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Blog do Sadovski

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Novo Cemitério Maldito é versão morna da obra de Stephen King

Roberto Sadovski

09/05/2019 07h28

Vamos ser honestos. A versão de Cemitério Maldito que Mary Lambert dirigiu em 1989 é um filme de terror bem meia boca. Claro, traz algumas imagens poderosas – em especial o reencontro trágico do médico Louis Creed com sua mulher, Rachel -, mas por fim troca a sutileza perturbadora do texto de Stephen King por uma série de sustos fáceis que culmina no final desolador. A boa notícia é que essa nova versão, sob o comando da dupla Kevin Kölsch e Dennis Widmyer, traz uma atmosfera mais sombria com produção mais caprichada. O texto de Jeff Buhler toma algumas liberdades com as palavras do mestre, mas traduz seus temas com a mesma angústia. O problema mesmo é que o filme é econômico nos sustos – sempre eficientes, nunca duradouros. E isso, para um terror com a assinatura de Stephen King, é o maior dos pecados.

É certo que Cemitério Maldito não é um de seus livros mais fáceis de migrar para outra mídia. No papel, King tomou seu tempo para desenvolver uma história que, se na superfície é sobre mortos que voltam à vida, é também um estudo trágico sobre as cinco fases do luto: da negação à aceitação, os passos necessários para que possamos seguir em frente ao perder entes queridos. A tragédia nasce do amor, sentimento genuíno que leva a família Creed ao se mudar do caos de Boston para a tranquilidade do interior do Maine, onde o médico Louis (Jason Clarke) e sua mulher, Rachel (Amy Seimetz), planejam passar mais tempo com os filhos, a doce Ellie (Jeté Laurence) e o caçula Gage (os gêmeos Hugo e Lucas Lavoie). Sua nova casa é enorme, com o único inconveniente de estar colada a uma rodovia em que caminhões zunem em velocidade supersônica.

Tudo azul: Jud e Louis inspecionam o cemitério da bicharada

É bem cedo na trama quando a família descobre que um cemitério de animais faz parte de sua propriedade, cuja história é explicada pelo vizinho boa praça Jud (John Lithgow). Ele aparece quando mãe e filha testemunham um grupo de crianças em uma cerimônia para enterrar um cão morto – a garotada em fila indiana, mostrada no trailer com máscaras sinistras, só surge aqui e não tem nenhum impacto na história! O gatilho da trama é a morte do gato de Ellie, Church, o que causa o primeiro erro cometido por Louis: Jud lhe conta que, pouco além do lugar de repouso dos bichos, existe um antigo cemitério nativo americano, onde eles enterram o gato em um ritual. Como resultado, Church volta – mas não volta o mesmo. Ao quebrar a ordem natural da vida e da morte, impedindo sua filha de atravessar as cinco fases do luto, Louis rompe também a barreira entre o mundo dos vivos e um outro lado que nem sempre abriga entidades benevolentes. O retorno do gato (os produtores encontraram felinos demoníacos para o papel) dispara uma sequência de enganos que conduz Louis em uma espiral descendente de morte e ressurreição que, por fim, cobra um preço altíssimo.

A conexão de Cemitério Maldito com a platéia é clara. Ao emoldurar com um conto de terror sobrenatural uma história sobre a dificuldade em aceitar a morte, e como traumas do passado continuam no comando de nossas vidas, Stephen King criou uma história que apavora por ser um espelho. Perverter o ciclo da vida é fonte do horror mais abjeto, o que o mestre faz à perfeição. É uma história sobre culpa e sobre acontecimentos que nem sempre têm explicação. Pena que boa parte dos cineastas que adaptam seus livros mirem em seus aspectos fantásticos e esqueçam justamente do reflexo de nossa própria humanidade. Suas melhores adaptações são aquelas que nunca perdem o foco dos personagens, de O Iluminado (em que Stanley Kubrick alterou o texto original consideravelmente, paradoxalmente criando a melhor adaptação de King) ao recente It – A Coisa, passando por Carrie, A Estranha, Conta Comigo, Louca Obsessão e Um Sonho de Liberdade. As duas versões de Cemitério Maldito ficam no meio do caminho, sem se aprofundar nos dilemas dos protagonistas e sem explorar o potencial completo de seus temas fantásticos, mas ainda criando uma atmosfera que consegue divertir.

Mais azul: com garras, Ellie seria uma ótima X-23!

No caso do filme de Kölsch e Widmyer, eles mantêm pulso firme na narrativa até a metade do segundo ato. Toda a trama está armada: do fantasma de um adolescente em decomposição que avisa a Louis para não mexer na barreira entre os mundos até o devastador acidente que dispara o clímax da história. Até aí, é um filme sobre a dificuldade em lidar com a morte, travestido de conto sobrenatural. No momento que o médico, tomado pela dor da perda de sua filha, apela para o mesmo ritual que ressuscitou Church, o terror se torna vulgar, apelando para sustos fáceis e para uma morta-viva que, francamente, ficou cafona e exagerada. A trama paralela do trauma de infância de Rachel – a culpa da morte de sua irmã deficiente, confinada a uma cama -, surge como uma desculpa, e não para impulsionar a ação. A mudança da conclusão da história, embora carregue o espírito do texto de King, parece uma desculpa para diminuir os paralelos com o filme de 1989: fazer de Ellie a vítima, e não Gage, é trocar seis por meia dúzia. E nada justifica o uso abusivo de clichês embolorados como fumaça simulando névoa, ranger de portas e barulho de madeira estalando pelas paredes da casa. Além do literal susto do gato, que salta da escuridão em meia dúzia de cenas.

Cemitério Maldito, por fim, serve como aperitivo para a chegada de It – Capítulo 2, uma adaptação mais robusta da obra de Stephen King que segue o filme de terror de maior bilheteria da história. Ao contrário de Kölsch e Widmyer, o argentino Andy Muschietti equilibrou com mais eficiência o mundano e o fantástico do universo do autor, com personagens mais conectados com o público, resultando em maior envolvimento e identificação com a trama. Em um mundo em que o cinema de terror ainda teima em se entregar a bobagens pseudo realistas que, no fim das contas, ninguém se importa (como o recente A Maldição da Chorona), o texto e as ideias elegantes de Stephen King, mesmo em mãos menos talentosas, ainda sobressaem. Mas colocar QUALQUER UM além dos Ramones no encerramento com "Pet Sematary" é a maior heresia que o novo Cemitério Maldito poderia cometer.

Assista ao trailer de "Cemitério Maldito"

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Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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