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Blog do Sadovski

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De Sandman a Escalpo, 12 HQs que definiram o revolucionário selo Vertigo

Roberto Sadovski

2023-06-20T19:04:36

23/06/2019 04h36

A DC Comics encerrou as atividades do selo Vertigo, sua "casa" para histórias em quadrinhos mais adultas, mais ousadas e mais espetaculares desde 1993. A explicação da empresa faz sentido: a ideia é reunir todas as publicações da editora sob a mesma égide, organizada como DC Kids (mirando o público infantil dos 8 aos 12 anos), DC Comics (as publicações em geral, em especial os super-heróis como Superman e Batman), e DC Black Label, mirando em um conteúdo mais maduro. Ou seja, é uma mudança mais cosmética do que prática. Ainda assim, é uma mudança significativa, em especial para quem devorou HQs ao menos pelas últimas três décadas e sabia que o selo Vertigo na capa de um gibi significava, ao menos, autores com maior liberdade artística em histórias que desafiavam as fórmulas do mercado – o que ela uma paulada, já que ainda fazia parte de uma grande corporação.

Embora a Vertigo tenha iniciado suas atividades em 1993, sob a direção da editora Karen Berger, suas sementes começaram a ser plantadas em títulos regulares da DC, em especial aqueles conduzidos por uma nova geração de roteiristas, muitas vezes "importados" da Inglaterra, como Neil Gaiman, Grant Morrison, Alan Moore e Jamie Delano. Não é ao acaso que muitas dessas histórias, quando republicadas, já estampavam o selo Vertigo, consolidando seu status como produto de qualidade. Não por acaso, várias dessas histórias e personagens ganharam adaptações caprichadas em outras mídias, como Constantine, Marcas da Violência e Fonte da Vida no cinema, além de Lúcifer e Preacher na TV. O fim do selo não deve frear o trabalho em outras adaptações, como Y – O Último Homem e 100 Balas.

A lista aí embaixo está longe de ser a definitiva, mas marca doze ocasiões em que as publicações Vertigo atingiram um nível de excelência absurdo. É uma mistureba, desde séries longevas e graphic novels, passando por títulos iniciados na DC e relocados posteriormente sob a asa da Vertigo. É, também, uma amostra do melhor que as histórias em quadrinhos podem oferecer como veículo para contar histórias. Não é um ranking, e sim um listão sem ordem de preferência – tudo, sem exceção, foi publicado no Brasil ao longo das últimas décadas. Boa caçada, e boa leitura!

MONSTRO DO PÂNTANO

O personagem criado por Len Wein e Bernie Wrightson em 1971 experimentou um relançamento em 1982, como um herói sobrenatural encarado como uma lenda urbana nos pântanos da Louisiana. A grande virada ocorreu quando o título foi assumido pelo roteirista Alan Moore, que mudou completamente a origem da criatura ao ganhar liberdade criativa total pela editora Karen Berger: de um homem modificado por uma reação química e uma explosão no lodo do pântano, o Monstro do Pântano tornou-se uma criatura feita de plantas que pensavam ser um homem. Foi o começo de uma saga que lidou com questões ambientais, crise de identidade e momentos do mais puro terror. O título passou para o selo Vertigo em sua edição 129 de 1993 e lá ficou, por mais dois volumes, até 2006.

PATRULHA DO DESTINO

Este time de aberrações já era esquisito desde sua criação em 1963. Quando a série foi relançada em 1987, as histórias ainda traziam um sabor mais tradicional de super-heróis, mas após dezoito edições, e a entrada do roteirista Grant Morrison, a Patrulha do Destino se tornou o cantinho dos aventureiros mais esquisitos dos quadrinhos. Usando elementos de surrealismo e dadaísmo (!), o autor usou as aventuras dos heróis como desculpa para histórias bizarras, que abraçavam da paródia à homenagem, flertando sempre com o absurdo do conceito de vigilantes fantasiados que, por conta de algum acidente trágico e/ou violento, ganhavam a) traumas físicos e psicológicos e b) super poderes incríveis. O título passou para o selo Vertigo em 1993, lá ficando por dois gloriosos anos.

HELLBLAZER

John Constantine foi criado por Alan Moore nas páginas de Monstro do Pântano. Mas foi em Hellblazer que o ocultista britânico mostrou até onde a DC estava disposta a apostar em um título de horror. A resposta: bem longe. Do primeiro arco, escrito por Jamie Delano, a histórias matadoras escritas, entre outros, por Garth Ennis, Warren Ellis, Peter Milligan e Brian Azzarello, a série se tornou garoto-propaganda da Vertigo, para onde se mudou na edição 63, em 1993, e ficou por duas décadas, até a derradeira edição 300. O que veio depois, nota-se, não foi digno de nota. Assim como boa parte dos personagens abraçados pelo selo, John Constantine não se mistura muito bem com super-heróis, funcionando bem melhor isolado em seu cantinho. Um cantinho, diga-se, de histórias macabras, surpreendentes e de alto impacto. E quem mais enganaria o próprio diabo e sairia vivo pra contar?

TRANSMETROPOLITAN

No que talvez seja a obra-prima do constantemente genial Warren Ellis, Transmetropolitan abraça uma distopia cyberpunk ao mostrar o futuro sob as lentes do jornalista gonzo Spider Jerusalem. Ao deixar um auto imposto exílio, ele bate de frente com o "sistema" ao combater o abuso de poder de seus detentores, usando como arma seus artigos relevadores e incômodos. É uma alegoria nada sutil do poder da palavra, e de até onde os poderosos são capazes de ir para preservar seus privilégios. Tudo isso é emoldurado por um futuro tecnologicamente avançado e muito sujo, em que política e fama caminham lado a lado – tudo ilustrado magnificamente por Darrick Robertson. Originalmente publicada sob a bandeira Helix na DC, Transmetropolitan saltou para a Vertigo em um total de 60 edições – todas colecionadas em encadernados bacaninhas.

WE3

Grant Morrison e Frank Quitely publicaram We3 como minissérie, com a versão encadernada trazendo algumas páginas a mais lançada em 2005. É uma história emocionante e acelerada, que tem um projeto para ser levada ao cinema flutuando há alguns anos – o roteiro, do próprio Morrison, está pronto e acumulando pó em alguma gaveta. Este conto de ficção científica demonstra o que acontece quando a humanidade decide brincar de Deus. Criados para fins militares, um cachorro, um gato e um coelho são fundidos ciberneticamente a armaduras de combate avançadas, que também confere aos animais um nível primário de inteligência. Quando sua destruição é ordenada, a cientista responsável os solta no mundo, e o que se segue é uma caçada surpreendente, violenta e que, não raro, traz um nó na garganta. Uma mistura inusitada do filme A Incrível Jornada com RoboCop, We3 foi definida pelo próprio autor como "Disney com presas". Fofo, mas letal.

FÁBULAS

Imagine se os personagens dos contos de fadas fossem reais. Imagine também que eles tenham sido expulsos de seus reinos por um Adversário poderoso, obrigados a viver entre meros mortais, seja em um edifício em Nova York, seja isolados do mundo em uma fazenda. Pode até parecer aquela série de TV, mas Fábulas, criação de Bill Willingham e Mark Buckingham, surgiu muito antes – mais precisamente em 2002, estendendo-se por 150 edições e um punhado de especiais, amarrando uma das histórias mais fantásticas dos quadrinhos modernos. O motivo é a caracterização impressa por Willingham aos personagens, recriando, por exemplo, Lobo Mau, Branca de Neve e Pinóquio em um épico sobre família, lealdade, sobrevivência, preconceito, magia e guerra. A cada novo arco dramático, a nova contextualização de velhos conhecidos era surpreendente, com a série caminhando para um clímax tão inesperado quanto emocionante.

100 BALAS

Se existe uma série nos quadrinhos prontinha para ser adaptada para a TV por uma HBO da vida, é 100 Balas. É uma mistura de gêneros clássicos, do noir ao pulp, em um thriller sobre crime e conspirações, que extrapolou sua premissa inicial perfeita: pessoas aleatórias, que sofreram alguma injustiça, recebem de um estranho informação sobre que exatamente arruinou suas vidas, uma arma e uma centena de balas não rastreáveis. Será que, com meios e motivos em mãos, alguém executaria sua vingança com a certeza de não ser descoberto? Um dilema moral, traduzido em cem edições (duh) que, se a princípio pareciam desconectadas, mostram-se na evolução narrativa da história profundamente entrelaçadas. É uma saga sem heróis, com texto ágil e moderno de Brian Azzarello, executada à perfeição com o traço estilizado e limpo de Eduardo Risso. HBO, fica a dica….

ESCALPO

Longe dos super-heróis da Marvel, o roteirista Jason Aaron, ao lado do ilustrador R.M. Guéra, foram buscar nos problemas da vida real que afligem a população nativo-americana para criar seu "western policial". Dashiel Red Horse volta à reserva onde ele nasceu na Dakota do Sul após uma ausência de quinze anos. O presidente do conselho tribal (e chefe da polícia local) contrata Red Horse para o departamento de polícia em uma tentativa de mitigar a posição de mestiços e aumentar o efetivo de nativos. Ele logo se destaca como um sujeito impiedoso e eficaz, desbaratando cartéis de traficantes locais, mas esconde o segredo de ser, na verdade, um agente do FBI infiltrado, inserido na reserva para descobrir evidências do assassinato de dois outros agentes três décadas antes. No texto poderoso de Aaron, que se inspirou na vida de um ativista nativo-americano preso pelo assassinato de dois agentes numa reserva em 1975, entra o preconceito, a pobreza (quase sempre extrema), os problemas enfrentados por uma minoria sufocada – drogas e álcool no topo da lista – e a busca por uma identidade cultural perdida com o avanço dos colonizadores, que teimam em impôr seus costumes "civilizados" aos verdadeiros donos da terra. Escalpo é material poderoso.

OS INVISÍVEIS

Sentiu aquela comichão em revisitar Matrix nos 20 anos de lançamento do filme? Então permita-se sugerir uma espiada em Os Invisíveis, em que Grant Morrison, ao lado de artistas como Jill Thompson, Chris Weston e Phil Jimenez, criou uma ficção científica anárquica em que um grupo de rebeldes, parte da organização secreta O Colégio Invisível, combate deuses alienígenas interdimensionais que já escravizaram parte da humanidade – sem que ninguém se desse conta. Soa familiar? Os Invisíveis, porém, vai ainda mais fundo no conceito e na ambientação, adicionando viagem no tempo, magia e ultraviolência à mistura. O grupo principal, que traz uma telepata, uma mulher trans brasileira e um hooligan que pode ser a próxima encarnação do Buda, mostra que não há limites para mente criativa de Morrison. A série foi publicada ao longo de 59 edições, divididas por três volumes entre 1994 e 2000.

Y – O ÚLTIMO HOMEM

Às vezes, o conceito mais simples dá origem às narrativas mais intrincadas. Como em Y – O Último Homem, em que o escritor Brian K. Vaughn e a desenhista Pia Guerra partem de uma única pergunta: o que aconteceria se, sem explicação e ao mesmo tempo, todo mamífero macho no planeta morresse? A resposta é dada nessa ficção científica distópica, que acompanha a jornada do único homem ainda vivo (e seu macaco de estimação) em um mundo devastado. As implicações da trama, afinal, são infinitas. Como fica a estrutura do poder, já que a esmagadora maioria dos governos ao redor do globo é composta por homens? E os serviços básicos, como policiais, bombeiros e médicos, também com maioria masculina? Como fica a posição tanto de misândricas radicais como de mulheres antes submissas a seus parceiros? Vaughn tece um mundo fascinante amparado em um mistério, já que um grupo, ao descobrir o único sobrevivente, passa a buscar respostas para a tragédia e também um caminho para o futuro. A série foi fechada em sessenta edições, publicadas entre 2002 e 2008, e logo deve ganhar versão para a TV.

PREACHER

Se não fosse pelo espaço aberto pelo selo Vertigo, dificilmente uma série tão polêmica, violenta, radical e religiosamente controversa como Preacher não teria saído da imaginação do roteirista Garth Ennis, que ao lado do desenhista Steve Dillon publicou 75 edições entre 1995 e 2000. O pastor Jesse Custer é possuído pelo Gênesis, força sobrenatural, fruto do relacionamento proibido de um anjo e uma demônia, que lhe confere o pode da palavra divina: se ele mandar alguém fazer qualquer coisa, essa pessoa é compelida a fazer, não importa o que seja, mesmo sendo contar os grãos de areia em uma praia. Ao descobrir que Deus abandonou sua posição no Paraíso, Jesse parte numa jornada, ao lado de sua namorada, Tulip, e do vampiro irlandês Cassidy, para encontrar e tirar satisfações com o Criador. Acredite, a série se torna muito mais bizarra do que sua premissa, em uma saga que envolve uma sociedade secreta, a família disfuncional do pastor,  e… John Wayne! O canal AMC finalmente transformou Preacher em série, após meia dúzia de tentativas frustradas para cinema e TV, e anunciou sua quarta e última temporada para agosto deste ano.

SANDMAN

Sandman, o Santo Graal da linha Vertigo, mudou as histórias em quadrinhos em diversas formas. A obra prima de Neil Gaiman mostrou que era possível reinventar conceitos antigos de forma original e revolucionária – na história da DC, o Sandman tivera duas outras encarnações, um vigilante da era pulp e um super-herói mais tradicional. Nas mãos de Gaiman, porém, sua jornada resultou em uma mitologia moderna sem igual, uma saga de deuses, monstros e demônios em histórias amarradas com uma dose gigantesca de fantasia, mitologia, religião, folclore e terror. Sandman é Morfeu, o Sonho dos Perpétuos, irmãos imortais que definem aspectos da vida humana. A série começa com sua captura nas mãos de um líder cultista (que pretendia aprisionar sua irmã mais velha, a Morte), e estende-se por cenários e situações que trafegam pela leveza, pelo desespero, pela aventura e pela emoção – tudo amarrado em 75 edições (a primeira estampando o selo Vertigo foi a de número 47) entre 1989 e 1996. É uma história sobre histórias, sobre o poder da fantasia, sobre a importância do ímpeto criativo, sobre Céu e Inferno e a inevitabilidade das mudanças. Sobre a condição humana, acima de tudo, vista sob o prisma de um ser que existia antes da própria existência.

Ao nublar a barreira entre histórias em quadrinhos e literatura, Sandman também tornou-se um sucesso comercial, com suas edições encadernadas (dez no total, cinco em edições absolute de luxo) rotineiramente voltando aos mais vendidos a cada relançamento – foi uma das primeiras graphic novels a entrar na prestigiosa lista de best sellers do New York Times, ao lado de Maus, Watchmen e Batman – O Cavaleiro das Trevas. É a série em quadrinhos preferida da maioria dos mortais que ainda não lê histórias em quadrinhos. Se você está nessa lista, é seu dia de sorte, já que a Panini está relançando a série em seus dez volumes em uma versão bastante acessível. É literatura fantástica em seu melhor, é história em quadrinhos revolucionária de excelência incontestável. E é, também, o maior legado da Vertigo, que deixa agora uma lacuna imensurável na cultura pop.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.