Roberto Sadovski http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Thu, 12 Sep 2019 22:50:14 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 O Espião mostra o talento sóbrio e surpreendente de Sasha Baron Cohen http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/09/12/o-espiao-mostra-o-talento-sobrio-e-surpreendente-de-sasha-baron-cohen/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/09/12/o-espiao-mostra-o-talento-sobrio-e-surpreendente-de-sasha-baron-cohen/#respond Thu, 12 Sep 2019 19:39:14 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10457

Para quem conhece Sasha Baron Cohen por suas performances como o rapper Ali G, o fashionista Bruno ou o jornalista Borat, O Espião é uma revelação. Na minissérie da Netflix, o ator de 47 anos revela uma interpretação complexa, contida, que troca sua histeria habitual por sutileza, urgência e fragilidade. São os componentes essenciais para dar vida a Eli Cohen, espião israelense que, na segunda metade dos anos 60, assumiu uma nova identidade para se infiltrar na Síria, entre sua elite militar e política, buscando informações para proteger seu país. O conflito, além do óbvio trabalho atrás das linhas inimigas, é se despir de qualquer traço de sua vida para não colocar em risco essa nova persona, deixando para trás sua esposa e seu lar, movido pelo puro fervor patriótico.

Não é, vale ressaltar, uma obra de ficção, e sim baseada nos anos decisivos na vida de Eli Cohen. O Espião reconta seus passos com precisão desconcertante sem esconder sua conclusão trágico: nas cenas que abrem a minissérie, ambientadas em 1965, vemos seu destino em uma prisão Síria, após ser torturado e condenado à morte. A partir daí a série volta no tempo, quando Eli trabalhava como escriturário em Tel Aviv, depois de servir ao exército em seu Egito natal e de trabalhar com a inteligência militar em Israel. Rejeitado pelo Mossad, ele termina escolhido como candidato ideal para ser infiltrado no governo sírio, e passa meses em treinamento antes de ser colocado em campo. Para a missão, Eli assume o papel de Kamel Amin Thaabet, empresário de origem síria vivendo na Argentina, que deseja usar sua fortuna para “recuperar o orgulho” de sua nação.

Nadia (Hadar Ratzon Rotem) e Eli (Sasha BAron Cohen) em momento de paz

O Espião é criação do diretor e roteirista israelense Gideon Raff, que trabalhou no texto da série Homeland antes de dirigir, para a Netflix, o thriller Missão no Mar Vermelho, com Chris Evans – outra obra politicamente provocante. Ele foge, entretanto, de estereótipos do gênero, entregando um retrato mais preciso do trabalho de espionagem internacional. Ou seja, o tom é menos James Bond ou Jack Ryan e mais próximo de O Espião Que Sabia Demais, de Tomas Alfredson. Ainda assim, a série foge das engrenagens da missão para se concentrar no preço que Eli Cohen voluntariamente pagou ao assumir a identidade de Kamel em um país inimigo. O roteiro acerta ao se concentrar não somente em sua jornada, mas em também manter uma luz em sua mulher, Nadia (Hadar Ratzon Rotem), que tenta conduzir sua vida com um véu de normalidade em Tel Aviv, lidando com a ausência do marido por meses a fio, totalmente alheia à verdadeira natureza de seu trabalho. Esse equilíbrio entre dois personagens e dois mundos impedidos de se entrelaçar conferem humanidade e personalidade a O Espião, criando uma narrativa mais envolvente e irresistível.

Em seu centro emocional e criativo, portanto, está a performance equilibrada de Sasha Baron Cohen. Ao fugir do formato de thriller, O Espião abre mão de momentos catárticos, despindo-se de um chamariz explosivo para o streaming moderno. Essa ausência, porém, é coberta pela presença carismática do ator, que escolhe um registro elegante para criar um personagem rico e envolvente. Sem nunca perder o foco, é uma surpresa observar Sasha adicionar camadas que humanizam Eli, ao mesmo tempo em que é desesperador acompanhar seu mergulho sem freios na identidade de Kamel. O personagem que teria menos impacto nas mãos de alguém que não entendesse essa dualidade, e entender essa linha tênue é trabalho de um grande intérprete. Auxiliado por um elenco de coadjuvantes notáveis, Sasha eleva O Espião além da biografia insípida, reiterando o papel de Eli Cohen na história contemporânea. Lembro quando o ator queria dar o salto da comédia para papéis dramáticos como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody, mas se retirou do projeto ao discordar da direção planejada por Brian May e Roger Taylor. Seria um filme diferente, talvez ainda mais fiel à personalidade do líder do Queen… E provavelmente aquele Oscar de melhor ator estaria repousando em outra estante.

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Quadrinhos de super-heróis tem espaço para tudo – menos para censura! http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/09/06/quadrinhos-de-super-herois-tem-espaco-para-tudo-menos-para-censura/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/09/06/quadrinhos-de-super-herois-tem-espaco-para-tudo-menos-para-censura/#respond Sat, 07 Sep 2019 00:29:06 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10447

A censura, ou cerceamento da liberdade de expressão em todas as esferas, é proibida no Brasil desde 3 de agosto de 1988, quando o tema foi votado como conteúdo da nova Constituição Federal no país. Já a homofobia tornou-se crime desde que a maioria dos ministros do STF deliberou sobre o tema em maio deste ano – com penas equiparadas às ofensas previstas na lei contra o racismo. Ainda assim, a prefeitura do Rio de Janeiro achou por bem recorrer à censura por motivos de homofobia ao tentar proibir a venda e recolher exemplares da graphic novel Os Vingadores: A Cruzada das Crianças. O motivo? Um beijo entre os personagens Wiccano e Hulkling, abertamente homossexuais.

A administração municipal depois recuou, dizendo que a intenção era outra. “Livros que trazem conteúdo sexual para menores precisam estar embalados com plástico preto, lacrados, e com aviso do conteúdo”, disse o prefeito Marcelo Crivella em vídeo na internet, completando com a cereja no bolo: “A prefeitura entendeu inadequado, de acordo com o ECA, que uma obra de super-heróis apresente e ilustre o tema do homossexualismo (sic) a adolescentes e crianças, inclusive menores de 10 anos, sem que se avise antes qual seja o seu conteúdo”. Ou seja, censura, homofobia e ignorância, a receita perfeita para um pensamento totalitarista e obscuro. Só para deixar claro: para o prefeito Marcelo Crivella, um beijo entre dois homens seria “pornografia”!. A Bienal, obviamente, deu de ombros para a “ordem” do prefeito e garantiu uma liminar judicial que impede a apreensão de livros durante o evento, que se encerra neste domingo.

Alan Scott, o Lanterna Verde da Terra 2, beija o namorado

Se a apreensão e a censura de obras literárias causa engulhos, a desculpa de “proteger as crianças” não passa de munição hipócrita para alimentar uma fatia do eleitorado, geralmente os evangélicos mais fanáticos, que esperam transformar o Brasil em uma Nova Gilead, teocracia repressora tal qual é apresentada em The Handmaid´s Tale, O Conto da Aia que passou do livro para a série de TV. Histórias em quadrinhos, vale ressaltar, são alvo fácil desse tipo de milícia. Primeiro porque uma turba ignorante ainda acredita que HQs, em especial de super-heróis, são “coisas para criança” – e elas precisam “ser protegidas”. Segundo, as palavras acompanhadas por imagens exibem, muitas vezes, histórias e situações que despertam a fúria de qualquer fundamentalista, que acredita ter monopólio de um único modelo de família, sexualidade e sociedade. Quando arvorados por um presidente que dispara absurdos como “Família é homem e mulher, o resto é lixo”, essa turma sai do armário com tochas em mão, tal qual nazistas que tinham alegria em queimar livros em praça pública.

O episódio mostra o quanto Crivella e seus comandados estão completamente deslocados da marcha do tempo. Enquanto o mundo se torna mais plural, mais diverso e mais sensacional, gente assim insiste em um retorno às masmorras, demonstrando uma visão obtusa e envelhecida do mundo. Já era um absurdo em 1954, quando o psiquiatra Fredric Wertham publicou Seduction of the Innocent, em que ele defendia, com dados fraudados, que as histórias em quadrinhos eram má influência para a juventude americana, contribuindo diretamente para a delinquência juvenil. Em uma verdadeira caça às bruxas, editoras de gibis, em especial de títulos de terror, fecharam as portas. A indústria, para não ser censurada pelo governo, preferiu uma auto regulamentação capenga, um código de conduta cheio de regras pueris e fora da realidade, que podou a imaginação de gerações inteiras de criadores, além de criar um lastro financeiro, já que muitos anunciantes só publicavam em revistas com o selo em sua capa. Embolorado e ultrapassado em definitivo no novo século, o tal selo do “Comic’s Code” foi finalmente banido dos quadrinhos mainstream na edição 116 de X-Force, publicada pela Marvel em 2001.

Estrela Polar, mutante da Tropa Alfa da Marvel, beija o marido

Os Vingadores: A Cruzada das Crianças foi publicado originalmente em 2010, com texto e Allan Heinberg e Jim Cheung. A história, protagonizada pelos Jovens Vingadores, equipe formada por adolescentes que mantinham a chama do time principal acesa, traz a jornada dos herói Wiccano e Célere em descobrir a verdadeira identidade de sua mãe, que calha de ser a Feiticeira Escarlate. Na época da publicação, Wiccano já mantinha um relacionamento com outro herói, o híbrido Kree/Skrull Hulkling. Ao saber da polêmica, Cheung fez um longo post em seu instagram. “A arte apenas descreve um momento de ternura entre dois personagens que estão em um relacionamento estabelecido”, comentou, surpreso. “O fato de este livro, de quase uma década atrás, estar agora sendo destacado pelo prefeito talvez apenas mostre como ele pode estar fora de contato com os tempos atuais.” O detalhe é que a série foi publicada no Brasil em 2012 pela Panini, sendo republicada em formato graphic novel em 2016.

Não é a primeira, e nem de longe a última vez que quadrinhos de super-heróis trazem relacionamentos amorosos de casais homoafetivos. O Lanterna Verde da Terra 2, Alan Scott, é assumidamente gay. Estrela Polar, herói da Tropa Alfa da Marvel, casou-se com seu namorado em um gibi festejado. Ainda nos anos 80, a DC publicou a série Camelot 3000, que chegou ao Brasil como parte do mix dos gibis Heróis em Ação e Superamigos. A história levava ao futuro a saga do Rei Arthur contra a feiticeira Morgana Le Fey em meio a uma invasão alienígena na Terra. Os cavaleiros da Távola Redonda ressurgem reencarnados, e o roteirista Mike W. Barr colocou o valente Sir Tristão no corpo de uma mulher – quando ela lembra de sua vida anterior, tenta recuperar o corpo masculino, até perceber que seu sexo biológico em nenhum momento seria empecilho para seu romance com Isolda – as duas comemoram a vitória com um beijo tórrido. A versão encadernada da série certamente pode ser encontrada nas lojas de quadrinhos presentes na Bienal.

Tristão e Isolda finalmente consumam seu amor na série Camelot 3000

Eu lembro de ter lido Camelot 3000 ainda adolescente, e entender a diversidade das manifestações sexuais me ajudou – assim como a milhões de pessoas que consomem arte em todas as suas formas – a compreender a complexidade fascinante do ser humano, e a quebrar barreiras erguidas pelo preconceito e pela ignorância. Crianças, por sinal, não só podem como devem ser expostas a todas as formas de amor para entender, desde sempre, que nada é mais natural do que duas pessoas que se amam e que querem dividir um momento ou uma vida. A arte ainda é a melhor forma de evitar que as novas gerações se tornem pessoas amargas e reprimidas, guiadas pela inveja, pelo ódio, pelo preconceito e pela ignorância – imagine o estrago que um ser humano tão problemático pode fazer ao assumir cargos públicos de alto escalão! Certo está Felipe Neto, que saiu de trás do teclado e comprou 14 mil títulos de temática LGBT para distribuir gratuitamente na Bienal. “No momento que deixamos o prefeito transformar amor em pornografia, abrimos as portas para a repressão e o autoritarismo”, disse em seu canal no YouTube, que arrematou com um recado ao prefeito. “Crivella, eu fiz isso pra te mostrar que não tem como você ganhar isso. É impossível, não tem como vocês reprimirem a população em pleno 2019.”

Ah, a tentativa de censura foi um tiro pela culatra: TODOS os exemplares de Os Vingadores: A Cruzada das Crianças se esgotaram em todas as lojas espalhadas pela Bienal do Livro. As trevas não terão vez.

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Monstros digitais substituem o medo na decepcionante continuação de It http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/09/05/monstros-digitais-substituem-o-medo-na-decepcionante-continuacao-de-it/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/09/05/monstros-digitais-substituem-o-medo-na-decepcionante-continuacao-de-it/#respond Thu, 05 Sep 2019 06:36:13 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10433

Georgie sai na chuva, capa amarela cobrindo seu corpo, atrás do barco de papel que ele colocou na correnteza que segue pela sarjeta. O barco desce pelo bueiro e, quando o menino tenta alcançá-lo, depara-se com um par de olhos brilhante como um farol: é o palhaço Pennywise, que conversa com Georgie e promete lhe devolver seu brinquedo…. antes de arrancar o braço da criança, que é arrastada para o esgoto aos gritos, em um chafariz de sangue, estraçalhada pela criatura sobrenatural que agora mostra uma fileira de dentes afiados. A cena que abre It – A Coisa, adaptação do romance de Stephen King lançada dois anos atrás, é violenta, surpreendente, brutal e absolutamente assustadora. É o lembrete perfeito que a obra de King, diluída fora da literatura em um punhado de versões chinfrins, é poderosa e hipnotizante. É tudo, enfim, que sua continuação, comandada pelo mesmo Andy Muschietti, não é.

It – Capítulo 2, é um filme surpreendente por sua total falta de ambição, um caminho radicalmente oposto ao de seu antecessor. O mais impressionante é que o projeto foi tocado pela mesma equipe, com ainda mais recursos. Mas é uma várzea criativa, uma narrativa pesada que substitui a atmosfera apavorante e a sensação de total abandono por um desfile de criaturas digitais tão enfadonho e desinteressante como os efeitos exagerados de A Casa Amaldiçoada, lançado vinte anos atrás. A empatia criada pelo elenco infanto juvenil do filme de 2017, amparada pela clareza em entender que a história é uma alegoria sobre o medo de coisas bem reais (bullying, abuso infantil, a perda de um ente querido), foi transformada em uma aventura boboca, salpicada por sustos fáceis, em que o humor surge nos momentos mais inoportunos, fazendo com que o nó na garganta causado pela explosão de adrenalina que acompanha o medo se transforme em um bocejo incômodo. Puxar o sono, em filme de terror, é crime inafiançável.

O Clube dos Otários na calmaria antes da tempestade

A injeção de recursos já fica clara com o elenco escalado por Muschietti, encabeçado pelos astros James McAvoy e Jessica Chastain. Eles se juntam a Bill Hader, Isaiah Mustafa, Jay Ryan, James Ransone e Andy Bean como as versões adultas do Clube dos Otários, crianças que, quase três décadas antes, derrotaram o palhaço Pennywise, entidade que se alimenta de medo e que assombra a pequena Derry, cidade perdida no Maine. A derrota, como eles já sabiam, era temporária, e os amigos precisam cumprir a promessa de terminar o serviço caso a criatura retornasse. E é o que acontece, com fúria arrebatadora, quando os desaparecidos chamam a atenção de de Mike (Isaiah Mustafa), o único que não deixou Derry para trás. Cabe a ele ligar para os velhos amigos, abrindo memórias e velhas feridas que a distância transformara em uma lembrança incômoda. Este Capítulo 2, porém, não abre mão de flashbacks, com a narrativa ziguezagueando entre passado e presente, montando o tabuleiro em que Pennywise vai desenhar sua vingança.

Essa decisão cria uma cisão na estrutura bolada por Muschietti e pelo roteirista Gary Dauberman. Ao contrário do filme anterior, em que o texto tomava seu tempo para construir os laços entre as crianças, a narrativa fragmentada nunca deixa espaço para uma conexão emocional. O elenco se esforça, mas em nenhum momento eles parecem um grupo unido (literalmente) pelo sangue, e sim pessoas que não desistem de sua missão simplesmente porque o roteiro diz que sim. Mesmo quando a ameaça de Pennywise se mostra letalmente real, eles flertam com a dúvida antes de enfrentar mais uma vez o horror que pode lhes custar a vida. Para isso, eles precisam realizar um ritual indígena (que nunca fica claro por que funcionaria), trazendo artefatos que os conectem com o momento em que eles encararam seu maior medo – e o palhaço – pela primeira vez. Daí os flashbacks, quando acompanhamos os Otários mais uma vez quando crianças, em momentos que o filme anterior sequer sugeriu que existiram.

Pennywise mostra sua… verdadeira face?

Se o texto e as relações estivessem amarrados com terror real, com a atmosfera que fez do It de 2017 um filme tão envolvente e tão espetacular, os pecados poderiam ser perdoados. Mas seus realizadores sucumbiram à sedução dos efeitos digitais facilitados pelo orçamento maior. O resultado é um desfile de criaturas digitais tão abundante que perde seu impacto. Logo na primeira reunião dos Otários adultos, com a metamorfose de biscoitos da sorte em monstros saídos de um pesadelo, fica claro que o tom de Capítulo 2 será o excesso. Daí somos presenteados com estátuas que ganham vida, velhinhas macabras transformadas em bruxas histéricas, paixões infantis com cabeças flamejantes. O pior: nada tem consequência real, com a frase “tudo é apenas um sonho” repetida à exaustão. Quando chega o clímax, que repete exatamente os passos da aventura anterior, a plateia está tão exausta dos constantes ataques das criaturas digitais que não existe mais espaço para impacto.

A solução seria, portanto, concentrar-se no drama de cada personagem, fazer com que eles fossem pessoas reais, que tivessem medos e motivações. A vida adulta dos Otários, sugerida no começo do filme, é simplesmente abandonada pelo roteiro. Sem emoções e dramas reais para nos ancorar, resta apreciar o clima de montanha russa embalado pelo volume da trilha e pelos sustos fáceis, ainda que desconexos, espalhados ao longo de quase três horas de filme (eu cortaria as novas crianças que sucumbem ante o vilão e toda a trama envolvendo o assassino maluco Henry Bowers sem hesitar). Nem Pennywise, o bicho papão que habita nossos sonhos, teve melhor sorte. Apesar da caracterização impecável de Bill Skarsgård, e do design inspirado do palhaço, ele basicamente é uma repetição do que vimos antes. O livro traz uma conclusão maluca, que lida com dimensões paralelas e pesadelos lovecraftianos. It – Capítulo 2 não deve alcançar os inacreditáveis 700 milhões de dólares levantados por seu antecessor. Ainda assim, vai garantir um fim de ano mais folgado para o estúdio, que encontrou aqui uma propriedade intelectual espetacular, ainda que criativamente inócua. Se os cineastas já tomam tantas liberdades com o texto de King, prefiro imaginar um mundo em quea adaptação de It se resumiria ao brilhante primeiro filme, terminando com a promessa eterna de que Pennywise, um dia, voltaria para injetar medo em nossa alma.

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Himesh Patel, de Yesterday: “Meu medo era estragar as canções dos Beatles” http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/09/04/himesh-patel-de-yesterday-meu-medo-era-estragar-as-cancoes-dos-beatles/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/09/04/himesh-patel-de-yesterday-meu-medo-era-estragar-as-cancoes-dos-beatles/#respond Wed, 04 Sep 2019 20:03:31 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10417

Himesh Patel não é parente de Dev Patel. Mas o mundo trabalha em torno de coincidências cósmicas ao revelar dois atores britânicos de descendência indiana em filmes dirigidos por Danny Boyle. Dev foi o protagonista do festejado Quem Quer Ser um Milionário?, de 2008. Himesh agora é apresentado ao mundo como Jack Malik. o músico que, depois de um evento global bizarro, torna-se a única pessoa que lembra dos Beatles na comédia romântica Yesterday. Com o quarteto de Liverpool varrido da existência, cabe a Jack, músico frustrado, trazer ao mundo suas canções, assumindo sua autoria e, no processo, tornando-se um ídolo pop mundial. A decisão, entretanto, não chega sem uma dose de culpa, causando uma cisão que por fim pode lhe custar o amor de sua melhor amiga, Ellie (Lily James).

“O que Jack sentiu foi o peso da responsabilidade”, conta Himesh, que conversou comigo em Londres pouco antes da estreia mundial de Yesterday. “Mas também existe um pouco de ego na equação. Mas Jack em nenhum momento se questiona se deveria ou não fazer o que fez: ele sabe que, do contrário, o mundo seria privado das músicas dos Beatles.” O ator, que também gravou as canções para o filme, sentiu na pele essa responsabilidade ao entrar no estúdio. “Regravar tantas canções icônicas foi uma alegria e uma celebração”, lembra, empolgado. “É possível traçar nossa linha do tempo usando músicas dos Beatles, é incrível como elas despertam tantas emoções e sentimentos, como dão corpo a um sentimento que parece etéreo. E cada uma delas é icônica mesmo separada do conjunto, o talento em sua composição é altíssimo! As músicas são um presente e eu não queria estragar.”

Patel em EastEnders, novelão inglês em que ele trabalhou por quase uma década

Himesh Patel nasceu em 1990 em Cambridge-shire, filho de imigrantes indianos que incentivaram seu talento para o teatro quando ele tinha 11 anos. A oportunidade veio quando ele tinha 16 anos, ao fazer um teste para o novelão EastEnders, um dos programas mais populares da BBC, no ar desde 1985. Ao atualizar sua narrativa para a Londres do século 21, mais moderna e mais diversa, EastEnders colocou Himesh no papel do estudante Tamwar Masood que, entre 2007 e 2016, foi desenvolvido como um dos personagens secundários mais fortes da série. Ao encerrar seu relacionamento com a série depois de quase uma década, Patel continuou rodando curtas para explorar outras possibilidades dramáticas, estreando nos palcos em 2017 na peça Don Juan in Soho ao lado de David Tennant. Ele voltou à TV britânica na minissérie Damned, em que assumia um papel mais maduro, e em episódios de Climaxed e Motherland, chegando a emprestar sua voz para uma história em áudio do icônico Doctor Who.

Tímido e reservado, Himesh ganhou o papel de Jack Malik, segundo o diretor Danny Boyle, ao transmitir “uma sensação ao mesmo tempo estranha e familiar” com sua interpretação das canções dos Beatles. “Era exatamente o que os personagens sentiam, e era exatamente o que eu queria que o público sentisse”, comentou o diretor. Yesterday surgiu quando Boyle, ao lado do roteirista Richard Curtis, imaginaram como seria terrível um mundo sem o trabalho escrito e gravado por John, Paul, George e Ringo, o que é corroborado por Patel. “Imaginar nossa vida sem os Beatles seria doloroso”, ressalta o ator. “Perderíamos parte de nossa identidade, e nem quero pensar em outros artistas que se inspiraram neles, nenhum existiria!” Curiosamente, um dos exercícios bolados por Boyle para seu elenco era justamente lembrar da obra do grupo sob pressão. “Danny pedia para lembrar de músicas e de letras em 30 segundos, e eu achei que seria fácil”, recorda Himesh. “Foi quando eu entendi o trauma de Jack, depois de ser atropelado por um ônibus, de carregar o fardo de ser o único a lembrar dos Beatles. Eu não lembrei de ‘Hey Jude’! A letra de ‘Eleanor Rigby’ ficou embaralhada, e usamos isso no filme. Estou aqui contigo tentando lembrar a letra de ‘Penny Lane’ e não está fácil!”

O som e a fúria de Yesterday!

Assim como Dev Patel, que partiu de Quem Quer Ser um Milionário? para uma carreira eclética, que inclui O Exótico Hotel Marigold, Chappie, Lion e o recente Atentado ao Hotel Taj Mahal, Himesh Patel está aproveitando o momento para exercitar seus músculos cênicos. Ainda este ano ele trabalha em The Aeronauts, aventura de época produzida pela Amazon, ao lado de Felicity Jones e Eddie Redmayne. Apegado às suas raízes, ele rodou a minissérie The Luminaries como protagonista dessa adaptação do livro de Eleanor Catton sobre a corrida do ouro na Nova Zelândia de meados do séculos 19, e tem na gaveta o piloto da série de ficção científica Avenue 5, ao lado de Hugh Laurie. Ano que vem ele volta aos cinemas em grande companhia no misterioso Tenet – novo filme de Christopher Nolan que traz no elenco Robert Pattinson, Aaron Taylor-Johnson, Kenneth Branagh e, claro, Michael Caine. Personagens diversos em projetos diversos. “EastEnders me permitiu falar sobre religião, sobre o que significa para muita gente poder exercer a sua fé”, lembra. “Mas nada que eu fiz depois do programa foi definido por minha etnia. Talvez eu tenha muita sorte.”

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Coringa não parece trazer nada do Coringa das HQs (e por que isso é ótimo!) http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/08/30/coringa-nao-parece-trazer-nada-do-coringa-das-hqs-e-por-que-isso-e-otimo/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/08/30/coringa-nao-parece-trazer-nada-do-coringa-das-hqs-e-por-que-isso-e-otimo/#respond Fri, 30 Aug 2019 06:03:03 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10406

Roubei da internet: “Coringa parece ter sido feito em um mundo paralelo, em que os direitos do personagem entraram em domínio público e os cineastas foram lá e fizeram sua versão”. Faz sentido. O filme de Todd Phillips, que chega aos cinemas no comecinho de outubro, traz uma interpretação muito peculiar do Palhaço do Crime. É um Coringa que tem uma identidade civil, um passado, uma origem. Um Coringa que existe longe da sombra do Batman, que aqui não teve nenhuma relação com seu mergulho em direção à insanidade. Um Coringa que poderia existir no mundo real, em que um sujeito que já não tinha exatamente as ideias no lugar percebeu que o mundo faz mais sentido quando ele não faz sentido algum. “Os fãs de quadrinhos provavelmente não vão curtir”, alertou Phillips semanas atrás, quando o filme se preparava para girar no circuito dos grandes festivais de cinema pelo mundo. Ele pode estar certo. E isso é ótimo!

Uma boa história, afinal, vale muito mais do que demonstrar fidelidade canina à sua fonte. Histórias em quadrinhos são um ótimo ponto de partida, mas não são uma bíblia que precisa ser seguida à risca. Nem é preciso ir muito longe: NENHUM filme com super-heróis dos gibis tem a preocupação em ser um mero copy/paste com gente de verdade. O que se espera de artistas ao colocar as mãos em uma propriedade intelectual poderosa é justamente seu talento para a reinterpretação. Foi algo que observei com a volta do controle do Homem-Aranha nos cinemas para a Sony depois de cinco filmes com a assinatura da Marvel: alguns fãs aplaudiram, dizendo que “finalmente” o herói voltaria a ser “fiel” aos quadrinhos. O fato é que nunca foi! Homem-Aranha, que Sam Raimi fez em 2002, não se furta em tomar dezenas de liberdades com as origens do herói, a começar pelos lançadores de teia orgânicos, passando pela escolha de Mary Jane como interesse romântico (nas HQs ela só surge quando Peter saiu há tempos do colégio, já na faculdade), da aranha modificada geneticamente (e não por radiação), da morte do tio Ben (na rua, não em casa). Do mesmo jeito, é difícil achar esse espelho dos quadrinhos em Superman – O Filme (1978), em Batman (1989), em X-Men (2000), ou mesmo em praticamente todo o Universo Cinematográfico Marvel. São versões, e por isso são interessantes e surpreendentes.

Joaquin Phoenix em toda sua glória como o Coringa

No caso do Coringa, as HQs sequer possuem uma origem redondinha para o personagem. Apresentado na primeira edição de Batman, em 1940, o vilão foi mostrado como um ladrão e assassino, um sujeito egocêntrico e vaidoso que se torna ainda mais perigoso depois do acidente com componentes químicos que lhe deram pele branca e cabelos verdes. Nos anos 70, com a reformulação do Batman empreendida por Denny O’Neil e Neal Adams, a versão dominante foi a do palhaço com tendências homicidas, um vilão imprevisível em sua loucura que invariavelmente terminava em morte. Ele ganhou uma origem, se não definitiva, mas plausível e elegante na graphic novel A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland. Moore emprestou elementos de sua criação nos anos 40 e o reescreveu como um comediante fracassado, obrigado a se vestir como o criminoso Capuz Vermelho para tirar sua esposa grávida da miséria. Foi uma tragédia só: sua mulher morre em um acidente doméstico, os criminosos que lhe propuseram o golpe são baleados pela polícia e ele, ao fugir do Batman, cai em um tanque de dejetos químicos, o que altera sua pele, seus cabelos e crava sua descida à loucura absoluta.

Não parou por aí, claro. Recentemente, a DC experimentou um reboot total de seus personagens batizado Os Novos 52, e o Batman descobriu, depois de um combate épico da Liga da Justiça contra o semideus Darkseid, que existem de fato três diferentes Coringas! Mesmo com a reinvenção seguinte da DC (é, eu sei…), Renascimento, esse mistério ainda não foi esclarecido, mesmo que tenha alimentado um sem número de teorias de fãs. Fora dos gibis, o Coringa também já teve diversas origens. Ele foi Jack Napier, o criminoso que matou os pais de Bruce Wayne em Batman, quando foi interpretado por Jack Nicholson. No desenho animado genial dos anos 90, o Coringa era o capanga de um gângster antes de ser desfigurado. Batman – O Cavaleiro das Trevas trouxe Heath Ledger como um psicopata com cicatrizes nos lábios, mas que usava maquiagem para deixar a pele branca e os cabelos verdes. Esquadrão Suicida trouxe Jared Leto como um gângster, alterado fisicamente também ao ser exposto por produtos químicos. Como o próprio Coringa diz em A Piada Mortal, “Se é para eu ter um passado, que ele seja de múltipla escolha”.

Robert De Niro encara a face da loucura

Justamente por isso que a aparente decisão de Todd Phillips em varrer qualquer resquício de cânone em seu filme é também a mais acertada. Ao lidar com o conceito do Coringa – um sujeito levado à loucura e a uma vida de crimes por situações extremas -, ele criou uma história original, que ganha ainda mais fôlego com Joaquin Phoenix emprestando humanidade à história. Sabemos que ele é Arthur Fleck, comediante fracassado e levemente perturbado, que leva uma vida medíocre ao lado da mãe doente. Sabemos que Robert De Niro é o apresentador de um programa de auditório (ecos da série de Frank Miller Batman – O Cavaleiro das Trevas?) que serve de gatilho para a transformação de Fleck em Coringa. Sabemos que personagens da mitologia do Batman, como Alfred Pennyworth e Thomas Wayne, estão no filme. Mas é um Coringa descolado do malfadado “universo estendido DC”, um filme que funciona sem precisar se inserir em uma engrenagem mais extensa. É uma história mais realista que serve como alerta sobre como a sociedade trata seus cidadãos menos afortunados. Um filme sobre loucura, sobre suas causas e consequências. Explorar temas assim é infinitamente mais interessante do que “ser fiel aos gibis”. Esse, por fim, é o caminho mais bacana que a DC poderia escolher no cinema.

Será que Joaquin Phoenix vai rir por último?

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Danny Boyle: “A nostalgia é um refúgio em momentos de grande incerteza” http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/08/29/danny-boyle-a-nostalgia-e-um-refugio-em-momentos-de-grande-incerteza/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/08/29/danny-boyle-a-nostalgia-e-um-refugio-em-momentos-de-grande-incerteza/#respond Thu, 29 Aug 2019 09:25:13 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10393

Yesterday encontra o diretor Danny Boyle em um “modo de batalha” inusitado. Responsável por filmes intensos como o neo clássico Trainspotting, o apocalipse zumbi Extermínio, o premiado Quem Quer Ser um Milionário? e o sufocante 127 Horas, ele aqui opta por uma celebração da música dos Beatles que emoldura uma comédia romântica doce e emocionante. Depois de flexionar músculos artísticos diferentes ao comandar a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, o diretor alternou produções modestas com filmes de grife, emendando a brilhante biografia Steve Jobs com a primeira continuação de sua carreira, T2 Trainspotting. Até flertar com o cinema de grandes blockbusters ao desenvolver por um ano a próxima aventura de James Bond. Liberdade, entretanto, é inegociável para Danny Boyle, como você confere no pape a seguir.

Danny, você mencionou que Yesterday seria uma celebração dos Beatles. O cinema tem recebido diferentes festas musicais, como Bohemian Rhapsody e mais recentemente Rocketman. O que existe nessa mistura de música, cinema e nostalgia que tem deixado as plateias ávidas por mais?
Eu acho… Eu não sei. Acredito que existe de fato um componente de nostalgia envolvido. E acho que tem a ver com um momento – e eu sei que é meio lugar comum – de enorme incerteza, não só aqui na Inglaterra mas também ao redor do mundo. Muitas mudanças acontecendo, especialmente instabilidade política, um clima de incerteza que não sabemos se é permanente ou um soluço. Mas as pessoas inevitavelmente buscar se agarrar a algo que elas conhecem. Algo que seja maravilhoso, e se existe algo que conecta esses três filmes são canções absolutamente espetaculares. Espetaculares! E não podemos esquecer do ABBA com Mamma Mia!, que foi um sucesso tremendo antes de Bohemian e é essencialmente um grande karaokê. Além disso, também existe a consequência inevitável do cinema se reinventar, porque para atrair as pessoas ao cinema é preciso de algo que não esteja disponível na TV. Isso faz com que estes filmes surjam como eventos – não como os filmes da Marvel, mas ainda assim eles são como um evento, quase como um show ao vivo. Especialmente Bohemian e Rocketman, que traz literalmente reproduções de shows. Em nossa versão a diferença é que Himesh (Patel) se torna o artista. Então é a combinação de nostalgia, coisas que são familiares e o fato de o cinema ter de criar algo especial para se manter essencial ante tanto material que a TV traz.

Eu sempre levanto a questão da sobrevivência do cinema ante esses grandes blockbusters, como Marvel, Aladdin ou Detetive Pikachu. Às vezes filmes menores como Fora de Série simplesmente desaparecem em meio aos gigantes. Existe alguma fórmula para levar o público ao cinema para assistir a filmes que não são candidatos a arrasa-quarteirão?
Eu acredito que sim. Sabe, no fim estes filmes são ancorados nas performances. É o ator que importa. É óbvio que atores são a chave de todo filme, mas eu acho que nas produções da Marvel eles são de certa forma intercambiáveis. Fora isso a plateia responde a uma performance, é onde está a conexão emocional, e isso se mostra mais verdadeiro quando um ator se transforma em Freddie Mercury ou Elton John. É um tipo específico de representação, visualmente identificável. O caso de Yesterday não era tão simples, porque não queríamos fazer uma biografia, e sim algo mais específico. É curioso observar se vamos conseguir habitar este mesmo mundo.

Jack Malik (Himesh Patel) conquista o mundo com as canções dos Beatles

Que tipo de ator você procurava para protagonizar Yesterday, e por que terminou escolhendo Himesh Patel?
A procura foi intensa, conversamos com muita gente. Sendo honesto, embora eu tenha conversado com alguns atores extremamente talentosos, que cantavam as músicas divinamente – porque esse era o teste, além de atuar eles precisavam cantar algumas músicas. Então chegou um ponto que duvidamos se o processo ia funcionar, eram muitas músicas, cada um arriscando cerca de quinze canções. Então Himesh se apresentou, cantou e foi como uma brisa da primavera. (risos) Foi estranho, nós ficamos com o queixo no chão, imaginando o que ele fazia de tão diferente em sua performance. E no fim não havia nada diferente, ele foi preciso ao cantar as músicas originais sem mudanças… e ainda assim soou estranho e familiar ao mesmo tempo. E era o ingrediente que a gente buscava, porque os personagens na história não conheciam nenhuma das canções, mas ainda assim precisavam expressar alguma familiaridade. Ou seja, eles amavam as músicas porque parecem reconhecê-las. O público obviamente conhece cada uma das músicas, mas elas tinham de soar estranhas e também familiares.

Yesterday não é apenas uma celebração dos Beatles, mas também uma celebração do amor. Quando você escolhe atores para interpretar um casal, e a química é algo que simplesmente precisa ser natural, e ela está lá com Himesh e Lily James. Você precisa também testar os dois juntos, como funciona o processo?
Na verdade eu nunca precisei fazer assim, sempre confiei em meu instinto ao observar as performances individuais. Eu nunca peço para que eles busquem esse crédito mútuo, eu os escolho pelo que eles são. Até porque eu sou péssimo para julgar química! (risos) Acredite, bons atores podem fingir qualquer coisa, e eles podem enganar qualquer um, inclusive o diretor. Então a química termina sendo uma consequência de como eu conduzo cada cena.

Danny Boyle e o roteirista Richard Curtis no set com Himesh Patel e Lily James

Eu acho fascinante em sua carreira o fato de você nunca se colocar em uma caixa. Você dirigiu terror e ficção científica, comédias românticas e biografias. Então, o que o atrai a cada história?
Olha, estou trabalhando agora em algo que me fisgou em uma frase, a ideia da história. Outras vezes simplesmente respondo a um roteiro. Eu li o roteiro de Richard Curtis para Yesterday e a reação foi instantânea. Eu confio nessa reação instintiva mais do que uma reação ponderada ao longo do tempo, quando outras pessoas interferem no processo, quando os agentes entram em cena, quando a conversa passa a ser em torno de elenco – o que eu acho que é fundamental quando o orçamento é enorme! Mas quando é possível manter o orçamento mais apertado o bônus é a liberdade que isso traz. Com o meu histórico combinado com o de Richard conseguimos escolher Himesh como protagonista. Porque já temos combustível para alavancar a produção, seja com as canções dos Beatles, além de mim e de Richard, seria o bastante para disparar o filme. Ajuda muito conseguir Lily (James) e também Kate McKinnon. Mas tudo isso é consequência daquele instinto inicial, de ler o texto e querer fazer. Sem falar que essa leitura inicial é o mais perto que eu vou chegar do que a platéia vai receber quando assistir ao filme – e o que eles assistem é a história completa. E é mais ou menos isso que um diretor sente quando lê um roteiro, esse sentimento que se sustenta por mais ou menos um ano antes de iniciar a produção. E a esperança é que a platéia sinta o mesmo quando assistir ao produto completo.

Essa liberdade em manter sua visão e sua liberdade é o que te mantém longe de grandes orçamentos e de grandes franquias e filmes-evento?
Eu sempre tento manter o custo baixo. Um filme tem tantas partes em sua engrenagem que é muito fácil tudo se agigantar e de repente o custo se torna absurdamente alto. Daí a pergunta passa a ser “ como vamos recuperar esse investimento?” Então é prudente estabelecer um limite e dar o exemplo, deixando claro quanto cada um vai receber por seu trabalho, então todos ficam cientes dos parâmetros reais da produção. O resultado pode excedê-los, o que seria um ótimo bônus para todo mundo, mas se não atingir aquela meta também não vai quebrar ninguém. Acho que trabalhar com o que temos é algo simples e também muito importante. Essa clareza permite mais riscos – riscos que não podemos correr com um orçamento maior. Até podemos tentar, mas existem outras forças que desconfiam do perigo e cobram estes riscos depois. Quando o orçamento é modesto, essas forças permitem que se corra mais riscos, como nas decisões de elenco.

Danny Boyle dirigiu Daniel Craig como James Bond e a Rainha Elizabeth (!!!) na abertura da Olimpíada de Londres em 2012

Você quase dirigiu o próximo James Bond, que eu acredito ser justamente o tipo de filme em que é difícil equilibrar…
(dá de ombros) Olha aí o que você fez! (risos) É o projeto perfeito para correr alguns riscos mas o custo é tão astronômico que obviamente eles não querem seguir a mesma jornada que você. Então a decisão sensata é cada um seguir seu caminho.

Acho que os melhores filmes são justamente aqueles que pensam fora da caixa e correm os maiores riscos.
Eu concordo contigo. Mas obviamente, do ponto de vista dos estúdios, você também adoraria os riscos? Essa é a perspectiva deles, “você correria riscos com seu dinheiro?” (risos)

Mas às vezes o estúdio entende os riscos e aposta da mesma forma, resultando muitas vezes em grandes sucessos. É raro, mas acontece, certo?
Exato, e um deles acabou de completar vinte anos e se chama Matrix. Foi um risco, claro, já que ninguém apostava nessa estética que vem de histórias em quadrinhos, especialmente vinte anos atrás! Foi o filme que mostrou que essa estética era executável, e Matrix começou todo esse movimento. Eu tenho um amigo, o coreógrafo Kenrick Sandy, que planeja criar um balé com aquela mesma energia, dança moderna, no palco. E eu filmaria a performance.

Extermínio foi o precursor de muitos filmes pós-apocalípticos modernos

Acho que você deve ouvir isso sempre, mas existe alguma possibilidade de você retornar ao mundo de Extermínio?
(risos) É interessante, Alex (Garland) teve uma ideia brilhante, mas que nunca teve a tração necessária para caminhar. E eu não sei como ele se sente em relação a isso agora, já que ele tem se mantido ocupado finalizando sua série de TV (a ficção científica Devs). Então está no limbo. Mas sua ideia era incrível…. É interessante como tantos novos filmes seguem o mesmo caminho, como Bird Box, um futuro pós-apocalíptico. A construção de mundos assim é fascinante.

Quem Quer Ser um Milionário? parece compartilhar o mesmo DNA de Cidade de Deus, o filme de Fernando Meirelles. Você os enxerga como filmes-irmãos, que abordam temas similares sob uma luz diferente?
É interessante, eu adoro Cidade de Deus e com certeza eu aprendi com ele a forma de filmar. Pode soar muito técnico, mas existe um modo de abordar uma filmagem em uma comunidade como aquela. Se você agir de maneira honrada – e isso não tem nada a ver com dinheiro, e sim com coração! – então essa comunidade vai responder de maneira positiva. Se alguém entra com o objetivo de explorar, é inevitável que seja expulso. Foi isso que eu observei ao filmar em Mumbai, foi isso que eu aprendi com Cidade de Deus. E também com minha experiência ao fazer A Praia, em que fizemos de forma diferente e chegamos com muito dinheiro, o que distorceu completamente o projeto original. Então eu acho que temos de aprender com nossas experiências e também com pessoas que fizeram um trabalho melhor.

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Tarantino: “Meu Star Trek mistura a série dos anos 60 com Pulp Fiction” http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/08/28/tarantino-meu-star-trek-mistura-a-serie-dos-anos-60-com-pulp-fiction/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/08/28/tarantino-meu-star-trek-mistura-a-serie-dos-anos-60-com-pulp-fiction/#respond Wed, 28 Aug 2019 17:27:12 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10377

Quentin Tarantino ia se encontrar comigo na Cidade do México, acompanhando Brad Pitt na turnê de lançamento de Era Uma Vez em Hollywood. Mas o destino tinha outros planos. Enquanto divulgava o filme na Rússia, o diretor machucou as costas e, mesmo sem ser nada grave, a dor o colocou de molho por alguns dias, abortando a ponte vodca/tequila da viagem. Mas a gente sabe quando um diretor é profissional quando ele faz questão absoluta de cumprir seus compromissos, e nosso papo terminou acontecendo por telefone, com ele já 100 por cento recuperado de suas aventuras na terra de Putin. Foi meu segundo papo com Tarantino, com quem conversei por algumas horas quando ele esteve em São Paulo para o lançamento de Os Oito Odiados. O raciocínio continua afiado, assim como a paixão absoluta por cinema. O que mudou de uma entrevista para a outra? A contagem regressiva: faltavam, então, dois filmes para a sua aposentadoria; agora ele garante que tem mais um na cartola antes de pendurar o chapéu. Conversamos sobre isso – e também sobre Sharon Tate, o cinema pós-guerra, Star Trek e a cena mais complicada para tirar do papel em Era Uma Vez em Hollywood.

Era Uma Vez em Hollywood fez com que o público voltasse seu olhar para aquela época. Por que você acredita que foi um momento tão importante para o cinema?
Bom, eu acho que foi incrivelmente importante. Foi quando foi apagada a chama dos últimos remanescentes do que chamamos de “cinema de Eisenhower”. Que basicamente foi quando Hollywood prosperou nos anos após a Segunda Guerra Mundial. Depois que a guerra terminou e o país foi aos poucos voltando a fazer filmes, uma das coisas que se percebeu foi que, neste pós-guerra, os filmes eram feitos para um público muito mais adulto. Basicamente foram produções estrangeiras que passaram a quebrar as regras sobre o que era possível fazer com os filmes. Ultrapassar os limites. Hollywood, por sua vez, foi teimosa e se manteve imatura. Seu compromisso parecia ser com épicos bíblicos e com musicais grandiosos da Broadway, mantendo seu aspecto de “diversão para toda a família”. O resto do mundo estava muito à frente de Hollywood. Mas quando chegamos aos anos 60 o mundo real meio que começou a se intrometer na indústria, e em 1969 essa era de Eisenhower estava chegando ao fim, derrubada pela Nova Hollywood, que nos anos 70 se materializou no que eu considero a melhor época da história de Hollywood. E nunca voltamos ao status que existia antes desse renascimento, o que foi ótimo!

Muita gente desconhecia a história de Sharon Tate antes de seu filme. Você acredita que isso seria um bônus colateral, fazer com que uma parcela do público procure saber mais sobre ela e seus filmes?
Eu não tenho nenhum problema com as pessoas não saber quem foi Sharon Tate. É triste, mas eu percebo que muita gente tem dito isso. A verdade é que, mesmo nos Estados Unidos, a maioria das pessoas só a enxerga como vítima de assassinato. Foi isso que a deixou famosa. Por isso que eu percebo que, fora dos Estados Unidos, se as pessoas não conhecem a história do crime então não sabem mesmo quem ela foi! Talvez um aspecto tocante do filme seja contar quem foi Sharon Tate, lembrar que ela foi uma pessoa real, que ela teve uma vida. Então, se existe um bônus com a minha história, é fazer com que ela não seja mais definida unicamente por seu fim trágico.

Cliff Booth e Bruce Lee: uma briga que acabou em polêmica

Brad Pitt falou bastante sobre a cena em que Cliff Booth luta com Bruce Lee, que vocês haviam pensado de uma forma, alteraram um pouco na hora de filmar. Em algum momento você pensou que, de todo o filme, justamente essa cena fosse levantar tanta polêmica?
Eu não esperava que tanta gente imaginasse que estávamos nos divertindo às custas de Bruce Lee. Eu entendo que a família e os amigos não entendessem como uma piada, mas pra mim a intenção nunca foi zombar de um ídolo. Obviamente.

Qual cena foi mais complicada para fazer?
Pra mim, as coisas mais complicadas são aquelas que tem potencial de ser as melhores do filme. É quando eu consigo capturar exatamente o que está no papel, quando os atores ficam mais empolgados porque sabem que pode ser uma grande cena. A pressão então é maior na hora de filmar aquela parte do roteiro, já que se ficar ruim a culpa é toda minha. Nesse filme a sequencia que eu estava mais ansioso para filmar era no Rancho Spahn. Como não havia mais nada naquela locação tivemos de reconstruir absolutamente tudo à perfeição – e minha diretora de arte, Barbara Ling, acertou em cheio. E era uma cena tão importante que que não quis pensar em como filmá-la até quando a gente já estava bem adiantado no cronograma. Eu não queria planejar nada: a gente foi para o Rancho Spahn e vamos criar a cena do começo ao fim. Os atores que faziam os seguidores de Charles Manson estavam sempre lá, prontos se eu fosse usá-los ou não. Então tudo foi questão de tirar Brad do carro em que ele chega lá e fazê-lo atravessar o rancho até a casa de George Spahn. Resolvemos as cenas na casa? Então vamos dar um jeito de ele voltar para seu carro. E a gente foi pensando a cada dia, passo a passo, com cada tomada informando a tomada seguinte. É um modo muito divertido e empolgante de fazer um filme, mas também é de deixar os nervos em frangalhos até o ponto que a câmera começou a rodar, porque não fizemos nosso dever de casa. Pode funcionar, e funcionou! Mas não significa que é menos complicado.

Brad Pitt e Leonardo DiCaprio trabalham sob o olhar do chefe

O cinema hoje é feito de filmes gigantes. Franquias, continuações, refilmagens… e acho que tudo bem. Mas em algum momento você percebe que é um dos últimos diretores a insistir com filmes originais?
Poxa vida… Ah, ainda existem alguns que resistem na luta. Eu, David Fincher, Paul Thomas Anderson, Chris Nolan… A verdade é que eu não havia percebido que isso tinha alguma relevância até notar o modo como muita gente estava falando sobre meu filme: “Meu Deus, Era Uma Vez em Hollywood é um dos únicos lançamentos estreando durante a temporada do verão que não é uma continuação ou um reboot ou isso ou aquilo ou um personagem de histórias em quadrinhos…” Eu nunca pensei sobre isso! Mas foi só quando vi os comentários que percebi o quanto estamos sozinhos no mercado.

Quando você passou por São Paulo durante o lançamento de Os Oito Odiados, deixou claro que faria mais dois filmes antes de pendurar o chapéu. Era Uma Vez em Hollywood risca um da lista, com a ideia agora sendo se aposentar ou até investir em outras formas de entretenimento. Sei que você deve ter ouvido essa pergunta um milhão de vezes, mas vamos lá: o número dez será de fato seu último filme?
Bom, essa definitivamente é a ideia. A ideia é…. bom, você formulou de maneira tão bacana que eu me sinto na obrigação de responder! (risos) Eu estou fazendo filmes há 27 anos, e dediquei toda minha vida à minha filmografia. Eu senti que esse era o momento de fazer meus filmes, e eu vejo cada um deles como uma montanha, como se eu fosse um alpinista. Eu penso então que era a hora de escalar o monte Fuji. Depois era a hora de escalar o Everest. Eu vivi minha vida assim até agora, e nada era mais importante que isso. Não casei, não tinha filhos, nada disso. Mantive o foco. Quando eu chegar no décimo filme serão três décadas dedicado a isso, e eu sempre me dediquei ao máximo, porque não consigo encarar o nível de comprometimento com o ofício de filmar de outra forma. Então quero terminar esse recorte de minha vida em meus próprios termos, fechar essa porta artística à minha maneira. Depois disso? Não sei. Posso trabalhar com televisão. Posso escrever peças, escrever livros. Eu acho que serei um escritor. E eu estou ansioso para dar esse passo.

William Shatner no Star Trek clássico: paixão que pode virar filme

Há alguns meses, antes do lançamento de Era Uma Vez em Hollywood, você falou sobre sua reverência por atores que trabalhavam na TV, como William Shatner e outros protagonistas de séries dos anos 60 e 70. Foi algo que você imprimiu no texto de seu filme, e de certa forma deu mais sentido à sua admiração por Star Trek e sua vontade de deixar sua marca da série. Como seria, portanto, o seu Star Trek?
Assim… bom, eu não posso entrar em detalhes porque todo o projeto ainda está em desenvolvimento. Mas seria diferente! Seria diferente de todos os episódios de Star Trek que você já viu… bom, que você viu até hoje. (risos) Pra mim, o melhor Star Trek de todos os tempos, na TV ou no cinema, é A Ira de Khan. É um filme absolutamente incrível, e eu sou fã declarado. O roteiro que eu estou trabalhando é… (hesitante), bom, é de certa forma Star Trek clássico no estilo dos anos 60. A diferença, acredito, é que seria executado de forma mais realista do que era possível na situação que eles tinham, que era manter uma agenda televisiva semanal. Acho que a gente pode fazer melhor… Não assim, “melhor”, mas a gente pode fazer mais… eu não sei, você entendeu o que eu quero dizer! (risos) A gente terá um orçamento maior do que o que eles tinham nos anos 60 e também um prazo maior do que uma semana. Mas o tom da narrativa será mais alinhado com o tom dos meus filmes, terá mais o meu senso de humor, será mais radical do que o modo como Gene Roddenberry nos acostumou. É Star Trek com o filtro de Pulp Fiction!

Eu acho que daria o braço direito pra ver isso…
(gargalhadas) Obrigado pelo incentivo, Roberto! Valeu mesmo!

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Brad Pitt: “Eu tive sorte, muita gente boa só teve chance com o streaming!” http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/08/27/brad-pitt-eu-tive-sorte-muita-gente-boa-so-teve-chance-com-o-streaming/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/08/27/brad-pitt-eu-tive-sorte-muita-gente-boa-so-teve-chance-com-o-streaming/#respond Tue, 27 Aug 2019 06:16:57 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10370

Brad Pitt está com ótimo humor. Mesmo encerrando uma maratona global para divulgar Era Uma Vez em Hollywood, o astro encontra disposição para transformar qualquer entrevista contratual em um bate papo informal. Ah, é bom enfatizar a palavra “astro”. No cinemão do novo século, Pitt é um dos poucos artistas capazes de mobilizar plateias em qualquer canto do planeta. Embora as grandes bilheterias não sejam mais uma constante (seu último grande filme foi Guerra Mundial Z, de 2013), ele continua a produzir, a experimentar, a emprestar seu enorme prestígio a produção tão plurais como 12 Anos de Escravidão, A Grande Aposta e a ficção científica Ad Astra, que tem assinatura do grande James Gray e estréia nas próximas semanas. Poucas vezes, porém, ele esteve tão à vontade como no novo filme de Quentin Tarantino, em que ele faz o dublê Cliff Booth e se mostra um grande parceiro em cena para Leonardo DiCaprio. Eu conversei com Brad Pitt no México, um papo que foi além de Era Uma Vez em Hollywood para esbarrar na paixão pelo cinema, no grande momento de mudança que a indústria está experimentando agora e em como Hollywood tem mais Cliff Booths do que Rick Dantons.

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Como A Ascensão Skywalker encerra uma era e aponta o futuro de Star Wars http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/08/27/como-a-ascensao-skywalker-encerra-uma-era-e-aponta-o-futuro-de-star-wars/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/08/27/como-a-ascensao-skywalker-encerra-uma-era-e-aponta-o-futuro-de-star-wars/#respond Tue, 27 Aug 2019 05:52:36 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10362

Rey no Lado Negro da Força. Batalhas épicas. Despedidas emocionantes. A volta do Imperador Palpatine! O diretor J.J. Abrams colocou tudo e a pia da cozinha em seu Star Wars: A Ascensão Skywalker, que encerra a saga mais festejada do cinema. Ou, pelo menos, parte dela. O promo exibido na última edição da D23, convenção de fãs da Disney para festejar a si própria, é parte nostalgia, parte surpresas. É uma lembrança de tudo que fez o planeta transformar um filme modesto lançado em 1977 em fenômeno pop global, uma passagem supersônica nos elementos que construíram seu universo. Um fragmento que sugere como este pedaço de Star Wars está chegando ao fim. Ao mesmo tempo que é um respiro para a saga decolar mais uma vez, em outros formatos, em direção ao futuro. Como não poderia deixar de ser, porém, é também motivo para alguns fãs começarem a reclamar.

Afinal, precisamos ser honestos. Uma parcela significativa, mais velha e mais “tradicional” de Star Wars detesta tudo relacionado ao universo que tenha sido lançado pós-1983. Não importa a lógica de que uma boa história é aquela que surpreende: o que essa turma quer é um revival eterno de Luke, Han e Leia, um loop infinito em que os protagonistas da trilogia original continuam a ser o foco da história. O primeiro “pecado” foi a nova trilogia, dirigida no começo do século pelo próprio George Lucas. Mas A Ameaça Fantasma, Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith não foram concebidos exatamente para agradar a uma horda de entusiastas, e sim para que Lucas contasse o seu dramalhão operístico em torno da ascensão, queda e redenção de Anakin Skywalker, maior esperança do universo, o “escolhido” capaz de trazer equilíbrio à Força, mas que tornou-se o vilão mais festejado da história ao se deixar seduzir pelo “Lado Negro” dessa energia vital como o poderoso Darth Vader. Seis filmes, história redondinha, ponto final.

Será que Rey sucumbiu ao Lado Negro da Força?

Isso é, até a Disney investir um punhado de bilhões para comprar a LucasFilm e toda propriedade intelectual de George Lucas. A saga continuaria, e O Despertar da Força, dirigido por J.J. Abrams, não decepcionou, trazendo de volta Han Solo e Leia Organa, apresentando novos personagens (uma nova trinca, Rey, Finn e Poe) e transformando o recomeço em uma montanha russa cinematográfica, igualmente emocionante, implausível, cafona e espetacular. Os fãs, aqueles mais espumantes, apontaram um trilhão de defeitos – o maior deles sendo um filme diferente do que havia em sua cabeça. Essa pegada continuou quando Rian Johnson assumiu as rédeas em Os Últimos Jedi, que virou ao avesso as convenções do que seria “Star Wars”, recuperou o herói Luke Skywalker e o humanizou, trazendo um guerreiro derrotado, carregado em culpa, hesitante em treinar a jovem Rey nos caminhos da Força e ver, mais uma vez, uma alma pura ser corrompida pelo Lado Negro. O clímax do filme, com Luke projetando um reflexo seu galáxias de distância, é um dos grandes momentos do cinema pop moderno.

A Ascensão Skywalker tem a tarefa de amarrar toda essa narrativa, com J.J. Abrams de volta ao leme e um caminhão de surpresas, levemente sugeridas no novo teaser. A maior delas é Rey empunhando um sabre de luz duplo, vermelho, indicação que ela pode ter escorregado para o abismo. Foi o que bastou para aqueles fãs (isso, os que acreditam ser mais proprietários da saga que os cineastas atrás das câmeras) decretarem o fracasso artístico de um filme que ninguém sequer sabe o argumento. O poder da internet é assustador, e só imagino a dor de cabeça que Lucas e cia. teriam em 1980, quando revelaram o parentesco entre Luke e Vader (“Um absurdo, como pode o vilão ser pai do herói!!!”), e mais ainda em 1983, quando Luke e Leia descobriram ser irmãos gêmeos (“É o fim da picada, Lucas não tem nenhum respeito pela mitologia de Star Wars!!!”). O que é curioso, porque volta ao princípio de qualquer boa história: surpreender. Os novos protagonistas não possuem, por motivos até nostálgicos, o carisma do trio original (liderado pelo trator Harrison Ford), mas é injusto cravar que sua história não experimentou uma evolução narrativa coesa, que aponta para um final inusitado. Eu mesmo quero saber como J.J. vai colocar o Imperador Palpatine na mistura sem entornar o caldo!

O fim da saga da família Skywalker, claro, não é o fim de Star Wars. Na própria D23 alguns novos rumos já foram escancarados. O primeiro é The Mandalorian, série em streaming para a plataforma Disney+, que traz um western na galáxia muito, muito distante, protagonizado por um mercenário com as mesmas origens do favorito dos fãs Bobba Fett (que, convenhamos, nunca fez muitas coisas nos filmes). Com direção de Jon Favreau, a série é ambientada cronologicamente depois de O Retorno de Jedi e lida com um universo caótico logo após da queda do Império. Outro anúncio que esquentou os ânimos foi a série centrada no cavaleiro Jedi Obi-Wan Kenobi, mais uma vez interpretado por Ewan McGregor. Todos os episódios, já escritos e prontos para ser rodados ano que vem, mostram Kenobi em seu exílio em Tatooine, após os acontecimentos trágicos de A Vingança dos Sith, mesma linha cronológica do pouco visto Han Solo – Uma História Star Wars. Curiosamente, McGregor foi recebido com aplausos entusiasmados e uma devoção fervorosa por parte dos fãs…. Mas sua versão de Obi-Wan não é justamente a da nova trilogia, que os fãs (é, aqueles mesmo…) tanto desprezam? Essa turma decididamente é muito estranha…

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Novo Brinquedo Assassino: Alguém pode por favor resgatar o velho Chucky? http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/08/22/novo-brinquedo-assassino-alguem-pode-por-favor-resgatar-o-velho-chucky/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/08/22/novo-brinquedo-assassino-alguem-pode-por-favor-resgatar-o-velho-chucky/#respond Thu, 22 Aug 2019 11:32:48 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10346

Até hoje eu acho espantoso que Chucky, o brinquedo assassino, tenha se tornado um ícone tão poderoso do terror. Ao menos havia no filme original uma lógica interna intrigante: possuído pelo espírito de um serial killer, o boneco tinha o propósito de, eventualmente, voltar a ser humano. Mesmo quando a série passou a rir de si própria depois de A Noiva de Chucky, o elemento humano ao menos enraizava o terror de forma eficiente. O novo Brinquedo Assassino, porém, joga todo esse conceito pela janela. Não existe neste remake dirigido pelo norueguês Lars Klevberg nenhum elemento sobrenatural. O “espírito maligno” que animava Chucky é substituído por um literal “fantasma na máquina”: é sua própria inteligência artificial defeituosa que transforma o boneco em uma máquina de matar. A intenção clara é levantar a bola do medo da tecnologia e da conectividade impessoal que define o mundo hoje. Mas a total falta de lógica, mesmo em um filme sobre uma Lu Patinadora do mal, estraga a experiência.

O gatilho está no prólogo, quando vemos uma linha de montagem no Vietnã com um programados estressado desabilitando todos os protocolos de segurança no boneco que ele está finalizando. Por que cargas d’água um produto infantil teria em seu software itens como “agressividade” e “linguagem vulgar” eu deixo para cada um tirar suas conclusões. O fato é que o brinquedo, da linha Buddi, é enviado aos Estados Unidos e termina nas mãos de Andy (Gabriel Bateman), que mora com sua mãe em um prédio com cara de boca de fumo. Ah, a espetacular Aubrey Plaza convence tanto como uma “mãe” como Denise Richards no papel de cientista nuclear em um James Bond da vida. Buddi é um brinquedo inteligente, capaz de se conectar com todos os produtos de sua fabricante com um wi-fi poderosíssimo – que controla de caixas de som à temperatura local a automóveis inteligentes! Batizado Chucky (Andy o chama de Han Solo mas ele… entende errado), logo o boneco exibe suas tendências homicidas, e o filme mergulha num banho de sangue sempre divertido, mas nunca assustador.

Chucky papeia com Andy, porque trocar uma ideia com seu brinquedo é SUPER normal…

Exigir coerência em filmes como Brinquedo Assassino, que obviamente trafegam no caminho da fantasia, seria bobagem. Mas quando o roteiro trata todos os personagens como uma turba de idiotas, é difícil exercitar qualquer empatia. A comparação com o original é inevitável: ao tirar o elemento sobrenatural, com Chucky determinado a tomar o corpo de Andy em um ritual de magia negra, o novo filme simplesmente perde todo o foco. Aqui, o boneco é mal porque… bom, porque sim. A coisa piora quando Andy e o resto do “núcleo infantil” do filme encaram o fato de um brinquedo praticamente se comportar como uma criatura viva com naturalidade desconcertante: Chucky conversa, caminha, interage e toda decisões como um robô ultra futurista de alguma ficção científica distópica, e a reação dos personagens para isso é zero. Os garotos descobrem que ele é um homicida sádico? Tudo bem, é só jogar no lixo que tá tudo certo (o coletor de lixo do prédio é praticamente um personagem).

Se existe alguém que de fato se diverte com Brinquedo Assassino, é Mark Hamill, que empresta sua voz ao boneco. Luke Skywalker pode ser seu papel mais conhecido, mas foi como o Coringa da série animada do Batman dos anos 90 (e dos games, e em desenhos recentes) que Hamill produziu seu trabalho mais consistente. Existe um eco do Palhaço do Crime aqui, mas o ator salpica a dublagem com um tom infantil que faz de Chucky um personagem mais mais perturbador – e foi uma boa opção não seguir o caminho do “adulto em corpo de brinquedo” imortalizado por Brad Dourif nos filmes originais. Ainda assim, algo se perde no novo Brinquedo Assassino quando a ambientação sobrenatural é substituída por uma ameaça tão palpável quanto a tecnologia. As possibilidades de um Chucky agindo globalmente na Internet são imensas, mas nunca são exploradas. O que resta é um boneco feioso que mata sem motivo. E motivo, em uma narrativa, é tudo! A gente era feliz e não sabia…

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