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Por que Vingadores: Ultimato vai bater a bilheteria de Avatar

Roberto Sadovski

06/05/2019 04h00

Um ano atrás, em meio à euforia do lançamento de Vingadores: Guerra Infinita, eu apostei que o filme ia fazer muito barulho nas bilheterias (duh….), mas que não ia arranhar os números de Avatar. Quando a poeira baixou, a aventura da Marvel entrou para o seleto grupo de produções que renderam mais de 2 bilhões de dólares nas bilheterias mundiais, atrás de Star Wars: O Despertar da Força, Titanic e, em uma distância absurda, o próprio Avatar. Vingadores: Ultimato, entretanto, tem se mostrado um animal diferente. Uma semana atrás, observando sua estreia que pulverizou uma dúzia de recordes, ainda hesitei em enxergar alguma ameaça ao trono da odisseia eco-alienígena em 3D de James Cameron. Hoje, pouco mais de dez dias depois de sua estreia. Ultimato pode tomar a coroa e ocupar o lugar no topo do pódio.

A questão principal aqui é pura matemática. Embora os números de sua segunda semana ainda não estejam consolidados enquanto eu traço essas linhas, Vingadores: Ultimato fecha onze dias em cartaz com impressionantes 2.2 bilhões de dólares em caixa. Já deixou a encrenca dos Skywalker e o romance no navio trágico para trás, ficando a uma distância de 600 milhões de dólares do atual campeão. Como comparação, Ultimato chegou aos 2 bilhões de dólares em onze dias, ao passo que Avatar alcançou o mesmo número depois de 47 dias em cartaz. Se continuar nesse ritmo – e nada indica que possa perder fôlego – a aventura suprema da Marvel vai garantir seu lugar na história como a maior bilheteria de todos os tempos em menos de duas semanas. É impressionante. E é, também, mais do que merecido.

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Os números superlativos de Ultimato, por outro lado, servem para ilustrar o feito inimaginável alcançado pelo filme de James Cameron, que chegou aos cinemas em dezembro de 2009. Não só mercado era diferente (a China, hoje a segunda potência exibidora com suas 60 mil salas, possuía então pouco mais de 5 mil cinemas), como a maneira de vender um candidato a blockbuster era diferente. O ponto aqui é volume. Para o lançamento de Ultimato, a Disney criou uma combinação explosiva da campanha de marketing mais sensacional do cinema pop moderno, criando uma necessidade sem igual de o público precisar assistir ao filme em sua estreia (para não ser prejudicado por spoilers, por exemplo), como garantiu o número máximo de salas ao redor do mundo para criar uma largada verdadeiramente global. Claro que de nada adiantaria se a plateia não tivesse investimento emocional genuíno, fazendo com que o novo Vingadores se tornasse um fenômeno cultural muito além das rodas de cinema. Ser um filme espetacular, emocionante, impactante e definitivo em seu universo não atrapalhou!

Avatar, por sua vez, era uma ideia original, um filme que não adaptava livros ou séries ou games ou quadrinhos. Uma aventura em que a jornada de seu protagonista sempre estava em primeiro lugar, mesmo que sua execução usasse tecnologia 3D imersiva diferente de tudo que o cinema apresentara até então. Cameron conseguiu entregar um espetáculo que as plateia jamais haviam visto, uma ficção científica poderosa que abordava temas relevantes (militarismo invasivo, consciência ambiental) em um pacote de entretenimento sem igual. Acho curioso como hoje, uma década depois de seu lançamento, tanta gente insista em diminuir Avatar como obra cinematográfica inteligente e de altíssimo impacto – o que ela realmente é! Em um mundo de extremos como o cinema pode ser, vale lembrar que a produção foi indicada ao Oscar de melhor filme, perdendo a estatueta para um drama de escala infinitamente menor, o ótimo Guerra ao Terror. Ainda hoje, nada é igual a Avatar, uma empreitada tão complexa que somente um cineasta se arriscou a usar as mesmas ferramentas para contar uma história – no caso, Jon Favreau e seu Mogli, o Menino-Lobo.

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Vingadores: Ultimato é o melhor exemplo de como o cinema em grande escala de hoje precisa de números gigantes para justificar sua existência. Sua estreia retrata o pensamento de que o cinemão pop precisa fazer barulho já na largada, garantindo somas inimagináveis antes de abrir espaço para o próximo grande evento. É óbvio que os filmes dos irmãos Joe e Anthony Russo é fora da curva, e não deve estar nem um pouco preocupado com a estreia de Detetive Pikachu nessa semana. A regra, entretanto, é ver os estúdios posicionarem seus produtos como peças num tabuleiro de xadrez, sabendo que cada lançamento tem vida útil de duas, três semanas antes de abrir espaço para o próximo da fila. O mérito da Marvel é criar filmes de qualidade que consigam ter mais longevidade, como Pantera Negra e Capitã Marvel – dois outros sucessos que entraram no clube do bilhão. Quando Avatar estreou, o jogo era outro: o filme faturou 77 milhões de dólares em seu fim de semana de abertura, mas permaneceu no topo das bilheterias por sete semanas consecutivas, deixando o Top 10 depois de impressionantes quatorze semanas.

O mérito inegável tanto de Vingadores: Ultimato quanto de Avatar, por fim, é mobilizar a plateia em torno de fatias de cultura e entretenimento que se tornam parte do vocabulário pop. Mesmo com seu sucesso concentrado no cinema, sem expandir sua marca em outras mídias, o filme de James Cameron inspirou o parque temático Pandora, The World of Avatar (que aumentou em 15 por cento o público do Animal Kingdom na Disneyworld em Orlando), esquentando sua assinatura pop para o lançamento de quatro sequências (a primeira está agendada para 18 de dezembro de 2020). A Marvel, embora tenha completado sua primeira grande saga no cinema – com um epílogo, Homem-Aranha: Longe de Casa, agendado para 2 de julho -, continua seu universo cinematográfico com a volta de personagens já consagrados (como Thor, Pantera Negra, Doutor Estranho e os Guardiões da Galáxia) além de novas apostas (Os Eternos, Shang-Chi – O Mestre do Kung Fu) e da expansão na plataforma de streaming Disney+ (com as séries Loki, WandaVision, Gavião Arqueiro e Falcão e o Soldado Invernal, todas com histórias pós-Ultimato). No fim, grandes números interessam mesmo aos contadores dos estúdios que pagam as contas. Até porque, para deixar as coisas em perspectiva, cravar um campeão é questão de ponto de vista: E.T. passou absurdas 44 semanas nos Top 10 das bilheterias em 1982, dezesseis delas em primeiro lugar; e o maior fenômeno da história do cinema, campeão inatingível nas bilheterias com a renda corrigida de quase 4 bilhões de dólares, ainda é E o Vento Levou.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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