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Fãs insistem em versão do diretor para Liga da Justiça: Estão todos loucos?

Roberto Sadovski

19/11/2019 02h32

Como se o mundo não tivesse de lidar com problemas o suficiente, fãs e celebridades voltaram a pedir para que a Warner/DC lançasse a versão do diretor Zack Snyder para Liga da Justiça. Deixando claro: parte do elenco e da equipe que trabalhou na aventura com Superman, Batman e cia. aproveitou o segundo aniversário de seu lançamento nos cinemas para engrossar o coro de uma parcela de fãs que insiste em ver o tal "Snyder Cut". A hashtag #ReleasetheSnyderCut bombou. Achei fofo. Inútil, mas fofo. Afinal, a cabeça ferve para encontrar um motivo para todo esse movimento que não seja insanidade. Não houve controvérsia ou polêmicas em torno de Liga da Justiça. Existiu uma tragédia na reta final que tirou o diretor Zack Snyder do processo, mas a coisa toda seguiu o caminho que boa parte dos produtos corporativos trilham. E o resultado, como vimos dois anos atrás, não passou de um filme ruim. Bem ruim.

Tudo não passa, claro, de gritaria. O Hollywood Reporter checou com o estúdio para confirmar o óbvio: não existe nenhum plano para essa versão ser lançada – sequer confirmação que ela existe! A história toda começou quando Jason Momoa, que interpreta o herói Aquaman no filme, ventilou em uma entrevista ter visto o corte original de Liga da Justiça, tal qual fora imaginado por Zack Snyder. O fato é que sua versão do filme foi mostrada aos engravatados do estúdio entre outubro e dezembro de 2016, e ninguém ficou feliz. Não era por menos. Na visão do diretor, Liga seguia um tom semelhante ao de Batman vs. Superman: uma oportunidade perdida, um filme que junta os dois maiores super-heróis das histórias em quadrinhos em uma trama que sequer tenta ser… heroica. Esteticamente perfeito, a tal Origem da Justiça falha ao não compreender os personagens em cena. Entende-se um Superman hesitante e inexperiente em O Homem de Aço, de 2013, em que o mesmo Snyder reconta sua gênese. Mas nada justifica duas horas e meia de apatia, de um filme que nunca emociona. E o estúdio, atropelado por sucessos em série entregues pela concorrência, precisava de mais ação e menos trevas.

Zack Snyder dirige Ben Affleck e Gal Gadot

Daí veio a tragédia. A morte da filha de Zack Snyder o removeu completamente do processo, e o filme foi assumido por Joss Whedon, que criou o primeiro sucesso de 1 bilhão de dólares da Marvel em 2012 com Os Vingadores. Whedon reescreveu parte do roteiro e filmou as cenas adicionais. Nessa salada de visões conflitantes o filme sofreu, e Liga da Justiça terminou como uma aventura besta, apressada e sem chão. Os fãs, claro, chiaram. E o pedido para o estúdio lançar a versão original do diretor original, aquela que os executivos já haviam torcido o nariz, passou a ser constante. Mas a coisa não funciona exatamente assim no cinema. Como Snyder manteve seu crédito como diretor, as regras rígidas do sindicato da categoria nos Estados Unidos sugerem que seu nome não constaria como diretor se, como garante o produtor Charles Roven, de 80 a 85 por cento do material na versão que conhecemos não fosse fruto de seu trabalho. A gritaria, portanto, é em relação ao material que ficara no chão da sala de montagem. Não é confirmado, mas as fontes do THR na Warner apontam que Liga da Justiça, no corte de Zack Snyder, teria uma metragem de três horas e meia – a versão lançada mal bate em duas horas.

Daí Jason Momoa colocou lenha na fogueira garantindo ter assistido a essa versão. Por dois anos, vários nomes de destaque na indústria se juntaram aos fãs mais radicais para exigir uma atitude do estúdio – do criador de Deadpool, Rob Liefeld, ao diretor de Esquadrão Suicida, David Ayers. Com o aniversário do lançamento, Gal Gadot, Ray Fisher (um dos mais prejudicados, já que seu Cyborg praticamente inexiste no filme) e Ben Affleck alimentaram o fogo. O próprio Zack Snyder por fim engrossou as fileiras, pedindo que sua visão para a aventura saísse de algum cofre para as telas do cinema. É possível que a própria Warner tenha usado a data para sentir a reação do público, usando equipe e elenco para provocar alguma reação que justificasse alguma ação. Até o momento, nada. E nem seria assim tão fácil. O corte original, se existir, seria uma versão crua, sem efeitos especiais – que custariam algumas dezenas de milhões de dólares a mais. Toda a pós-produção, por sinal, sairia dos cofres do estúdio. Tudo isso para um lançamento que não chegaria ao cinema? Se não for na tela grande, a saída seria uma edição especial em DVD/blu ray, mídias que não movimentam o mercado como antes? Seria em streaming, na plataforma HBO Max que logo sai do papel? Nenhuma das alternativas soa minimamente plausível do ponto de vista comercial.

A essa altura eu nem lembro se essa cena entrou ou não na versão final…

Ah, claro. O dinheiro manda. Liga da Justiça arrecadou cerca de 660 milhões de dólares em todo o mundo, e não foi exatamente um fracasso financeiro. Mas a questão aqui também foi de percepção, de posicionamento de marca, de construir um universo coeso e parar de levar surra de cinta da concorrências. Sob esse prisma, o filme não inflamou os fãs, não avançou a marca, não empolgou como universo, não arranhou a concorrência. Como resultado, os filmes seguintes com o selo DC cautelosamente tomaram distância: Aquaman praticamente ignorou a existência de Liga da JustiçaShazam! cavou seu espaço sem as trevas de Snyder para atrapalhar. Por fim, o fracasso foi uma bênção. Coringa, lançado com zero conexão com qualquer outro filme, bateu em 1 bilhão de dólares nas bilheterias – feito que só dois Batman de Christopher Nolan conseguiram para o estúdio. Aves de Rapina e The Suicide Squad parecem carregar um pouco do DNA do "universo estendido DC", mas Mulher-Maravilha 1984 e, principalmente, The Batman, com Robert Pattinson assumindo o capuz do Cavaleiro das Trevas, parecer trilhar seu próprio caminho.

Versões do diretor não são nenhuma novidade, e outros filmes de super-heróis já tiveram cortes alternativos por diversos motivos. O mais famoso talvez seja Superman II, que em 1980 perdeu seu diretor, Richard Donner, e foi completado por Richard Lester. A versão do Donner foi resgatada em 2006 – ao menos o mais próximo que pudesse. O filme é um Frankenstein de cenas cortadas e filmagens de ensaios com os atores Christopher Reeve e Margot Kidder, com ideias resgatadas do roteiro original que alteram atos e consequências do texto que chegou aos cinemas. O humor pastelão de algumas cenas, assinatura de Lester, foi totalmente limado. Por fim, serviu como uma experiência, uma homenagem ao diretor e também uma peça de marketing para o lançamento de Superman – O Retorno no mesmo ano. Liga da Justiça não tem a bagagem do Superman de Richard Donner, tampouco uma justificativa sólida: é um filme que o estúdio ganha mais enterrando do que festejando. Coringa é a prova na ponta do lápis! Não vai impedir, claro, que fãs e agregados continuem cutucando a Warner para ganhar seu mimo. E nem duvido que, enxergando a possibilidade de lucrar com o título, os executivos terminem eventualmente capitulando. Mas é muito, mas muito barulho por nada, um movimento inteiro resumido em uma só palavra: preguiça.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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