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Revendo Star Wars: Disney trouxe nostalgia, tropeços e... um novo clássico!

Roberto Sadovski

18/12/2019 01h58

A Disney comprou a Lucasfilm em 2012 – e obviamente não foi por causa de Willow! Um novo filme da saga Star Wars logo entrou em pauta, e a gerência recém-empossada, representada pela presidente da empresa, Kathleen Kennedy, fez questão de deixar as cartas na mesa. A principal foi a decisão de não usar o argumento rascunhado por George Lucas, que ficou 4 bilhões de dólares mais rico com o negócio, mas ganhou um tapinha nas costas e teve suas ideias ejetadas (uma decisão esperta, já que basta um único Jar Jar no universo). Em vez disso, o futuro de Star Wars foi parar nas mãos de J.J. Abrams, que anos antes havia relançado outra série de aventura e fantasia, Star Trek. O Despertar da Força chegou aos cinemas em dezembro de 2015 e reacendeu a paixão pela saga, ao mesmo tempo em que os engravatados buscavam caminhos para ampliar o escopo da galáxia muito distante.

Tudo, claro, fazia parte de um plano. A Disney já colocara as mãos na Marvel, transformando a editora/estúdio em uma força bilionária nos cinemas. Na verdade, integrar Star Wars à Casa do Mickey parecia mesmo a decisão mais lógica no mercado cinematográfico. Guerra nas Estrelas sempre foi, afinal, muito mais que uma série de filmes: desde os anos 70, George Lucas usou sua criação como um trampolim multimídia que transcendeu os cinemas para dominar a cultura pop de ponta a ponta. O Despertar da Força, portanto, surgiu como um produto artístico, claro, mas também calculado para reposicionar a marca como tsunami cultural e financeiro. Não foi ao acaso que o roteiro de Abrams, escrito em parceria com Lawrence Kasdan (responsável, entre outros, por O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi) e Michael Arndt, repetia a estrutura narrativa do Star Wars de 1977, com direito a tramas paralelas que culminam em um ataque acelerado à Estrela da Mort…. errr, à Base Starkiller.

Darth Vader em Rogue One: apelão!

O que não é, de forma alguma, um demérito: O Despertar da Força é uma aventura digna, criada por um fã, que recuperou (em parte) o elenco da trilogia original e apresentou uma nova geração de personagens, em especial o trio Rey (Daisy Ridley), Finn (John Boyega) e Poe (Oscar Isaac) – além do vilão Kylo Ren (Adam Driver). De cara o mundo de Star Wars tornou-se mais diverso e representativo, refletindo a pluralidade social do novo século (o que, por algum motivo inexplicável, irrita absurdamente o fã ranheta que chora quando seu herói não é homem, branco e hétero). Abrams usou a fundação erguida por Lucas para construir uma nova saga, respeitando a mitologia mas avançando a narrativa. Deu certo, e o filme tornou-se um colosso de mais de 2 bilhões de dólares, recolocando a série em seu lugar no pódio da cultura pop. Mais ainda: a resposta do público convenceu os donos da bola que esperar alguns anos entre cada dose de Star Wars não era o que os fãs queriam. Eles queriam, ao menos teoricamente, mais. Então mais eles teriam!

A ideia de expandir o universo não era das piores. Afinal, livros, games e HQs ampliaram consideravelmente o escopo de Star Wars por décadas, criando uma mitologia rica e diversa. Para o cinema, os produtores decidiram não se afastar muito da saga original, e Rogue One foi concebido como um recorte entre os episódios 3 (A Vingança dos Sith) e 4 (Uma Nova Esperança). Sem o peso de lidar com as ramificações e tragédias da família Skywalker, a aventura foi estruturada como um "filme de roubo", materializando parte da história de Star Wars que antes só existia em texto – no caso, um parágrafo do texto introdutório do filme original. Dirigido por Gareth Edwards (Godzilla), Rogue One foi uma produção complicada, que teve seu clímax refeito inteiramente, com as cenas adicionais escritas e dirigidas por Tony Gilroy. Ainda assim, terminou como um "filme de guerra" trágico e emocionante, com um dos melhores finais de toda a saga – e garantiu mais 1 bilhão para o estúdio.

Luke Skywalker enfrenta Kylo Ren no belíssimo Os Últimos Jedi

Curiosamente, os novos filmes sob a asa da Disney pareciam causar um certo distúrbio na Força. Um grupo de fãs (sim, os fãs ranhetas) passou a apontar rachaduras na armadura dessa nova fase da saga. A pressão chegou a um ponto crítico em 2017, quando Os Últimos Jedi, dirigido por Rian Johnson, chegou aos cinemas. Tudo foi motivo de gritaria, do destaque dado a novos personagens que deixaram este mundo ainda mais diverso – em especial Rose Tico, interpretada por Kelly Marie Tran, alvo especial da fúria desse pessoal sem noção – ao modo como o lendário Luke Skywalker (Mark Hamill, que sequer teve uma linha de diálogo em sua única cena no filme anterior) foi retratado. O problema desse tipo de fã é soberba, é achar que são donos de filmes como Star Wars ou Star Trek, que os estúdios tem de criar aventuras exatamente como eles enxergam em suas mentes, do contrário o ódio online é certo. Nesse caso, eu estou totalmente do lado de Rian Johnson: como fã, ele acredita que o papel de um cineasta é desafiar as expectativas, e não entregar uma história desprovida de surpresas. Os Últimos Jedi é, de longe, o melhor filme da saga desde O Império Contra-Ataca, justamente por trazer algo novo e surpreendente a um universo já tão esmiuçado. Ah, a raivinha dos fãs ranhetas não deu em nada, já que o filme também ultrapassou 1 bilhão de dólares nas bilheterias.

Se na superfície tudo parecia suave no mundo de Star Wars, os bastidores encontravam-se em ebulição. O primeiro problema surgiu com Han Solo, aventura do contrabandista imortalizado por Harrison Ford, que aqui surge em sua juventude, interpretado por Alden Eirenreich. A produção caminhava sob direção da dupla Phil Lord e Chris Miller (Uma Aventura Lego, Anjos da Lei), que injetaram humor muito bem vindo em seu filme. Essa visão, porém, entrou em choque com os planos traçados por Kathleen Kennedy e cia., e os diretores terminaram substituídos com 70 por cento do filme rodado por Ron Howard. O roteiro foi reescrito, o filme teve seu lançamento adiado e quando viu a luz do dia era um inevitável Frankenstein. Para ser honesto, revisto aqui no sofazão, sem a pressão de ser "mais um Star Wars no cinema", Han Solo é uma aventura decente, que traz ao menos uma grande sequência (o roubo do trem é uma paulada!) e uma conclusão que não decepciona. Mas sofreu nas bilheterias, e os planos da Disney/Lucasfilm para criar uma série de "Histórias Star Wars" voltou para o estaleiro.

Han Solo: seria Alden Ehrenreich o novo Taylor Kitsch?

A verdade é que Star Wars sempre funcionou melhor em doses homeopáticas. Para os veteranos, a espera entre cada novo filme era de três anos, com o universo expandido em outras mídias preenchendo as lacunas e saciando o apetite – Clone Wars, a série animada na TV, é uma pequena obra prima. Mas o consumidor médio de cultura pop foi "estragado" por Harry Potter (um filme a cada dezoito meses), O Senhor dos Anéis (uma aventura por ano) e, finalmente, Marvel (dois a três filmes a cada ano!). Star Wars é um animal diferente. Não é um fenômeno literário finito como os dois primeiro, e nem um universo com (literalmente) milhares de personagens desovados mensalmente na forma de gibis. A construção narrativa imaginada por George Lucas exigia um respiro maior, até para ter tempo de lapidar cada aventura com cuidado – a trilogia original ainda é perfeita; a nova trilogia foi atropelada pelo ego de seu criador. Dois anos entre os filmes da saga, entrecortados por outras aventuras aleatórias, mostrou ser um pouco demais. Exatamente por isso que o freio de mão nessa galáxia será puxado depois de A Ascensão Skywalker (já visto, textão aqui na quinta-feira).

O estúdio, claro, aprendeu a lição. E a saga ganhou um novo playground com o lançamento da plataforma de streaming Disney+. O formado seriado permite que novos criadores mergulhem na mitologia criada por George Lucas (e expandida por J.J. Abrams, Rian Johnson, Gareth Edwards e, vá lá, Ron Howard) com histórias que podem ter escopo menor e tempo para ser desenvolvidas. The Mandalorian, criada por Jon Favreau, é um sucesso, com seu Baby Yoda se transformando no grande vetor pop de 2019. A mistura do mangá Lobo Solitário com western ao estilo Sergio Leone resultou em uma das melhores histórias no universo Star Wars desde sua concepção (ao menos é o que dizem, já que oficialmente o Disney+ só chega por aqui em novembro de 2020….). Tramas boladas como filmes devem ser retrabalhadas para o streaming, como o retorno de Ewan McGregor como o mestre Jedi Obi-Wan Kenobi em uma série que logo começa a ser rodada. No cinema, o futuro é uma incógnita, com novos filmes assinados por Kevin Feige (sim, o chefão da Marvel) e por Rian Johnson (sorry, haters, mas o cara é muito bom) ainda em desenvolvimento. Com a Disney, para o bem e para o mal, Star Wars deixou de ser um produto independente que dependia unicamente da mente criativa de George Lucas para tomar seu lugar em uma corporação que especializou-se em fabricar e embalar sonhos. Como bônus, encontrou seu pulso depois que a Nova Trilogia trocou emoção por inércia – a choradeira estática de Anakin Skywalker não chega aos pés dos dilemas emocionais de Rey. O saldo não é mesmo de todo ruim.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.