Topo
Blog do Sadovski

Blog do Sadovski

Primeiro teaser de Capitã Marvel traz mais perguntas do que respostas

Roberto Sadovski

19/09/2018 05h33

A essa altura, a Marvel é phD em vender seu peixe. Seis meses antes de seu próximo lançamento, e funcionando como um relógio, o estúdio começa pra valer a campanha de Capitã Marvel – primeiro com uma matéria na Entertainment Weekly, agora com o primeiro poster e teaser. A cena pós-créditos em Vingadores: Guerra Infinita é uma referência direta a ela, com Nick Fury, antes de desaparecer depois do estalar de dedos de Thanos, lhe manda uma mensagem, um pedido de socorro – via pager! É basicamente tudo que o público vislumbrou da personagem até agora – o que, dependendo do ângulo, pode ser ótimo ou péssimo para vender o filme. Capitã Marvel não é como o Capitão América ou o Hulk, que já tinham seu lugar no zeitgeist antes da existência do Universo Cinematográfico Marvel. A heroína pende a balança mais para o lado de Guardiões da Galáxia e Homem-Formiga, basicamente uma folha em branco para desenvolver quem ela é do zero. Ou quase.

E eu jogo esse "quase" porque os fãs acreditam entrar em campo com o conhecimento básico sobre a personagem. Nos quadrinhos, ela é Carol Danvers. Teve seu DNA fundido com o da raça alienígena Kree, o que lhe deu seus poderes cósmicos. Adotou o nome Ms. Marvel, depois Binária, Warbird, de volta a Ms. Marvel, até a versão capitaneada pela escritora Kelly Sue DeConnick, que aumentou a patente da personagem em 2012, quando ganhou o traje que inspira o visual do filme. Ganhou relevo na série recente Guerra Civil II, quando bateu de frente com Tony Stark, o Homem de Ferro, e firmou-se como uma das protagonistas mais interessantes da editora. Nada disso, claro, está no filme dirigido pela dupla Anna Boden e Ryan Fleck. O teaser sugere uma reconstrução completa da heroína, adequada à Marvel do cinema, que é indiscutivelmente distinta dos gibis. E, como teaser, a coisa funciona, já que levanta mais perguntas do que apresenta respostas.

Primeiro, o óbvio. A ação se passa nos anos 90 (os carros, a moda e a Blockbuster em cena não deixam dúvida), com a Capitã Marvel já em posse de seus poderes. Ela literalmente cai na Terra depois de algum conflito cósmico (chutômetro ao máximo aqui) e encontra um planeta que ela não reconhece mais. Alguns flashbacks espertos trazem à tona imagens de sua infância e do treinamento na Força Aérea, mas o fato é que Carol (se é que ela lembra desse nome como seu) se vê como uma estranha numa terra estranha. Tudo, claro, pode ser resultado da Guerra Kree/Skrull, conflito entre as raças alienígenas que termina em nossa bola azul. A "amnésia", a busca pelo inimigo, tudo reconstrói sua jornada do herói para criar uma protagonista não só 100 por cento nova, mas também torná-la o ser mais poderoso da Marvel no cinema. Daí entram em cena coadjuvantes de luxo, como Sam Jackson (como Nick Fury) e Clark Gregg (o agente da S.H.I.E.L.D. Phil Coulson), devidamente rejuvenescidos para uma aventura de época. Ao contrário das HQs, também, a Capitã Marvel aqui é a única heroína, já que sua aventura acontece enquanto o Capitão América está hibernando pós-Segunda Guerra; Hank Pym, o Homem-Formiga, desistiu da carreira de espião uniformizado após perder sua mulher, Janet, numa missão; e Tony Stark sequer teve seu primeiro encontro com o cientista Ho Yinsen numa festa de Ano Novo regada a muito álcool (nem estamos falando de uma caverna no Afeganistão).

Não dá, portanto, para acionar um jogo da adivinhação e chutar a direção que a Marvel pretende com o filme protagonizado por Brie Larson. O teaser pega muito leve no humor, sugerindo um tom diferente da maioria dos filmes do estúdio, alinhado com o clima trágico de Guerra Infinita. Ao passar reto pelo "filme de origem", a Marvel aposta em uma narrativa mais interessante, que combina elementos mais "realistas" de suas primeiras experiências no cinema com o clima cósmico que pode definir suas próximas fases. O mais importante, entretanto, é ver que Capitã Marvel se posiciona como uma aventura única e auto contida, mesmo sendo peça fundamental para o futuro do MCU – em especial para o quarto Vingadores. Até o próximo trailer, os fãs ficarão entretidos com seu esporte favorito: especular. Sobre, por exemplo, a natureza do personagem de Jude Law, apresentado como mentor de Carol, possivelmente o Kree Mar-Vell – embora não esteja descartada a possibilidade de ele ser o vilão da coisa, já que não existe essa fidelidade canina aos quadrinhos. Ou o papel da heroína nesse conflito cósmico, ao lado da tropa de elite Starforce. Ou mesmo o que impulsiona sua mudança de uniforme (o mais "militar", verde e negro, a certo momento dá espaço a um mais "heróico", vermelho e azul). E a cena em que ela está presa, de cabeça para baixo, com energia atravessando sua cabeça? Treinamento, tortura ou algo inesperado?

Para quem nunca ouvira falar da Capitã Marvel antes (eu chutaria uns 90 por cento do público que assistirá o filme), o teaser sugere uma aventura com a qualidade habitual do estúdio, com uma nova heroína, velhos conhecidos, ameaças sobrehumanas, efeitos especiais bacanas e um punhado de easter eggs que vai deixar os aficionados ocupados por semanas (meses?). Uma dica: o gato de Carol, visto nas sombras do poster oficial, não é um gato: é uma espécie alienígena da raça Flerken, capaz de abrigar dimensões compactas em sua boca (!), de disparar filamentos para ataque ou defesa, e de teletransporte instantâneo, ainda que pouco eficiente. Capitã Marvel estreia em 7 de março de 2019. Em cima do Dia Internacional da Mulheres. A Marvel sabe mesmo vender o seu peixe.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.