Roberto Sadovski http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Fri, 17 Jan 2020 18:47:49 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Karen Gillan, de Jumanji: “Gosto de coisas sombrias e levemente esquisitas” http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2020/01/17/karen-gillan-de-jumanji-gosto-de-coisas-sombrias-e-levemente-esquisitas/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2020/01/17/karen-gillan-de-jumanji-gosto-de-coisas-sombrias-e-levemente-esquisitas/#respond Fri, 17 Jan 2020 18:47:49 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=11080

Karen Gillan é um doce. No Brasil para divulgar o divertido Jumanji: Próxima Fase, a atriz encontrou fãs, invadiu de surpresa uma sessão do filme, registrou tudo em suas redes sociais e recebeu a todos com muito bom humor (ah, os britânicos…). Daí ela começa a falar sobre suas sensibilidades e suas influências. Quem conhece Karen Gillan como Nebulosa em Guardiões da Galáxia, como Ruby Roundhouse em Jumanji, e até mesmo por seu trabalho em Dr. Who, nem desconfia que ela é também uma artista completa, que tem no currículo diversos curtas e um longa-metragem como diretora. É aí que transparece o lado, como ela mesma coloca, “mais sombrio e levemente perturbador” de sua personalidade. Karen adora terror, adora personagens esquisitos e mais e mais isso encontra reflexo em seu trabalho – o que é ótimo! Em nosso bate-papo falamos sobre esse seu lado menos conhecido – e também sobre a evolução de Nebulosa nos filmes da Marvel, o (pouco) espaço dado para diretoras no cinemão atual e, claro, sobre Jumanji: Próxima Fase.

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Por que, mesmo com 11 indicações, Coringa não chega ao Oscar como favorito http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2020/01/14/por-que-mesmo-com-11-indicacoes-coringa-nao-chega-ao-oscar-como-favorito/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2020/01/14/por-que-mesmo-com-11-indicacoes-coringa-nao-chega-ao-oscar-como-favorito/#respond Tue, 14 Jan 2020 05:52:34 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=11070

Afinal, adaptações de história em quadrinhos de super-heróis são cinema ou não? Com onze indicações ao Oscar, Coringa insiste que sim. É um paradoxo, aos poucos compreendido pela indústria e estranhamente alimentado pelos fãs. Filmes baseados em gibis de figuras coloridas sempre foram percebidos como algodão doce, como prazer passageiro que não trazia o estofo necessário para que fosse considerado “artisticamente relevante” por seus pares. A primeira adaptação de um herói dos quadrinhos a ser reconhecida pela Academia foi Superman, que ainda nos anos 70 foi lembrado por sua trilha, montagem e som, ganhando uma prêmio especial por seus efeitos visuais. Uma década depois foi a vez de Batman ganhar um Oscar em sua única indicação, a direção de arte neo gótica de Anton Furst. Desde então, um ou outro filme baseado em uma HQ foi lembrado, geralmente em categorias técnicas, uma forma de a Academia mostrar que, sim, eles faziam parte do clube, mas ainda não podiam sentar na mesa dos adultos.

Batman – O Cavaleiro das Trevas ensaiou a mudança mais radical do Oscar contemporâneo quando foi ignorado como melhor filme, mesmo garfando oito indicações e duas estatuetas: uma para melhor edição de som (que honestamente só interessa mesmo a categoria); outra, essa sim notável, para Heath Ledger, escolhido postumamente como melhor ator coadjuvante. Ser preterido na categoria principal foi o fator que fez a Academia ampliar o número de indicados. Até porque quando o filme de Christopher Nolan foi lançado, num já distante 2008, aventuras cinematográficas baseadas em heróis dos quadrinhos já se firmavam como força-motriz do cinema pop, exigindo seu lugar de direito. Foi o mesmo ano que Homem de Ferro iniciou o Universo Cinemagráfico Marvel, que ano passado com Pantera Negra finalmente cravou a primeira indicação de um super-herói dos gibis para melhor filme – entre sete possibilidades, terminou com três Oscar: trilha sonora, figurino e direção de arte. Mas Pantera Negra teve de se erguer para além de seu nicho, firmando-se como fenômeno cultural global para que pudesse ter uma chance.

Pantera Negra foi indicado como melhor filme ano passado

Coringa seguiu a mesma trajetória. Desde seu lançamento, o diretor Todd Phillips foi incansável em seu esforço para disassociar seu trabalho de uma mera adaptação de um personagem de gibis de super-heróis. Em uma das várias entrevistas desde que o filme consagrou-se no Festival de Veneza, o responsável por Se Beber, Não Case chegou a afirmar que a bilheteria de mais de 1 bilhão de dólares em todo o mundo devia-se não a associação do protagonista com um universo mais vasto, ancorado pela figura mítica do Batman, ou mesmo pelo reconhecimento da propriedade intelectual: o público, segundo ele, fora atraído pelo tema percebido no subtexto, pela relação nada sutil da doença mental que aflige o Palhaço do Crime com o deterioramento do tecido da sociedade, pela opressão dos desassistidos com a força de pressão econômica, pelo desiquilíbrio cada vez mais acentuado na balança entre ricos e pobres. Para Phillips, Coringa promoveu uma catarse necessária em um mundo pendendo para o autoritarismo e para a truculência, o que seria o verniz para que o filme se livrasse das limitações do nicho nerd. Uma bobagem. Como eu comentei quando Coringa chegou aos cinemas, filmes baseados em personagens dos quadrinhos parecem estar eternamente em busca de confirmação, de ser reconhecidos como “arte” por seus pares.

Claro que um cineasta vai vender seu peixe da forma que achar melhor. Mas Coringa é mesmo fruto da força da DC Comics, que ao longo de oito décadas nutriu sua propriedade intelectual ao ponto em que a trama pudesse ser contada sem as amarras do realismo, mantendo uma estrutura lúdica que pode escancarar a sujeira da civilização sem precisar apontar os dedos a pessoas ou cidades. Sem Gotham, sem a poderosa família Wayne, sem a iconografia, Todd Phillips contaria uma história igualmente poderosa, mas não teria a metade da atenção que despertou. As (exageradas) onze indicações ao Oscar são o modo de a indústria ganhar duplamente: reconhece o formato e joga um osso para um sub gênero que vem mantendo com consistência o público nos cinemas, ao mesmo tempo em que afaga seus operários e crava um carimbo de “arte” em um filme de gibi. Que é cinema, não importa o que alguns mestres do ofício insistam em propagar. Os fãs, por sua vez, sentem-se vingados, como se o Oscar fosse um selo de garantia a ser exibido ao mundo sempre que alguém torcer o nariz para uma adaptação de uma história em quadrinhos.

Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas, o filme de gibis que mudou o jogo

Um olhar mais amplo, porém, mostra que tudo é um truque. Coringa teve onze indicações ao Oscar, mas não é o favorito. Sua única chance concreta de ser premiado está em Joaquin Phoenix – sua performance é o alicerce de todo o filme e o ator é ídolo entre seus pares. Além disso, a Academia apontou três outros filmes com dez indicações cada, um empate técnico que coloca O Irlandês, 1917 e Era Uma Vez em Hollywood no mesmo patamar do filme da DC. Neste cenário, ainda vejo uma leve vantagem para Tarantino, mesmo que o drama de guerra de Sam Mendes tenha se posicionado como uma força a ser batida, principalmente depois dos excelentes números em sua estreia nos cinemas. As premiações das associações de produtores, diretores e atores, que acontecem nas próximas semanas, pintarão um panorama mais concreto do que esperar da cerimônia do Oscar. Mas a Academia, mesmo com a chance de quebrar os moldes, optou pelo caminho seguro, ignorando o cinema mais ousado dos irmãos Safdie (Jóias Brutas não teve nenhum amor); as diretoras que trouxeram alguns dos melhores filmes de 2019 (Greta Gerwig por Adoráveis Mulheres; Lulu Wang por A Despedida; Lorene Scafaria por As Golpistas; Mati Diop por Atlantics); o poderoso segundo ato de Jordan Peele, que depois de Corra! criou mais uma obra perturbadora e urgente com Nós. Pois é. Em um mundo em que Coringa termina sendo uma aposta confortável, ao menos podemos torcer para que as seis indicações de Parasita não sejam apenas uma forma de simular modernidade. Em um mundo perfeito, o discurso da vitória do melhor filme seria em coreano.

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Não, Coringa não vai ganhar o Oscar (veja quem pode ser indicado amanha!) http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2020/01/12/nao-coringa-nao-vai-ganhar-o-oscar-veja-quem-pode-ser-indicado-amanha/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2020/01/12/nao-coringa-nao-vai-ganhar-o-oscar-veja-quem-pode-ser-indicado-amanha/#respond Sun, 12 Jan 2020 08:42:56 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=11050

Oscar de melhor filme para Coringa? Esquece. O drama dirigido por Todd Phillips ganhou corações apaixonados de uma legião de fãs, mas dificilmente descola a principal estatueta dourada na próxima cerimônia da Academia, que acontece no começo de fevereiro. Pelo andar da carruagem, a turma pode se contentar com um “careca” para Joaquin Phoenix (embora eu também não aposte nisso, por motivos de Adam Driver), outro para a trilha de Hildur Guðnadóttir (nesse sim eu aposto) e só. Do jeito que as peças estão configuradas no tabuleiro das premiações, só dois filmes são apostas certas para passar o rodo geral na festa: Era Uma Vez em Hollywood e Parasita. Ainda assim, o Oscar é bom em descolar uma surpresa de última hora, premiando alguma produção medíocre (Green Book, Shakespeare Apaixonado, O Discurso do Rei) entre filmes verdadeiramente espetaculares. Então, vai saber como as coisas serão este ano.

Mas vamos falar sobre o que importa: matemática. As premiações dos críticos, o eventual reconhecimento em festivais e até o oba oba do Globo de Ouro não servem como parâmetro para o Oscar. Por outro lado, todas as listas e prêmios servem para jogar luz em cima de filmes que talvez não estivessem no radar dos membros da Academia. Até mesmo as indicações para o BAFTA, que tem membros repetindo o voto na Academia, não é o quadro mais preciso. Qualquer filme com a mínima esperança de garfar o Oscar principal precisa ter o aval das guildas, as associações de produtores, diretores e atores que, no frigir dos ovos, determinam historicamente os indicados à estatueta dourada. Este ano, quatro filmes foram reconhecidos por seus pares nas três guildas: Jojo Rabbit, O Irlandês, Era Uma Vez em Hollywood e Parasita. Os outros indicados à Producer´s Guild, por sua vez, não repetiram o aval em outras associações: História de Um Casamento, Adoráveis Mulheres, Ford v Ferrari, Entre Facas e Segredos e Coringa (olha ele aí!) não entraram nas listas dos atores ou dos diretores; 1917 teve Sam Mendes indicado como diretor, mas seu elenco foi deixado de lado.

Jojo Rabbit: esquisito demais, incrível até o osso!

Ampliar os indicados a melhor filme para dez concorrentes foi uma bola fora. Estar na lista seleta dos cinco, como era padrão histórico até a cerimônia de 2009, parecia dar um status especial à produção. Mas foi o ano em que Batman – O Cavaleiro das Trevas, um filme indiscutivelmente pop, ficou fora dos indicados (eu tiraria sem dó o modorrento O Leitor, que só serviu para o Oscar de Kate Winslet). Ainda assim, nem todo ano a lista completa uma dezena – e eu acredito que o mesmo vai acontecer esse ano, com a Academia arredondando seus prediletos para nove. Da lista da PGA, difícil enxergar um filme como Entre Facas e Segredos – excepcional e delicioso, mas pouco “nobre” como mistério de assassinato – em meio à elite. Se fosse para cortar um segundo título, Coringa encontraria meu facão, mas é difícil a essa altura ignorar uma produção de 1 bilhão de dólares que empresta prestígio ao tão vilipendiado subgênero “adaptação de super-herói dos quadrinhos”. E o filme, mesmo com um certo desprezo da crítica, é legal.

Vamos, portanto, concentrar a atenção no quarteto com todas as chances em mãos. Jojo Rabbit é prova do imenso talento de Taika Waititi, mas talvez seja um filme estranho demais para a Academia reconhecer com algo além de uma indicação. O Irlandês é a grande chance da Netflix abraçar o Oscar principal depois de Roma vergonhosamente perder ano passado para um filme tão qualquer nota como Green Book – é evidente que o drama de Alfonso Cuarón não fisgou a estatueta principal devido, na falta de uma palavra melhor, ao ranço com a plataforma de streaming. Será que a obra de Martin Scorsese já conseguiu superar o estigma de “a Netflix não é cinema” que dominou o papo um ano atrás? Mais ainda: será que, com quatro filmes na roda (além de O Irlandês, a empresa quer abraçar a festa com História de Um Casamento, Dois Papas e Meu Nome É Dolemite), a atenção não será pulverizada? Nesse cenário, Parasita viu seu cachê subir à estratosfera não só como o filme mais importante do ano, como também o mais celebrado por seus pares. É o bastante para ele ir além de uma indicação como melhor filme estrangeiro e ser reconhecido em diversas categorias, em especial melhor filme, direção, ator coadjuvante (para o espetacular Song Kang Ho), roteiro, montagem e direção de arte. Mas será que a nova década começa com a Adacemia entregando as chaves do reino para um filme em que seus membros precisam ler as legendas?

Leonardo DiCaprio colocou fogo em Era Uma Vez em Hollywood (e na Amazônia….)

É exatamente por isso que o filme a ser batido este ano ainda é Era Uma Vez em Hollywood. Não houve filme em 2019 tão aplaudido pela indústria quanto a fábula hollywoodiana de Quentin Tarantino. Os atores adoram o filme. Cineastas adoram o filme. A turma que pega no pesado, de eletricistas a carpinteiros a maquiadores e executivos, todos adoram o filme. O público adora o filme, que o transformou em um sucesso global de 370 milhões de dólares. Sem falar que é um filme que fala com o próprio umbigo de Los Angeles, capital ianque do cinema, em que ego é quase requerimento para habitar o mesmo CEP dos astros e estrelas. Tarantino, por sinal, não segurou o seu, basicamente agradecendo a si mesmo em todos os prêmios que recebeu até agora. Pode causar um certo mal estar? Talvez. Mas é Hollywood, onde James Cameron pediu um minuto de silêncio pelas vítimas do Titanic antes de se empolgar como adolescente com um “Eu sou o rei do mundo!”. É como segue o jogo. Amanhã, portanto, as categorias principais do Oscar podem ficam assim. Assim que os indicados forem anunciados, volto aqui para retomar esse papo!

FILME

1917

Adoráveis Mulheres

Coringa

Era Uma Vez em Hollywoos

Ford v Ferrari

História de Um Casamento

O Irlandês

Jojo Rabbit

Parasita

DIRETOR

Bong Joon Ho (Parasita)

Greta Gerwig (Adoráveis Mulheres)

Martin Scorsese (O Irlandês)

Quentin Tarantino (Era Uma Vez em Hollywood)

Sam Mendes (1917)

ATRIZ

Charlize Theron (O Escândalo)

Lupita Nyong’o (Nós)

Renée Zelwegger (Judy)

Saoirse Ronan (Adoráveis Mulheres)

Scarlett Johansson (História de Um Casamento)

ATOR

Adam Driver (História de Um Casamento)

Adam Sandler (Jóias Brutas, eu ainda sou #TeamSandler!)

Antonio Banderas (Dor e Glória)

Joaquin Phoenix (Coringa)

Leonardo DiCaprio (Era Uma Vez em Hollywood)

ROTEIRO ORIGINAL

 

Bong Joon Ho (Parasita)

Noah Baumbach (História de Um Casamento)

Quentin Tarantino (Era Uma Vez em Hollywood)

Rian Johnson (Entre Facas e Segredos)

Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns (1917)

ROTEIRO ADAPTADO

Anthony McCarten (Dois Papas)

Greta Gerwig (Adoráveis Mulheres)

Steve Zaillian (O Irlandês)

Taika Waititi (Jojo Rabbit)

Todd Phillips e Scott Silver (Coringa)

E é isso. Amanhã eu volto para comentar as indicações de fato – e assumir o mea culpa com os prováveis erros no listão acima. MAs, como diria o grande pensador, filósofo e profeta Chico Barney, eu nunca me enganei em um palpite…

 

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Fernando Meirelles: “Dois Papas é sobre o momento em que perdemos a fé” http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2020/01/08/fernando-meirelles-dois-papas-e-sobre-o-momento-em-que-perdemos-a-fe/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2020/01/08/fernando-meirelles-dois-papas-e-sobre-o-momento-em-que-perdemos-a-fe/#respond Wed, 08 Jan 2020 05:25:51 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=11035

Entre as várias cenas incríveis de Dois Papas, que traduz em ficção os encontros entre o papa Bento XVI e o cardeal Jorge Bergoglio, antes de ele se tornar o papa Francisco, está um jogo de futebol.

A seleção argentina em campo, uma batalha contra a poderosa seleção alemã, e dois homens acompanham a partida pela TV, vibrando a cada jogada – ao menos um mais do que outro. É um momento inusitado entre Bento e Bergoglio, em que percebemos que os dois não estão ali representando uma instituição, e sim suas próprias paixões, suas próprias convicções. É nessa interação, que humaniza figuras tão inatingíveis, em que reside o charme de Dois Papas – e que fica explícita a direção elegante e delicada de Fernando Meirelles.

Afastado dos cinemas desde o drama 360, lançado em 2011, o responsável por pérolas como Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel interrompeu as “férias” da tela grande, curiosamente em um projeto bancado pela Netflix, que mudou irreversivelmente o mercado audiovisual mundial. É sobre essa mudança, e também sobre fé, sobre humor, sobre família e sobre o futuro que eu conversei com Meirelles, no papo que você acompanha agora!

Seu último trabalho no cinema foi 360, de 2011. Quanto desse intervalo foi dedicado a Dois Papas?
Dois Papas foi pá e bumba! (risos) O produtor desse filme (Dan Lin) é um chinês-americano que mora em Los Angeles, muito católico, muito envolvido com projetos sociais, então em 2015 ele me ligou para saber se eu queria fazer um filme sobre o papa, porque ele gostava do papa, e eu também sou fã. Eu topei, mas em seguida entrei na preparação da abertura dos Jogos Olímpicos. Fiquei meio 2015 e 2016 inteiro envolvido com a cerimônia. Passaram os jogos, depois ele encontrou uma peça de teatro que ele gostou, pediu para o próprio autor adaptar para o cinema e ficou esperando. Eu encerrei o trabalho com a Olimpíada em setembro, ele me mandou o roteiro por outubro e novembro, em dezembro eu topei. Passamos três meses visitando locações, ida e volta entre Itália e Argentina. Em setembro de 2017 a gente estava filmando. Foi rapidinho!

Você é católico?
Sou católico oficialmente mas não vou à igreja, eu ia até os 8, 9 anos. Depois que meus pais pararam de ir, eu também parei…. Eu vou em casamentos (risos), em missa de funeral, mas não frequento.

Anthony Hopkins e Jonathan Pryce em umas conversas ao pé do ouvido…

Quando você leu o roteiro, o que mais chamou a sua atenção? Foi a interação dos dois protagonistas, foi esse peso político que permeia a vida dos dois, o que você leu e pensou que precisava ser contado?
A atração principal foi o papa Francisco. Acho que esse papa é uma das vozes mais importantes no mundo hoje, ele entende o mundo como uma coisa só, um planeta em que uns são dependentes dos outros. Não olha como nação, esse nacionalismo horroroso e equivocado, e ele é um dos poucos caras que tenta enxergar o mundo assim. Já fui com essa vontade e o roteiro era espetacular. Ele tem um nível de entendimento que funciona muito bem. São dois caras de idade que discordam em tudo, mas eles fazem parte de uma instituição e precisam ter um entendimento, aquilo precisa andar. Eles precisam buscar alguma afinidade. E isso é uma questão muito atual, você odiar um cara da sua família que votou em que você não votou… É uma abordagem que todo mundo entende. A questão política traz a agenda do papa, aquele discurso contra o sistema econômico, que eu acho um discurso muito pertinente, essa ideia de construir pontes e não erguer muros. Imigrantes fazem parte da realidade de todo país, tem de ser incluídos, não adianta fazer um muro. E tem uma camada espiritual também, claro, com um papa e um cardeal conversando. Mas que não é algo específico da igreja católica, acho que fala com qualquer pessoa que tem qualquer religiosidade, que é a ideia de perder a conexão com o divino, de questionar a fé. Existe um poema de João da Cruz que o Bento XVI, o Anthony Hopkins, cita no filme, “A Noite Escura da Alma”, que fala justamente sobre isso: toda pessoa que tem fé passa por um momento na vida em que perde essa conexão. E é desesperador, acreditar em algo mas não sentir mais essa ligação. Ter de atravessar um deserto para reencontrar. O filme no fundo é sobre a noite escura da alma do Bergoglio. Inclusive tem uma cena em que ele caminha numa bruma, não vê o horizonte, que é exatamente esse momento.

Você trouxe uma leveza para contar Dois Papas que humaniza os protagonistas, que não são mais vistos como figuras inalcançáveis. O roteiro original já trazia esse senso de humor ou foi algo que você trouxe quando entrou no projeto?
O texto tinha uma ou outra situação cômica, mas eu forcei bastante a barra, cara. Eu lembro quando assisti A Rainha, do Stephen Frears, e aquilo de assistir a rainha como uma pessoa normal, que vai ao banheiro, que pega o carro e dirige, aquela galocha, era o charme do filme. Daí eu li o roteiro e era o diálogo de um cardeal com o papa, duas instituições. Se eu tivesse feito um filme sobre duas autoridades falando não funcionaria. Então fui buscar as pessoas atrás de tudo aquilo. Talvez tenha sido minha única direção para os dois atores. Eu disse que não tinha interesse na formalidade, tinha de ser sempre pessoal. São dois homens conversando! Lembro uma cena em que eu pedi para o Tony Hopkins tirar aquele bonezinho, e ele adorou a ideia! Não é o papa falando, é uma pessoa falando. Quando a gente tira os adornos parecia um senhorzinho em uma casa de repouso, pensando. Isso que é legal!

Fernando Meirelles dirige Jonathan Pryce em Dois Papas

Os dois já estavam atrelados ao projeto? Como foi o processo de escolher Jonathan Pryce e Anthony Hopkins?
O filme era muito mais sobre o Francisco do que sobre o Bento XVI. No processo o Bento ganhou mais protagonista, mas tinha muito mais do passado do Francisco no roteiro, a gente foi cortando e equilibrando mais o jogo. Como era um filme sobre o Francisco, a primeira coisa que eu fiz foi entrar no Google e buscar imagens dele, sentir como era seu jeitão para pensar em um ator que tivesse aquela presença física. Só que quando eu dei um Google apareceram várias montagens dele com o Jonathan Pryce, muitas fotos dele em Game of Thrones, fazendo uma piada com os dois. Eu já pensei que tinha a ver, conhecia seu trabalho, vi outros filmes dele e achei uma entrevista longa no YouTube. Daí percebi que ele tem um certo senso de humor, faz piadas auto depreciativas, tem uma leveza que parecia o espírito do papa, não é alguém arrogante, é alguém com quem a gente quer conversar. Arrisquei, mandamos o roteiro e ele topou no ato. A Netflix também precisava de um nome grande, é um filme caro, e eu tinha uma lista para o Bento. Já tinha trabalhado com o Anthony Hopkins, e pensei que se ele topasse seria o melhor do mundo. E ele topou.

Você mencionou a Netflix, e é curioso que a gente sempre diz que hoje existem os filmes pequenos, independentes, e os grandes espetáculos cinematográficos que precisam ser caros para demandar o tipo de atenção que o público talvez exija. O filme que segue um caminho intermediário parece diminuir, e a Netflix tem investido muito justamente nesse filme. Você acha que o futuro do audiovisual passa por essa parceria com cinema, streaming, TV? Filme tem de ser no cinema ou a Netflix acabou com isso?
Já estamos em um outro momento, já mudou! Esse formato na verdade não exclui o cinema. Antes de ser lançado na plataforma Dois Papas passou por 37 festivais de cinema, nenhum filme meu fez tanto festival! Já ganhamos vários prêmios antes mesmo de chegar ao streaming. Também entrou em cartaz no Brasil antes da plataforma, e não deve sair de cartaz enquanto estiver trazendo público ao cinema. Uma coisa não exclui a outra. Roma, acredite, ainda está em cartaz em quize, vinte salas ao redor do mundo. Em julho, mesmo disponível na Netflix já por oito meses, Roma ainda estava em cartaz em setenta salas de cinema.

O Danny DeVito me disse em fevereiro que essa era uma não-polêmica, porque o importante é o filme estar disponível para o público, e o bacana é existir a escolha.
Exatamente, é uma não-polêmica! A Netflix aumentou muito a plateia. No Brasil, o público potencial de cinema são 2, 3 milhões de pessoas. Essa é a fatia que tem o hábito de ir ao cinema. Já o número de pessoas que assistem a Netflix chega a 50 milhões!. O público potencial é muito maior. Um filme de nicho no cinema tem público potencial de 200 mil pessoas. Na plataforma é 20 milhões, então dá para investir mais, porque o nicho é enorme e é global.

Três homens e uma partida de futebol!

Mas ainda precisamos chegar ao meio de campo entre o exibidor e a Netflix, já que em muitos países a relação azedou totalmente. Como você vê essa discussão?
Acho que essa discussão logo vai ficar para trás, porque não tem jeito! É um movimento irrefreável. Por exemplo, eu não gostaria de fazer um filme que fosse direto para a plataforma. Quando conversaram comigo, Dois Papas ia entrar nos cinemas e na Netflix juntos. Não era muito legal, mas eu topei. Só que o sucesso de Roma mostrou que ter uma janela maior entre o cinema e o streaming era um bom esquema. Ainda é o segundo ano, eles estão testando com O Irlandês, História de Um Casamento e Dois Papas.

A Olimpíada já ficou no passado, Dois Papas está no mundo. Seu plano é voltar ao cinema com força total?
Confesso que eu não ia. Mas esse processo foi tão legal que eu já peguei um outro filme! (risos) Eu parei um pouquinho de fazer filmes porque eu escolhi fazer séries no Brasil, principalmente por causa de família, neto pequeno e tal. Agora… bom, os netos ainda estão pequenos (risos), mas era também uma opção. Ficar viajando pelo mundo não é fácil, esse mesmo a gente rodou na Argentina, na Itália e finalizamos em Londres. É duro não ter uma vida cotidiana. Mas agora já estou assinando outro projeto com a Netflix, também pra rodar em setembro, vou tocar mais um.

Depois de O Jardineiro Fiel, eu lembro que você comentou que haviam te chamado para fazer um James Bond. Ainda tem vontade de abraçar algo com essa escala?
Bom, o projeto que me chamaram nunca aconteceu. Era o “jovem James Bond”, era sua história bem antes de ele se tornar James Bond. O que o levou a se tornar 007. Era um conceito bem legal!

Agora que Sem Tempo Para Morrer vai encerrar a era de Daniel Craig na série, podia ser a chance de retomar o projeto. Você arriscaria?
A história era muito boa! Mas é algo muito grande. O diretor de arte de Dois Papas, o Mark Tildesley, que também trabalhou comigo em O Jardineiro Fiel, é meu amigo de passar o Natal juntos, ele adora o Brasil. A gente estava terminando as filmagens em Roma e ele saiu para trabalhar nesse novo Bond, Sem Tempo Para Morrer. Eu encontrei com ele em Londres em outubro e perguntei “E aí, acabou o filme?”. Ele suspirou, deu de ombros e disse, “Nada, ainda filmamos mais um mês”. Ele não suporta mais, disse que é infernal, a máquina é muito grande.

O que eu gosto de Dois Papas é justamente que você faz uma história de escopo enorme parecer intimista.
Pois é, mas a gente construiu a Capela Sistina! Tudo que você vê na Praça São Pedro, que parece aquela coisa de documentário, é tudo green screeen, é tudo CGI, tudo efeito especial! Aquelas ceninhas que parecem ter custado 200 reais a diária na verdade custaram milhões! Não deixaram a gente filmar lá! Eu até brinquei, Dois Papas é como gastar 40 milhões de dólares e parecer que gastamos 2 milhões. (risos) Meu esforço é fazer esse monte de dinheiro parecer barato!

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Vitória de 1917 no Globo de Ouro deixa disputa pelo Oscar… imprevisível! http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2020/01/06/vitoria-de-1917-no-globo-de-ouro-deixa-disputa-pelo-oscar-imprevisivel/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2020/01/06/vitoria-de-1917-no-globo-de-ouro-deixa-disputa-pelo-oscar-imprevisivel/#respond Mon, 06 Jan 2020 17:23:56 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=11020

Por essa ninguém esperava. Nem o diretor Sam Mendes, que subiu ao palco do Globo de Ouro para receber o troféu como melhor diretor, e depois como melhor filme para seu 1917. O filme, que estreou em poucas salas nos EUA no dia do Natal, mas terá seu circuito ampliado essa semana (por aqui a data é 23 de janeiro), não estava em nenhum radar como favorito ao prêmio e, de repente, saltou para o banco da frente como um dos favoritos para abocanhar um Oscar na cerimônia que acontece em 9 de fevereiro.

Não que o Globo de Ouro sirva como termômetro para os prêmios da Academia: a premiação concedida pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (ou HFPA) conta com pouco mais de 90 votantes e é inexpressiva como parâmetro. Mas a festa tem força na mídia, e no mínimo serve para jogar luz em filmes que talvez membros da Academia não estivessem prestando tanta atenção. Com os prêmios dos sindicatos sendo entregues nas próximas semanas será possível dimensionar o tamanho do impacto que a vitória de 1917 no Globo de Ouro pode ter causado.

Trailer de 1917

A verdade é que a consagração deste filme ambientado nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial bagunça ainda mais o coreto de um Oscar que já se aproximava sem um favorito isolado. Até então, Era Uma Vez… em Hollywood, de Quentin Tarantino, seria o único filme com indicações, vá lá, garantidas – suas três vitórias no Globo de Ouro (melhor filme musical/comédia, roteiro e ator coadjuvamnet para Brad Pitt) mostram o carinho generalizado pela declaração de amor ao cinema do diretor de Kill Bill e Bastardos Inglórios.

Nas últimas semanas, o coreano Parasita, disparado o melhor filme de 2019, pareceu crescer em importância, com o diretor Bong Joon-Ho e seu elenco cortejados pela realeza hollywoodiana em eventos disputados em Los Angeles. A essa altura eu não duvido que o filme consiga ir além de uma indicação como melhor filme estrangeiro, surgindo em outras categorias (direção, fotografia, direção de arte, roteiro e até como melhor filme) e ressaltando o compromisso velado do cinemão com a diversidade – mesmo que consagrar um filme rodado longe das asas de Hollywood ainda seja uma ousadia inédita da Academia.

O diretor Sam Mendes trabalhando duro no set de 1917

1917, por sinal, traz todos os predicados de um filme que merece ser coberto de prêmios. É um drama de guerra não menos que espetacular, que alia uma produção tecnicamente perfeita com uma narrativa de emoção genuína, em que o drama humano jamais fica em segundo plano para a pirotecnia. A câmera de Mendes acompanha, no que parece ser uma única tomada de quase duas horas, dois soldados (interpretados por George MacKay e Dean-Charles Chapman) em uma missão em território ocupado. Eles precisam fazer chegar em um batalhão ordens para suspender um ataque programado para a manhã seguinte – a inteligência militar descobriu se tratar de uma armadilha, e a ação pode custar a vida de 1600 homens, inclusive a do irmão de um dos soldados.

A premissa simples foi executada com precisão cirúrgica que definitivamente precisa ser vista na maior tela com o melhor som. O trabalho do fotógrafo Roger Deakins é primoroso, com suas lentes acompanhando seus protagonistas sem cortes – a ilusão do plano sequência impressiona, mas o malabarismo técnico não surge como firula visual, e sim como parte integrante de uma narrativa sufocante que pretende simular a urgência e a tensão de estar no campo de batalha. O resultado é emocionalmente exaustivo e absolutamente espetacular.

As próximas semanas serão decisivas para determinar o peso de 1917 na cerimônia do Oscar. Indicações técnicas são uma certeza, mas o reconhecimento de George MacKay entre os atores, maior corpo votante da Academia, apontaria um caminho mais preciso rumo à consagração como melhor filme. O que seria curioso, já que este drama de Sam Mendes (que, vale lembrar, foi premiado em sua estreia na direção com Beleza Americana) é cinemão tradicional, que defende unicamente a bandeira do bom cinema – o que pode melindrar uma fatia considerável entre os votantes que enxerga, não sem razão, o Oscar como plataforma global para a inclusão.

É uma faca que corta para os dois lados, já que esse pensamento gerou ano passado uma vitória estranha para o opaco Green Book, um filme “seguro” e tradicional, ainda que disfarçado com um discurso (pobre) sobre tolerância racial. Nem em um ilhão de anos o filme de Peter Farrelly seria superior aos preteridos Infiltrado na Klan, A Favorita ou Roma.

O Irlandês é a Netflix que ainda não decolou nas premiações mais consagradas

Por falar em Roma, a Netflix ainda não conseguiu sentar à mesa dos adultos nas premiações de cinema. Na cerimônia do Globo de Ouro, a plataforma de streaming chegou com os dois pés na porta, representada por filmes de peso como O Irlandês, História de Um Casamento, Dois Papas e Meu Nome É Dolemite. Com 34 indicações, foi para casa com dois troféus – Laura Dern como atriz coadjuvante por História de Um Casamento e Olivia Colman como atriz em série dramática por The Crown.

Embora ainda seja cedo para declarar uma derrota, o fato é que o entusiasmo pelos filmes do estúdio (já dá para chamar de estúdio, certo?) ainda não atingiu a consagração artística que a Netflix parece tanto almejar depois de seu evidente sucesso comercial. Até algumas semanas atrás eu daria como certo o favoritismo de O Irlandês, especialmente em uma temporada que não gerou nenhum outro filme que aliou com tamanho burburinho com talento inequívoco.

Vale lembrar também que o drama com Adam Sandler, Joias Brutas, totalmente ignorado pelo Globo de Ouro, tem feito boa carreira no circuito independente americano e chega por aqui (e, acredito, também para o resto do mundo) via Netflix ao fim de janeiro. A votação para definir os indicados ao Oscar termina amanhã, com seu anúncio marcado para o dia 13. Com a vitória no Globo de Ouro de 1917 (e, vá lá, de Era Uma Vez em Hollywood), alguém arrisca um palpite?

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Os 20 melhores filmes da década! http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2020/01/02/os-20-melhores-filmes-da-decada/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2020/01/02/os-20-melhores-filmes-da-decada/#respond Thu, 02 Jan 2020 11:21:58 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10995

Que década, meus amigos, que década! Os últimos de anos viram surgir novos talentos, testemunharam a evolução da tecnologia e também a forma de ver, fazer e vender cinema. Grandes mestres criaram novas obras-primas, o conceito de astro tornou-se fluido (quem ainda vai ao cinema para ver o trabalho específico de um ator ou atriz?) e os filmes evoluíram, para o bem ou para o mal, em grandes espetáculos midiáticos, em universos compartilhados, em eventos que fizeram parte do zeitgeist. Foi curioso, vale ressaltar, observar como a morte do “filme médio”, entre o filme independente e o cinema blockbuster, foi anunciada precocemente. Fechar nos vinte títulos abaixo não foi tarefa fácil, uma mistura de impacto emocional pessoal com obras que realmente deixaram sua marca na história, influenciando a indústria de maneira irrefreável. Ah, e foram dez anos sem um novo filme de James Cameron! Mas isso está prestes a mudar…

20. SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO
(Scott Pilgrim vs. The World, Edgar Wright, 2010)

“Somos o Sex Bob-Omb e a gente tá aqui pra fazer vocês pensarem sobre a morte e ficarem tristes e tal!”

Depois de dois filmaços feitos em casa, o britânico Edgar Wright foi entender como funcionava o jogo em Hollywood e assumiu a adaptaçao da série de quadrinhos independente de Bryan Lee O’Malley. O resultado é um filme que transborda estilo e substância, uma aventura pop emoldurada com rock and roll, videogames e superpoderes. Scott Pilgrim (Michael Cera) apaixona-se por Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead) e precisa derrotar seus sete ex-namorados malignos para conquistar seu coração. É um filme agridoce e um desfile dos talentos que dominariam os anos seguintes (Chris Evans, Anna Kendrick, Aubrey Plaza, Brie Larson), empacotado numa aventura acelerada e deliciosamente irreal. Tão à frente de seu tempo que o público não entendeu nada e o filme naufragou nas bilheterias. Mas foi o bastante para Edgar decidir não entrar no jogo dos blockbusters e fazer suas próprias regras no cinemão. Cinema autoral legítimo, pop ao cubo e que merece ser redescoberto.

19. DRIVE
(Nicolas Winding Refn, 2011)

“Existem centenas de milhares de ruas nesta cidade. Você não precisa conhecer a rota. É só me dizer quando e onde, e eu te dou uma janela de cinco minutos.”

Nicolas Winding Refn criou um híbrido curioso. Drive é um filme de ação ultraviolento, lapidado cuidadosamente para ser exibido em “cinemas de arte”, longe do circuito comercial. Assim como qualquer Velozes & Furiosos, a aventura com Ryan Gosling habita um universo hiperrealista, habitado por gângsters violentos, mulheres deslumbrantes e um anti-herói que é a materialização do cool. A grande jogada de Refn não é fugir dos clichês, e sim abraçá-los e subvertê-los, resultando em um filme estranhamente familiar, ainda que absolutamente original. Gosling é o protagonista sem nome, um dublê e mecânico primoroso que ganha uns trocados pilotando carros de fuga para assaltantes nervosos. Mas sua rotina precisa é quebrada quando ele decide ajudar sua vizinha, mãe solteira cujo marido está na prisão. A trilha sonora e a violência extrema resultam em um filme estilizado e envolvente, uma aventura de ação nada convencional que promoveu o encontro de dois mundos cinematográficos de maneira brilhante.

18. MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO
(Bridesmaids, Paul Feig, 2011)

“Me ajuda, eu sou pobre.”

Por anos, Kristen Wigg esteve no banco de trás em uma pá de filmes bacanas, sempre como coadjuvante para ajudar os colegas a brilhar. Apesar do talento cômico superlativo, testemunhado por anos na labuta do Saturday Night Live, a chance de saltar para o time principal simplesmente não vinha. Missão Madrinha de Casamento foi a forma que ela encontrou de quebrar a barreira: ao lado da colega Annie Mumolo, Wigg escreveu o roteiro e reservou para si mesma o papel da protagonista. Quando sua melhor amiga (Maya Rudolph) anuncia seu casamento, Annie (a própria Kristen) é escolhida como uma das madrinhas e entra em guerra velada com Helen, rica e perfeitinha, que parece eclipsar tudo que ela faz. É quase uma metáfora da carreira da atriz, dando aqui um salto estratosférico ao entregar a direção ao amigo Paul Feig. O filme foi um estouro, e praticamente todas as comédias que se seguiram tentaram emular a “fórmula” de Bridesmaids. Sem falar que, além de Wigg e Rudolph, o filme revelou Melissa McCarthy, Rebel Wilson e Ellie Kemper. Ah, e aqueles diálogos…

17. OPERAÇÃO INVASÃO
(The Raid: Redemption, Gareth Evans, 2011)

“Nosso alvo é Tama Riyadi. Este homem se tornou uma lenda no submundo. Nossa missão é simples. Entramos e o eliminamos!”

Tudo em Operação Invasão é orquestrado para o diretor Gareth Evans e sua equipe de dublês bolares as coreografias de artes marciais mais insanas e espetaculares do cinema moderno. Assim como Matrix em 1999, este The Raid (e sua continuação, lançada em 2014) marcou uma nova forma de encarar cenas de luta como parte integrante da narrativa, e não só como perfumaria. Para isso, a trama é de uma simplicidade brilhante: em Jacarta, uma equipe da S.W.A.T. Fica presa em um edifício comandado por um gângster e seu exército de capangas. Cada andar é como uma fase de um videogame, com a sequência seguinte superando os riscos, as ideias e a ameaça, culminando em um combate até a morte no quase literal topo do mundo. Do lado de cá das câmeras, outro exército, o de dublês, trabalhou incessantemente para criar um visual único, absurdamente violento, e totalmente original. E ninguém sofreu mais do que o astro Iko Uwais, que no mundo real sairia de lá direto para o hospital ou o necrotério. Tudo pela arte!

16. GRAVIDADE
(Gravity, Alfonso Cuarón, 2013)

“Você está perdendo altitude rápido, Tiangong. Se continuar assim vai beijar a atmosfera. Mas não sem mim, porque você é minha última carona.”

Alfonso Cuarón tem o dom de transformar arte em espetáculo, de fazer um filme sobre isolamente e solidão embalado como uma ficção científica milionária. Gravidade não só é de tirar o fôlego, como também se mostrou o parque de diversões perfeito para o diretor mexicano descobrir quais os limites da tecnologia cinematográfica e, com ousadia e coragem, ir além. A trama aqui é tão simples quanto genial: após um acidente em órbita, uma astronauta literalmente perdida no espaço precisa dar um jeito de voltar para a Terra. E é isso. Gravidade é um one-woman show de Sandra Bullock, que vai só desespero à esperança e de volta ao pânico em segundos, marcando a jornada de sua Ryan Stone na vastidão da órbita terrestre, buscando o caminho de casa. Em uma hora e meia, Bullock é submetida a mais provações em que qualquer humano normal perderia o chão, em uma aventura de tensão sufocante e beleza estonteante. Porque Cuarón não se contenta em criar soluções visuais tão realistas quanto espetaculares, misturando um caldeirão de tecnologias digitais para criar sua odisséia espacial. Mas isso é a perfumaria: a conexão humana com Ryan Stone, e seu renascimento épico, é o que realmente faz valer a viagem.

15. WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO
(Whiplash, Damien Chazelle, 2014)

“Não existe duas palavras mais prejudiciais na língua inglesa do que ‘bom trabalho’.”

Onde estava Damien Chazelle antes de Whiplash? Ah, não importa. Sua carreira disparou quando o roteirista e diretor criou essa pequena obra prima sobre obsessão e intensidade, um filme que coloca dois pólos tão distintos funcionando na mesma frequência sob a influência da mesma musa: a música. É ela que une Andrew (Miles Teller), que começa a estudar em um conservatório de prestígio em Nova York, e seu professor, Fletcher (J.K. Simmons), tão severo quanto intimidante, buscando (como já implica o subtítulo nacional) a perfeição em seus pupilos. Música é algo complexo, jazz é o Santo Graal dos músicos, e mesmo que Fletcher enxergue em Andrew a fagulha da genialidade, o filme mostra que pressão demais pode quebrar um talento nato – mas se esse talento for real, não há pressão que o quebre! Chazelle (que se firmou posteriormente com La La Land e com O Primeiro Homem)se enxerga em seus dois protagonistas: o jovem em busca de seu espaço na arte e o instrutor que não vai hesitar ante nenhum obstáculo para que esse potencial seja atingido. O resultado é exasperante, intenso e profundo, inclusive com as performances brilhantes de Teller e Simmons. E aquele final? Com “Caravan”? Sublime!

14. OS VINGADORES
(The Avengers, Joss Whedon, 2012)

“Você não entendeu! Não há trono, não nenhuma versão disso em que você saia vitorioso. Talvez seu exército venha e talvez não possamos detê-lo, Se não pudermos proteger a Terra, pode ter certeza que vamos vingá-la”

Até o lançamento de Os Vingadores, o Universo Cinematográfico Marvel (ou MCU) era uma ideia, um tiro no escuro cozinhado lentamente pelo produtor Kevin Feige. Claro, Homem de Ferro ressuscitou a carreira de Robert Downey Jr. em 2008. Thor e Capitão América: O Primeiro Vingador, ambos de 2011, foram sucessos modestos que indicavam um caminho, não uma certeza. Os Vingadores mudou todo o jogo. Não só para a Marvel, mas também para a indústria. Juntar personagens de filmes diferentes em uma única aventura em larga escala não era uma estratégia popular, mas Feige, ao lado do diretor Joss Whedon, peitou o desafio – e nada foi o mesmo. O filme que coloca os heróis mais poderosos da Terra (o trio já citado, além da Viúva Negra, Gavião Arqueiro e Hulk) contra o deus Loki e um exército alienígena invadindo Nova York parecia um gibizão materializado em filme, uma aventura com a mistura perfeita de ação e humor, de drama e ficção científica. Por fim, foi a interação dos personagens, que surgiam como pessoas de verdade, com falhas e dúvidas, que trouxe a conexão com a plateia – e deu origem a outros grandes filmes do estúdio, de Guardiões da Galáxia a Capitão América: O Soldado Invernal, de Doutor Estranho a Thor: Ragnarok, culminando na dobradinha Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato. Filmes baseados em HQs há muito deixaram de ser anomalias para se tornar o próprio tecido do cinemão hollywoodiano. Para o bem e para o mal, tudo começou aqui.

13. ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD
(Once Upon a Time in Hollywood, Quentin Tarantino, 2019)

“Qualquer um que matar alguém por acidente em uma briga vai preso. O nome disso é homicídio.”

Quentin Tarantino alardeou nos últimos anos que logo encerraria sua carreira. Se Era Uma Vez em Hollywood fosse seu trabalho derradeiro, seria uma despedida perfeita. Ao mesmo tempo uma carta de amor e uma celebração à Los Angeles e ao cinemão americano, o filme que coloca Leonardo DiCaprio e Brad Pitt como dois avatares de uma Hollywood prestes a experimentar uma mudança profunda – um à frente das câmeras, outro contente em existir nos bastidores – é uma fábula justamente sobre o poder transformador do cinema, sua capacidade em reescrever a realidade, seu poder para nos transportar a um lugar idílico, às vezes imperfeito, sempre irresistível. Usar Sharon Tate como a cola que conecta o real e o lúdico é a cereja neste bolo de referências pinceladas da própria criação de Tarantino em LA, a realidade (re)vista pelos olhos de quem construiu não só uma carreira, mas também uma vida, dedicada à paixão pela arte. E Margot Robbie como Sharon Tate, no cinema assistindo a um filme com Sharon Tate, é um daqueles momentos que só o cinema pode criar.

12. DE VOLTA AO JOGO
(John Wick, Chad Stahelski, 2014)

“John não era exatamente o bicho-papão. Ele era quem a gente mandava pra matar a porra do bicho-papão.”

A sinopse de De Volta ao Jogo é perfeita em sua simplicidade. Maior assassino do mundo se aposenta ao se apaixonar. Ela morre, ele fica com um cachorro, mas gângsters invadem sua casa, arrebentam sua cara, roubam seu carro e matam seu cachorro. Tudo que lhe resta é fazer o que faz melhor. Ponto. Fórmula para filme de ação genérico, certo? Mas algo nessa produção com Keanu Reeves à frente se recusou a entrar na vala comum dos Busca Implacável e O Protetor da vida. Talvez seja a direção de Chad Stahelski (dividindo o trabalho com um não creditado David Leitch), que usou seu background como um dos grandes coordenadores de dublês do cinema para criar cenas que, se por vezes desafiam a física e a biologia, reescrevem as regras da ação. Talvez seja a atitude iconoclasta com o gênero, repaginado com sensibilidade do novo século. Talvez seja o próprio Keanu Reeves, que ainda resiste em ser colocado em uma caixa e continua se reinventando. E talvez, ora, porque John Wick é um personagem incrível que a gente nem sabia que precisava!

11. A CHEGADA
(Arrival, Denis Villeneuve, 2016)

“Se você pudesse ver sua vida inteira do começo ao fim, você mudaria alguma coisa?”

Desde que foi revelado ao mundo com o drama Incêndios, o diretor franco-canadense Denis Villeneuve mostrou-se um artista de grandes ideia com um canvas cada vez mais amplo. Seus três filmes seguintes – Os Suspeitos, O Homem Duplicado e Sicario – exploraram a transformação do homem comum quando exposto à obsessão e violência. Mas nada antecipava a poesia elegante de sua primeira ficção científica. A Chegada amplifica os temas recorrentes em sua carreira, mas também oferece um alento, materializado na figura da cientista Louise Banks (Amy Adams), convocada pelos militares para tentar se comunicar com uma espécie alienígena que chega à Terra em doze espaçonaves colossais que aparecem em diferentes pontos do mundo. A metáfora não é sutil – o filme é sobre a dificuldade do homem se comunicar, e como essa Babel moderna pode levar à guerra e ao caos. Villeneuve, porém, conduz o texto com delicadeza, ancorando a performance de Amy Adams com emoção genuína e mostrando que, mesmo com conceitos fantásticos e com um gênero tão complexo e permissivo como a ficção científica, seu olhar sempre estará fixo na condição humana.

10. HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO
(Spider-Man Into the Spiderverse, Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, 2018)

“Miles, o mais dificil nesse trabalho é que você nem sempre consegue salvar todo mundo.”

Disney, Pixar, Illumination, DreamWorks. O mundo da animação digital no cinema é plural, mas enquanto filmes como Frozen, Meu Malvado Favorito e Os Incríveis parecem avançar em seu hiperrealismo, seu formato parece confinado a este mesmo simulacro. Os realizadores de Homem-Aranha no Aranhaverso, em especial os produtores Phil Lord e Chris Miller, enxergaram na tecnologia uma caixa de brinquedos mais ampla, em que narrativa, formato e experimentalismo convivem em harmonia. Deu liga. Não existe nada visualmente tão impactante como essa aventura do herói da Marvel: colorida, salpicada de detalhes gráficos deslumbrantes, pervertendo regras do que “não pode” ser usado em animação. Ao que parece a palavra “não” foi riscada do dicionário da turma. A trama também é um deleite, acompanhando Miles Morales, adolescente que, ao ser picado por uma aranha geneticamente modificada, ganha poderes fantásticos – e descobre realidade paralelas espelhadas em dezenas de mundos, cada um com seu próprio Homem-Aranha. Quando estes mundos entram em rota de colisão, ele precisa descobrir que (você já sabe) grandes poderes trazem grandes responsabilidades!

9. INSIDE LLEWYN DAVIS – BALADA DE UM HOMEM COMUM
(Inside Llewyn Davis, Joel e Ethan Coen, 2013)

“Se nunca foi nova, e não parece envelhecer, então é uma canção folk.”

Os irmãos Joel e Ethan Coen gostam de pessoas quebradas. Em sua brilhante filmografia encontramos, em tragédias e em comédias, homens e mulheres em constante conflito com as barreiras erguidas pela vida. Inside Llewyn Davis não foge do tema, mas o faz com uma combinação brilhante de música e melancolia. Oscar Isaac é um cantor folk tentando se estabelecer como músico na cena de Greenwich Village em 1961. Se ele fosse um amigo, seria prudente chamar no canto e dizer para ele parar de se sabotar: as agruras que impedem seu crescimento profissional e pessoal invariavelmente partem dele mesmo. O filme acompanha uma semana em sua vida, violão em punho, frustração crescente, ambição fracassada, futuro incerto – e um gato amarelo marcando cada momento! Inside Llewyn Davis é estranho e envolvente…. Parece incomodar, mas, quando termina, sentimos uma vontade imensa de retornar a seu mundo que, como os bares esfumaçados, é gelado no inverno do lado de fora e aconchegante por dentro.

8. O LOBO DE WALL STREET
(The Wolf of Wall Street, Martin Scorsese, 2013)

“Deixa eu te falar uma coisa. Não existe nenhuma nobreza na pobreza. Eu já fui pobre, e eu já fui rico. E eu sempre escolho ser rico.”

Os anos 2010 trouxeram Martin Scorsese, um dos últimos grandes gênios do cinema, disposto a ampliar ainda mais seu já vasto repertório. As Aventuras de Hugo Cabret foi o modo com que ele se divertiu com a tecnologia 3D, ao mesmo tempo em que criou sua primeira história assumidamente infanto-juvenil. O Lobo de Wall Street chegou dois anos depois injetando um insuspeito bom humor na história de Jordan Belfort, que nos anos 90 tornou-se estupidamente rico com a bolsa de valores, em esquemas envolvendo crime e corrupção (e toneladas de drogas recreativas), o que finalmente lhe rendeu 22 meses em uma prisão federal. Sua quinta colaboração com Leonardo DiCaprio também se mostrou a mais madura, com o astro entregando uma de suas melhores performances, assumindo os excessos de uma época marcada pela opulência e encontrando, ao lado de seu mentor e diretor, um modo leve para contar uma história tão densa e contemporânea. Como bônus, Scorsese revelou aqui o talento de Margot Robbie e ainda criou a cena mais engraçada da história envolvendo DiCaprio, um carro esporte e ácido vencido…

7. TRAMA FANTASMA
(Phantom Thread, Paul Thomas Anderson, 2017)

“Uma casa que não muda é uma casa morta.”

A parceria de Daniel Day Lewis com o diretor Paul Thomas Anderson já rendeu o melhor filme da década – da primeira década do século 21 – com o espetacular Sangue Negro. Trama Fantasma não alcança os mesmos picos, mas não traz essa ambição. Longe de desenhar um retrato da América por meio da obsessão de um homem por poder e por petróleo, aqui a ideia fixa é outra: atingir a perfeição. É assim que o estilista Reynolds Woodcock leva a vida na alta roda da Londres dos anos 50, vestindo as damas da sociedade em uma rotina que se tornara enfadonha. Uma jovem de personalidade forte, Alma (a incrível Vicky Krieps), interrompe esse marasmo ao se tornar sua musa e amante. Com narrativa surpreendentemente bem humorada, mas sem abrir mão de uma tensão romântica sufocante, Trama Fantasma mostra a precisão do trabalho de Anderson, amplificada quando ele divide o holofote com um ator tão imerso em sua performance como Day Lewis. É envolvente, é experimental, é luxuoso e é absolutamente imprevisível. É também a despedida de Daniel Day Lewis de seu ofício, servindo como testamento a um dos atores mais espetaculares que o cinema já viu.

6. O GRANDE HOTEL BUDAPESTE
(The Grand Budapest Hotel, Wes Anderson, 2014)

“Você não pode prendê-lo só porque ele é um maldito imigrante, ele não fez nada de errado!”

Wes Anderson é como os Ramones: em cada novo trabalho sabemos exatamente o que vamos encontrar, e é sempre sensacional! Com O Grande Hotel Budapeste, entretanto, ele pode ter atingido a perfeição em sua fórmula de perfeita simetria, artificialismo e personagens peculiares. Como um autor de grandes contos de fada, Anderson narra a amizade de Gustave H (Ralph Fiennes), concierge do hotel mais famoso na República da Zubrowka, e Zero Mustafa (Tony Revolori), o paquete que se apaixona por uma doceira, nos anos entre a primeira e a segunda guerras. A trama gira em torno do roubo de uma pintura renascentista de valor imensurável, mas é mera desculpa para o diretor desfilar uma história envolvente sobre romance, traição, amizade, lealdade e guerra – emoldurada por cenários de apuro visual profundo, que identificam e desvendam a conexão emocional entre dezenas de personagens…. e dezenas de atores que, faça chuva ou faça sol, estão prontos para atender ao chamado de Wes Anderson.

5. A ORIGEM
(Inception, Christopher Nolan, 2010)

“Qual o parasita mais resistente? Bactéria? Um vírus? Uma ideia. Resiliente… altamente contagiosa. Uma vez que uma ideia se apossou da mente, é quase impossível erradicá-la.”

Alguns cineastas transformam grandes conceitos em filmes independentes, longe da interferência dos grandes estúdios em sua efervescência criativa. Christopher Nolan, por outro lado, aprendeu a fazer de suas grandes ideias sucessos comerciais indiscutíveis, uma bem vinda anomalia na arquitetura do “mais dinheiro, menos controle” vigente em Hollywood. A Origem é o que acontece quando um autor ganha sinal verde depois de entregar não só um sucesso de 1 bilhão de dólares (no caso, Batman – O Cavaleiro das Trevas), mas também um filme que se tornou fenômeno cultural (impossível apagar da memória o retrato lunático de Heath Ledger como o Coringa). A liberdade, no caso, foi traduzida em uma ficção científica de conceitos fantásticos e realização impecável. Leonardo DiCaprio lidera uma equipe que rouba segredos corporativos ao invadir os sonhos de altos executivos. Seu talento, entretanto, é colocado à prova quando o trabalho seguinte consiste em plantar uma ideia na mente de um CEO, uma série de gatilhos em que sonhos se confundem com novos sonhos, ao mesmo tempo em que fogem de uma outra equipe que parece prever seus movimentos. Visualmente, A Origem é um arraso, traduzindo em imagens conceitos abstratos que, com a direção firme de Nolan, passam longe da verborragia cabeçuda para se materializar em cenas de ação tão empolgantes quanto imprevisíveis. Talvez seja essa a melhor definição do diretor, que definiu sua década com blockbusters cerebrais e populares – Interestelar e Dunkirk entrariam facilmente nessa lista. O cinema, assim, sobrevive!

4. PARASITA
(Parasite, Bong Joon-Ho, 2019)

“Jessica. Filha única. Illinois, Chicago.”

Parasita é um filme político – talvez a obra mais em sintonia com os dias de hoje. Porque fala sobre pessoas de verdade em um país de verdade experimentando na pele as consequências de uma política predatória real. O diretor Bong Joon-Ho, então, lança a pergunta: o que você faria se surgisse a oportunidade de triunfar na selva capitalista, se ninguém se machucasse com isso? A resposta está na família de golpistas – mais por necessidade do que por opção – que se entrelaça na casa e na vida de uma família rica. Como empregados, eles são simplesmente parte da mobília, e o “acordo” segue tranquilo até que surge uma terceira casta, ainda mais rasteira, que ameaça ruir essa estrutura. Parasita é um espelho incômodo, e é curioso observar a reação de cada pessoa exposta ao filme e seus comentários totalmente embasados em sua posição social. Afinal, quem são os “parasitas”? Os ricos que sugam a classe trabalhadora para manter sua vida perfeita? Os pobres, que enxergam uma oportunidade de sobreviver? Eu? Você? O melhor filme de 2019 planta essa perguntas. Mas não faz questão de entregar nenhuma resposta. Isso só depende de você.

3. CORRA!
(Get Out, Jordan Peele, 2017)

“Eu quero seus olhos, cara. Eu quero ver o que você enxerga.”

Jordan Peele construi sua carreira como ator, roteirista e produtor, fazendo comédia na TV. Talvez tenha sido esse um dos motivos para ninguém perceber o tsunami que era Corra! chegando. Melhor assim. Sem cerimônia, sem gordura, Peele ajudou a escrever o novo terror americano ao criar um filme que não tenha a menor ambição em se prender ao gênero. Usando a moldura do terror e da ficção científica, com doses maciças de humor e comentário social afiado, Corra! consegue falar sobre raça e racismo, sobre privilégios e provocações, tudo isso sem perder a mão no entretenimento, criando um híbrido que empolga na mesma proporção que provoca reflexão. É a ideia de diversidade e representatividade apresentada numa alegoria que vai ao extremo, ancorada em seu protagonista. Chris (Daniel Kaluuya) é um fotógrafo, negro, que parte com a namorada, Rose (Allison Williams), que é branca, para um fim de semana com a família da moça. A tensão racial é rapidamente mitigada pela conversa progressista do pai de Rose, Dean (Bradley Whitford), mas o desconforto inevitável logo escala para a estranheza – e finalmente para uma resolução que parece saída dos filmes de ficção científica B dos anos 50. Original, equibrado e absolutamente assustador, Corra! é um filme ciente de sua importância social e cultural, mas nunca esquece também de ser entretenimento. A combinação perfeita.

2. A REDE SOCIAL
(The Social Network, David Fincher, 2010)

“Você vai passar a vida achando que as garotas não gostam de você porque você é um nerd. E eu quero que você saiba, do fundo do meu coração, que isso não é verdade. Será porque você é um babaca.”

Talvez a história da criação do Facebook não tenha acontecido exatamente como David Fincher mostra em A Rede Social. Talvez Mark Zuckerberg não seja o idiota arrogante e ambicioso interpretado por Jesse Eisenberg. Talvez suas palavras não tenham existido da forma brilhante como são escritas por Aaron Sorkin. Talvez…. Mas é curioso observar, uma década depois de seu lançamento, como o filme de Fincher traçou o paralelo entre a revolução promovida pelo Facebook e o artificialismo das relações construídas por meio de uma rede social global. Tudo isso teve um peso, claro, em seu criador. Se hoje o Zuckerberg real precisa depôr no congresso sobre o escândalo do compartilhamento de dados, no cinema ele é retratado como um gênio que, humilhado depois de um fora, cria o Facebook em seu dormitório em Harvard – seis anos depois, ele é o mais jovem bilionário da história e está encarando um processo dos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss (Armie Hammer), que “inspiraram” o aplicativo, e de seu ex-melhor amigo, Eduardo Saverin (Andrew Garfield), co-criador do Facebook. Os relacionamentos reais se deterioram à medida em que a popularidade do Facebook dispara, e nessa dicotomia está o coração de A Rede Social – e, talvez, de todo o mundo moderno: quem somos como seres humanos quando existimos basicamente na frente de um computador? Não existe retrato mais preciso ou mais melancólico da sociedade, hoje, do que essa história contada com a precisão habitual de um dos melhores diretores em atividade. A verdade, afinal, é superestimada.

1. MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA
(Mad Max: Fury Road, George Miller, 2015)

“Meu nome é Max. Meu mundo é fogo e sangue.”

George Miller não tinha um roteiro quando filmou Estrada da Fúria. Quer dizer, ele não tinha um roteiro formal, com marcações, ambientações, diálogos: o filme brotou em sua mente com imagens, e foi com imagens, com storyboards, que ele desenvolveu o retorno do anti heroi Mad Max, guerreiro solitário do deserto pós-apocalíptico. Se ele perdeu seu astro original (Mel Gibson deu lugar a Tom Hardy, e o mundo ficou ok com isso), ganhou em compensação uma heroina que já nasceu icônica. Furiosa, papel de Charlize Theron, divide o protagonismo com Max em uma jornada através do deserto, fugindo de seu opressor (Immortan Joe, papel de Hugh Keays-Byrne) em busca do mítico “lugar verde”, um oásis para a violência e a aridez do mundo. As mulheres, por sinal, são a chave para o futuro segundo o evangelho de Miller: são as mães que seguram a chave para o futuro, as mulheres que podem reverter o dano causado ao planeta. Afinal, “Quem quebrou o mundo?” se torna pergunta recorrente na narrativa. A história assumidamente feminista pode dar a impressão que Max é relegado a um papel coadjuvante, mas nada poderia estar mais distante da verdade: ele é o gatilho da mudança, o elemento surpresa, o homem quebrado pelo futuro, que precisa fazer as pazes com o passado e recuperar um fragmento de sua alma. Todo esse papo esotérico-filosófico é embalado, claro, pelo filme mais espetacular que o cinema teve a ousadia de lançar nos últimos anos (décadas?), uma aventura de execução tão impecável quanto inacreditável, um filme com energia cinética pulsante, sem nunca esquecer as relações humanas que criam a conexão emocional com quem está do lado de cá. Nenhum segundo é desperdiçado, nenhum diálogo é excessivo, nenhuma ação é sem propósito. Se existe um filme perfeito no mundo, se existe a prova que o cinema ainda é capaz de criar a mais pura beleza, gerada a partir do absoluto caos, ele se chama Mad Max: Estrada da Fúria. Nenhum filme desde então alcançou sua excelência. Mas espero que ninguém pare de tentar.

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Os 10 melhores filmes de 2019 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/12/30/os-10-melhores-filmes-de-2019/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/12/30/os-10-melhores-filmes-de-2019/#respond Mon, 30 Dec 2019 07:47:37 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10966

2019 pareceu um enorme mês de agosto: interminável, insuportável, em que todo dia parecia segunda-feira. Foi um ano difícil, em que o Brasil termina mais triste, flertando com a censura, em que a cultura mais uma vez teve de se posicionar para resistir às forças da ignorância e do retrocesso. Ainda assim (ou talvez por esse exato motivo), foi também um ano em que o cinema nacional brilhou forte, com filmes como Democracia em Vertigem, Turma da Mônica: Laços, Bacurau e A Vida Insivível provando que temos qualidade e diversidade, prontos para peitar as adversidades e mostrar ao resto do mundo que o país não é digno de risos, e sim de aplausos. A vida na tela grande, por fim, continuou sendo um oásis para reflexão, para emoção e para entretenimento, referendando o poder da arte como a maior arma para combater as trevas.

Fechar uma lista com meus dez favoritos foi difícil ante a avalanche de qualidade, especialmente no segundo semestre – alguns títulos nacionais ali em cima fizeram parte da lista por bons meses, e fosse ela mais extensa teriam lugar cativo. Mas regras são regras, e vamos a elas: uma dezena de filmes, produzidos em 2019 e que eu tenha visto em 2019. Uma ausência que doeu, é também uma aposta poderosa para o Oscar do ano que vem, certamente estaria por aqui se eu tivesse assistido: Jóias Brutas, com Adam Sandler, que deve chegar por aqui via Netflix no fim de janeiro. Outras menções honrosas, que arranharam a lista mas não fizeram o corte, foram Nós (Jordan Peele), Um Belo Dia na Vizinhança (Marielle Heller), Midsommar (Ari Aster), Ad Astra (James Gray), Entre Facas e Segredos (Rian Johnson), Dois Papas (Fernando Meirelles) e Vingadores: Ultimato (Joe e Anthony Russo) – todos excelentes, todos representando gêneros e ideias diferentes, todos cinema de primeira. E é isso, agora que rufem os tambores…

10. JOJO RABBIT
(Taika Waititi)

Taika Waititi é um sádico. Ele sabe exatamente até que ponto enfiar a faca e o momento exato de torcê-la. Jojo Rabbit começa como uma comédia desvairada ambientada durante a Segunda Guerra Mundial sobre um menino alemão, Jojo, (o excepcional Roman Griffin Davis), encantado com o exército formado por Hitler e pelo apelo do nazismo, que descobre que sua mãe (Scarlett Johansson) está escondendo uma jovem judia (Thomasin McKenzie) em casa. O assombro, alimentado pelas histórias apavorantes espalhadas pelo regime sobre como os judeus seriam criaturas demoníacas, mistura-se ao fascínio e ao despertar de sua verdadeira natureza conflitante. Ele é, afinal, um garoto de bom coração, conduzido por uma ideologia nefasta. A coisa toda tem uma pegada lúdica, já que Jojo pede sempre conselho a um amigo invisível, o próprio Adolf (interpretado pelo próprio Taika). O clima tenso é entrecortado pelo humor irreverente, até que o diretor decide lembrar a todos que se trata de um filme de guerra – e guerras cobram um preço terrível. Jojo Rabbit é várias coisas: um filme contra o ódio, uma observação da guerra pelos olhos de uma criança, uma sátira impiedosa. E também a lembrança do talento gigantesco de Taika Waititi. Estreia em 6 de fevereiro

9. ADORÁVEIS MULHERES
(Little Women, Greta Gerwig)

A história com tintas autobiográficas escrita por Louisa May Alcott em 1868 já foi traduzida dezenas de vezes no teatro, radio, TV e cinema (são sete versões!). É espantoso, portanto, que Greta Gerwig tenha encontrado um caminho para construir, de longe, a melhor delas. Uma explicação talvez esteja no quanto a história surja tão urgente e atual para os dias de hoje, mesmo retratando a vida de quatro irmãs na America do século 19. O tempo pode mudar tudo no mundo, exceto pela forma como as pessoas ainda se relacionam, amam, choram, sofrem, sorriem, vivem! Algumas alterações aqui e acolá na estrutura da trama fazem desse Adoráveis Mulheres um filme sólido sobre a relação fraternal das irmãs March, que vivem com sua mãe em Massachussets enquanto seu pai enfrenta o horror bem real da Guerra Civil. Jo (Saoirse Ronan) é a mais independente, questionando os padrões vigentes e nutrindo seu talento como escritora. Ela é o porto seguro no qual orbitam Meg (Emma Watson), Amy (Florence Pugh) e Beth (Eliza Scanlen). Dividindo a narrativa em dois períodos cronológicos distintos – pontuados por uma direção de fotografia que vai do calor vibrante ào cinza estéril -, Gerwig não perde tempo ao entrelaçar amores, desilusões, promessas, frustração, paixão e morte, não necessariamente nessa ordem. O elenco brilha, mas Saorsie Ronan e Florence Pugh são verdadeiras forças da natureza! Para ver com uma lágrima no canto do olho e um sorriso desenhado nos lábios. Estreia em 9 de janeiro

8. O FAROL
(The Lighthouse, Robert Eggers)

Desde A Bruxa é aconselhável ficar de olho no trabalho do diretor Robert Eggers. Ajudando a moldar o cinema de terror moderno, ele tem demonstrado que o medo verdadeiro não reside em sustos fáceis, e sim nos caminhos insondáveis da mente e da alma humana. O Farol é uma das experiências mais sufocantes jamais compartilhada em sala escura, um filme sobre loucura e paranóia, sobre o olhar apavorante para nosso inconsciente e como ele consegue destruir as barreiras já tênues da sanidade do lado de cá. A trama é simples: Robert Pattinson e Willem Dafoe (os únicos em cena, dois artistas no auge de suas habilidades dramáticas) deslocam-se para uma ilha remota na costa da Nova Inglaterra no fim do século 19 para trabalhar juntos no farol. Mas eles não vão sozinhos: cada um carrega sua bagagem de segredos enterrados, de traumas latentes, de violência contida. Aos poucos o clima, a camaradagem (ou falta dela) e a brutalidade da rocha estéril que eles precisam dividir (semanas? meses?) explode em um clímax que pode ou não ser real. Eggers amplifica cada sentimento com uma fotografia em preto e branco carregada em contrastes, filmada em formato quadrado, quase claustrofóbico. Não se espante se, mesmo na sala do cinema, assistindo ao filme em tela grande, você sentir o ar faltar… Estreia em 2 de janeiro

7. HISTÓRIA DE UM CASAMENTO
(Marriage Story, Noah Baumbach)

História de Um Casamento é um filme sobre dor. Bom, até aí nenhuma novidade: a ruptura de um relacionamento deixa cicatrizes indeleveis, e não seria diferente no mundo da ficção. O que Noah Baumbach cria, porém, é um retrato do que acontece depois dessa ruptura. Não exatamente os por quês, e sim o como. Como, afinal, duas pessoas com conhecimento tão íntimo um do outro conseguem apagar esses laços? Mesmo que o caminho seja pavimentado por mentiras, por uma pitada de traição, com uma vida sendo, paradozalmente, anulada e evoluída por influência de outra. São pequenos sacrifícios, pequenas fissuras que passam despercebidas quando o amor ainda cobre as imperfeições, mas que expandem-se ao longo dos anos às custas de frustração e de tristeza. Baumbach não quer apontar nenhuma culpa, e sim entender essa arquitetura complicada, em especial quando outros elementos entram no desenho, como filho, família…. e advogados. Scarlett Johansson nunca esteve melhor, em uma interpretação madura, contida, que traz em expressões sutis uma gama infindável de sentimentos, da culpa à auto afirmação. Mas é Adam Driver quem nos guia pelos extremos, da polidez postiça com que ele vê sua rotina se esfarelar à fúria traduzida nas piores palavras que uma pessoa pode dizer à quem ama, um abismo de desespero tão impactante quanto humano – o Oscar só não será dele se o outro Adam surpreender! São personagens, são pessoas de verdade, em uma história que dói. Porque não precisava ser assim. Já disponível na Netflix

6. DOR E GLÓRIA
(Dolor y Gloria, Pedro Almodóvar)

Confesso que já havia perdido a fé em Almodóvar. Lembro da vergonha ao final do atroz Amores Passageiros, e das risadas na última cena do superestimado A Pele Que Habito. Mas nunca duvide da força de um gênio. Se Julieta apontava um retorno à boa forma, ainda que em um filme esquecível, Dor e Glória é a lembrança do motivo pelo qual o mundo se encantou com o cienasta espanhol em primeiro lugar. Antonio Banderas é Salvador, diretor de cinema que vive em dor física crônica, separado por anos de um passado de glória como um autor festejado. Este mesmo passado, porém, parece voltar com força, impulsionando uma reflexão que pode apontar um novo futuro. Almodóvar pincelou fragmentos de sua própria vida para construir o roteiro, tem Banderas perfeito como alter ego e encontra espaço para fazer um filme sobre cinema, sobre lembranças e sobre amor, uma verdadeira celebração da vida. Eu falei mais sobre Dor e Glória aqui.

5. 1917
(Sam Mendes)

Depois de passar alguns anos no mundo de James Bond, o diretor Sam Mendes podia ter escolhido um filme mais suave para recarregar as energias. Mas Mendes parece ser movido por desafios, e 1917 terminou como a produção tecnicamente mais complexa do ano, uma experiência de guerra quase imersiva que encontra em um gênero tão antigo quanto o cinema espaço para inovar. Não imagine, entretando, que é o caso de estilo superando substância: o fio condutor de 1917 é a camaradagem no campo de batalha, a busca pela família, o ímpeto em enfrentar o impossível para cumprir seu papel como soldado. No caso, dois soldados que, no coração da Primeira Guerra Mundial, precisam atravessar território inimigo e entregar uma mensagem para impedir a ação de um batalhão, impedindo a morte de 1600 homens – inclusive o irmão de um dos soldados. Se a estrutura parece o habitual “homens com uma missão”, a execução é um verdadeiro pesadelo bélico, com a decisão de Mendes em criar sua narrativa com a ilusão de um plano sequência, uma única tomada sem cortes acompanhando os dois soldados – os excepcionais Dean-Charles Chapman e George MacKay – como se estivéssemos ali, com eles, no mesmo fôlego, nos mesmos terrenos, sob o mesmo tiroteio, no mesmo inferno que é a guerra. A história pode parecer uma reprise, mas a tecnologia é única (a fotografia de Roger Deakins é uma obra de arte) e a conexão humana é emocionante e inevitável. Ah, 1917 PRECISA ser visto na melhor tela com o melhor som. Acredite, você vai me agradecer. Estreia em 23 de janeiro

4. FORD V FERRARI
(James Mangold)

Ford v Ferrari é um filme sobre a percepção da imagem. Historicamente, é sobre como a Ford percebeu que não precisava apenas vender um automóvel, e sim um desejo. Nas mãos do diretor James Mangold, essa fatia de história contemporânea foi a faísca para criar um filmaço sobre amizade (aquelas de verdade, que não sobrevive sem o eventual dedo no olho), sobre coragem e, claro, sobre velocidade. Existe um prazer cinematográfico irresistível em ver personagens movidos por pura obstinação em desafiar seus próprios limites, e o cinemão já entregou clássicos absolutos que circulam esse tema, como Os Eleitos, Mestre dos Mares ou o solitário Até o Fim. O eixo narrativo aqui é o elo entre dois pilotos, o americano Carroll Shelby (Matt Damon) e o inglês Ken Miles (Christian Bale). Quando o primeiro é encarregado de construir um carro capaz de vencer as míticas 24 horas de Le Mans, e convoca o segundo como piloto de testes e de fato, a energia em cena é palpável, com os dois astros emprestando seu peso a uma história que é maior que a deles. O sucesso de Ford v Ferrari mostra que ainda há espaço para filmes assim, à moda antiga, em que o cinema torna-se palco perfeito para explorar a condição humana em histórias extraordinárias. É também o melhor filme de James Mangold – o que não é pouco para o sujeito responsável por Logan. Eu falei mais sobre Ford v Ferrari aqui.

3. O IRLANDÊS
(The Irishman, Martin Scorsese)

A volta de Martin Scorsese ao terreno familiar do crime organizado americano é testamento da genialidade de um mestre que ajudou a pavimentar os caminhos do cinema moderno. O Irlandês começou como um sonho – colocar em cena Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci – e foi além, tornando-se o projeto que estreitou o abismo entre o cinema “tradicional” e a modernidade trazida pela Netflix. A plataforma de streaming pagou a conta de 165 milhões de dólares para Scorsese tirar O Irlandês do papel quando os estúdios lhe fecharam as portas. Ficou claro que a Netflix queria seu prestígio, e em troca bancou um filme que esticou os limites da tecnologia ao rejuvenescer seu elenco em uma narrativa que se estende por décadas, resumida em um épico de três horas e meia. Entre efeitos digitais e a revolução do streaming, o que mais importa aqui é a história, uma radiografia da estrutura do poder na América do pós-Guerra, materializana na biografia do gângster Frank Sheeran (De Niro), da disputa por território em uma Nova York dominada pelo crime até o assassinato do poderoso sindicalista Jimmy Hoffa (Pacino), uma das figuras políticas mais importantes do século 20. Scorsese não tem pressa em navegar pela vida de seus personagens e pelo modo como eles se entrelaçam, em um filme que avança em crescendo até uma meia hora final sublime. Quando um mestre trabalha, não poderia ser diferente. Eu falei mais sobre O Irlandês aqui. Já disponível na Netflix

2. ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD
(Once Upon a Time in Hollywood, Quentin Tarantino)

Cinema é paixão, e não existe cineasta mais apaixonado por seu ofício do que Quentin Tarantino. Ao se aproximar de um já anunciado fim de carreira, ele volta suas lentes para casa. Mais especificamente para Los Angeles, em um período de transição e mudança na balança do poder em Hollywood, quando astros de TV perdiam o brilho e o cinema parecia pertencer a autores ousados e modernos. É nesse cenário que Tarantino apresenta o ator Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), ex-protagonista de uma série de sucesso, relegado agora a papeis coadjuvantes para uma nova geração de astros. Quem entende melhor a mecânica dos bastidores é seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt), que enxerga o cinema não como sonho, mas como ganha-pão, entendendo seu lugar nessa estrutura. Tarantino costura suas rotinas com o símbolo dessa “nova” Hollywood, a atriz Sharon Tate (Margot Robbie): casada com o diretor mais quente da cidade, Roman Polanski, cercada de amigos em sintonia com o choque da contracultura e, nos conta a história, marcada pela maior tragédia que a “Cidade dos Sonhos” já presenciou. Tarantino construiu um filme em tom de fábula, explorando os cantos mais sombrios de Los Angeles e reescrevendo a história. Como resultado, Era Uma Vez em Hollywood surge como seu melhor filme: o mais maduro, mais bem dirigido, de visão mais clara, sem gordura, direto ao ponto. Empolgante, emocionante e espetacular – é pedir demais que o mundo de Tarantino seja esse, o nosso, do lado de cá? Eu escrevi mais sobre Era Uma Vez em Hollywood aqui. Ainda bati um papo com Tarantino aqui, e com Brad Pitt aqui.

1. PARASITA
(Parasite, Bong Joon-Ho)

Parasita é um filme de grandes temas e ideias profundas executado com tanta elegância e precisão que é impossível não prestar atenção. Muita atenção. Porque Parasita trata de temas universais, como a profunda desigualdade que divide pessoas em castas, e os insere em uma histórias de várias camadas que jamais entram em choque. Na superfície é um filme sobre uma família de golpistas que aos poucos se faz indispensável a outra família, de classe alta, que não percebe a teia intrincada sendo tecida em seu próprio lar. A casa, cenário principal, surge como mais um personagem com suas próprias camadas, com os andares de cima reservados para os donos do dinheiro, as áreas comuns em que trafegam os empregados, e uma camada ainda mais inferior, que é onde Parasita revela ainda mais uma de suas facetas. A partir daí o coreano Bong Joon-Ho desenvolve o filme perfeito, que desafia gêneros e convenções, e arrasta a plateia consigo para uma experiência que pode ser um espelho, não importa quem esteja assistindo. De alguma forma, em algum momento, Parasita vai envolver você também – e, acredite, não vai abandonar seu sistema. Cinema é entretenimento. Cinema é reflexão. Cinema é política. E Bong Joon-Ho construiu aqui cinema em sua melhor forma. E é por isso que ele é não só o melhor filme de 2019, mas também um dos melhores da década. Eu falei mais sobre Parasita aqui.

 

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Utilidade pública: Sofri por duas horas de Cats para você não precisar… http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/12/26/utilidade-publica-sofri-por-duas-horas-de-cats-para-voce-nao-precisar/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/12/26/utilidade-publica-sofri-por-duas-horas-de-cats-para-voce-nao-precisar/#respond Thu, 26 Dec 2019 07:41:09 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10953

Cats é um dos piores filmes da história do cinema. É um desperdício de tempo, de dinheiro, de talento e de recursos. Minhas retinas não testemunhavam um desastre tão colossal há anos (décadas?), e serão mais outros anos (décadas?) até que eu consiga apagar da memória qualquer lembrança dessa aberração. Sim, é pior do que as expectativas mais rasteiras.

VEJA TAMBÉM: Dez gifs de gatinhos que são melhores que Cats, o filme

É a primeira vez, por sinal, que eu acredito que um filme não tinha mesmo motivo para existir. Não há nada no cinema moderno que justifique um trabalho chegar ao mercado de maneira tão desleixada, tão desconecta, tão amadora. A existência de Cats é um mistério, e não há como apontar o dedo para ninguém além de seu diretor: Tom Hooper.

Sim, precisamos falar sobre Tom Hooper. Poucas vezes na história um cineasta de visão tão obtusa, artisticamente limitado e narrativamente inerte conseguiu ludibriar tanta gente. Ele é o Lars von Trier do cinema mainstream, incapaz de criar um filme empolgante ou coeso ou emocionante há uma década. Se Hooper mostrava-se promissor com sua carreira na TV inglesa (John Adams é um primor), e acertou na cinebiografia Maldito Futebol Clube, o que veio a seguir foi uma avalanche de conformismo –  filmes que, quando mostravam algum pulso, era por conta de seu elenco, nunca pela fibra de seu diretor.

Não há perdão para a chuva de Oscar para O Discurso do Rei, um dramalhão que beira a mediocridade, triunfando ante pesos pesados como A Rede Social e A Origem. Depois, sua filmografia só piorou, com a cafonice de Les Misérables e a soberba de A Garota Dinamarquesa, que empresta sua dramaturgia piegas das piores novelas mexicanas. Ainda assim, Hooper tem prestígio e conseguiu inclusive emplacar a adaptação de His Dark Materials na HBO – eu não tive coragem de assistir até hoje unicamente por sua assinatura.

Taylor Swift quer um Oscar, mas ela não é Lady Gaga….

Cats, por outro lado, é um nível completamente diferente de absurdo. A ideia de levar o musical de Andrew Lloyd Webber ao cinema sempre foi encarada como piada pela indústria. O espetáculo, diga-se, é um sucesso absoluto desde sua primeira performance, em 1981, com duas décadas ininterruptas em cartaz no West End londrino e na Broadway. Mas sua concepção lúdica foi pensada para o ambiente do teatro, com cenários extravagantes e produção requintada, o que faz de sua tradução para outras mídias um exercício mais comercial do que artístico.

Até porque, apesar de suas inovações e influências para a popularização do teatro musical como evento pop, Cats sempre foi programa para turista, planejado e executado como parte do roteiro de Londres ou Nova York, tão natural a essas cidades como o Big Ben ou o Empire State. Ver Cats está no pacote da CVC, a experiência teatral como pastelaria – mesmo que o recheio seja nobre.

No cinema, porém, essa aura festiva evapora-se. Fica o trabalho de confinar o encanto e a emoção do teatro em tela plana. Já adianto: aqui, não funcionou. O mais espantoso é que a é regra mostra transições do palco para o cinema quase sempre bem sucedidas. De Amor Sublime Amor a Hairspray, de A Noviça Rebelde a Grease, de O Violinista no Telhado a Chicago – todos com uma história sólida, narrada por, ou entrecortada pela, música.

O público nunca torceu o nariz para esse casamento, até com filmes rasos feito pires como Mamma Mia! transformado-se em fenômenos globais de bilheteria. Clint Eastwood já se aventurou no gênero (Jersey Boys), assim como Tim Burton (Sweeney Todd). Steven Spielberg está atualmente rodando a refilmagem de Amor Sublime Amor. Musicais dos palcos londrinos ou nova-iorquinos fazem parte do DNA do cinema desde sempre. Ainda assim, ninguém deu a mínima para Cats.

Aposto que seu gato não faz isso!

Sua estreia nos cinemas americanos foi um desastre de 6,6 milhões de dólares em três dias – para uma comparação injusta, Cats entrou em cartaz no mesmo dia de Star Wars: A Ascensão Skywalker, que mordeu 177 milhões de dólares. Dificilmente Tom Hooper verá retorno no investimento de 95 milhões bancados pelo estúdio. Para piorar, o filme chegou ao absurdo de ser enviado para os exibidores com efeitos especiais incompletos – uma cópia finalizada foi remetida em menos de uma semana, mas o esquadrão de memes com atores com maquiagem digital incompleta já havia tomado a internet.

James Corden, por exemplo, surge em uma cena sem a magia que transforma seu rosto em um gato humanoide. As mãos de Judi Dench, então, ora aparecem com anéis, ora sem, ora peludas, ora humanas. É um desastre, e nem ele foi capaz de despertar curiosidade – na sessão em que eu vi em São Paulo, em plena tarde de Natal, meia dúzia de incrédulos deixou a sala antes da metade do filme.

Ah, o filme. Nada pode preparar sua alma para o completo e absoluto terror que é observar um grupo de atores, transformado digitalmente em criaturas híbridas humanos/felinos, cantando estridentemente por duas horas. Nem vou me ater à total cafonice da produção, porque teatro musical meio que é isso mesmo. Mas dá para sentir nossa alegria de viver esvaindo-se enquanto os minutos avançam e somos brindados com um roteiro absolutamente sem sentido, executado em números musicais pavorosos.

É no primeiro ato que Rebel Wilson, no papel de Jennyanydots (todos tem nomes assim), comanda uma trupe de baratas em uma coreografia absolutamente bizarra, ao mesmo tempo em que devora algumas delas (as baratas também são atores em maquiagem digital). Quem ainda segura o almoço no estômago pode seguir em frente para encarar uma bobagem sobre um gato que será escolhido para ascender a uma nova vida no Paraíso – seja lá o que isso signifique.

Idris Elba é Macavity, o gato malvado que busca eliminar a concorrência; Ian McKellen é Gus, o gato do teatro (imagine Tygra, dos Thundercats, depois de uma temporada em Shawshank); Judi Dench é Deuteronomy, a mais velha e sábia entre os felinos. Taylor Swift meio que aparece. A protagonista é a bailarina Francesca Hayward, que faz aqui sua estreia no cinema como Victoria, gata abandonada que encanta-se com a efervescência da vida nas ruas. Jennifer Hudson canta “Memory” no clímax. Todos choram. Fim.

Thundercats are on the move, Thundercats are loose… !

Honestamente, não tinha como funcionar. Talvez como uma animação, em que os gatos fossem de fato gatos, assumindo uma fantasia antropomorfizada? Talvez pela Pixar, estilo Vida de Inseto ou Ratatouille? A realidade, entretanto, é outra. Cada opção artística de Tom Hooper foi equivocada. O artificialismo dos cenários, hermético como teatro, sem nunca assumir a escala do cinema. As coreografias, por vezes arruinada por uma câmera que insiste em correr em meio aos dançarinos. A direção de atores confusa, em especial Francesca, que desesperadamente precisa de alguém para lhe apontar o caminho em uma produção dessa escala.

Por fim, o visual dos felinos, uma aberração em CGI que entrega um híbrido repulsivo aos olhos, eliminando qualquer chance de conexão emocional. Atores fantasiados ao menos sugerem certa humanidade, mas o desfile de corpos assexuados está a uma mudança de trilha sonora de distância de transformar Cats de musical glorioso em filme de terror barra pesada. Aí sim seria um filme que eu adoraria ver!

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Do pior ao melhor, o ranking definitivo com os 11 filmes da saga Star Wars! http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/12/23/do-pior-ao-melhor-o-ranking-definitivo-com-os-11-filmes-da-saga-star-wars/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/12/23/do-pior-ao-melhor-o-ranking-definitivo-com-os-11-filmes-da-saga-star-wars/#respond Mon, 23 Dec 2019 04:42:47 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10930

Acabou! Quatro décadas e onze filmes depois (ok, são nove na trama principal, mas me deixa…), Star Wars chega ao fim com o bombástico e divisivo A Ascensão Skywalker (em cartaz em um cinema perto de você!). Entre dúzias de personagens, mundos e reviravoltas, o cinema experimentou sua mudança mais profunda quando George Lucas viu seu terceiro longa transformar-se em um fenômeno global, em marco zero da cultura pop, em indústria bilionária. Star Wars é uma das propriedades intelectuais mais valiosas do planeta, mas é sempre bom lembrar que, antes dos Funko Pop, das toalhas de mesa, das formas de gelo e dos kit LEGO que valeu a entrada de uma casa, a coisa toda começou no cinema.

ESPECIAL: Daisy Ridley foi a cara da nova trilogia de Star Wars

LEIA MAIS: Tudo sobre o fim da saga Star Wars

E é para esse templo sagrado que voltamos nosso olhar ao classificar cada uma das empreitadas em tela grande. Não foi fácil, mas fui justo! Concorda? Discorda? Então solte o verbo nos comentários, nas redes sociais, durante a Ceia do Natal. E que a Força… ah, chega!

11. A AMEAÇA FANTASMA
(George Lucas, 1999)

Sem um protagonista, sem personagens minimamente desenvolvidos e dirigido por George Lucas no modo preguiça máxima, a aventura que pretendia contar a história de Darth Vader é um excelente indutor ao sono, que ganha pulso unicamente em seu clímax, quando os cavaleiros Jedi Qui-Gon Jinn (Liam Neeson) e Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) enfrentam o lorde Sith Darth Maul (Ray Park). Mas aí já é tarde, porque não existe a menor conexão emocional com absolutamente nada. Bônus: Jar Jar Binks.

10. ATAQUE DOS CLONES
(George Lucas, 2002)

Ligeiramente superior a seu antecessor, Ataque dos Clones traz Lucas completamente apaixonado pelas possibilidades de usar cenários virtuais, aposentando quase por completo o trabalho de maquetes e miniaturas ainda usado em A Ameaça Fantasma, o que lhe conferia ao menos uma sensação de mundo real. Até isso é perdido aqui, em uma filme com atores se virando ao máximo em cenários de videogame. O que salva mesmo é Ewan McGregor, esforçando-se ao máximo para transformar seu Obi-Wan em um personagem multidimensional, que pode de fato correr algum risco. Quanto ao romance de Padmé (Natalie Portman) e Anakin (Hayden Christenssen), uma única conclusão: Lucas não faz a menor ideia de como escrever ou filmar um romance. Vergonha.

9. HAN SOLO
(Ron Howard, 2018)

Quando os bastidores de um filme são caóticos, o resultado por ser genial ou uma completa bagunça. Infelizmente, aqui ficamos com a segunda opção. Alden Ehrenreich encarou a dificílima tarefa de assumir o papel de Han Solo, simplesmente um dos heróis mais icônicos do cinema, imortalizado por Harrison Ford. Ele não faz um trabalho ruim, mas seria bom que tivesse ao menos algum material com o que trabalhar. O problema de “prólogos” como Han Solo é que o roteiro precisa se encaixar em acontecimentos que a plateia já conhece de antemão, reduzindo drasticamente as possibilidades dramáticas. Mais ainda: nem tudo precisa ser explicado, rapazes. Mais ainda parte 2: embora seja Star Wars, em nenhum momento parece Star Wars. Ao menos uma sequência é digna de nota: o ataque de Solo e cia. a um trem de carga do Império. É uma cena linda, empolgante e tecnicamente perfeita!

CRONOLOGIA: Qual a ordem certa para assistir aos filmes de Star Wars?

8. A VINGANÇA DOS SITH
(George Lucas, 2005)

Por onde começar? A Vingança dos Sith existe unicamente para mostrar a queda da República e a transformação de Anakin Skywalker em Darth Vader. Só. Para emoldurar, Lucas bolou uma trama política entediante e se viu na obrigação de resolver o romance trágico de Padmé e o jovem Jedi. Ao menos o diretor (finalmente) demonstrou alguma preocupação com desenvolvimento de personagem e arco dramático, e a partir do momento em que Anakin abraça o Lado Sombrio da Força, o filme ganha fôlego, porque é a primeira vez que Hayden Christenssen parece interpretar um personagem conflituoso, em dúvida com suas decisões e com seu destino. Seu duelo épico com Obi-Wan em um mundo feito de lava estende-se um pouco além do razoável, mais ainda assim contorna seu artificialismo com emoção genuína. O final agridoce é um dos melhores de toda a saga.

7. A ASCENSÃO SKYWALKER
(J.J. Abrams, 2019)

Aqui temos o perfeito exemplo de um estúdio perdendo a mão ao tentar agradar a um punhado de fãs ranhetas. Algumas das excelentes decisões criativas de Os Últimos Jedi foram jogadas pela janela porque executivos cederam à parcela mais birrenta dos fanáticos. Em resumo: a ideia bacana de que qualquer um pode ser um Jedi foi grosseiramente substituída por laços de sangue. Ou seja, só a realeza pode ter esse poder. Uma tremenda bobagem que o roteiro claudicante não sustenta (trazer Palpatine de volta, de maneira tão largada, foi a pior decisão criativa de toda a saga). Ainda assim, o elenco faz o possível para segurar a narrativa na base do carisma, e o ponto final definitivo da história da família Skywalker amarra tudo de maneira ok. Não genial, nem grandiosa, mas só ok.

6. O RETORNO DE JEDI
(Richard Marquand, 1983)

Star Wars nunca fez exatamente muito sentido. Mas o roteiro de O Retorno de Jedi força a barra legal. Alguém consegue, por favor, explicar qual seria afinal o plano de Luke Skywalker para resgatar Han Solo das mãos de Jabba? E por que Han, um dos anti-heróis mais espetaculares da história, acordou de sua hibernação forçada sem o menor charme ou carisma? Mais ainda, será que o Império podia ser mais incompetente ao perder uma batalha contra um bando de ursinhos de pelúcia? A infantilização da série não é ao acaso, já que George Lucas nunca escondeu que Star Wars é uma história para crianças. Mas não precisava forçar a barra. Ainda assim, a direção dinâmica de Marquand (procure seu ótimo thriller de guerra O Buraco da Agulha) garante adrenalina nos momentos certos, e a batalha final contra a nova Estrela da Morte é um feito técnico espetacular. Seria um bom fim, mesmo com os retoques digitais toscos de 1997 (a banda no covil de Jabba é, na falta de uma palavra melhor, ridícula). Mas não era pra ser.

5. O DESPERTAR DA FORÇA
(J.J. Abrams, 2015)

Ao retomar a saga já sob a gerência da Disney, J.J. Abrams criou uma aventura belíssima. Ao seguir a estrutura narrativa do Guerra nas Estrelas original, ele lembrou ao público porque nos apaixonamos pela aventura fantástica de George Lucas em primeiro lugar. Os novos personagens também empolgam, com o mistério de Rey (Daisy Ridley) e a herança de Kylo Ren (Adam Driver) impulsionando a trama. Seria covardia uma comparação com os protagonistas originais, que surgem para dar sua bênção a uma nova geração. Foi bacana rever Harrison Ford como Han Solo e Carrie Fischer como a princesa (ops, general) Leia. Também foi inteligente a decisão em reapresentar Luke Skywalker (Mark Hamill) só nos últimos momentos do filme: o filme não é sobre ele, e sim sobre o sangue novo na história. Bem amarrado, respeitoso com o passado e sem medo de abrir novas portas para o futuro, O Despertar da Força é um filmaço que merece estar entre os grandes momentos de Star Wars.

4. ROGUE ONE
(Gareth Edwards, 2016)

Ninguém precisa procurar um modelo para o futuro de Star Wars após o términa da saga Skywalker: ele já existe e atende por Rogue One. O filme de Gareth Edwards insere-se marginalmente no universo da série, usando personagens conhecidos para ancorar sua cronologia. No caso, Darth Vader, que aqui mostra pela primeira vez no cinema porque se tornou alguém tão temido e perigoso na hierarquia do Império. Sua presença assombra cada pedaço da aventura, que usa estrutura de filme de guerra ao estilo Os Doze Condenados para estabelecer sua missão e seus riscos. Jyn Erso (Falicity Jones), filha perdida de um cientista imperial, é convocada pela Aliança Rebelde para encabeçar uma missão vital: roubar os planos de uma estação de combate que pode pender a balança do conflito para o lado dos vilões. Ela reúne, entre espiões, soldados e desertores, um time de párias para um ataque em uma base fortemente armada. E é isso. O mais bacana de Rogue One é que, ao lidar com personagens desconhecidos, não temos a menos ideia de como a coisa vai se desenrolar. Como o filme é ambientado imediatamente antes dos eventos do Guerra nas Estrelas original, e nenhum dos protagonistas aqui deu as caras em outros episódios da saga, seu destino trágico fica evidente. O que importa, entretanto, é a jornada. E Rogue One acerta em todos os pontos para fazer com que ela seja memorável.

3. OS ÚLTIMOS JEDI
(Rian Johnson, 2017)

Rian Johnson entendeu exatamente o que é Star Wars quando entrou no jogo, desafiou todas as expectativas e, pela primeira vem em anos, fez com que a série voltasse a ser empolgante. E fez isso seguindo uma regra simples: nada de se prender ao passado, o negócio é olhar para o futuro. É assim que encontramos Luke Skywalker, em exílio após cometer um erro que colocou em risco toda uma nova geração de cavaleiros Jedi. Ao ser procurado por Rey, ele é obrigado a encarar seu próprio fracasso e fazer o sacrifício supremo para garantir a sobrevivência da Resistência – e de sua irmã, Leia. Ao mesmo tempo, Os Últimos Jedi desenvolve melhor a personalidade de Poe (um rebelde que não gosta de seguir regras e tem uma dura lição sobre sua importância) e Finn (que por fim encara sua responsabilidade no conflito). Ao mesmo tempo, desenvolve a personalidade de Kylo Ren (o duelo ao lado de Rey contra a guarda do líder Snoke é coisa linda, em um filme visualmente acachapante!) e se concentra nos pequenos momentos, com Yoda (“O maior dos mestres, o fracasso é.”) e com Leia (“A esperança é como o Sol. Se você só acreditar quando ver, você nunca vai sobreviver à noite.”). E espero que não tenha sido a última vez que vimos DJ (Benicio Del Toro), o anti-Han Solo, que resume toda a luta em uma frase: “às vezes vocês os explodem. Às vezes eles os explodem. São só negócios”. O maior legado de Os Últimos Jedi, porém, está no garoto maltrapilho que, na última cena, mostra sua conexão com a Força: ela pode estar em todo mundo. Essa é a beleza universal de Star Wars.

2. GUERRA NAS ESTRELAS
(George Lucas, 1977)

O marco zero, o filme que começou tudo. Uma mistureba de Flash Gordon com os filmes Akira Kurosawa com O Senhor dos Anéis em uma galáxia muito, muito distante. George Lucas refinou sua história por anos e juntou um time de notáveis para executá-la. Ralph McQuarrie, que fez as primeiras artes conceituais. Os sonhadores reunidos para criar do zero a Industrial Light & Magic e ultrapassar os limites do que poderia ser criado no cinema. O produtor Gary Kurtz, que manteve o caos coeso nos bastidores. John Williams e sua música imortal. Tudo colocado a serviço de uma aventura acelerada, em que cada cena informava a próxima, mantendo a plateia na beira da poltrona, absolutamente maravilhada com o novo mundo que se abria. Guerra nas Estrelas está longe de não ter defeitos, mas suas falhas apenas humanizam o espetáculo, coroado com toda uma geração que saiu do cinema disposta a criar seus próprios sonhos. Um dos filmes mais importantes da história, um dos fenômenos mais espetaculares da cultura pop. Em cem anos, pode apostar, alguém ainda estará falando sobre a aventura espacial que mudou tudo – provavelmente, depois de assistir ao filme com um implante cerebral comprado na farmácia, ainda de queixo caído com aquele momento perdido no tempo.

1. O IMPÉRIO CONTRA-ATACA
(Irvin Kershner, 1980)

Porque O Império Contra-Ataca é o melhor Star Wars de todos? Eu arrisco que seja por não entregar absolutamente nada que os fãs esperavam. Depois que Guerra nas Estrelas estabeleceu o universo de George Lucas, Império podia nadar de braçada em mais uma aventura heroica e triunfante. Mas os roteiristas Lawrence Kasdan e a incrível Leigh Brackett miraram no oposto do “fácil e seguro”. Ao final da aventura, os heróis estão em seu pior momento. Luke Skywalker perdeu a grande batalha com Darth Vader. Han Solo fora capturado, congelado e retirado de cena pelo caçador de recompensas Boba Fett. A Aliança Rebelde sofrera uma derrota devastadora no planeta gelado Hoth. Ainda assim, o diretor Irvin Kershner encontrou espaço para ampliar o escopo e lapidar não só o filme como cinema (Império ainda é o mais bonito de todos os Star Wars), mas também a história central, uma tragédia de pais e filhos, de guerreiros monásticos que defendiam a galáxia extintos e exilados, de lealdade e traição, de amor e guerra. Ao definir os jogadores no tabuleiro cósmico de Star Wars, O Império Contra-Ataca aumentou os riscos e dobrou as apostas, deixando os fãs, que haviam mergulhado neste mundo há apenas três anos, sem a menor ideia do que estaria por vir. É na adversidade que os verdadeiros heróis se sobressaem. E foi no “filme do meio” da trilogia original que a saga finalmente encontrou sua voz e deixou de ser fenômeno para se estabelecer como cinema de verdade.

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Movido a nostalgia, A Ascensão Skywalker é final imperfeito para Star Wars http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/12/19/movido-a-nostalgia-a-ascensao-skywalker-e-final-imperfeito-para-star-wars/ http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/2019/12/19/movido-a-nostalgia-a-ascensao-skywalker-e-final-imperfeito-para-star-wars/#respond Thu, 19 Dec 2019 07:09:12 +0000 http://robertosadovski.blogosfera.uol.com.br/?p=10920

Star Wars: A Ascensão Skywalker é um produto com duas caras. Na superfície, o filme de J.J. Abrams parece feito exclusivamente para agradar aos fãs da saga, com sua reverência exagerada às suas mais de quatro décadas de história. Um olhar mais atento, porém, revela que o compromisso da aventura, que encerra uma das séries mais festejadas da cultura pop, é unicamente com o escapismo. Segue o fio. O Despertar da Força, que o próprio Abrams comandou em 2015, trazia a preocupação em reapresentar a marca a uma nova geração sem alienar seus devotos – missão que alcançou com louvor. Com o filme seguinte, Os Últimos Jedi, o diretor Rian Johnson foi na contramão das expectativas e tomou decisões ousadas, recuperando o mistério e a empolgação para o futuro da saga. A Ascensão Skywalker, por sua vez, deixa de lado sutileza e criatividade para ancora-se unicamente em nostalgia (daí a ilusão do fan service) e na força de seu visual acachapante, que emoldura uma narrativa linear. Só não espere que ela faça algum sentido.

Talvez tenha sido a decisão certa para deixar os executivos do estúdio confortáveis. Star Wars, afinal, há muito deixou de ser apenas cinema para abraçar seu potencial como fenômeno cultural e financeiro. Os últimos anos, porém, mostraram sérios distúrbios na Força, o que poderia abalar a marca a longo prazo, exigindo controle de danos imediato. Os Últimos Jedi, por mais que seja um filme de visão sólida, deixou boa parte dos seguidores furiosos com suas decisões criativas. O fracasso de Han Solo elevou o volume do alarme, e o planejamento de novos exemplares da série desacelerou. Filmes em desenvolvimento voltaram para a gaveta, projetos para o cinema foram reconfigurados para a nova menina dos olhos do estúdio, a plataforma de streaming Disney+, e a aventura derradeira da família Skywalker foi removida das mãos de Colin Trevorrow (diretor de Jurassic World e nem de longe uma aposta segura) e entregue à segurança representada por J.J. Abrams. A Ascensão Skywalker precisava ser desprovido de risco, representando unicamente a máquina de Star Wars a serviço do conformismo, das emoções fáceis e do cinemão pipoca.

Rey e Kylo Ren preparam-se para seu duelo final na Estrela da Morte

O modelo narrativo foi, para surpresa de zero pessoas, O Retorno de Jedi. Sem a menor sutileza, o filme de 1983 é copiado tanto nos conflitos de seu protagonista quanto na redenção de seu grande vilão. Assim como Luke Skywalker, agora é Rey que enxerga um caminho na sedução do Lado Sombrio da Força. Assim como Darth Vader, o poderoso Kylo Ren  ganha a chance de expiar seus pecados ao encarar uma humanidade que considerava enterrada. Assim como antes, é o imperador Palpatine (Ian McDiarmid, deliciosamente canastrão) quem manipula a todos, conduzindo os personagens em um xadrez cósmico que parece obedecer apenas a sua vontade. Nem em um milhão de anos eu caio nesse papo furado de “sempre planejamos colocar Palpatine na história”, mas não seria uma solução tão absurda caso sua presença fosse ao menos sugerida nos filmes anteriores. Do jeito que está parece um truque de última hora para fechar um círculo e encerrar a história (familiaridade traz conforto). No meio de tudo, pode esperar duelos com sabres de luz e batalhas espaciais tão épicas quanto inverossímeis – no futuro próximo, em streaming ou blu ray, vai ser divertido acompanhar os fãs pausando o filme em seu clímax para tentar encontrar os easter eggs entre centenas de espaçonaves que tomam a tela.

Daisy Ridley e Adam Driver, como esperado, fazem o trabalho pesado para conduzir a trama – Finn (John Boyega) e Poe (Oscar Isaac) são coadjuvantes anabolizados. A vontade de diminuir o impacto das revelações de Os Últimos Jedi, porém, apequena o universo de Star Wars. O caso de Rey é o mais gritante. Sua origem, ponto de especulação dos devotos desde O Despertar da Força, havia sido resolvida de maneira simples e elegante no filme anterior: ela era uma pessoa comum, mostrando que a Força, assim como o universo, é regida pelo poder do acaso. Ao retomar o fio narrativo de maneira barata, Abrams e o co-roteirista Chris Terrio reduzem o escopo da história a uma briga de comadres ambientada em um quintal, em que todo mundo é relacionado com todo mundo. Driver, que a essa altura já está com as mãos no Oscar por seu trabalho em História de Um Casamento, faz o possível para conferir mais camadas ao conflituoso Kylo Ren, e termina com um arco dramático mais empolgante do que, por exemplo, a jornada para o Lado Sombrio empreendida por Anakin Skywalker nos filmes sofríveis lançados entre 1999 e 2005.

Sim, o imperador Palpatine volta com fúria e canastrice!

Elementos narrativos específicos, que servem para alimentar discussões entre fãs por anos a fio – o uso dos poderes Jedi, o conflito com os Sith, as participações infindáveis de todo mundo que já teve espaço na série (Wedge Antilles vive!), a solução final de Palpatine -, passam ao largo do verdadeiro público-alvo de A Ascensão Skywalker, que é o cinéfilo eventual em busca de uma aventura espacial acelerada. Essa turma sabe que encontrar coerência narrativa em Star Wars sempre foi um exercício em futilidade, e entende que é a jornada, e não seu resultado, que deixa a coisa saborosa. Não é ao acaso que o filme encontra espaço para encaixar assuntos contemporâneos em uma roupagem fantástica, como o perigo do fascismo, a obsessão política pelo poder absoluto, a preocupação com diversidade – temas universais que democratizam o interesse e evitam que a série se feche em uma bolha. Afinal, o futuro de Star Wars não pode depender unicamente do Bebê Yoda.

Apesar das coincidências que empurram a trama, da narrativa amparada no acaso (o filme inteiro resume-se mais uma vez à busca por um mapa), na ausência de riscos (um sacrifício importante é anulado duas cenas depois) e na total falta de imaginação que conduz o roteiro, A Ascensão Skywalker triunfa como celebração. Vou além: é uma despedida definitiva da herança deixada por George Lucas, já que, com o ponto final na história da família Skywalker, Star Wars está finalmente livre para explorar outras histórias, criar outras lendas e descobrir novos caminhos em seu universo tão vasto. Apesar do sabor de reprise, ainda emociona pela força da nostalgia, pela paixão pela aventura e pelo poder de suas imagens. Não é por acaso que tantos personagens de diferentes eras de Star Wars tenham reunidos sob o mesmo teto – inclusive Carrie Fischer, a princesa Leia, presente graças à costura habilidosa de material descartado de O Despertar da Força e do auxílio providencial da tecnologia digital. Ao menos Jar Jar Binks não foi convidado para a festa.

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