas pouco para quebrar a “barreira mágica” de uma arrancada de 100 milhões. Na semana seguinte, porém, o primeiro lugar se repetiu com 75 milhões, uma queda ridícula de menos de dois por cento nas bilheterias – como comparação, é razoável um filme desse porte experimentar uma queda de 50 por cento, como o próprio Ultimato. Nas seis semanas seguintes, Avatar manteve-se em primeiro lugar, deixando o Top 10 apenas dezesseis semanas depois de sua estreia. O público em todo o mundo entendeu que o filme de Cameron era, na verdade, uma passagem para um planeta distante, habitado por criaturas exóticas, e que parecia absolutamente real. A aventura finalmente deixou os cinemas americanos em agosto, quando a registradora já marcava seu recorde aparentemente intransponível.

É curioso que, uma década depois, Avatar tenha deixado marcas tão discretas no tecido da cultura pop. Ao contrário dos poderosos heróis da Marvel, não existe uma gama infinita de produtos licenciados – a verdade é que é difícil encontrar alguém que lembre os nomes dos protagonistas. Longe de ser um demérito para o filme, é só evidencia de que James Cameron nunca se preocupou com Avatar como produto, e sim como obra cinematográfica, como resultado da reflexão de um artista e sua necessidade em contar uma história. O cinema, por outro lado, deve muito a ele, em especial seu legado tecnológico, que provou ser possível a construção de mundos inteiros com computadores, ampliando o controle e a visão artística de um diretor. O 3D hoje perdeu muito de sua força, principalmente porque pouquíssimos diretores tiveram habilidade, assim como Cameron, de entender e empregar o verdadeiro potencial da tecnologia imersiva. O caminho árduo de Vingadores: Ultimato para finalmente destronar Avatar como maior bilheteria mundial sublinha a genialidade da visão de James Cameron e sua capacidade em construir espetáculos capazes de mobilizar todo o planeta à frente de uma tela iluminada em uma sala escura. Não é uma competição: Cameron parabenizou a Marvel por seu feito, e os irmãos Russo foram elegantes em sua resposta, dizendo o quanto os filmes do diretor inspiraram sua própria carreira. Tudo com muita classe. Ah, e se Zoë Saldaña um dia te chamar para fazer um trabalho – qualquer trabalho! -, vai. Na hora! De Neytiri a Gamora, ela sabe o que faz.

*Errata: Diferentemente do informado no primeiro parágrafo, na primeira versão do texto, a cifra é de 2.790.591.417 dólares, e não 2.790.591.417 bilhões. O conteúdo foi corrigido

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Marvel integra universos de cinema e TV e muda (de novo!) a cultura pop http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/22/marvel-integra-universos-de-cinema-e-tv-e-muda-de-novo-a-cultura-pop/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/22/marvel-integra-universos-de-cinema-e-tv-e-muda-de-novo-a-cultura-pop/#respond Mon, 22 Jul 2019 09:36:21 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10181

Alguns anos atrás, houve a tentativa de adaptar A Torre Negra, obra suprema de fantasia de Stephen King, para além dos livros. O plano era ambicioso: criar uma trilogia de filmes para o cinema, entrecortada por duas temporadas de séries para a TV. Com sete livros e construção de mundo intrincada, talvez fosse a forma mais bacana de traduzir a imaginação de King com som e imagem. A empreitada murchou, restando em seu lugar um filmeco mequetrefe com Idris Elba e Matthew McConaughey que ninguém viu. Corta para o palco principal da Comic-Con em San Diego, com o produtor Kevin Feige explicando como será a quarta fase do Universo Cinematográfico Marvel depois de Homem-Aranha: Longe de Casa. “Ah, temos esses filmes, e temos também essas séries em streaming, e as ações serão conectadas”, resumiu. Bum! Na surdina, sem alarde, a Marvel rearranjou mais uma vez o cenário do entretenimento pop.

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A nova configuração do MCU ficou clara quando Feige, ao apresentar o universo pós-Vingadores: Ultimato, não fez nenhuma distinção entre filmes para o cinema e séries planejadas para o novo serviço de streaming do estúdio, o Disney+. E nem podia: criadores em todos os lados estão misturados, assim como atores que reprisam seus papéis já icônicos. Em especial WandaVision, série que acompanha a escalada do poder da Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e a volta do Visão (Paul Bettany), visto pela última vez praticamente destruído pelas mãos de Thanos em Vingadores: Guerra Infinita. A jornada da heroína do streaming terá repercussões em Doctor Strange and the Multiverse of Madness (que delícia de título!), nova aventura em diversas realidades do personagem defendido por Benedict Cumberbatch, que terá Wanda Maximoff a seu lado, provavelmente uma consequência de suas ações em sua própria série. É bem diferente do que aconteceu em Agentes da S.H.I.E.L.D., que praticamente refletiu sem nunca interferir a narrativa dos filmes no cinema, e obviamente do que foi mostrado nas séries Marvel/Netflix, que dividiam o mesmo mundo mas nunca os mesmos holofotes.

Mahershala Ali e seu boné nada sutil…

 

O ponto fora da curva é que os programas da Disney+ são produzidos pelo Marvel Studios, carregando o mesmo DNA empregado há uma década no cinema. É uma aposta jamais arriscada na cultura pop, uma comunhão que altera mais uma vez o modo de construir entretenimento por ampliar de maneira radical os limites de histórias e narrativas. O próprio Feige revelou meses atrás seu interesse em experimentar com outros formatos para levar os super-heróis da editora além das páginas dos gibis. Usar a força do streaming, em tramas que podem se estender por 8, 10 horas de material, é a oportunidade perfeita para desenvolver personagens que, ou não teriam espaço no palco do cinema por talvez não ter a mesma estatura de alguns medalhões, ou se tornaram favoritos entre os fãs mas que se beneficiariam com histórias de orçamento mais modesto, que não teriam de competir com outros candidatos a blockbuster em tela grande.

Com jeito de show de rock, a apresentação da Marvel mais uma vez “ganhou” a Comic-Con de San Diego com uma receita testada e aprovada: a grandiosidade do elenco de cada “produto” no palco, somada ao fator surpresa de revelar sutilmente o que o estúdio tem na manga, encerrando a brincadeira com uma carta na manga capaz de deixar fãs salivando. E não foram novidades sobre Pantera Negra 2, Guardiões da Galáxia Vol. 3 ou Capitã Marvel 2 (todos já em desenvolvimento, provavelmente para 2022 e além). Não foi também explicar como os brinquedos que eram exclusivos da Fox vão se encaixar com o resto da turma – mesmo que Feige tenha deixado claro que Quarteto Fantástico e “os mutantes” estão no forno, provavelmente com mais informações guardadas para o painel do estúdio na D23, convenção da própria Disney que acontece entre 23 e 25 de agosto. A Marvel soltou o microfone quando Feige chamou o grande Mahershala Ali ao palco, revelando que o ator, que tem dois Oscar no currículo, será o novo caçador de vampiros no reboot de Blade.

Bravos sem motivo: Vingadores: Ultimato é a maior bilheteria da história

O futuro da Marvel, no cinema e em streaming, fica portanto assim desenhado pelos próximos dois anos, com dez novos produtos com data de lançamento cravada (Blade ainda nos deixa no suspense) e prováveis títulos em português. Nada mal para coroar o fim de semana em que Vingadores: Ultimato dá um passo além de Avatar e é consagrado como a maior bilheteria da história do cinema.

VIÚVA NEGRA
(1 de maio de 2020)

Scarlett Johansson retoma o papel da espiã russa que encontrou sua família com os Vingadores neste thriller de ação que repousa entre John Wick e Missão: Impossível. Ambientado no MCU depois dos eventos de Capitão América: Guerra Civil, o filme de Cate Shortland coloca Natasha Romanoff encarando seu passado, na pele de outra espiã treinada no mesmo Quarto Vermelho, Yelena Belova (Florence Pugh), e de Alexei Shostakov (David Harbour), que veste o traje do Guardião Vermelho, resposta soviética ao Capitão América. Completam o elenco Ray Winstone e Rachel Weisz, que pode (ou não) ser o assassino de reflexos fotográficos chamado Treinador.

FALCÃO E O SOLDADO INVERNAL
(Agosto de 2020)

Anthonie Mackie precisa descobrir como lidar com o peso do legado lhe passado por Steve Rogers ao fim de Vingadores: Ultimato, que é abraçar a identidade do Capitão América. A seu lado, Sebastian Stan retorna como o Soldado Invernal, e os dois heróis têm de enfrentar o retorno de Zemo (Daniel Brühl) – que quase destruiu a superequipe em Guerra Civil e que, desta vez, não abre mão da máscara roxa usada pelo personagem nos gibis.

ETERNOS
(6 de novembro de 2020)

O MCU volta a ficar cósmico com o anúncio oficial de Eternos, com a diretora Chloé Zhao garantindo um mergulho fidedigno à mitologia dos semideuses criados por Jack Kirby. Angelina Jolie assume o papel de Thena, telepata e telecinética, capaz de alterar a matéria e gerar ilusões. Ela tem como companheiros Ikaris (Richard Madden), Kingo (Kumail Nanjiani), Makkari (Lauren Ridloff), Phastos (Brian Tyree Henry), Sprite (Lia McGugh) e Gilgamesh (Don Lee), todos unidos sob a liderança de Ajak (Salma Hayek). Isolados do resto da humanidade há milênios, eles precisam retomar seu lugar como defensores do planeta com a ameaça iminente dos Deviantes, a “escória genética” cansada de viver nas sombras. Eternos também deu à Marvel a oportunidade de criar um elenco etnicamente diverso, continuando uma missão silenciosa em deixar o panorama dos blockbusters mais representativo a todas as faixas de público. Digno.

SHANG-CHI E A LENDA DOS DEZ ANÉIS
(12 de fevereiro de 2021)

Dar uma espiada em tuítes de Simu Liu ano passado é um exercício divertido, já que o ator sino-canadense de 30 anos tenta emplacar um papel em adaptações de HQs desde sempre. Ele estreia no cinema com os dois pés na porta no papel de Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu da Marvel, com o diretor Destin Daniel Cretton prometendo o mesmo respeito e fidelidade à comunidade asiática que Pantera Negra mostrou com suas raízes africanas. Como o título sugere, A Lenda dos Dez Anéis remete à uma das primeiras ameaças no MCU, o grupo terrorista que sequestrou Tony Stark em Homem de Ferro, liderado pelo Mandarim. Embora agisse nas sombras, seus agentes podem ser vistos em outras produções do estúdio (como em Homem-Formiga). O vilão termina se revelando depois de ter seu nome usado pelo maníaco Andrich Killian (Guy Pearce) em Homem de Ferro 3, quando ele o deu ao ator Trevor Slaterry (Ben Kingsley), que fingiu ser o Mandarim coordenando ataques aos EUA – algo que não deve ter agradado ao verdadeiro Mandarim, finalmente interpretado por Tony Leung.

WANDAVISION
(Primeiro semestre de 2021, Disney+)

Elizabeth Olsen e Paul Bettany são sinceros quando dizem não fazer ideia do rumo que WandaVision vai tomar. O próprio Kevin Feige sugere que será a série mais estranha do MCU, com Wanda Maximoff finalmente descobrindo seu potencial como a Feiticeira Escarlate – como e porque ela adota este codinome específico faz parte da jornada na nova série. Será um caminho para reviver o sintozóide Visão, destruído por Thanos em Vingadores: Guerra Infinita? E o que Monica Rambeau, que era uma criança em Capitã Marvel, agora interpretada adulta por Teyonah Parris, tem a ver com tudo isso? Perguntas, perguntas…

DOUTOR ESTRANHO NO MULTIVERSO DA LOUCURA
(7 de maio de 2021)

Com este título espetacular, o diretor Scott Derrickson retorna ao Mago Supremo para conduzir a segunda aventura solo de Benedict Cumberbatch como o Doutor Estranho. Multiverso da Loucura sugere uma jornada ainda mais psicodélica do que no filme de 2016 que apresentou o herói místico. Derrickson vai além, revelando que a aventura, que lida com o universo fraturado depois de Guerra Infinita e Ultimato, será o primeiro filme de terror da Marvel. A adição de Elizabeth Olsen como Wanda Maximoff, seguindo os eventos da série WandaVision, marca a primeira vez em que cinema e streaming são conectados na cultura pop. E eu já mencionei que o título é espetacular?

LOKI
(Primeiro semestre de 2021, Disney+)

Tom Hiddleston está de volta como o Deus da Trapaça, mas não como o Loki bacana que ajudou seu irmão Thor em O Mundo Sombrio e em Ragnarok, encontrando redenção e morte em Vingadores: Guerra Infinita. A versão que encabeça a série com seu nome é o Loki que, em uma linha alternativa temporal, rouba o Tesseract, que guarda a Jóia do Espaço e foge em Vingadores: Ultimato. Ou seja, é um deus que acabara de ser derrotado depois da invasão de Nova York mostrada no primeiro Vingadores, e que acabou de ser usado para “redecorar” o chão pelo Hulk. Loki em Loki não deve estar nada feliz…

O QUE ACONTECERIA SE…?
(Julho de 2021, Disney+)

Uma das séries mais bacanas nos gibis da Marvel era justamente O Que Aconteceria Se…?, que explorava realidades alternativas para personagens consagrados – como um universo em que o Homem-Aranha tivesse se juntado ao Quarteto Fantástico, ou Elektra não tivesse sido morta pelo Mercenário, ou ainda se o Capitão América não tivesse sido congelado ao final da Segunda Guerra. O conceito será traduzido em uma série animada que vai contar com as vozes de uma dúzia de atores repetindo seus papéis do cinema, como Michael B. Jordan como Eric Killmonger (de Pantera Negra), Stanley Tucci como o Dr. Abraham Erskine (de Capitão América: O Primeiro Vingador) e Samuel L. Jackson como Nick Fury (em… bom, em tudo). Assim como nos gibis, o narrador da série será Uatu, o Vigia, que ganha a voz de Jeffrey Wright.

GAVIÃO ARQUEIRO
(Segundo semestre de 2021, Disney+)

Quando a Netflix lançou suas séries com a Marvel, de Demolidor a O Justiceiro, o ator Jeremy Renner foi o primeiro a dizer publicamente que, se houvesse interesse em levar o Gavião Arqueiro para a telinha, ele estaria pra lá de disponível. Ruim para a Netflix, bom para a Disney+: Clint Barton, depois de crescer como personagem de uma ponta em Thor a um dos salvadores do mundo em Vingadores: Ultimato, finalmente ganha uma série só para ele. Ou quase, já que Gavião Arqueiro deve introduzir no MCU a personagem Kate Bishop, que também revela habilidade com arco e flecha para se tornar uma “Gaviã Arqueira” melhor do que Barton. Além disso, Kevin Feige revelou que a série também vai jogar uma luz nos anos entre Guerra Infinita e Ultimato, em que o herói, corroído pela perda de sua família, descobriu seu lado sombrio como o vigilante Ronin.

THOR: AMOR E TROVÃO
(5 de novembro de 2021)

Com Tony Stark morto e Steve Rogers aposentado, é bom saber que Thor, o Deus do Trovão, continua firme e saltitante pelo MCU. Melhor ainda saber que Taika Waititi, responsável pelo espetacular Thor Ragnarok, estará no comando da quarta aventura solo do herói, segundo os eventos de Ultimato – e dando um passo além. O que significa que a Valquíria (Tessa Thompson) é a nova regente de Asgard (e em busca de uma rainha), e que Thor (Chris Hemsworth, claro!) de alguma forma dá uma pausa em sua jornada com os Guardiões da Galáxia, o que com total certeza será explicado aqui. Mas o título heavy metal (depois da pegada pop de Ragnarok) ganha vulto com a volta de Natalie Portman à Marvel – e em grande estilo. A atriz, que havia colocado um ponto final na relação com o estúdio depois de O Mundo Sombrio (quem pode culpá-la?), retornou em uma das linhas temporais de Ultimato – mesmo que o material fosse sobra das filmagens do segundo Thor. E agora a coisa dá um passo além, já que o roteiro de Amor e Trovão é inspirado no arco criados nos quadrinhos por Jason Aaron, que mostra o Filho de Odin indigno de empunhar o martelo Mjolnir e a arma parando nas mãos de Jane Foster, que ganha seus poderes e assume o manto de Thor. Nem precisava de tanto: eu já me convenci de guardar lugar na fila quando li Taika Waititi e Amor e Trovão.

BLADE
(sem data)

Em algum lugar, Wesley Snipes chora…

*Diferentemente do informado na versão inicial do texto, o novo filme Thor e a série de Gavião Arqueiro serão lançados em 2021, e não 2012. O conteúdo foi corrigido.

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Stranger Things vira gibizão dos bons em sua melhor temporada http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/20/stranger-things-vira-gibizao-dos-bons-em-sua-melhor-temporada/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/20/stranger-things-vira-gibizao-dos-bons-em-sua-melhor-temporada/#respond Sat, 20 Jul 2019 08:55:05 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10164

A terceira temporada de Stranger Things trouxe poucas novidades. Seus protagonistas continuam divididos entre dramas juvenis e ameaças interdimensionais. A ambientação nos anos 80 escalou alguns degraus, mas ainda é muitas vezes conduzida com a sutileza de uma marreta. O mundo mais uma vez corre perigo com a iminência de uma invasão do “mundo invertido”, realidade paralela à nossa habitada por criaturas sombrias e letais. Ainda assim, a série dos irmãos Matt e Ross Duffer alcançou a perfeição por conta de decisões criativas espertas e por aprender que nada deve ser levado tão à sério: diversão aqui é a palavra chave. Diversão com uma pitada de intensidade, um gibizão assumido e empolgante. Dessa vez, a ficção científica flerta abertamente com o terror e a paranoia da Guerra Fria (são os anos 80, oras), tudo embalado em uma aventura adolescente descaradamente ancorada na década que tenta espelhar.

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Stranger Things, por sinal, entra em campo com total vantagem no jogo. Mais do que qualquer outra série da Netflix, a aventura deixou sua marca na cultura pop. Seus personagens não estão mais confinados nos limites do streaming, ganhando espaço no vocabulário que avança em produtos licenciados, em concursos de cosplay, na devoção a seus intérpretes. Eleven, a garota com poderes extraordinários interpretada por Millie Bobby Brown, é uma das grandes criações do entretenimento moderno. Dustin (Gaten Matarazzo) foi de alívio cômico a um dos personagens com arco dramático mais sólido. O xerife Jim Hopper (David Harbour) se consolida como um herói humano e falível, alquebrado por todos os defeitos do “homem moderno”, machista e intolerante, tão típico de sua era. Seu relacionamento com Joyce (Winona Ryder) é um dos grandes romances não realizados da cultura pop moderna. O público, portanto, sabe exatamente quem vai encontrar, e com as apresentações fora do caminho, é muito mais fácil aproveitar a jornada.

Dustin, Steve e Robin: o melhor núcleo da nova temporada

O texto nessa terceira temporada é sólido, mas não foge do convencional – o que pode ser uma decisão esperta. A ação é dividida em três núcleos que entram em choque no clímax. A ação bizarramente é centrada no novo shopping center que divide a cidade de Hawkins, colocando a velha guarda em choque com o prefeito que busca lucros acima de tudo. Mas a atração se revela fachada para invasores russos (!), que buscam reabrir a fissura que conecta nossa realidade com o mundo invertido. É nesse cenário que Eleven vê seu romance com Mike (Finn Wolfhard) estremecer, e Will (Noah Schnapp) pressente a volta da ameaça interdimensional. Por fim, o rebelde Billy (Dacre Montgomery), que continua a suprimir a fúria intensa que o consome, torna-se canal para uma entidade violenta, que literalmente absorve dúzias de habitantes da cidade ao se solidificar como uma criatura assassina. Muito além de invasores além da Cortina de Ferro e de monstros abissais, Stranger Things solidifica-se como uma história sobre o fim da infância, amizade, família, amor e a perda da inocência.

Até porque o elenco já deixou a pré-adolescência e caminha para a maturidade. Crescendo a olhos vistos, os garotos de Hawkings enfrentam os dilemas que chegam com os hormônios em ebulição. É uma decisão inteligente abraçar a mudança: assim como em Harry Potter, é fascinante acompanhar a evolução tanto dos personagens quanto de seus intérpretes, e colocar isso como centro da trama cria conexão imediata com o público. Talvez por isso a amizade inusitada entre Dustin e Steve Harrington (Joe Keery) tenha conquistado tanto destaque na segunda temporada, com seu “núcleo”, agora envolvido com mensagens russas codificadas e instalações militares secretas, ganhando a adição de Robin, que ganhou em Mata Hawke a intérprete perfeita. É dos três os momentos mais inesperados e surpreendentes da temporada. Mas não se engane. Stranger Things não é verborragia adolescente salpicada com elementos fantásticos: é um verdadeiro blockbuster, de grandes absurdos e intensa nostalgia. Já vimos tudo isso antes – e poucas vezes foi tão intenso, tão empolgante… e tão desenhado com neon.

Joyce e Hopper: adultos sem supervisão em um mundo fantástico

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De 101 Dálmatas a O Rei Leão, um ranking com as versões de desenhos Disney http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/18/de-101-dalmatas-a-o-rei-leao-um-ranking-com-as-versoes-de-desenhos-disney/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/18/de-101-dalmatas-a-o-rei-leao-um-ranking-com-as-versoes-de-desenhos-disney/#respond Thu, 18 Jul 2019 13:01:24 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10142

O Rei Leão quebrou a “tradição” de chamar as adaptações de animações Disney de “versões live action”. Mas não vamos deixar o fato de nada ser real no filme de Jon Favreau atrapalhar o batismo do filão milionário que o estúdio do Mickey inaugurou ao colocar Johnny Depp à frente de Alice no País das Maravilhas em 2010. Mas a lista de quem tem TOC é um problema, então eu aproveitei para colocar no ranking algumas tentativas que o estúdio encarou no século passado para traduzir seus desenhos com gente de verdade. Aproveitei e coloquei na mistura um híbrido de animação e live action que atualiza um…. outro híbrido! Por fim, é mais um… errr… “universo” em que a Disney pode apostar na memória afetiva de seu público com a nostalgia, sempre uma moeda de troca valiosa. Com vários já a caminho (Mulan, Cruella, A Dama e o Vagabundo), é um sub-gênero que não deve ter fim nem tão cedo. Fico no aguardo de A Canção do Sul – O Filme….

14. ALICE ATRAVÉS DO ESPELHO
(Alice Through the Looking Glass, 2016)

Eu honestamente custei a lembrar que esse filme existia. A segunda adaptação da obra de Lewis Carroll é uma fantasia cansada, preguiçosa, que descarta qualquer boa vontade que ainda existisse depois da primeira aventura – que ao menos tinha em Tim Burton a certeza de ao menos apuro visual. Aqui, o diretor James Bobin recupera Mia Wasikowska como Alice, que retorna ao País das Maravilhas para ajudar o Chapeleiro Louco (Johnny Depp, no ponto morto) a descobrir o mistério acerca de sua família. Ah, e tem Sasha Baron Cohen como o vilão. Ou algo parecido. Fuja.

13. 102 DÁLMATAS
(102 Dalmatians, 2000)

Glenn Close é o único motivo para arriscar uma espiada nessa continuação que basicamente repete a trama de seu antecessor. Cruella de Vil, uma das grandes vilãs Disney de todos os tempos, sai da prisão e não demora a voltar a seu plano de roubar filhotes de dálmatas para fazer um casaco ainda mais robusto – dessa vez com um capuz. As crianças bem pequenas podem se divertir com a comédia pastelão, mas 102 Dálmatas não passou de uma tentativa bem desavergonhada em faturar mais uns trocados com a ideia até óbvia de transformar animações em filmes. De tão ressabiado, o estúdio levou uma década até tirar a poeira dos planos. Para todos os efeitos, funcionou…

12. ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS
(Alice in Wonderland, 2010)

Johnny Depp estava em seu mais absoluto auge como astro de Hollywood ao retomar a parceria com Tim Burton nessa adaptação de Alice no País das Maravilhas. O mundo, por sua vez, estava encantado com as possibilidades da tecnologia 3D desde o fenômeno Avatar lançado meses antes. A combinação foi matadora, resultando em um sucesso de mais de 1 bilhão de dólares que viabilizou o plano de transformar animações clássicas em filmes com gente de verdade. Na prática, porém, não era para tanto. Indeciso em seu tom (vai de fantasia juvenil a uma batalha campal no calcanhar de Nárnia), Alice é uma bagunça que retém charme pela interpretação biruta de Depp e pelo visual exuberante comandado por Burton. Mas é, no fim das contas, uma experiência esquecível.

11. O LIVRO DA SELVA
(The Jungle Book, 1994)

Antes da fauna e flora revolucionárias de Jon Favreau (a gente volta já a esse assunto), a Disney arriscou levar a animação de 1967 aos cinemas como um filme de ação e romance que lembra mais Tarzan do que o texto de Rudyard Kipling. Jason Scott Lee, que fizera um certo barulho um ano antes como Bruce Lee na biografia Dragão, assume o papel de Mogli, que é deixado órfão na floresta aos 5 anos e cresce ao lado de uma alcateia. Duas décadas depois ele reconecta-se com a civilização, reencontra sua amiga de infância, Kitty (Lena Headey, beeeem antes de ser odiada por todos em Game of Thrones) e defende a Cidade dos Macacos no coração da ìndia de soldados invasores ingleses. Ah, o filme traz todos os animais da história original, como Balu, Baguera, Rei Louie e Shere Khan, mas eles não falam. Ainda assim, o diretor Stephen Sommers (pré-A Múmia) costurou uma história decente – que, infelizmente, naufragou nas bilheterias.

10. MALÉVOLA
(Maleficent, 2014)

A Bela Adormecida foi uma das animações que mais sofreu mudanças em sua transição para uma fábula live action. Como o título já entrega, o foco agora não é mais na princesa Aurora (Elle Fanning), e sim em Malévola, a feiticeira que fez história como uma das vilão mais espetaculares dos filmes da Disney. Claro que, nessa versão interpretada por Angelina Jolie, ela não é assim tão malvada, e sim injustiçada e incompreendida. Isolada na floresta, ela trama contra a vida da jovem princesa mas logo desenvolve por ela um afeto maternal, traduzido por fim em amor verdadeiro. O miolo da aventura, com Jolie e Fanning descobrindo sua conexão em meio às criaturas da floresta, é a melhor coisa de Malévola – que descamba num clímax derivativo e caído. Em outubro o filme ganha uma continuação, Malévola: Dona do Mal. A ver. Eu comentei sobre Malévola na época de seu lançamento aqui.

9. A BELA E A FERA
(Beauty and the Beast, 2017)

Bill Condon assumiu a tarefa de transformar em um filme live action uma das histórias mais importantes de todo o catálogo Disney. A Bela e a Fera, afinal, foi o primeiro desenho a ser indicado ao Oscar de melhor filme, então a pressão não foi pequena. Criativamente, Condon (que dirigiu o ótimo Deuses e Monstros e os dois episódios derradeiros de Crepúsculo) decidiu não arriscar, e traduziu a animação de 1991 quase ao pé da letra, abraçando ainda mais sua natureza de musical da Broadway. Visualmente perfeito e narrativamente inerte, A Bela e a Fera talvez tenha errado somente na escolha de sua protagonista: como Belle, Emma Watson pode ter mirado em “mulher moderna e empoderada”, mas por fim só parece emburrada e mau humorada, deixando a leveza da jovem que enxerga beleza no coração da Fera enterrada pela neve que cerca seu castelo. Eu falei mais sobre o filme aqui.

8. 101 DÁLMATAS
(101 Dalmatians, 1996)

Glenn Close acertou em cheio ao criar uma Cruella de Vil charmosa e exagerada nessa versão de 101 Dálmatas (que para mim sempre será A Guerra dos Dálmatas, julgue-me). Com direção de Stephen Herek (responsável por Bill & Ted – Uma Aventura Fantástica), o filme transporta a ação de 1961 para a Londres contemporânea, contando com leveza o caso de amor dos dálmatas Pongo e Perdita (ok, e de seus donos Roger e Anita), que precisam enfrentar Cruella quando ela planeja roubar seus filhotes para fazer um casaco de peles. Apesar da trama bobinha, Herek caprichou não só na ambientação como deu à sua vilã um ar de rainha da moda, de figurinos e perucas extravagantes, que Glenn Close devorou com gosto. Simpático e divertido, 101 Dálmatas teve a seu favor zero pressão para fazer parte de um sub gênero que, mal sabiam seus realizadores, ia contribuir para a Disney dominar o planeta menos de duas décadas depois.

7. DUMBO
(2019)

Tim Burton tenta recapturar relâmpago em uma garrafa em sua segunda versão live action para um clássico Disney. Dumbo, claro, foi ainda mais trabalhoso que Alice no País das Maravilhas, já que a animação de 1941 traz um fiapo de história resolvido em pouco mais de uma hora. O filme usa a premissa básica do elefante de orelhas imensas separado de sua mãe para contar uma história que mistura a ganância do corporativismo com um discurso de defesa dos animais bastante moderno. Se o resultado deixou os puristas de cabelos em pé, a verdade é que Dumbo é um filme doce, que encontra sua conexão emocional ao celebrar aqueles que são diferentes. Eu falei mais sobre ele aqui, além de ter feito um perfil bacana de Danny DeVito aqui.

6. O REI LEÃO
(The Lion King, 2019)

O Rei Leão é uma realização agridoce. Se por um lado é um filme tecnicamente impecável, o que resulta em um simulacro digital do mundo real praticamente perfeito, por outro essa mesma perfeição joga para o time adversário quando os animais que protagonizam a aventura se mostram incapazes de expressar qualquer emoção. O resultado é estranho, como se um documentário do Animal Planet tivesse dublagem de Donald Glover e Beyoncé. Embora O Rei Leão tenha perdido parte de seu apelo lúdico com a decisão de criar um elenco foto realista – a morte de Mufasa não traz um décimo do impacto, já que somos privados da expressão de terror do pequeno Simba -, o filme de Jon Favreau deixa sua marca na história como o momento em que a tecnologia fez com que elementos da arte de fazer filme se tornassem obsoletos. Como uma locação. Você pode ler meu texto mais detalhado sobre O Rei Leão aqui.

5. CHRISTOPHER ROBIN – UM REENCONTRO INESQUECÍVEL
(Christopher Robin, 2018)

As Aventuras do Ursinho Pooh, lançado em 1977, marcou uma vitória para a Disney. Ao licenciar em 1960 os personagens criados por A.A. Milne, o estúdio do Mickey terminou por atropelar a obra e fazer com que sua versão fosse a definitiva aos olhos do público. Christopher Robin extrapola o filme original e entrega uma continuação tardia, em que Ewan McGregor interpreta o sujeito que, adulto, esqueceu das aventuras ao lado de Pooh e sua turma no Bosque dos Cem Acres. Após lutar na Segunda Guerra, já casado e com filhos, Robin vive para seu emprego – e nesse momento ele reencontra Pooh, que deixa o Bosque mítico para aventurar-se no “mundo real”. Marc Forster (007 – Quantum of Solace, Guerra Mundial Z) criou um filme doce e muito fofo, que eu comentei à época de seu lançamento aqui.

4. ALADDIN
(2019)

Will Smith conquistou a maior bilheteria de sua carreira como o Gênio na versão dirigida por Guy Ritchie de Aladdin. Seu maior acerto foi sequer tentar seguir o trabalho de Robin Williams na animação de 1992. Em vez disso, Smith criou sua versão da criatura mágica como um astro pop, conduzindo o romance improvável e inevitável de Aladdin (Mena Massoud) e Jasmine (Naomi Scott) com bom humor e total exagero. Funciona, especialmente por Ritchie (responsável por filmes tão distintos como Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e os novos Sherlock Holmes) não tentar reinventar a roda, e sim jogar um pouco mais de purpurina sobre a coisa toda. Momentos de total júbilo (“Um Mundo Ideal” ainda é imbatível) antecedem um clímax que, vai saber o motivo, peca justamente por ser contido, quando a narrativa pede ostentação e suntuosidade! Como eu coloquei em meu texto original aqui, vou imaginar para todo o sempre uma versão conduzida por Baz Luhrmann…

3. MEU AMIGO, O DRAGÃO
(Pete´s Dragon, 2016)

Meu Amigo, O Dragão, comédia musical lançada pela Disney em 1977, é meio que uma bagunça. Concebido originalmente para a TV, terminou lançado no cinema misturando atores com criaturas animadas, mais ou menos como o estúdio fizera anos antes em Mary Poppins. Mas essa versão de 2016, dirigida por David Lowery, é uma das surpresas mais espetaculares de todo o catálogo do estúdio. As músicas foram pela janela, substituídas por uma aventura fantástica que coloca Robert Redford, Bryce Dallas Howard e Wes Bentley às voltas com Pete, um garoto órfão, que se comporta como um animal selvagem, criado em meio à floresta por um dragão felpudo. O que se segue é uma história mágica, sobre amizade, sobre família, com pitadas de ambientalismo e da desefa da natureza ante o avanço irrefreável do “progresso”. Se, assim como Pete, eu tivesse 11 anos, seria o filme da minha vida.

2. CINDERELA
(Cinderella, 2015)

Kenneth Branagh traçou as regras de como traduzir um desenho animado clássico em um filme live action com sua belíssima adaptação de Cinderela, que colocou Lily James como a princesa que perde o sapatinho de cristal. A palavra-chave é equilíbrio: é entender melhor os personagens do que no desenho, sem que eles percam sua personalidade; é dar mais profundidade à trama sem quebrar o clima lúdico. É elegante sem deixar de ser completamente reconhecível por qualquer humano que tenha passado os olhos no filme original. É uma beleza de filme que, como eu falei aqui, encontra sua maior força na performance arrebatadora de Cate Blanchett como uma madrasta malvada de motivações demasiado humanas.

1. MOGLI, O MENINO LOBO
(The Jungle Book, 2016)

Jon Favreau conseguiu com seu Mogli um triunfo completo – como eu falei em meu texto original aqui. Visualmente é de cair o queixo, com o diretor usando a tecnologia digital desenvolvida por James Cameron para Avatar para recriar a floresta na Índia em que a aventura é desenvolvida. Segundo, ao entregar animais foto realistas que conseguem interpretar e cantar como no desenho de 1967. Até aí você deve estar se perguntando o que ele fez de diferente que faz de Mogli um filme superior a O Rei Leão. A resposta é fácil: com Neel Sethi, o garoto que interpreta o personagem-título, o filme ganha uma âncora humana que faz com que toda a jornada, embora criada em um ambiente totalmente digital, seja mais real. O roteiro esperto de Justin Marks ajuda a empreitada ao atualizar o texto original em uma aventura bonita, às vezes assustadora, mas sempre arrebatadora, sem nunca perder seu núcleo: na selva, ou em qualquer lugar, é importante descobrir o que mais valorizamos na vida. Ah, e tem Bill Murray como o urso Balu. Drop mic.

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Mulher, negra, letal: Como Bond 25 pode trazer a versão mais radical de 007 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/16/mulher-negra-letal-como-bond-25-pode-trazer-a-versao-mais-radical-de-007/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/16/mulher-negra-letal-como-bond-25-pode-trazer-a-versao-mais-radical-de-007/#respond Tue, 16 Jul 2019 03:12:23 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10128

Daniel Craig está prestes a pendurar a pistola Walter PPK depois de finalizar o trabalho na próxima aventura de James Bond. A dúvida sobre quem vai assumir o papel do espião domina as conversas em torno do personagem desde 2015, quando 007 Contra Spectre deixou um gosto amargo com seu aparente retrocesso em consolidar os filmes do herói para o século 21. A essa altura é claro que toda discussão acerca do “novo Bond” é um exercício em futilidade, mas os fãs não deixaram de fazer suas campanhas, em especial querendo ver Idris Elba como o agente (o que seria bacana), ou mesmo a possibilidade de Bond ser uma mulher (o que jamais vai acontecer segundo a produtora Barbara Broccoli). A solução encontrada para o próximo filme parece mirar nessa visão progressista, ao mesmo tempo em que não mexe no bom e velho James Bond.

Segundo o Daily Mail, que a gente admite não ser exatamente a fonte mais confiável, enquanto Daniel Craig continua sendo James Bond, o diretor do ainda sem título Bond 25 , Cary Joji Fukunaga, escalou a atriz Lashana Lynch para assumir o papel de 007 no novo filme. Faz todo sentido. O código, afinal, é apenas uma designação para agentes do MI-6, e estaria no ar caso seu detentor mais famoso estivesse indisponível. E é exatamente isso que aparentemente acontece na trama comandada por Fukunaga, que começaria com Bond/Craig aposentado depois dos eventos de Spectre, relaxando na Jamaica ao lado de Madeleine Swann (Léa Seydoux). Enquanto isso, Lashana seria a nova espiã a assumir a posição de agente 007. Uma nova crise global faria com que M (Ralph Fiennes) buscasse a ajuda de Bond – que, ao final da trama, poderia recuperar seu lugar no serviço secreto e o código que determina sua licença para matar. Ou não….

Editorial use only. No book cover usage. Mandatory Credit: Photo by Columbia/Eon/Danjaq/Mgm/Kobal/REX/Shutterstock (5886264bp) Daniel Craig, Lea Seydoux Spectre - 2015 Director: Sam Mendes Columbia/EON/Danjaq/MGM UK Scene Still Action/Adventure

Daniel Craig e Léa Seydoux, aqui em Spectre, estão de volta em Bond 25

Nada disso, obviamente, é confirmado. Mas seria uma indicação de que os produtores da série, embora extremamente rígidos com suas regras em torno da caracterização de James Bond, encontraram uma brecha para apresentar uma 007 radicalmente diferente, inesperada e sensacional. O fato de Lashana Lynch não ser um rosto conhecido corrobora toda a teoria, já que seria mais fácil apontar uma nova espiã na trama a uma intérprete menos chamativa. Depois de exercitar seu ofício em uma longa lista de séries de TV, a atriz ganhou destaque em Capitã Marvel como Maria Rambeau, melhor amiga de Carol Danvers (Brie Larson), que se reconecta com a parceira após esta retornar do espaço com poderes cósmicos. Embora tivesse pouco tempo em cena, Lynch deixou sua marca – o que deve estourar ainda mais caso a teoria de ela ser o novo 007 se concretize. Ela divide o filme com um elenco de cair o queixo, de veteranos (além de Fiennes e Seydoux, estão de volta Ben Wishaw, Naomie Harris, Jeffrey Wright e Christoph Waltz como o vilão Blofeld) a novatos no mundo de Bond, como Ana de Armas (Blade Runner 2049) e Rami Malek (Bohemian Rhapsody).

Bond 25 é um dos filmes mais importantes para a série por uma série de fatores. A despedida de Craig é a principal, claro, com o ator buscando deixar o barco em alta depois da frustração de Spectre. Mas é também o momento de a série se posicionar para o futuro sem deixa de ser uma relíquia do passado. Em um mundo preocupado com representatividade e diversidade, James Bond parece um dinossauro, misógino e anacrônico – e é assim que tem de ser. “Existe uma discussão se a série ainda é relevante nos dias de hoje por causa de quem Bond é e o modo como ele trata mulheres”, diz a roteirista Phoebe Waller-Bridge, convocada para se unir ao time de escritores do filme depois de seu trabalho absolutamente brilhante nas séries Killing Eve e Fleabag. “Acho que é uma grande besteira. E acho que ele é absolutamente relevante para os dias de hoje. A série só precisa crescer. Evoluir. E é importante que o filme trate as mulheres de maneira apropriada. Mas ele não precisa! James Bond tem de permanecer fiel ao personagem.”

A roteirista Phoebe Waller-Bridge, criadora e protagonista de Fleabag

O futuro depois de Bond 25 ainda é uma incógnita que só começará a ser respondida depois da estreia do filme em abril do ano que vem. Os fãs mais histéricos, preocupados com o retrato de seu espião misógino favorito, podem ficar mais sossegados, já que Bond não deixará de ser Bond – assim como nunca o deixou mesmo com o mundo mudando nas últimas cinco décadas, com o agente secreto atravessando, sem grandes desastres, a Guerra Fria, o mundo após a queda do Muro de Berlim e o cinema de ação, em que ele deixou de dar as cartas em algum ponto nos anos 90, competindo com Ethan Hunt e Jason Bourne e uma nova geração de thrillers de espionagem, reencontrando sua relevância com Daniel Craig e um olhar nostálgico que não deixou de abraçar o futuro. Ter uma agente 007 na mistura é uma grande ideia, capaz de fazer com que Bond reavalie sua própria importância e seu lugar no mundo. Por essa ninguém esperava – mas cinema só é bom quando recupera sua capacidade de surpreender.

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Deslumbrante, O Rei Leão enche os olhos mas não fala ao coração http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/11/deslumbrante-o-rei-leao-enche-os-olhos-mas-nao-fala-ao-coracao/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/11/deslumbrante-o-rei-leao-enche-os-olhos-mas-nao-fala-ao-coracao/#respond Thu, 11 Jul 2019 16:00:43 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10109

Mal começa O Rei Leão, releitura da animação clássica da Disney, e você já sabe exatamente como estará nos próximos minutos: olhos marejados, garganta travada, coração palpitando. O diretor Jon Favreau sabe exatamente como pressionar os botões da nostalgia, e usa a tecnologia mais fantástica já bolada para fazer filmes ao reconstruir a abertura do desenho. Está tudo no lugar. A tomada aérea pela paisagem africana; animais em marcha até o rochedo que abriga sua “família real”; a apresentação de Simba, herdeiro de tudo que o Sol toca; “Circle of Life” arrebentando nas caixas de som. A reconstrução de uma sequência tão familiar, agora trocando animação tradicional por tecnologia digital fotorrealista, é de tamanho deslumbre que a emoção é genuína. É também o ponto de partida perfeito para o ápice de uma jornada do estúdio em reimaginar seu catálogo para o novo século, com uma nova sensibilidade, sem perder a conexão com o que fez dos filmes originais tão especiais em primeiro lugar.

Até que a história começa de fato. E meio que tudo desaba.

Não entenda mal. O Rei Leão ainda é um assombro, uma fábula inspirada tanto no Hamlet de Shakespeare quanto em Kimba, o Leão Branco, de Osamu Tezuka. É uma das materializações mais sensacionais da jornada do herói, em que o protagonista precisa encarar os erros de seu passado antes de emergir como dono de seu próprio destino. O desenho animado, que a Disney lançou com sucesso estrondoso em 1994, foi além das entrelinhas temáticas, forjando toda uma geração que aprendeu com a saga de Simba lições valiosas sobre perda, sobre traição, sobre legado, sobre ir além do que todos esperam de você – especialmente você mesmo. Sem falar que é uma aventura empolgante, um musical divertido, recheado de coadjuvantes que cravaram seu nome na cultura pop. A versão de Favreau segue o roteiro original quase à risca, com uma ou outra liberdade que são seu toque à história – alguns personagens ganham mais espaço, algumas cenas são estendidas, canções mudam de lugar. A grande diferença é o design dos personagens, que perdem o visual levemente antropomorfizado do desenho, substituído por rendições hiper realistas de cada animal. E é exatamente aí que está o problema.

THE LION KING - Featuring the voices of Florence Kasumba, Eric André and Keegan-Michael Key as the hyenas, and Chiwetel Ejiofor as Scar, Disney’s “The Lion King” is directed by Jon Favreau. In theaters July 19, 2019. © 2019 Disney Enterprises, Inc. All Rights Reserved.

Hienas caçando ao lado de um leão malvado? Hoje, no Animal Planet

Veja bem, um leão não tem uma gama de expressões faciais como um ser humano. Ou um pássaro, um babuíno, um javali ou um suricato. Por mais emoção que o impressionante talento vocal convocado para o filme possa imprimir, existe um limite de até onde essa carga dramática pode ser traduzida em um animal que, tirando um leve movimento de lábios, é basicamente protagonista de algum documentário do Discovery Channel. Ao recriar cada um dos momentos do desenho com realismo extremo, Favreau arriscou roubar de seu filme um elemento lúdico, essencial para criar conexão emocional com a platéia. Ele mesmo havia feito um trabalho similar em Mogli, O Menino Lobo, mas no filme de 2016 havia um protagonista humano que ajudava a “vender” a bicharada falante a seu lado. Aqui não existe nada real, nada palpável: tudo em cena, do céu à savana à floresta aos animais, é uma criação digital. É a tecnologia empregada por James Cameron em Avatar elevada ao cubo, reproduzindo paisagens tão perfeitas e tão realistas que, em certos momentos, a mente liga o alerta de que tudo aquilo é falso. Ok, os leões falantes meio que já entregam isso, mas é inevitável que a razão triunfe sobre a emoção. E foi aí que O Rei Leão cometeu seu maior pecado: é um espetáculo, mas lhe falta substância. Falta alma.

Não tenha dúvida que o filme de Favreau vai mudar fundamentalmente a forma de pensar em filmes daqui em diante. É um movimento irrefreável: a caixa de ferramentas chegou a tal ponto evolutivo que absolutamente nada é impossível de ser recriado no cinema. Claro que filmes como Jurassic World ou Vingadores: Ultimato já haviam cruzado essa linha. Mas O Rei Leão não pretende inventar um mundo de fantasia, e sim reproduzir a realidade tal qual ela é. E não falo só em paisagens, mas em personagens, em relevo, em condições climáticas, em luz e sombras. Esse é o ponto zero em que as coisas não precisam necessariamente ser captadas por lentes de uma câmera, e sim criadas com sequências de zero e um. É outro passo na constante evolução da tecnologia do cinema. E não precisamos romantizar o celuloide, como diretores que se recusam a usar câmeras digitais, preferindo sempre a “verdade” de um negativo de 35mm, apenas enfatizar que é apenas mais uma ferramenta. Poderosa, mas só é eficaz com artistas de enorme talento no comando.

Hakuna matata e a convivência pacífica entre espécies, hoje, no Discovery Channel

E é com esse talento, de forma inegável, que O Rei Leão é uma obra de arte. Toda a tecnologia está, afinal, a serviço de uma história que, mesmo com a estranheza causada pelo elenco digital, ainda tem capacidade de encantar. A cena inicial ainda é o seu melhor momento (também o era no filme de 1994, então está tudo certo), mas Favreau entende do riscado. Ele sabe conduzir a narrativa com o sadismo de quem pode traumatizar uma nova geração de crianças no momento em que Mufasa (mais uma vez com a voz de James Earl Jones) despenca para seu destino trágico em meio a um estouro de gnus. O conluio de Scar (Chiwetel Ejiofor) com as hienas (que triplicaram em número mas perderam toda sua personalidade) ao som de “Be Prepared” é ainda mais assustador na nova versão. Timão e Pumba continuam os MVPs da aventura, e compensam a falta das cenas absurdas que só a animação poderia proporcionar com o trabalho impecável de Billy Eichner e Seth Rogen – “Hakuna Matata”, a música, continua espetacular. Se Beyoncé empresta uma certa realeza à leoa Nala (que ganha seu próprio momento de empoderamento na batalha final), o mesmo não pode ser dito de Donald Glover, soando jovem e frágil demais como o Simba adulto.

São detalhes, claro, que ganham mais ou menos vulto com a expectativa ajustada de cada um. Fãs radicais do desenho animado (bom, “fã radical” é um pleonasmo) vão analisar cada segundo com uma lupa. Eu vou concordar com cada um que sentir falta do sarcasmo de Scar, ou de sua expressão insanamente triunfante na morte de Mufasa. Zazu tem a voz de John Oliver, mas um pássaro tem ZERO variedade de expressões. Também vou concordar com qualquer um que achar a canção original entoada por Beyoncé, “Spirit”, uma música meia boca que não merece seu lugar ao lado das pérolas originais de Tim Rice e Elton John. Por outro lado, O Rei Leão é um espetáculo inebriante, em que sessões repetidas serão fundamentais para absorver o assombro tecnológico que recria, com precisão cirúrgica, fauna e flora dignos do Animal Planet. O sujeito nostálgico, que assistiu ao desenho quando criança, certamente vai criar um momento mágico ao mostrar essa nova versão a seus próprios filhos. Unir gerações, afinal, sempre fez parte do trampo da Disney. Mas nunca vou perdoar O Rei Leão por quebrar o sub-gênero das “adaptações live action”. Parece real… Ora, É real! Mas não tem um pixel ali, uma nuvem, uma folha, uma formiga ou um leão que não tenha saído de um computador. Bem vindo ao futuro.

Rituais de acasalamento no reino animal, hoje num cinema perto de você

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Por que Mulan pode ser a melhor versão de uma animação Disney http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/10/por-que-mulan-pode-ser-a-melhor-versao-de-uma-animacao-disney/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/10/por-que-mulan-pode-ser-a-melhor-versao-de-uma-animacao-disney/#respond Wed, 10 Jul 2019 05:41:50 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10100

Herói, dirigido por Zhang Yimou em 2002, é um dos filmes mais bonitos de toda a história do cinema. Sua narrativa épica, em que um lutador sem nome relembra seus duelos com três guerreiros poderosos na China antiga, antes da ascensão do primeiro imperador, é contada em um turbilhão de cores, pontuando coreografias marciais que substituem o peso da violência por pura poesia visual. Tem um pouco de história, um pouco de fantasia, emoldurado pelo poder catártico do cinema. O primeiro trailer de Mulan, versão live action da animação que a Disney lançou em 1998, trouxe ecos da obra de Yimou: uma história em grande escala que ancora um drama mais intimista. No caso, o dilema de uma jovem que, para honrar seu pai, um soldado já em seus melhores anos, veste-se como homem para lutar no exército do Imperador. Sugere uma aventura delicada e grandiosa ao mesmo tempo, que respeita suas raízes chinesas ao mesmo tempo em que abraça uma história universal. Daí você vai espiar alguns comentários de fãs da coisa e se depara com o mesmo chororô: “Não tem Muchu, estragaram minha infância”. Preguiça.

Melhor voltar um pouco no tempo, para o momento exato em que a Disney, mesmo já arriscado adaptar seus desenhos clássicos em outro formato – O Livro da Selva em 1994, e 101 Dálmatas em 1996 -, percebeu que esse bem -bolado era um ótimo negócio. Foi em 2010, quando Alice no País das Maravilhas colocou mais de 1 bilhão de dólares nos cofres do estúdio. A partir daí, todo desenho animado que a Disney tenha produzido em sua longa história tornou-se fonte para uma versão moderna, destinada a a) dar uma sobrevida à marcas consagradas e b) garantir uma bolada considerável nas bilheterias. Existe a terceira, e não menos honesta, função, que é dar a artistas o direito de exercitar sua versão para obras que, de forma alguma, tenham encontrado formato definitivo. Arte, afinal, pode e deve ser reinterpretada, revista, refeita. Sem falar o óbvio que adaptar uma obra de uma mídia para outra requer – e você já adivinhou – adaptações! Depois que as regras são traçadas – afinal, ainda estamos tratando de produtos corporativos -, a nova obra reflete a visão de seu diretor.

Yifei Liu treina em segredo para ir à guerra como Mulan

Entram em cena os fãs. Não todos, obviamente, que em sua maioria entendem o processo criativo e aplaudem uma visão bacana de um clássico muito querido. Mas aquela minoria ruidosa, que se considera proprietária de todo e qualquer filme/série/animação/história em quadrinhos porque… bom, porque sim. A palavra “adaptação” é a kryptonita dessa turma, que não admite de forma alguma qualquer mudança em sua “propriedade”, e inunda as interwebs com abaixo-assinados, cartas de protesto e qualquer outra coisa inútil que os faça se sentir donos do que eles não são. Já é rotina. Daniel Craig é loiro e parrudo, e não alto e moreno como James Bond é descrito nos livros de Ian Fleming? “Estragaram minha infância.” O Homem-Aranha de Sam Raimi traz disparadores de teia orgânicos, e não mecânicos? “Estragaram minha infância.” A belíssima Halle Beiley, escolhida para ser Ariel em A Pequena Sereia é negra, e não ruiva? “Estragaram minha infância.” Essa gritaria é total perda de tempo, óbvio, porque cineastas tem mais o que fazer do que dar ouvidos a gente que, mesmo com uma pilha de boletos e a pia cheia de louça, insiste em não crescer. Mulan e seu trailer épico, claro, despertou o mesmo sentimento nessa fatia: “Onde está Muchu?”

Bom, não tem Muchu. Honestamente, não fará a menor falta, porque não possui nenhuma função narrativa. O dragão diminuto com voz de Eddie Murphy era uma tentativa para (re)capturar um relâmpago na garrafa, depois do trabalho fenomenal de Robin Williams como o Gênio em Aladdin. Mas Muchu não existe no conto chinês que inspirou o desenho, e servia apenas para o combo alívio cômico/venda de dragões de pelúcia. Seria uma distração da trama principal, que é a jornada de Mulan, interpretada pela chinesa Yifei Liu, em triunfar como a guerreira que ela já sabe que é, em um mundo de casamentos arranjados, muralhas sociais separando homens e mulheres, e a total proibição de uma jovem provar seu valor no campo de batalha. É um filme sobre o direito de forjar seu próprio destino, nem que para isso tradições ancestrais precisem ser quebradas. É um épico de artes marciais emoldurando uma história de superação.

O acampamento do exército do Imperador continua um lugar agitado

E ainda é uma aventura com o selo Disney. Mesmo que a diretora Niki Caro tenha sugerido que seu Mulan não seja um musical (as canções do filme de 1998 podem surgir rearranjadas ao longo da trilha sonora), o filme ainda é uma fantasia, especialmente depois das outras modificações feitas no texto de duas décadas atrás. De cara, não existe Li Shang, capitão do exército do Imperador por quem Mulan se apaixona. O personagem foi “dividido” em dois, com Donnie Yen assumindo o papel do comandante Tung, mentor da jovem no exército; e em Chen Honghui, soldado no mesmo exército e rival de Mulan nas trincheiras, que será interpretado por Yoson An. O vilão, o general do exército huno Shan Yu, também foi limado. Em seu lugar foi colocado Jason Scott Lee como Bori Khan, guerreiro huno em busca de vingar a morte de seu pai, que alinha-se aos planos da principal antagonista, a feiticeira Xian Lang, papel de Gong Li. Os novos personagens mudam a dinâmica de Mulan e adicionam outros elementos fantásticos à mistura, que talvez estejam mais alinhados com a visão de Niki Caro para a aventura.

Ainda é cedo para cravar se as mudanças servirão para dar a Mulan uma sensibilidade moderna, sem amputar seu sentido de aventura, ou se as modificações mais radicais (sem as canções que marcam o pulso emocional da história, sem Li Shang, sem Muchu) vão afastar o público mais nostálgico. Mas eu não acredito nisso. As versões das animações Disney já penderam para os dois lados, da fidelidade ao desenho original (Cinderela, Mogli, A Bela e a Fera) a novas interpretações de histórias familiares (Malévola, Christopher Robin, Dumbo). Aladdin molhou os pés ligeiramente das duas maneiras (em especial na interpretação de Will Smith para o Gênio), e o diretor de O Rei Leão deixou claro que sua intenção nunca foi simplesmente recriar cada passo do filme de 1994. Todos estes filmes, em maior ou menor grau, encontraram seu público. Mulan, como apresentado em seu primeiro trailer, arrisca ser um grande épico de guerra, amor, lealdade, fantasia e amadurecimento. Arrisco que uma resposta positiva seja ainda maior. Ao menos ninguém deve sentir falta de Gri-Li, o grilo irritante imposto à toda equipe da animação original pelo então presidente do estúdio, Michael Eisner. Vai entender.

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American Pie: há 20 anos as “comédias sexuais” davam seu último suspiro http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/09/american-pie-ha-20-anos-as-comedias-sexuais-davam-seu-ultimo-suspiro/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/09/american-pie-ha-20-anos-as-comedias-sexuais-davam-seu-ultimo-suspiro/#respond Tue, 09 Jul 2019 07:28:56 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10089

Duas décadas atrás, Jim achou que seria uma boa ideia usar uma torta para, digamos, “aliviar”  seus hormônios. Meio que funcionou. American Pie, comédia assinada por Paul e Chris Weitz, chegou aos cinemas ianques em uma temporada já atribulada por Star Wars, A Múmia e O Paizão, mas 102 milhões de dólares em caixa depois (somando 236 milhões em todo o mundo) mostraram que o cinema ainda tinha espaço para a mistura de sexo, adolescentes e nudez. Seria um renascimento da teen sex comedy, sub-gênero que embalou o relacionamento de uma geração inteira com a videolocadora do bairro, que viveu seu auge nos anos 80 com O Último Americano Virgem, Porky´s e dúzias de outros genéricos. American Pie, entretanto, terminou por colocar uma pedra sobre o caixão da mistura, que na virada do século, com as novas regras do convívio social, tornou-se ligeiramente indigesta. Não que isso tenha impedido Hollywood de tentar, de todas as maneiras, lucrar enquanto pudesse.

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Não que ninguém não enxergasse a colisão dos extremos. O fim do século 20 trouxe uma profusão de produções dispostas a desconstruir subgêneros populares – como os filmes de terror, dissecados por Wes Craven em Pânico, de 1996. American Pie, por sua vez, não trazia a ambição de explorar uma narrativa com adolescentes querendo transar com alguma lupa: a ideia era mesmo buscar o limite da vulgaridade, aplicando uma fórmula que Hollywood já abusava nos anos 60. Afinal, clássicos como Quanto Mais Quente Melhor, Confidências à Meia-NoiteIrma La Douce já apimentavam o humor com sexo – ao menos no limite permitido pela época. A revolução sexual eliminou a sutileza da equação, e os anos 70 viram seu auge no gênero com o genial Clube dos Cafajestes, de John Landis, que abriu espaço para cineastas menos inventivos e mais vulgares invadirem os cinemas – e as videolocadoras – com títulos como A Vingança dos Nerds, A Grande Encrenca, Férias do Barulho (com Johnny Depp circa A Hora do Pesadelo) e Aventuras no Paraíso. Porky´s, por sinal, foi um sucesso que rendeu duas continuações e 165 milhões de dólares – no Brasil, Losin´ It, com Tom Cruise perdendo a virgindade no México, ganhou o título bisonho de Porky 3, sem absolutamente nenhuma conexão com a série.

Oz (Chris Klein), Finch (Eddie Kaye Thomas), Kevin (Thomas Ian Nicholas) e Jim (Jason Biggs) só querem chegar na terceira base…

American Pie chegou aos cinemas quando a sex comedy já estava em baixa, depois de uma década que rendeu pérolas genuínas como Picardias Estudantis e Negócio Arriscado. Um ano antes, Quem Vai Ficar com Mary? reabriu espaço para um estilo de comédia mais, digamos, cru. Mas os irmãos Farrelly ainda tinham uma certa inocência, que os Weitz só não repetiram por conta de um fator determinante para cravar o abismo entre uma comédia para adultos e uma genuína sex comedy: seios nus. Se nos anos 80 uma geração de atrizes não tinha o menor problema em deixar suas roupas no chão em nome de algumas risadas, a turma do final do século 20 trazia mais reservas quando o roteiro pedia pele. No noir canastrão Garotas Selvagens, de 1998, Denise Richards não se furtou em mostrar seus atributos físicos; Neve Campbell, por outro lado, escondeu-se em ângulos nada reveladores. Em American Pie, foi Shannon Elizabeth que encarou o papel-clichê da estudante de intercâmbio que, ao contrário dos colegas americanos, tinha uma relação mais liberal com o próprio corpo.

Ainda assim, Paul e Chris Weitz nunca abraçaram a vulgaridade que o gênero transformou em marca na década anterior, preferindo conter a mão mesmo quando o texto não era exatamente Shakespeare – como Jim (Jason Biggs) e sua ejaculação precoce incontrolável ao dividir o quarto com Nadia (justamente Shannon Elizabeth), ou mesmo a cena que dá título ao filme, envolvendo o mesmo Jim e uma torta saída do forno. O roteiro é a bobagem de sempre. No verão antes de uma turma partir para a vida universitária, quatro amigos (além de Biggs, Chris Klein, Thomas Ian Nicholas e Eddie Kaye Thomas) combinam que o único objetivo das férias será transar – ou com suas namoradas (o caso de Klein e Nicholas), ou com quem se mostrar disponível (Thomas termina com uma mulher mais velha, Jennifer Coolidge, referida no roteiro como “A Mãe de Stifler”). Ah, Stifler: no papel do machista de plantão, mas que esconde uma natureza mais doce, Seann William Scott mostrou-se o grande astro do filme. Antevendo o equilíbrio de gêneros do século seguinte, por fim, o elenco feminino trazia Tara Reid, Mena Suvari, Alyson Hannigan e Natasha Lyonne.

Jim ouve as dicas preciosas do seu pai (Eugene Levy)

Os dólares ouriçaram os executivos dos estúdios, e por um breve segundo as comédias sexuais pareciam se aglutinar num tsunami. Mas não foi bem assim. Eurotrip, Superbad e Show de Vizinha, por exemplo, trazem alguns elementos comuns a seus ancestrais. Mas a nudez é tímida, e a vulgaridade, sutil. Amor à Toda Prova, com Ryan Gosling e Emma Stone, é doce. O Dono da Festa, com Ryan Reynolds, é só bocó. Judd Apatow mudou o panorama da comédia moderna com O Virgem de 40 Anos e Ligeiramente Grávidos, com textos mais sofisticados e relacionamentos menos efêmeros. O último grande sucesso que fez os cinemas estremecerem com gargalhadas foi Se Beber, Não Case – e nada poderia estar mais longe de uma sex comedy do que a noite alucinante em Las Vegas de Bradley Cooper e cia. American Pie, no fim das contas, foi um último suspiro de um subgênero que há muito não fazia mais rir.

Bom, “último suspiro” com muitas aspas! O sucesso do primeiro filme acelerou uma continuação ainda mais bem sucedida em 2001 (rendendo 290 milhões de dólares), fechando a “trilogia” em 2003 com American Pie: O Casamento (231 milhões). A tentativa de repetir os números resultou no cansado American Pie: O Reencontro, de 2012, que mesmo emplacando alto nas bilheterias mundiais (235 milhões, terceira melhor bilheteria da série), teve resultado flácido em casa, e o elenco, que há muito deixara a adolescência, jogou a toalha. A marca, porém, teve vida longa no mercado direto para DVD, com quatro outros filmes, todos horrorosos, lançados com certo sucesso entre 2005 e 2009. O cinema dificilmente vai apostar em outras comédias sexuais adolescentes – em tempos politicamente corretos, nem toda desconstrução do planeta salvaria um filme que tem como objetivo tirar a roupa de seu elenco feminino. Mas Hollywood vive em torno de produtos corporativos, e é difícil guardar na gaveta um título que, custando migalhas, rendeu quase 1 bilhão de dólares. Quando dinheiro é o idioma, sempre há espaço para explorar uma nova primeira vez… American Pie: A Nova Geração?

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Trilogia Homem-Aranha: Como Sam Raimi tirou as HQs do gueto no cinema http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/06/trilogia-homem-aranha-como-sam-raimi-tirou-as-hqs-do-gueto-no-cinema/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/06/trilogia-homem-aranha-como-sam-raimi-tirou-as-hqs-do-gueto-no-cinema/#respond Sat, 06 Jul 2019 06:45:17 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10076

Homem-Aranha: Longe de Casa é a oitava aventura do herói no cinema (descontando as adaptações da série de TV nos anos 70). Hoje parte fundamental do Universo Cinematográfico Marvel, o Cabeça de Teia iniciou sua transição do papel para as telas no começo do século com outras propostas e expectativas diferentes. Quando Sam Raimi dirigiu Homem-Aranha em 2002, super-heróis dos quadrinhos no cinema viviam de explosões eventuais, seguidas de novos períodos no limbo. Não eram, nem de longe, o carro-chefe do entretenimento pop, e sim uma anomalia, o fenômeno ocasional que vez por outra jogava luz em uma mídia até então navegada unicamente pelos iniciados. Quando assumiu o controle da adaptação do Amigão da Vizinhança do papel para o cinema, Raimi se colocou em uma outra missão: tirar as HQs do gueto no cinema, fazendo com que super-heróis pudessem ir além de uma curiosidade. Uma tarefa que só um fã poderia executar.

Basta uma espiada no panorama do cinemão atual para ver que o diretor teve sucesso total em sua empreitada. Se o sucesso dos quadrinhos no cinema antes se resumia a Batman, hoje até a sua avó sabe quem é Thanos. Marvel, DC e uma dúzia de editoras independentes de HQs marcam seu território com sucesso no cinema e na TV. Autores de quadrinhos, como Mark Millar e Neil Gaiman, viram suas idéias convertidas com sucesso absoluto em outras mídias, fazendo com que os gibis se tornassem fonte principal e inesgotável de ideias. Homem-Aranha foi o sucesso que escancarou as portas, entreabertas dois anos antes por X-Men. Mas Sam Raimi não queria simplesmente fazer um filme que honrasse seu personagem favorito dos gibis: ele queria mostrar que as histórias pelas quais ele havia se apaixonado pela cultura pop eram acessíveis a todos, não importa o peso atrelado a um produto corporativo. Em três filmes ele conseguiu exatamente isso, e mudou totalmente o modo de o público encarar os aventureiros fantasiados. Graças a Raimi, hoje existem fãs de super-heróis que nunca abriram um gibi – mas que tem em mãos o mapa perfeito se a vontade bater.

Sam Raimi dirige Tobey Maguire e Kirsten Dunst em Homem-Aranha

Homem-Aranha foi, por sinal, o produto corporativo supremo. Depois de uma década enroscado em problemas legais acerca dos direitos dos personagens para o cinema, a Sony finalmente emergiu triunfante, dona do herói na tela grande. A escalação de Sam Raimi como diretor hoje parece óbvia, mas no final do século 20 ainda havia muita dúvida sobre como proceder com a adaptação de um super-herói tão popular. O único modelo até então era mesmo o Batman, que encarou dois filmes super estilosos assinados por Tim Burton, e duas odes ao exagero dirigidas por Joel Schumacher. Matrix mostrara um caminho distinto, a ficção científica assumida, que foi seguido com sucesso por Bryan Singer em X-Men. Mas o Homem-Aranha era um animal diferente, um herói com os pés no chão, gente como a gente, que não era nem um bilionário marcado pela tragédia nem parte de uma minoria perseguida pela humanidade. Peter Parker era só um adolescente normal, com problemas normais para adolescentes, que um dia descobriu da pior forma as grandes responsabilidades ancoradas em seus grandes poderes.

Raimi, que tinha no currículo filmes de apuro visual fantástico e sucesso comercial inexistente (sua maior bilheteria até então fora o drama romântico-esportivo Por Amor, com Kevin Costner), colocou na mesa suas credenciais. Ele obviamente sabia lidar com personagens que se mostravam o que não pareciam ser, como em Um Plano Simples ou O Dom da Premonição. A série Evil Dead havia o tornado um favorito dos fãs do gênero, e o diretor chegou a dirigir um “super-herói dos quadrinhos” em Darkman, claramente inspirado em sua paixão por gibis e filmes de terror. O estúdio comprou a briga e Raimi desenhou Homem-Aranha com o roteirista David Koepp, que trouxe elementos de roteiros nunca produzidos com o herói, inclusive um assinado por James Cameron. O filme teve seu elenco reduzido, concentrando-se na origem do Aranha (Tobey Maguire, ainda hoje o melhor intérprete do herói para uma fatia considerável de fãs), a morte de seu tio Ben, o amor nunca declarado por Mary Jane (Kirsten Dunst) e o conflito com o Duende Verde (Willem Dafoe). Mesmo com tantos chefs na cozinha, Raimi conseguiu injetar personalidade e charme à aventura, transbordando seu estilo mesmo em um produto corporativo tão gigantesco.

O público teve total empatia pela empreitada, e Homem-Aranha não só foi o primeiro filme a faturar mais de 100 milhões de dólares em sua estreia, como levou ao cinema uma gama absurdamente diversa de fãs, veteranos e neófiitos: do geek fanático por quadrinhos a adolescentes em busca de um romance teen, dos seguidores do estilo hiperbólico do cineasta aos cinéfilos sedentos por um bom pedaço de entretenimento, Homem-Aranha tinha um pouco para todo mundo. Triunfando no terreno pantanoso do filme “por comitê”, em que o produto final é resultado não só da visão de seu diretor, mas também da orientação de produtores e executivos, aliado à demanda de departamentos de marketing e licenciamento, Sam Raimi partiu para a segunda parte de seu plano, que estreitaria a conexão emocional de plateia e personagem, o que só seria possível em uma obra pessoal, em que a paixão de seu realizador estivesse impressa em cada fotograma. O plano foi traduzido dois anos depois da estreia do herói nos cinemas, em o que se tornou sua aventura mais arriscada e pessoal: Homem-Aranha 2.

Não que a produção da sequência de um dos maiores fenômenos do cinema moderno tenha sido uma brisa. Mas 820 milhões de dólares nas bilheterias “compraram” uma blindagem intransponível a Raimi, que tocou a aventura com liberdade inesperada para um fã de quadrinhos. E o diretor era um entusiasta hardcore, capaz de citar edições específicas em que os personagens apareciam pela primeira vez, que usou sua carta branca para colocar seu vilão favorito na aventura (o Dr. Octopus, interpretado por Alfred Molina) e usar suas HQS preferidas como base para o roteiro – em especial a edição 50 de The Amazing Spider-Man, em que Peter Parker desiste de ser o herói, e cuja capa foi reproduzida no filme. Tudo em Homem-Aranha 2 foi superlativo. Da carga emocional traçada pela jornada de Peter, que vê sua responsabilidade como herói triturando qualquer possibilidade de uma vida normal com Mary Jane, às cenas de ação espetaculares, em especial um conflito de herói em vilão no topo de um trem em movimento riscando a paisagem de Nova York. Mais uma vez o público compareceu em peso, e o Homem-Aranha firmou-se como principal “representante” dos super-heróis dos quadrinhos no cinema, sucesso consolidado que estimulou a chegada em massa de novos personagens do papel nas telas. Ah, e foi o filme que inaugurou um artifício que depois se tornou parte integrante dos filmes da Marvel (e de super-heróis): a cena pós-créditos.

Foram três anos até que Sam Raimi completasse sua trilogia com Homem-Aranha 3, materializando a história sugerida ao final do filme anterior e cedendo à pressão do estúdio, que já navegava em um ambiente totalmente diferente do que existia cinco anos antes. O Cavaleiro das Trevas havia retornado em grande estilo com Batman Begins, a Marvel costurava sua independência nos bastidores e o Homem-Aranha não era mais o herói solitário carregando a tocha do cinema pop, representando sozinho um subgênero inteiro. Os produtores entendiam que os fãs se colocavam de forma mais vocal, e atender a seus apelos fazia parte do jogo. Assim, Raimi teve de inserir um personagem com o qual ele se sentia completamente desconfortável na mistura, mas o fã teve de dar espaço ao profissional, e Venom (Topher Grace, em uma das piores decisões de elenco da história) foi inserido em um roteiro já bastante complicado, que trazia a ameaça do Novo Duende (James Franco, finalmente assumindo a personalidade vilanesca de seu pai) e do Homem de Areia (Thomas Haden Church). Como se não bastasse, Peter Parker equilibrava o pedido de casamento a Mary Jane com o surgimento de um novo interesse amoroso, Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard). Tudo isso espremido em pouco mais de duas horas de filme. Ufa!

Homem-Aranha 3, apesar de deixar muita gente torcendo o nariz, terminou como a maior bilheteria mundial do herói – 890 milhões de dólares, soma que pode ser batida agora por Longe de Casa -, mas deixou Sam Raimi e seu herói, Tobey Maguire, ressabiados em voltar ao barco. Um quarto filme, com John Malkovich no papel do Abutre e Anne Hathaway como a Gata Negra (ela terminou, veja só, fazendo a Mulher-Gato em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge), estava planejado para 2011, iniciando uma segunda trilogia que culminaria com a criação do Sexteto Sinistro no cinema, tudo sob o olhar de Raimi. Mas não era para ser, e o que um dia fora o começo da dominação dos super-heróis dos quadrinhos no cinema, encerrou sua jornada por Peter e Mary Jane dançando coladinhos – doze anos antes de Steve Rogers encontrar paz ao lado de Peggy Carter. Sem chegar a um roteiro em que todos concordassem com a direção da série em sua segunda fase, Raimi educadamente retirou-se do projeto, e o herói terminou por experimentar um reboot em 2012 com Andrew Garfield assumindo a máscara em O Espetacular Homem-Aranha.

Não que Sam Raimi ainda tivesse algo a provar com o personagem que ajudou a moldar sua personalidade. Ele retornou o favor ao transformar o Homem-Aranha de ídolo dos fãs de quadrinhos em um fenômeno global genuíno, em três filmes de propostas (e bastidores) distintos, mas que terminam por amarrar uma única narrativa, cobrindo com louvor aspectos diferentes do herói e trazendo os vilões certos para que ele cumprisse sua jornada. É certo que, sem Raimi e sua trilogia, dificilmente haveria o Batman de Christopher Nolan, ou mesmo o Universo Cinematográfico Marvel. Muito menos a nova versão, adolescente e igualmente conflituosa, defendida com louvor por Tom Holland. Ao acompanhar o Homem-Aranha em seu voo vertiginoso entre os arranha céus de Manhattan, o público descobriu o espetáculo que podia explodir das páginas dos quadrinhos, como também um herói lhe falasse ao coração. Este, por fim, é o verdadeiro legado da trilogia, uma viagem empolgante que, pelo visto, não deve mais chegar ao fim.

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Imprevisível, Longe de Casa traz romance teen como filme do Homem-Aranha http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/04/imprevisivel-longe-de-casa-traz-romance-teen-como-filme-do-homem-aranha/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/07/04/imprevisivel-longe-de-casa-traz-romance-teen-como-filme-do-homem-aranha/#respond Thu, 04 Jul 2019 08:39:46 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10057

Em um certo momento, ainda nos primeiros minutos de Homem-Aranha: Longe de Casa, eu quase esqueci que era a) uma aventura da Marvel e b) teríamos super-heróis em ação a qualquer segundo. Mais do que em seu antecessor, De Volta ao Lar, que trouxe a primeira aventura solo do Amigão da Vizinhança no Universo Cinematográfico Marvel, o novo filme abraça o tom de comédia teen, mirando na interação entre uma salada de personagens adolescentes, e o texto flui de forma tão natural que nem precisava colocar gente fantasiada com poderes malucos na mistura. A boa notícia é que tudo é executado pelo diretor Jon Watts em perfeito equilíbrio com o tipo de ação anabolizada que se tornou sinônimo do estúdio na última década. Ainda assim, Longe de Casa é leve e imprevisível, uma aventura que não tem o menor pudor em abraçar os aspectos mais absurdos de seu conceito, algo mais próximo a Homem-Formiga do que a Pantera Negra. É um bom respiro para a Marvel se recuperar de um evento tão bombástico como Vingadores: Ultimato e planejar como será seu futuro no cinema.

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Acima de tudo, Longe de Casa consolida essa versão do Homem-Aranha como o padrão no cinema pelos próximos anos. É compreensível que uma boa fatia dos fãs olhe torto para qualquer interpretação do herói que não seja a clássica, ambientada como nas HQs entre os anos 60 e 80, com Peter fotografando para o Clarim Diário, lidando com a falta de dinheiro, com a tia May sempre doente, com a vida amorosa em frangalhos e com o vilão do mês. Mas o bacana de ter um personagem tão rico em mãos é que lhe cabe qualquer execução, contanto que ela permaneça fiel aos conceitos originais traçados por Stan Lee e Steve Ditko: ele não é um “super-herói”, e sim um moleque impelido a fazer o certo para impedir que outros sofram uma tragédia como a que ele sofreu. Grandes poderes, grandes responsabilidades, a história de sempre. A diferença é que, aqui, Peter (interpretado à perfeição por Tom Holland) escolhe ser um herói não só após a morte de seu tio Ben (o evento sugerido em Capitão América: Guerra Civil), mas também para manter o legado de Tony Stark, seu mentor que se sacrificou para salvar o universo em Ultimato.

Jake Gyllenhaal, divertindo-se ao máximo como Mysterio

O peso deste legado persegue Peter mesmo quando ele sai de férias com seus amigos – que, apagados da existência pelo estalar de dedos de Thanos em Guerra Infinita, voltam cinco anos depois junto com metade da vida na galáxia para um mundo no mínimo confuso. A explicação surge no começo de Longe de Casa, que de cara estabelece sua conexão com o MCU antes de trocar a paisagem urbana de Nova York pelos destinos turísticos do outro lado do Atlântico. Mas ser herói não é fácil, e Peter descobre que suas férias foram “sequestradas” por Nick Fury (Samuel L. Jackson), que precisa de sua ajuda para deter criaturas capazes de destruir (mais uma vez) o mundo. Estes “elementais” surgem de dimensões paralelas e entram na mira de Fury graças à intervenção de Quentin Beck, único sobrevivente de uma Terra devastada, que tenta compensar sua perda salvando nosso planeta. Beck, apelidado de Mysterio, é o grande trunfo de Longe de Casa – e também o personagem mais divertido que Jake Gyllenhaal teve oportunidade de fazer em muito tempo. Sem entrar em detalhes da trama, basta dizer que a ação passa por Veneza, Praga, Berlim e Londres, e que nem tudo é exatamente o que parece ser. Ok, vale uma pista: o novo Homem-Aranha serve não só para encerrar a fase 3 da Marvel, como também amarra uma narrativa iniciada em 2008 com o primeiro Homem de Ferro. Olhos abertos!

O grande talento de Jon Watts, mais uma vez como diretor depois de De Volta ao Lar, é costurar a ação épica típica de um filme da Marvel com os dramas adolescentes carregados por Peter. Se a magnitude dos efeitos visuais por vezes parece genérica (e pode acreditar que não é o caso), é a angústia adolescente que faz deste Homem-Aranha um ponto fora da curva não só no estúdio, mas entre os candidatos a blockbuster que os estúdios desovam a cada semana. Peter Parker não é um herói maior que a vida como todos os seus pares, e sim um moleque tentando fazer o melhor possível com a responsabilidade em suas mãos – e falhando miseravelmente a cada tentativa, só pra sacudir a poeira e se jogar na peleja de novo. É sua relação com seus amigos, em especial com MJ (Zendaya), por quem ele tem uma queda nada sutil, que traz os momentos mais bacanas do novo filme, justamente por colocar os pés no chão e lembrar as coisas boas que estão em jogo. É um recorte que pertence mais a uma comédia romântica arrancada de algum ponto dos anos 90 e menos a um filme com o logo da Marvel – o que é perfeito! É esse tipo de narrativa que deu ao herói tamanha longevidade e sucesso nos quadrinhos, e é exatamente isso que Longe de Casa coloca no centro, fazendo com que um filme tão grandioso ainda pareça tão humano.

Ah, o amor…: MJ (Zendaya) dá umas bandas com o Amigão da Vizinhança

Ao contrário de, digamos, Homem-Aranha no Aranhaverso, não existe nada de revolucionário em Homem-Aranha: Longe de Casa. A trama segue os passos da jornada do herói, que confronta seus limites e aprende com seus erros, embalado em uma aventura fácil de seguir e de gostar. Pode parecer pouco para o herói que, no começo do século, tirou sozinho os filmes baseados em HQs de super-heróis do gueto no cinemão, mas em nenhum momento surge como um retrocesso. Pelo contrário: o que a Marvel faz é usar essa educação que o público teve nas últimas décadas para entregar uma visão diferente de um herói tão conhecido. Fazer parte deste universo pode deixar as engrenagens criativas emperradas, mas seus realizadores já aprenderam como cada um de seus personagens cria uma conexão emocional com o público. O espetáculo faz parte do pacote – Longe de Casa traz efeitos verdadeiramente revolucionários para materializar os poderes surpreendentes de Mysterio e, acredite, as comparações com Matrix não são exageradas. Mas o que faz o público continuar acreditando no Homem-Aranha é a identificação com seus dilemas adolescentes, sua resposta juvenil a ameaças talvez muito adultas para ele enfrentar, e seu senso de responsabilidade irrefreável. Acompanhar seu crescimento, físico, moral e emocional, materializado sem nenhum esforço por Tom Holland, continua sendo uma experiência fascinante.

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