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Já assistiu a Parasita? Então conheça outros filmes do gênio Bong Joon Ho

Roberto Sadovski

13/02/2020 03h54

Já faz quase uma semana em que vivemos num mundo onde o sul-coreano Parasita ganhou o Oscar de melhor filme. Um mundo melhor, portanto, mesmo com as trevas da ignorância sempre à espreita. Nunca é demais ressaltar que a vitória dessa obra prima moderna deve-se, entre outros fatores, à política pública audiovisual robusta em vigor na Coreia do Sul desde meados dos anos 1990: foi quando os cinemas foram tomados completamente por um blockbuster americano, e o governo tomou medidas depois da gritaria dos cineastas locais.

A produção cultural, pilar da economia criativa, ganhou o aditivo de incentivos, da adoção de cotas, um fundo setorial específico e investimento em material humano, ancorando a criação de produtoras e colocando dinheiro para que o mundo pudesse prestar atenção no cinema do país. Hoje, uns bons 25 anos depois, a produção local ocupa quase 60% das salas (deixando os pálidos 2% dos anos 1990 para a história), funciona como uma indústria invejável e gera gênios como Bong Joon Ho.

Não é apenas seu nome que enfeita o cinema coerano contemporâneo. Chan Wook Park escancarou as portas do cinema sul-coreado para o mundo quando o espetacular Oldboy foi premiado em Cannes em 2003 – o filme é parte de uma trilogia que inclui Mr. Vingança e Lady Vingança, obras que foram seguidas de outras pérolas como Sede de Sangue, Segredos de Sangue (seu primeiro filme em língua inglesa) e o excepcional A Criada (que entrou em minha lista de melhores filmes de 2016).

Jeen Woon Kim, por sua vez, mostrava talento excepcional desde seus primeiros trabalhos, mas estourou com o terror sobrenatural Medo (título tolo que A Tale of Two Sisters ganhou por aqui), que me deixou com pesadelos por semanas. Recusando-se a ser colocado em uma caixa, Kim fez uma homenagem ao western spaghetti com o espetacular Os Invencíveis, voltou aos arrepios com o suspense Eu Vi o Diabo, e fez sua estréia no cinemão ianque dirigindo Arnold Schwarzenegger (em seu primeiro papel como protagonista depois de deixar a política) no divertido O Último Desafio.

Parasita, o melhor filme de 2019, precisa ser visto no cinema!

O cara do momento, porém, é Bong Joon Ho. Ele deixou a festa da Academia com uma coleção de Oscar (além da estatueta de melhor filme, ele ainda garfou melhor direção, roteiro original e filme internacional), fez os melhores discursos e ampliou a boa vontade com sua obra. Se você ainda não assistiu a Parasita, nada tema! O filme está voltando aos cinemas em grande estilo, ampliando em cinco vezes o número de salas de quando foi lançado em novembro do ano passado.

É a oportunidade para ver o melhor filme de 2019 no lugar certo: no cinema. Depois, o melhor é competar a lição de casa e fazer seu melhor papel de arqueólogo para encontrar e assistir aos seis filmes anteriores com a assinatura de Bong: alguns estão disponíveis em streaming ou em mídia física; já outros…. Boa caçada e comece bem seu ano cinematográfico, devorando um recorte bacana do melhor do cinema sul-coreano. Você não quer ficar por fora das conversas, certo?

CÃO QUE LADRA NÃO MORDE (2000)

Logo em seu filme de estreia, Bong Joon Ho mostrou sensibilidade em retratar o lado sombrio de pessoas aparentemente comuns. Nesta comédia dramática, um professor universitário desempregado irrita-se com o barulho de cachorros em seu compromisso e passa a dar sumiço nos bichos. Uma contadora com desejo de ser famosa passa a investigar o caso, em uma história que abraça temos como idosos solitários largados à própria sorte em Seul, desigualdade social e uma certa perversão que permeia a personalidade de cada um de nós.

Um início modesto para um diretor, então com 31 anos, cheio de ideias.

MEMÓRIA DE UM ASSASSINO (2003)

Em seu segundo filme, Bong mostrou versatilidade ao explorar a história real dos primeiros assassinatos em série registrados na Coréia do Sul, ocorridos entre 1986 e 1991. Memória de Um Assassino marcou também a primeira parceria com o ator Kang Ho Song, aqui no papel de um detetive encarregado da investigação dos assassinatos. A inexperiência com métodos forenses ao se deparar com crimes tão brutais faz com que os policiais envolvidos no caso, inclusive um detetive mais jovem enviado pela polícia de Seul, cometam erros primários, colecionando suspeitos escolhidos "no olho".

A série de erros na solução do caso reflete o desespero dos protagonistas, humanizando de forma inesperada um gênero cinematográfico tão batido como o policial ao adicionar comédia e sátira social à mistura. Um sucesso de público que tem Quentin Tarantino como um de seus admiradores, e também um dos melhores filmes já produzidos na Coréia do Sul.

O HOSPEDEIRO (2006)

O sucesso internacional chegou para Bong com essa mistura de terror, ficção científica, sátira social e filme de monstro. Na superfície, O Hospedeiro é sobre uma criatura que leva uma jovem em seu ataque e as tentativas de seu pai em resgatá-la. Mas o cineasta já havia mostrado seu total desinteresse em abordar assuntos de forma rasa, e cada elemento é tratado com profundidade insuspeita. A começar pela família no centro da trama, ancorada por um sujeito simplista (pense em Forrest Gump, só que interpretado por Kang Ho Song), sua irmã (uma arqueira de nível olímpico frustrada com sua situação atual), seu irmão (ativista político, inteligente e alcoólico) e sua filha, capturada pela criatura monstruosa que emerge do rio.

Em vez de construir o suspense lentamente, Bong faz o monstro surgir da forma mais natural possível, em pleno dia, com as margens do rio lotadas de pessoas em seu momento de lazer – momento este transformado em uma carnificida brutal. Depois deste gatilho acachapante, a trama evolui para a ação militar que tenta eliminar pateticamente a criatura e os esforços de uma família disfuncional em tornar-se, mais uma vez, completa.

O Hospedeiro é uma sátira política nada sutil (o governo é retratado como burocrático e inepto), mas Bong não poupa ninguém com suas lentes, nem mesmo seus protagonistas. Bom, talvez ele poupe o monstro, que é a maior vítima da ação ignorante das autoridades.

MOTHER – A BUSCA PELA VERDADE (2009)

Em seu quarto filme, Bong mais uma vez mostrou interesse pelo terror. Mas não o estilo sobrenatural que dominou parte do trabalho de seus contemporâneos, e sim a devastação causada por uma pessoa a outra. A "mãe" do título é uma viúva sem nome, determinada a provar que seu filho, um jovem com problemas mentais, é inocente de uma acusação de assassinato. Para isso, ela passa a realizar uma investigação totalmente amadora do caso, resultando em momentos do mais puro humor involuntário e ácido.

Quando a trama evolui para um estudo sobre obsessão, o diretor revela camadas sobre pessoas comuns e as coisas horríveis que até os mais inocentes são capazes de fazer para proteger a quem ama. Hye-Ja Kim é absolutamente hipnotizante como a personagem-título, ressignificando a imagem da atriz, até então conhecida na Coréia por seus papéis como o estereótipo matriarcal – aqui transformada em protetora furiosa de seu rebento. A cena final de Mother, quando ela lida com seus pecados no momento em que seu mundo perde o sentido, é devastadora.

EXPRESSO DO AMANHÃ (2013)

A estreia de Bong Joon Ho em um filme de língua inglesa resultou em uma ficção científica distópica que une os temas que marcaram sua carreira (o recorte da desigualdade social, a sátira política afiada, o senso de humor ácido) com o diretor pegando fogo, construindo uma obra visionária, absurda e empolgante. Adaptando uma história em quadrinhos francesa, Expresso do Amanhã é ambientado em um trem deslocando-se velozmente ao longo de todo o planeta. Em 2031, uma catástrofe ambiental causada por cientistas bem intencionados transformou a Terra em um globo gelado inabitável, com o que restou da humanidade habitando o trem em movimento perpétuo.

A máquina tornou-se retrato do pior da humanidade, com os desassistidos confinados à sua extremidade traseira, eternamente alimentando seu motor, e a elite ocupando os vagões à frente, em uma existência dionísica e alheia ao futuro – a "paz" é assegurada por forças paramilitares que obedecem ao "condutor" do trem, habitante solitário do primeiro vagão. Uma rebelião encabeçada pelo personagem de Chris Evans ameaça o equilíbrio tênue dos passageiros, e logo o terrível segredo sobre a natureza do trem – e do destino da Terra – será revelado.

Um filmaço, claustrofóbico e sufocante, prejudicado em seu lançamento pelo ego do distribuidor Harvey Weinstein (Bong recusou-se a editar o filme de acordo com suas instruções), tardiamente redescoberto (eu o coloquei em minha lista de melhores filmes de 2014) e ancorado por um elenco absurdo que inclui Kang Ho Song, Tilda Swinton, Jamie Bell, Octavia Spencer e Ed Harris.

OKJA (2017)

Produzido pela Netflix, Okja é Bong com um dedo nos perigos da devastação ambiental – tema mais atual do que nunca em tempos de queimadas na Amazônia e total descaso governamental com o meio ambiente. Com inspiração clara da obra de Hayao Miyazaki, Bong constroi uma obra que mistura ação e conto de fadas ao contar a história de uma menina que tenta salvar sua melhor amiga das garras de uma corporação multinacional gananciosa (desculpe a redundância).

A "amiga" em questão, porém, é um animal mutante, uma super-porca desenhada geneticamente para ser a resposta à evolução do consumo humano. Em sua jornada, a jovem (interpretada por Seo Hyun Ahn) cruza o caminho de ecoterroristas travestidos de ambientalistas, de um zoólogo travestido de celebridade televisiva (existe um "quê" de Steve Irwin no personagem de Jake Gyllenhaal), e dos CEOs no comando da operação – que são exatamente as figuras sórdidas que aparentam.

Existe em Okja uma tentativa de emular o sentimentalismo de E.T., mas o cinema de Bong Joon Ho é frenético e excêntrico demais para permitir lágrimas fáceis. O choro, quando chega, é pela incapacidade de muitos de nós em nos enxergarmos ao lado da heroína da aventura.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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