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Star Wars: fãs reaças mostram o “lado sombrio” da devoção pela cultura pop

Roberto Sadovski

22/12/2017 04h31

Star Wars: Os Últimos Jedi é um sucesso inequívoco. Com 560 milhões de dólares em caixa com menos de uma semana em cartaz, a aventura espacial foi acolhido pelo público e abraçado pela crítica. Mas tem uma turma torcendo o nariz. Uma turma que acredita que o filme de Rian Johnson é uma antítese de tudo que Star Wars representa e que, por esse motivo, deveria ser "retirado do cânone" da saga. Isso mesmo que você leu: alguns fãs acham que este Episódio VIII não merece estar ao lado de pérolas como A Ameaça Fantasma e nem deve ser considerado um capítulo oficial da série. Para isso, organizaram até um abaixo-assinado online, que causou mais barulho do que adesões. Basicamente o pessoal que detestou O Despertar da Força por ser "parecido demais" com o Guerra nas Estrelas original agora xinga muito no twitter Os Últimos Jedi por ser "diferente demais".  É tudo muito engraçado se não fosse trágico, e é também o momento em que percebemos que os "fãs" mais radicais foram um pouco exagerados na devoção. Porque fã, meus caros, não é dono de nada.

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De cara, é bom deixar claro que o assunto não tem nenhuma relação com a qualidade do filme. Diz respeito ao suposto direito à propriedade que alguns entusiastas acham que possuem – ao ponto de imaginar que a Disney daria a mínima para uma minoria ruidosa berrando online. O caso de Os Últimos Jedi é a maior evidência que a turma mais, digamos, envolvida com Star Wars muitas vezes se atrapalha com a linha entre criadores, criaturas… e plateia. O processo de criar um filme é fluido, com ideias debatidas entre produtores, roteiristas e diretores. Quando o resultado é uma evolução bacana e tão fora da casinha como Os Últimos Jedi, acredito que seria motivo para celebração. Mas fã reaça é um ser que detesta que mexam no status quo. Pior ainda: ele acha que detém todo o direito sobre o que é melhor para cada personagem, como a narrativa deve se encaminhar, as origens e motivações de todo mundo em cena – mais que as pessoas de fato criando o filme. Não deixa de ser irônico que essa arrogância tenha como objeto justamente Os Últimos Jedi, que é um filme sobre… arrogância!

Rian Johnson dirige Daisy Ridley sem nenhum fã dando pitaco

A avaliação negativa atribuida ao público no site Rotten Tomatoes, que reúne boa parte das críticas dos filmes na gringa, é sintomática sobre essa percepção que alguns fãs tem sobre as obras que cultuam. De acordo com o site, Os Últimos Jedi teria pavorosos 53 por cento de avaliações positivas pelo público – batendo de frente com os 92 por cento da crítica. Nenhum filme da saga, nem mesmo a açoitada nova trilogia que George Lucas dirigiu no começo deste século, tiveram números tão rasteiros.  Seria preocupante se o filme não estivesse faturando o equivalente ao PIB de muito país, o que levantou a suspeita de fraude. Mesmo com a equipe do Rotten Tomatoes garantindo que os números são legítimos (e fazer o contrário seria assinar a própria sentença de morte), um grupo de fãs radicais da "direita alternativa" assumiu a autoria em sua página no Facebook, intitulada "Abaixo o Tratamento da Disney Para as Séries e Seus Fãs" (pode rir, sério). Segundo o Huffington Post, eles alegam o uso de bots para atacar o filme e jogar o percentual no chão. Ah, uma das coisas que incomoda essa rapaziada saudável do grupo? O fato de os novos filmes terem apresentado mais personagens femininos na série, que Os Últimos Jedi não poderia divergir tanto do já defunto "Universo Expandido" e que os homens devem ser recolocados na posição de "senhores da sociedade". Sim, é esse tipo de idiota.

Esse radicalismo não é novidade, mas foi turbinado depois do advento da internet. Imagino o caos que seria se a rede existisse em 1988, quando a Warner anunciou Michael Keaton como protagonista de Batman, que estava sendo preparado por Tim Burton. O estúdio foi inundado por milhares de cartas exigindo a escolha de outro ator, já que Keaton seria "magro demais" ou "esquisito demais" ou "engraçado demais" para retratar o Cavaleiro das Trevas. O que esse tipo de fã se recusa a enxergar é que uma obra artística segue uma visão, e essa visão precisa funcionar sem interferência externa. Burton, no fim, estava certíssimo em sua escolha, já que Keaton mostrou ser um Bruce Wayne perturbado e expressivo, exatamente como o filme que ele protagoniza. O mesmo barulho foi ouvido quando X-Men, de 2000, escalou Hugh Jackman como Wolverine ("Quem é esse cara? Tem de ser Glenn Danzig!") e Ian McKellen como Magneto ("Velho demais, não vai funcionar"). Até Ben Affleck, que é o menor dos problemas de Batman vs Superman, foi recebido com pedradas ao ser anunciado como o Homem-Morcego.

Michael Keaton como Bruce Wayne preocupadíssimo com a opinião do povaréu em Batman

Se alguns devotos de Star Wars fazem piquetes por motivos pífios, nada se compara aos fãs mais radicas de Star Trek, os trekkers. Mais bem organizados, eles acreditam ter mais direito à série criada por Gene Roddenberry que a Paramount, proprietária da marca. Para essa rapaziada, a única coisa que configura "Trek de verdade" é a série clássica dos anos 60. Não sei se é nostalgia como patologia, não sei se é muito tempo livre. Mas o fato é que, para s trekkers, o estúdio só poderia lidar com o "cânone sagrado" da série após uma consulta a eles. Quando a divisão de TV da Paramount anunciou A Nova Geracão no fim dos anos 80, com uma nova tripulação substituindo Kirk, Spock e cia., foi como Sinéad O'Connor rasgando a foto do papa ao vivo no Saturday Night Live: protestos, gritos, agressão verbal, o pacote completo. No fim, a equipe estelar liderada por Jean-Luc Pickard (Patrick Stewart) ganhou tantos fãs quanto seus predecessores e sobreviveu a quatro longas no cinema.

A coisa ficou muito pior quando J.J. Abrams encabeçou o revival de Star Trek no cinema em 2009. Mesmo entregando uma aventura incrível, alinhada com o cinema moderno mas sem esquecer os conceitos de ficção científica sob os quais a série foi construída, Abrams entrou na linha de fogo dos fãs mais fervorosos e reacionários, que simplesmente odeiam um (ótimo) filme simplesmente por não ser o que eles consideram Star Trek. É muita falta de roça pra carpir, não é verdade? Star Trek: Além da Escuridão, segundo filme dessa nova série, também dirigido por J.J., chegou a ser escolhido como pior capítulo de toda a saga, atrás de bombas como Jornada nas Estrelas V: A Última Fronteira (em que William Shatner, o Kirk geriátrico da série de TV, encontra "deus" e pergunta por que ele precisa de uma espaçonave) e o próprio Jornada nas Estrelas: O Filme, que em 1979 levou Trek para o cinema em uma aventura pomposa e entediante. A série Star Trek Discovery, em exibição no Netflix, é a mais nova encarnação do programa e traz um respiro bem vindo a seus conceitos, indo além nas ideias de representatividade e comentário social, além de abraçar a ficção científica e a aventura. Os fãs tradicionais? Ah, eles odiaram, claro. Seja pelo design dos klingons, seja pela tecnologia ou pelo figurino, nunca é o Star Trek "que eles esperaram por doze anos para voltar à TV". Sejamos honestos: nunca seria. Eu só imagino o surto dessa turma se o Star Trek proibido para menores e dirigido por Quentin Tarantino se concretizar…

J.J. Abrams e seu Star Trek: o homem que salvou a série do esquecimento

O fato é que tanta gritaria não faz a menor diferença. Star Wars e Star Trek – e tudo mais que é consumido como cultura pop – são propriedades intelectuais que precisam evoluir para continuar agregando novos fãs. Evolução e mudança exige sacrifício, mas é a única maneira de a arte sobreviver. Fãs que, de alguma forma, enxergam seu objeto de culto como sua propriedade, tem dificuldade em sair da zona de conforto. Talvez por isso a mudança lhes seja tão dolorosa. Mas daí a achar que tem alguma opinião sobre o que está sendo produzido, e como tudo está sendo produzido, é outro papo. Enquanto isso, vamos de petições online. Seja para remover o showrunner de The Walking Dead (por ele ter aprovado a morte de um dos protagonistas), seja para forçar o estúdio responsável por Liga da Justiça a investir mais alguns milhões de dólares e lançar a versão de Zack Snyder do filme (acreditem, crianças, não tem como melhorar aquele desastre).

O papel do fã – se é que existe algo assim – é curtir, acompanhar e, caso não goste do que esteja vendo, fazer a escolha com a própria carteira. Seja trocando o canal, seja não indo ao cinema. Para isso, claro, ele precisa admitir que não é dono de nada, que não faz parte do processo criativo, que é plateia. E aí entramos numa alça do infinito que dificilmente chegará ao fim. Ao menos no caso da petição online para retirar Os Últimos Jedi do cânone oficial de Star Wars, a vergonha alheia bateu forte, e o "fã" responsável pela coisa toda pediu desculpas depois que a coisa saiu de proporção, disse estar sob efeito de medicamentos para dor depois de um acidente que o deixou temporariamente numa cadeira de rodas e que tudo foi resultado de raiva, frustração e falta de grana para pagar as despesas médicas. "Eu não consegui ajuda para pagar minha cirurgia e essa petição consegue tanta atenção?", disse Henry Walsh, espantado com o alcance de seu pedido. "Quantas pessoas por aí precisam de ajuda de verdade e não conseguem esse tipo de atenção?" Ele tem razão. Walsh continua não gostando de Os Últimos Jedi. Mas, no fim das contas, é só um filme.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.