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Pantera Negra é um filmaço que não tem medo de ser político

Roberto Sadovski

06/02/2018 15h00

Respeito: essa é a palavra que define Pantera Negra, aventura que redefine o que conhecemos por "filme de super-heróis". Ao aceitar o trabalho de conduzir a aventura-solo do Rei T'Challa, depois de sua introdução em Capitão América: Guerra Civil, o diretor Ryan Coogler não viu o menor interesse em desconstruir o que aceitamos como parte das engrenagens deste sub-gênero. Pelo contrário. O responsável por Creed usou a oportunidade de brincar com as ferramentas do cinema arrasa-quarteirão para expandir fronteiras, para ir além do entretenimento. Pantera Negra é, claro, um filme da Marvel, parte de um plano grandioso e mais uma peça na construção do universo cinematográfico do estúdio. Mas é também uma aventura que usa a fantasia sem nenhum receio em ser político, anti colonialista, explosivo e atual (isso só para dar um pontapé na porta da discussão que vai dar o tom das conversas pós-sessão), um espelho incômodo ante uma sociedade cada vez mais protecionista, radical e isolada perante o resto do mundo. E nem estamos falando de Wakanda…

Ah, claro. Respeito. Pantera Negra não é o primeiro filme baseado em quadrinhos com um protagonista afro-descendente. Só para manter na esfera da Marvel, Blade conseguiu, duas décadas atrás, jogar os holofotes em um anti-herói que, se na superfície era um vampiro caçando seus iguais, em nenhum momento foi tímido ao abordar questões de raça e posição social – imagino a reação, hoje, com a cena em que Wesley Snipes, sem pensar duas vezes, arrebenta um policial (branco!) que trabalha para os vampiros (brancos!) dentro do sistema. Blade merece todos os méritos, mas Pantera Negra chega com outro panorama sócio-político, em que metade do mundo presta mais atenção nas questões de diversidades e direitos de minorias, enquanto a outra metade sua para manter o status quo. Wakanda, país africano em que o herói é rei, é a sociedade tecnologicamente mais avançada do mundo, mas mantém todo esse conhecimento entrincheirado em suas fronteiras, temendo que esse mesmo mundo não descansaria enquanto a balança do poder pendesse para longe da África.

Marvel Studios' BLACK PANTHER..L to R: T'Challa/Black Panther (Chadwick Boseman) and Erik Killmonger (Michael B. Jordan)..Photo: Matt Kennedy..©Marvel Studios 2018

T'Challa e Killmonger lutam pelo destino de uma nação

A trama do filme, num roteiro escrito por Coogler e por Joe Robert Cole, gira justamente em torno desse momento crucial para a história de Wakanda: será que o mundo está pronto para abraçar seus irmãos do berço da civilização, que poder revelar-se não como fazendeiros do Terceiro Mundo, mas como uma superpotência capaz de desequilibrar a balança do poder no planeta? É um tema poderoso, agregado em uma trama que coloca T'Challa (Chadwick Boseman, que transpira realeza), empossado no trono após a morte do seu pai (também em Guerra Civil), ainda temeroso em não ser um monarca a altura de seu antecessor. Os pecados do passado perturbam essa epifania em duas formas. Primeiro, como o terrorista Ulisses Klaue (Andy Serkis, brilhante como um agitador que quer ver o mundo queimar), o único homem a escapar de Wakanda com vida, após ter roubado um fragmento de vibranium, metal raro (no universo Marvel) e fonte de energia inesgotável: é dele a fagulha anarquista que sugere ao agente da CIA Everett K. Ross (Martin Freeman) que há mais em Wakanda que os olhos internacionais podem enxergar. A maior ameaça, porém, surge na forma de Erik Killmonger (Michael B. Jordan), um soldado renegado que revela, em seu direito de nascença, que o trono do Pantera Negra pode ter encontrado herdeiro mais digno.

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É aqui que Pantera Negra encontra ressonância com o mundo do lado de cá. Killmonger não surge como um vilão "comum", seus objetivos passam longe de ganhos materiais ou da conquista global. O que faz dele o antagonista mais perigoso já mostrado em qualquer filme de super-heróis da história (rivalizando, talvez, com o Coringa de Batman – O Cavaleiro das Trevas) é que seus métodos podem ser violentos e radicais, mas sua causa é justa. Foi a primeira vez, em uma década de Marvel (só para ficar em seu universo cinematográfico), que me peguei questionando se o "bandido" não deveria sair triunfante. O que eleva o filme de Ryan Coogler bem acima de seus pares é colocar essa motivação em pauta e fazer com que seu herói, o rei recém-empossado, um homem poderoso e justo – talvez predicados que não combinem com a eventual frieza que um monarca deva possuir –, reflita sobre seu papel no mundo e sobre o modo como ele pode direcionar o futuro de seu país. Temas complexos, com certeza, mas que ganham chance de abrir ainda mais discussão quando apresentados em um espetáculo de tamanha grandeza – a primeira cena pós-créditos traz um dos monólogos mais poderosos que o cinemão já teve peito para entregar.

Lupita Nyong'o e Letitia Wright prontas para a guerra

Porque, afinal, estamos falando sobre um filme da Marvel. Embora sua estrutura narrativa seja familiar (como todo filme que aborda a jornada do herói), Pantera Negra chega cercado de tanto talento, de tantos personagens carismáticos e bem desenvolvidos, que a trama corre como uma brisa, carregada sob ombros tão competentes. Seja o peso trazido por Angela Bassett (a rainha Ramonda, mãe de T'Challa) e Forest Whitaker (Zuri é um dos pontos-chave da história); seja a majestade de Lupita Nyong'o e Danai Gurira, excepcionais em personagens que caminham ombro a ombro com o protagonista. Ou os conflitos internos que movem as decisões de Daniel Kaluuya (W'Kabi, mestre dos rinocerontes de guerra) e de Winstn Duke (que defende a força bruta de M'Baku, da tribo dos gorilas brancos). E ainda o frescor de Letitia Wright (vista no episódio "Black Museum" da série Black Mirror), que dá vida – em todos os sentidos – a Shuri, gênio tecnológico de Wakanda, irmã caçula de T'Challa e que eu não vejo a hora de testemunhar sua interação com Tony Stark em Guerra Infinita.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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